{"id":400500,"date":"2026-01-06T09:19:17","date_gmt":"2026-01-06T09:19:17","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=400500"},"modified":"2025-11-19T13:26:00","modified_gmt":"2025-11-19T13:26:00","slug":"a-contemplacao-a-partir-de-dentro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-contemplacao-a-partir-de-dentro\/","title":{"rendered":"A Contempla\u00e7\u00e3o a partir de dentro"},"content":{"rendered":"<p><em>T\u00e2nia Pires, Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-400501 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tania-pires-braganca-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tania-pires-braganca-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tania-pires-braganca-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tania-pires-braganca-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tania-pires-braganca-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/tania-pires-braganca.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/>Em sil\u00eancio. Sento-me, sinto o corpo e respiro. Agrade\u00e7o. Este \u00e9 o ritual b\u00e1sico di\u00e1rio.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias feridas abertas no mundo. S\u00e3o reflexo das feridas que nos habitam. Por isso, considero que temos, de alguma forma, uma certa responsabilidade por tudo o que vemos \u00e0 nossa volta, bem como a capacidade e o poder de o ir transformando. N\u00e3o tanto numa luta externa, mas antes numa transforma\u00e7\u00e3o interior que se vai refletindo exteriormente.<\/p>\n<p>Para que a mudan\u00e7a surja de dentro, o interior tem de ser contemplado. S\u00f3 no final deste enorme mergulho interno \u00e9 que o cora\u00e7\u00e3o tem a capacidade de se abrir plenamente ao outro, com compaix\u00e3o e liberdade. Assim acontece com os monges e as monjas nos mosteiros de clausura. N\u00e3o vivem presos e fechados numa cela, mas antes a partir da liberdade interior, do centro e em comunh\u00e3o com Deus, para se abrirem ao mundo, estendendo a sua luz e a sua paz a toda a Humanidade. Tenho um enorme fasc\u00ednio pela vida mon\u00e1stica, o que me levou a conhecer diversos mosteiros e comunidades pelo mundo, constitu\u00eddas por pessoas que vivem num tempo diferente, mais lento, demorado e saboreado, numa rotina pr\u00f3pria e em trabalho interior constante para que possam cuidar e ser farol no mundo que as rodeia.<\/p>\n<p>Independentemente da situa\u00e7\u00e3o de vida e profiss\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel ter uma vida contemplativa no meio da agita\u00e7\u00e3o, das tarefas, dos infind\u00e1veis projetos do dia a dia? Poderei dizer que sim, desde que essa seja uma inten\u00e7\u00e3o profunda que se adote como sendo, mais do que um \u201cestilo de vida\u201d, a pr\u00f3pria vida. Uma vida contemplativa na a\u00e7\u00e3o. Exige um trabalho inicial rigoroso, principalmente a n\u00edvel interno, mas com o tempo ganha corpo e passa a ser a regra.<\/p>\n<p>Se num local de sil\u00eancio absoluto um pequeno ru\u00eddo pode tornar-se perturbador e distrativo, quanto mais viver-se rodeada de est\u00edmulos. \u00c9 necess\u00e1ria uma disposi\u00e7\u00e3o forte para silenciar, serenar, abrir o cora\u00e7\u00e3o, enfrentar os medos, curar as feridas, saber tratar as emo\u00e7\u00f5es \u201cpor tu\u201d, purificar os preconceitos e saber acolher a Deus no mais \u00edntimo, dizendo \u201caqui estou\u201d incessantemente. Isto caracteriza a busca pela autenticidade e pela verdade e essa busca \u00e9 di\u00e1ria. Nem sempre \u00e9 f\u00e1cil enfrentar os medos, limpar as feridas, curar hist\u00f3rias e integr\u00e1-las, tanto interiormente, como fisicamente. Este trabalho de ir integrando a vida no corpo \u00e9 fundamental. O corpo cont\u00e9m todas as mem\u00f3rias e tem uma sabedoria salv\u00edfica. S\u00e3o necess\u00e1rios muitos momentos de sil\u00eancio, de observa\u00e7\u00e3o do corpo e conscientiza\u00e7\u00e3o. A respira\u00e7\u00e3o consciente, a medita\u00e7\u00e3o (ou <em>ora\u00e7\u00e3o centrante<\/em>) e a contempla\u00e7\u00e3o s\u00e3o ferramentas fundamentais para este processo.<\/p>\n<p>Podemos ser contemplativos a beber um copo de vinho com amigos, a dar um concerto, num jantar de fam\u00edlia ou no trabalho?<\/p>\n<p>Antes de continuar, conv\u00e9m referir o que se entende aqui por contempla\u00e7\u00e3o. Gosto muito da defini\u00e7\u00e3o de Thomas Merton, para quem a contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 a vida <em>plenamente desperta, plenamente ativa, plenamente consciente da sua vitalidade. \u00c9 um arrebatamento espiritual. Um estremecimento espont\u00e2neo perante a sacralidade da vida e dos seres. Um agradecimento pela vida, pelo conhecimento e por quanto existe. \u00c9 uma compreens\u00e3o penetrante de que, em n\u00f3s, a vida e o ser procedem de uma Fonte invis\u00edvel, transcendente e infinitamente fecunda. A contempla\u00e7\u00e3o \u00e9, sobretudo, consci\u00eancia da realidade dessa Fonte <\/em>(Merton, 2020). Perante esta defini\u00e7\u00e3o, a meu ver, perfeita, ser contemplativo enquanto bebo um copo de vinho com os amigos \u00e9 olhar para cada um deles com amor e gratid\u00e3o pela sua presen\u00e7a, tocar o seu sagrado e contemplar a comunh\u00e3o que existe ao nosso redor, com consci\u00eancia de que tamb\u00e9m Deus est\u00e1 ali presente. \u00c9 rezar no pr\u00f3prio momento por quem sinto que precisa, \u00e9 saborear o vinho e agradecer desde a terra, \u00e0 vinha, \u00e0s m\u00e3os de quem colheu as uvas e tratou das vinhas, ao meu sentido do paladar e ao meu corpo que o acolhe. Sim, \u00e9 poss\u00edvel sermos contemplativos enquanto bebemos um copo de vinho com os amigos.<\/p>\n<p>A gratid\u00e3o tamb\u00e9m faz parte da contempla\u00e7\u00e3o e devemos agradecer cada acontecimento, cada coisa, cada ser, cada momento e cada pessoa que Deus coloca na nossa vida, sem julgamento.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nos momentos mais complexos podemos ser contemplativos, mesmo quando algu\u00e9m nos incomoda ou magoa. Podemos contemplar a causa ou tentar perceber se a pessoa apenas projeta em n\u00f3s algo que n\u00e3o est\u00e1 a conseguir entender ou lidar. Assim sendo, podemos apenas olhar a pessoa com compaix\u00e3o e perceber que est\u00e1 em sofrimento, n\u00e3o levando a peito a a\u00e7\u00e3o ou o coment\u00e1rio.<\/p>\n<p>Escrevo tudo isto como se fosse f\u00e1cil e m\u00e9rito instant\u00e2neo, mas \u00e9 preciso pr\u00e1tica e abertura para se conseguir alcan\u00e7ar esta morada. Somos feitos de carne, temos uma mente complexa, emo\u00e7\u00f5es vivas e situa\u00e7\u00f5es que nos fazem fraquejar, contudo, \u00e9 necess\u00e1rio vislumbrar cada vez mais momentos assim, com este alcance. Pois, ser contemplativo implica aceitar e contemplar a nossa humanidade, os nossos pontos fracos e per\u00edodos vulner\u00e1veis, os nossos pensamentos menos bons e as palavras desajustadas, a nossa fragilidade. Porque, quando contemplamos tudo isso, vamos compreendendo melhor quem somos, vamos curando e integrando, libertando a dor, o julgamento e a exig\u00eancia, descansando naquilo que verdadeiramente somos. Tornamo-nos mais altru\u00edstas, emp\u00e1ticos e tolerantes com os outros. Desta forma, a<em> atitude contemplativa conduz-nos a uma calma incr\u00edvel. Tudo o que est\u00e1 presente pode estar presente. N\u00e3o necessitamos de mudar nada. Deixamos tudo como est\u00e1. Tampouco procuramos conhecimentos nem observamos: contemplamos <\/em>(Jalics,2021). Daqui surge a aceita\u00e7\u00e3o que leva \u00e0 paz interior.<\/p>\n<p>O ato de caminhar pode ser uma a\u00e7\u00e3o contemplativa, mas o simples ato de parar tamb\u00e9m, atrav\u00e9s do qual se pode <em>conhecer a beatitude deste instante em que o corpo e o pensamento tamb\u00e9m param; o querer e o desejo entram ent\u00e3o em repouso e \u00e9 a shalom, uma palavra que n\u00e3o quer apenas dizer \u201cpaz\u201d, mas tamb\u00e9m inteireza e plenitude <\/em>(Leloup, 2014).<\/p>\n<p>N\u00e3o nos podemos esquecer que os monges s\u00e3o contemplativos por excel\u00eancia e, por isso, sinto que \u00e9 cada vez mais importante conhecer a sua forma de vida. Anselm Grun, no seu livro <em>Ao ritmo do tempo dos monges<\/em> transmite muito bem o que \u00e9 a vida dentro de um mosteiro.<\/p>\n<p>Um aspeto que \u00e9 para mim essencial consiste na purifica\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o e evitar tudo o que fora de n\u00f3s nos traz inquieta\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o tenho televis\u00e3o e n\u00e3o vejo telejornais. Percebi que \u00e9 uma caixa de informa\u00e7\u00e3o limitada, muito bem selecionada e manipulada, que gera medo, preconceito e distor\u00e7\u00e3o da realidade. Passa apenas uma parte da realidade, h\u00e1 um outro mundo que existe e que normalmente n\u00e3o \u00e9 revelado, ou, se h\u00e1 alguma apari\u00e7\u00e3o, \u00e9 com pouco tempo de antena. Continuo interessada pelos acontecimentos do mundo, mas h\u00e1 muitas formas de l\u00e1 chegar. \u00c9 muito diferente saber que est\u00e1 a acontecer uma guerra ou ver, em direto, imagens de guerra que nos v\u00e3o, a cada dia, tornando insens\u00edveis \u00e0 dor e ao sofrimento do outro. N\u00e3o quero ser anestesiada e tornar-me uma pessoa insens\u00edvel e desumana, nem tampouco distrair. Prefiro o sil\u00eancio e, atrav\u00e9s do sil\u00eancio, sentir o estado do mundo. Omraam Aivanhov aconselha-nos a que <em>durante os sil\u00eancios, procuremos distanciar-nos cada vez mais das preocupa\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia quotidiana e libertar o pensamento, para o concentrarmos em ideias e imagens divinas <\/em>(Aivanhov, 2008).<\/p>\n<p>Por isso se pode tocar o <em>inferno<\/em> e o <em>c\u00e9u<\/em> na terra. Podemos escolher viver na escassez, no medo que bloqueia e fecha o cora\u00e7\u00e3o ou viver na alegria e na liberdade, que se abrem ao mundo e ao outro, vivendo na abund\u00e2ncia. O discurso de que <em>isto vai de mal a pior <\/em>\u00e9 muito recorrente, por\u00e9m, \u00e9 importante manter a esperan\u00e7a e fazer a nossa parte no dia-a-dia. Claramente h\u00e1 muitas feridas abertas no mundo em transforma\u00e7\u00e3o que causam muitas inquieta\u00e7\u00f5es e incertezas, mas \u00e9 importante ver a parte que se dedica a construir, a criar comunidade, a gerar abund\u00e2ncia, equil\u00edbrio e a fazer por viver em paz e amor. Temos tend\u00eancia a cair na tenta\u00e7\u00e3o da dicotomia v\u00e3 do certo e do errado, do bom e do mau, esse eterno julgamento entre dois opostos. Considero essa dicotomia cada vez menos moral e cada vez mais imatura. J\u00e1 \u00e9 tempo de abrir o leque e expandir a consci\u00eancia. Dentro deste contexto deixo apenas esta quest\u00e3o: <em>de que imagens, pensamentos, discursos e movimentos (internos e externos) nos alimentamos diariamente<\/em>? Tudo isso vai transformando o cora\u00e7\u00e3o e a pr\u00f3pria vida. \u00c9 importante sermos vigilantes sobre estes aspetos para n\u00e3o perdermos a esperan\u00e7a e para tentarmos n\u00e3o fazer parte do problema, mas antes da solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o fundamental \u00e9 a gest\u00e3o entre <em>viver mais fora<\/em> e <em>viver mais dentro<\/em>.<\/p>\n<p>A minha fam\u00edlia e os meus amigos j\u00e1 sabem que necessito de muito tempo de sil\u00eancio e solitude. Sabem que nem sempre estou com eles por esse motivo, pois preciso de tempo de recolhimento e de retiro, por\u00e9m, tamb\u00e9m sabem que preciso deles e comungo com eles de uma outra forma. \u00c9 bom sair, ir a um jantar ou a uma festa, mas tamb\u00e9m \u00e9 bom saber parar e silenciar, deixando claro que <em>hoje n\u00e3o vou, mas se precisarem de mim estou aqui<\/em>.<\/p>\n<p>Quanto mais se diz <em>sim<\/em> \u00e0 vida contemplativa mais se diz <em>sim<\/em> ao sil\u00eancio, \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, \u00e0 natureza e \u00e0 Cria\u00e7\u00e3o, aos tempos de ora\u00e7\u00e3o e medita\u00e7\u00e3o, ao Criador, \u00e0 consci\u00eancia de si e do outro. No entanto, as oportunidades de conv\u00edvio e divers\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o importantes e tornam-nos muito humanos.<\/p>\n<p>A contempla\u00e7\u00e3o inaciana \u00e9 outro tipo de contempla\u00e7\u00e3o interessante, <em>uma forma de medita\u00e7\u00e3o imaginativa, recomendada por Santo In\u00e1cio de Loyola nos seus Exerc\u00edcios Espirituais e empregada frequentemente por muitos santos. Consiste em escolher uma cena da vida de Cristo e reviv\u00ea-la tomando parte nela como se ocorresse no momento presente e se participasse nesse aconteciment<\/em>o (Mello, 1979).<\/p>\n<p>Thomas Merton defende que a contempla\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser ensinada, nem explicada claramente e que q<em>uanto mais objetiva e cientificamente algu\u00e9m tenta analis\u00e1-la, mais a esvazia do seu conte\u00fado real, porque esta experi\u00eancia supera quanto se possa dizer e explicar racionalmente<\/em>.<\/p>\n<p>Desta forma, cada pessoa \u00e9 convidada a experienciar e a procurar tudo o que a leva \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o. \u00c9 como uma peregrina\u00e7\u00e3o interna profunda que se vai revelando e descobrindo a cada passo dado em liberdade.<\/p>\n<p>\u00c9 urgente contemplar a natureza para nos recordarmos de a cuidar. Franz Jalics salienta que a natureza \u00e9 o grande mestre da contempla\u00e7\u00e3o e \u00e9 atrav\u00e9s dela que come\u00e7amos esse caminho. Estar longe do mundo natural torna-nos mais insens\u00edveis e faz com que esque\u00e7amos a nossa pr\u00f3pria ess\u00eancia, o que nos deixa mais alienados da verdadeira realidade. Precisamos de estar em contacto com a natureza, contemplar as \u00e1rvores, colocar os p\u00e9s e as m\u00e3os na terra, caminhar descal\u00e7os e mergulhar em \u00e1guas cristalinas. \u00c9 a esse mundo que pertencemos, \u00e9 essa a nossa origem. N\u00e3o somos feitos de pilares de bet\u00e3o, mas de ra\u00edzes profundas, de troncos longos, de riachos, de cascatas, de sol, de lua, de estrelas e de c\u00e9u. Quando recordamos isso sorrimos.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel ser contemplativo na doen\u00e7a? A vida de muitos santos ensina-nos que sim. Na minha experi\u00eancia, posso partilhar que o meu corpo decidiu adotar uma doen\u00e7a muito complexa e ainda bastante desconhecida, a endometriose. \u00c9 uma doen\u00e7a que provoca dor constante muito forte, com um enorme impacto na vida em todos os sentidos. Mas, foi tamb\u00e9m essa doen\u00e7a que, desde muito nova, me ensinou a ver o limiar da exist\u00eancia, a fragilidade humana e a import\u00e2ncia de valorizar cada segundo do meu tempo. Foi tamb\u00e9m essa doen\u00e7a que, em momentos de grande sofrimento, me fez ligar \u00e0 ferida aberta e \u00e0 dor de todas as pessoas que sofrem no mundo, aprendendo a n\u00e3o sofrer em v\u00e3o. Aprendi a dar import\u00e2ncia \u00e0 agricultura, \u00e0 natureza e aos alimentos naturais, sentindo a cura atrav\u00e9s deles, bem como a conhecer as plantas medicinais pelo nome e a sentir o seu efeito no meu corpo. Cada momento sem dor \u00e9 sempre uma contempla\u00e7\u00e3o do al\u00edvio, da alegria, da energia f\u00edsica e mental, do Ver\u00e3o, da Primavera, do sol e do calor. Aprendi que, mesmo na dor, a felicidade pode ser uma constante e que tudo se faz, ainda que com mais sacrif\u00edcio, com mais valor. Aprendi que nem sempre somos compreendidos e que n\u00e3o necessitamos de valida\u00e7\u00e3o externa para viver de forma harmoniosa e em verdade. Aprendi a respeitar o sagrado que h\u00e1 no outro e em mim, a ser tolerante e emp\u00e1tica. Ajudou-me a ver o mundo \u00e0 luz do amor e da compaix\u00e3o. Fez-me regressar ao corpo, a valorizar e a conhec\u00ea-lo em cada pormenor e a comunicar com ele com sabedoria. Ensinou-me a perceber que h\u00e1 limites e que os devo respeitar e a fazer-me respeitar. A endometriose tem-me feito ir \u00e0s sombras mais profundas, mas tamb\u00e9m me tem encaminhado para a luz. Posso agradecer-lhe.<\/p>\n<p>Aqui, \u00e9 relevante abordar a ora\u00e7\u00e3o pelo outro e o pedido de ora\u00e7\u00e3o. Pedir a um amigo que reze por n\u00f3s \u00e9 abrir o cora\u00e7\u00e3o ao amor divino e \u00e0 comunh\u00e3o. H\u00e1 uns meses fui submetida a uma grande cirurgia na sequ\u00eancia da endometriose e, tendo v\u00e1rios amigos padres, amigos cat\u00f3licos e de outras cren\u00e7as e religi\u00f5es, pedi-lhes para que, na hora da cirurgia e ao seu jeito, rezassem por mim. Antes de adormecer com a anestesia, uni o meu cora\u00e7\u00e3o a todas essas inten\u00e7\u00f5es e ora\u00e7\u00f5es. Foi muito especial adormecer naquele estado, contemplativo e em uni\u00e3o, num \u00eaxtase pac\u00edfico e luminoso, indescrit\u00edvel. Limitamos tanto a nossa f\u00e9 a estruturas, a esquemas, a protocolos e s\u00f3 uma coisa \u00e9 necess\u00e1ria, estar junto dos<em> p\u00e9s<\/em>, estar presente e em comunh\u00e3o com essa humanidade verdadeira, que n\u00e3o est\u00e1 em cima de um altar distante e adornado, mas nuns simples <em>p\u00e9s<\/em>, que s\u00e3o a pr\u00f3pria vida a acontecer e a for\u00e7a do nosso caminhar no amor e na verdade, no cuidar do outro e no permitir ser cuidado. \u00c9 nesta reciprocidade do cuidar que tamb\u00e9m vamos criando humanidade.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil crescer numa sociedade que faz escolhas por n\u00f3s e nos facilita o caminho para as seguir. \u00c9 f\u00e1cil crescer sabendo que se vai estudar, para depois se formar, ter uma profiss\u00e3o, uma fam\u00edlia e filhos que far\u00e3o o mesmo que n\u00f3s, netos e assim sucessivamente. Eu, sem saber e sem querer, fui-me desenquadrando e desenhando diversas formas, muitas vezes sem nomenclatura e com diversos lados e \u00e2ngulos, dif\u00edceis de definir. Passei o tempo a viver <em>dentro da cabe\u00e7a e da emo\u00e7\u00e3o<\/em>, para tentar resolver estes conflitos internos e experi\u00eancias que vinham atrav\u00e9s de todos os meus sentidos, por ter consci\u00eancia\u00a0 da incompatibilidade desse esquema mais comum e social com o tipo de vida que sabia ser o melhor para mim. Mas fui-me descobrindo. Gosto de arriscar, de saltar, de ir \u00e0s sombras e \u00e0 luz, de me reinventar, de sentir a vida em corpo e, com isso, tenho vivido <em>v\u00e1rias vidas<\/em> para me conhecer e abrir verdadeiramente ao outro. Levo a vida muito a s\u00e9rio no que toca aos movimentos internos e ao desenvolvimento de humanidade. Aspiro a libertar-me do espa\u00e7o e do tempo que aprisiona, ampliando a consci\u00eancia do tempo e do espa\u00e7o sobre o qual a arte, a m\u00fasica, a contempla\u00e7\u00e3o, a ora\u00e7\u00e3o, o corpo e o movimento me permitem viver. Para isso, decidi criar um caminho novo, uma forma de vida adequada a essa vontade, que creio corresponder \u00e0 vontade de Deus para mim. Uma vida inspirada no tempo e modo de vida mon\u00e1sticos que mergulha nas profundezas da arte e da contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Atelier Sabbath \u00e9 fruto desta busca e reflexo f\u00edsico da mesma. Um espa\u00e7o art\u00edstico situado na cidade de Bragan\u00e7a, que pretende ser lugar de paz e de sil\u00eancio, rodeado por natureza, onde me dedico, em ora\u00e7\u00e3o e contempla\u00e7\u00e3o, \u00e0 escrita dos \u00cdcones (Iconografia Bizantina), \u00e0 agricultura Sintr\u00f3pica, \u00e0 <em>performance art<\/em> e \u00e0 m\u00fasica contemplativa desde 2011. Tamb\u00e9m criei a Bienal de Artes Contemplativas, que teve a sua primeira edi\u00e7\u00e3o em 2024, nesse sentido, de forma a unir e a criar comunidade com outros artistas que tamb\u00e9m fazem por aqui caminho e que desejam, tal como eu, trabalhar a favor da paz interior e da humaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sobre este tema da contempla\u00e7\u00e3o muito fica por dizer, desde a <em>ascese<\/em> e do <em>hesicasmo, <\/em>com o exemplo dos padres e madres do deserto, \u00e0s profundezas da hist\u00f3ria mais crua \u2013 mas ficar\u00e1 para uma pr\u00f3xima!<\/p>\n<p>Por agora respiro de forma consciente.<\/p>\n<p>Sinto o corpo e contemplo as \u00e1rvores com um novo olhar, sem me prender \u00e0 forma e \u00e0 defini\u00e7\u00e3o. Contemplo os p\u00e1ssaros e a leveza do seu esvoa\u00e7ar. Permito-me sentir o calor do sol a cobrir o meu rosto. Sorrio e agrade\u00e7o ao Sagrado do qual fazemos parte e rezo por um mundo mais contemplativo em cada vida real e concreta.<\/p>\n<p>Abra\u00e7o-vos.<\/p>\n<p>T\u00e2nia Pires, icon\u00f3grafa (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/ateliersabbath\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.facebook.com\/ateliersabbath<\/a>)<\/p>\n<p>_____<\/p>\n<p>AIVANHOV, Omraam (2008).<em> A via do sil\u00eancio<\/em>. Publica\u00e7\u00f5es Maitrey.<\/p>\n<p>JALICS, Franz (2021). Ejercicios de contemplaci\u00f3n. Ediciones S\u00edgueme.<\/p>\n<p>LELOUP, Jean- Yes (2014). <em>O Sentar e o Caminhar<\/em>. Editora Vozes.<\/p>\n<p>MELLO, Anthony (1979). <em>Sadhana. Un camino de oracion<\/em>. Editorial Sal Terrae.<\/p>\n<p>MERTON, Thomas (2020). <em>Novas sementes de contempla\u00e7\u00e3o<\/em>. Editorial Franciscana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>T\u00e2nia Pires, Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":400501,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-400500","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/400500","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=400500"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/400500\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/400501"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=400500"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=400500"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=400500"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}