{"id":400503,"date":"2025-11-20T09:28:18","date_gmt":"2025-11-20T09:28:18","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=400503"},"modified":"2025-11-19T14:39:51","modified_gmt":"2025-11-19T14:39:51","slug":"a-cultura-de-cancelamento-e-polarizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-cultura-de-cancelamento-e-polarizacao\/","title":{"rendered":"A Cultura de Cancelamento e Polariza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_268285\" aria-describedby=\"caption-attachment-268285\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-268285\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-268285\" class=\"wp-caption-text\">Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real<\/figcaption><\/figure>\n<p>Tenho acompanhado com alguma preocupa\u00e7\u00e3o, como certamente muitos o far\u00e3o, esta nefasta e m\u00f3rbida cultura a que chamam cultura de cancelamento, que est\u00e1 a ser fortemente promovida na sociedade atual. Estamos a assistir a novos tempos de radicalismo, ira e de barrela cultural. \u00c9 inaceit\u00e1vel que se ande por a\u00ed a esconder livros ou a rasur\u00e1-los porque chocam com as ideias luminosas atuais ou com a puritana sensibilidade atual, n\u00e3o se percebendo que cada texto tem o seu contexto, o seu ambiente e a sua hist\u00f3ria, que devemos respeitar (n\u00f3s, Igreja, j\u00e1 fizemos coisas destas de que pouco nos orgulhamos). Penso que o dever de cada sociedade \u00e9 saber acompanhar a evolu\u00e7\u00e3o do pensamento e das ideias, o progresso humano e social dos tempos, sem cair na soberba de pensar que \u00e9 dona da verdade e que tem o direito de amaldi\u00e7oar e higienizar tudo o que est\u00e1 para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Precisamos de estar atentos e de combater a cultura de cancelamento que se imp\u00f4s na sociedade atual, esta intoler\u00e2ncia felina perante ideias e posicionamentos desalinhados com o ar do tempo ou com o pensamento da maioria ou da moda. H\u00e1 uma pressa exagerada em julgar friamente os outros, os seus comportamentos e as suas ideias. Quase que se instituiu o direito em ostracizar e linchar de forma desumana quem pensa diferente, quem teve comportamentos reprov\u00e1veis, ou quem n\u00e3o se acomoda aos padr\u00f5es deste tempo. N\u00e3o gosto de ouvir frases como \u201cn\u00e3o passar\u00e3o\u201d. Posso compreender que, por vezes, estamos diante de ideias estapaf\u00fardias e perigosas, que n\u00e3o t\u00eam qualquer sentido e n\u00e3o podem ter qualquer concretiza\u00e7\u00e3o social. Mas a frase sugere intoler\u00e2ncia, pode incitar ao \u00f3dio e \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o do outro. O melhor caminho \u00e9 sempre continuar a dialogar, combater as ideias com ideias, desmantelar e combater as ideias pela for\u00e7a do pensamento e n\u00e3o pelo cancelamento ou silenciamento.<\/p>\n<p>Mao Ts\u00e9-Tung dizia aos chineses em 1957: \u201cO verdadeiro e o falso na arte e na ci\u00eancia \u00e9 uma quest\u00e3o que deve ser resolvida pela livre discuss\u00e3o nos meios art\u00edsticos e cient\u00edficos, pela pr\u00e1tica da arte e da ci\u00eancia e n\u00e3o por m\u00e9todos simplistas. Para determinar o que est\u00e1 certo e o que est\u00e1 errado, \u00e9 muitas vezes necess\u00e1rio fazer a prova do tempo. \u00c9 por isso, para determinar o que est\u00e1 certo e o que est\u00e1 errado na ci\u00eancia e na arte, que \u00e9 preciso adotar uma atitude prudente, encorajar a livre discuss\u00e3o e evitar tirar conclus\u00f5es apressadas.\u201d Sabemos que o ditador chin\u00eas pouco cumpriu o que afirmou, mas est\u00e1 bem dito. Na ci\u00eancia e na arte e em todos os campos da vida, acrescentaria eu. Acima de tudo, penso que \u00e9 fundamental a boa informa\u00e7\u00e3o, ouvir pontos de vista, tentar perceber o pensamento dos outros, sem pressa em julgar ou insultar. D\u00e1 mais trabalho, \u00e9 verdade, mas \u00e9 a forma mais correta e humana de sabermos estar uns com os outros.<\/p>\n<p>Uma pessoa humana madura aprende a acolher o outro na sua forma de ser e de pensar, diferente da minha possivelmente, e sabe conviver e relacionar-se com pessoas diferentes, faz um esfor\u00e7o por ouvir, aceitar e compreender os outros, sem pressas em descartar ningu\u00e9m. Esta mesma cultura, infelizmente, est\u00e1 a infestar todos os \u00e2mbitos da vida social e at\u00e9 j\u00e1 anda por a\u00ed no esp\u00edrito de muitos crentes. Apesar de tantas proclama\u00e7\u00f5es sobre toler\u00e2ncia e tanta arenga sobre democracia, sobre a riqueza do pluralismo e da diversidade, sobre a mais valia da fertilidade de ideias e propostas para a sociedade caminhar no progresso e no desenvolvimento, vemos prosperar a cultura de cancelamento e a polariza\u00e7\u00e3o: estamos a deixar de saber conviver com quem pensa diferente de n\u00f3s e queremos p\u00f4r de lado quem nos obriga a questionar o nosso pensamento e as nossas certezas e seguran\u00e7as, muitas vezes alicer\u00e7adas em muita pregui\u00e7a intelectual e em muita ignor\u00e2ncia. Estamos a perder a capacidade de vermos o outro lado e outras perspetivas. \u00c9 um claro empobrecimento para a nossa vida humana, para a nossa intelig\u00eancia e para o saud\u00e1vel debate social que deve existir em democracia.<\/p>\n<p>Afinal, quem pensa diferente de mim n\u00e3o \u00e9 para ouvir e perceber um pouco na sua raz\u00e3o, \u00e9 para cancelar ou atirar para o outro lado. Afinal, a diversidade \u00e9 um mal e um estorvo, abaixo o pluralismo, s\u00f3 h\u00e1 uma ideia e uma perspetiva certa, a minha, os outros n\u00e3o t\u00eam direito a existir e a expressar-se, os \u201coutros\u201d n\u00e3o pensam bem e est\u00e3o desalinhados, \u00e9 para abater e calar.<\/p>\n<p>O que nos fez prosperar como seres humanos foi a capacidade de ouvir os outros e conciliar pensamentos diferentes, na busca de um saud\u00e1vel debate e de solu\u00e7\u00f5es para os problemas humanos e sociais.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila 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