{"id":40044,"date":"2009-07-20T13:00:14","date_gmt":"2009-07-20T13:00:14","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/07\/20\/prece-no-final-das-ordenacoes-sacerdotais-em-braga\/"},"modified":"2009-07-20T13:00:14","modified_gmt":"2009-07-20T13:00:14","slug":"prece-no-final-das-ordenacoes-sacerdotais-em-braga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/prece-no-final-das-ordenacoes-sacerdotais-em-braga\/","title":{"rendered":"Prece no final das ordena\u00e7\u00f5es sacerdotais em Braga"},"content":{"rendered":"<p>Em jeito de Ac&ccedil;&atilde;o de Gra&ccedil;as e prece no final das Ordena&ccedil;&otilde;es, gostaria de rezar com a Carta do Judeu do Gueto de Vars&oacute;via que, perante as atrocidades cometidas contra os judeus, durante a &uacute;ltima grande guerra, algu&eacute;m a redigiu colocando-a dentro de uma garrafa vazia. <\/p>\n<p>&laquo;Algo de muito surpreendente acontece hoje no mundo. Este &eacute; o tempo em que o Omnipotente afasta o seu rosto daque&not;les que lhe suplicam. Deus escondeu ao mundo a sua face; por isso, os homens est&atilde;o abandonados &agrave;s suas piores paix&otilde;es sel&not;vagens. Num tempo em que estas paix&otilde;es dominam o mundo, &eacute; natural que as primeiras v&iacute;timas sejam precisamente aqueles que conservaram vivo o sentido do divino e do puro. Isto pode n&atilde;o ser consolador, mas o destino do nosso povo &eacute; estabelecido n&atilde;o por leis terrenas, mas por leis ultraterrenas. Aquele que empenha a sua f&eacute; nestes acontecimentos deve ver neles uma parte da grandiosa realiza&ccedil;&atilde;o dos planos divinos, perante os quais as trag&eacute;dias humanas n&atilde;o t&ecirc;m nenhum significado. N&atilde;o procurarei salvar-me nem tentarei fugir daqui. Meterei esta carta na garrafa vazia e escond&ecirc;-la-ei entre as pedras desta janela entaipada at&eacute; meio. Se, mais tarde, algu&eacute;m a encontrar, talvez possa compreender os sentimentos de um judeu, de um destes milh&otilde;es de judeus que foram mortos, um judeu abando&not;nado por Deus em quem acreditava muito intensamente.<\/p>\n<p>Creio no Deus de Israel, embora ele tenha feito de tudo para arrasar a minha f&eacute; nele. As minhas rela&ccedil;&otilde;es com Ele j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o as de um servo diante do seu senhor, mas as de um disc&iacute;pulo perante o seu mestre. Creio nas suas leis, amo-o. E, embora me tenha enganado em rela&ccedil;&atilde;o a ela, continuarei a adorar a sua lei. Dizes que pec&aacute;mos: certamente que pec&aacute;mos e tamb&eacute;m admito que sejamos punidos por isso. Contudo, gostaria que me dissesses se h&aacute; algum pecado na terra que mere&ccedil;a tal cas&not;tigo. Digo-te isto, &oacute; meu Deus, porque creio em ti mais do que nunca, porque sei que &eacute;s o meu Deus e n&atilde;o o Deus daqueles, cujos actos s&atilde;o o fruto horr&iacute;vel da sua impiedade militante.<\/p>\n<p>N&atilde;o posso louvar-te pelos actos que toleras, mas bendigo-te e louvo-te pela tua Majestade que inspira temor. A tua Majes&not;tade deve ser verdadeiramente imensa para que tudo o que acontece neste tempo n&atilde;o te impressione. Agora, a morte j&aacute; n&atilde;o pode esperar mais. Tenho de deixar de escrever. Minuto a minuto, o tiro das espingardas, nos andares de cima, torna-se cada vez mais fraco. Neste momento, caem os &uacute;ltimos defenso&not;res do nosso ref&uacute;gio e, com eles, cai a grande, a bela Vars&oacute;via judaica que teme a Deus. O Sol p&otilde;e-se e eu te agrade&ccedil;o, &oacute; Deus, porque nunca mais o verei surgir. Raios vermelhos chovem da janela: o pedacinho de c&eacute;u, que posso ver, &eacute; flame&not;jante e fluido como um fluxo de sangue. Dentro de uma hora, no m&aacute;ximo, estarei junto da minha mulher, dos meus filhos e dos melhores dos filhos do meu povo, num mundo melhor, em que as d&uacute;vidas j&aacute; n&atilde;o dominar&atilde;o e Deus ser&aacute; o &uacute;nico soberano.<\/p>\n<p>Morro sereno, mas n&atilde;o satisfeito; como um homem abatido, mas n&atilde;o desesperado; crente, mas n&atilde;o suplicante; amando a Deus, mas sem dizer cegamente: &Aacute;men. Segui a Deus, mesmo quando Ele me repeliu. Cumpri o seu mandamento mesmo quando, para premiar a minha observ&acirc;ncia, Ele me castigava. Amei-o, amava-o e amo-o ainda, embora me tenha abaixado at&eacute; ao ch&atilde;o, me tenha torturado at&eacute; &agrave; morte, me tenha reduzido &agrave; vergonha e ao esc&aacute;rnio. Podes torturar-me at&eacute; &agrave; morte, acredi&not;tarei sempre em ti; amar-te-ei sempre, mesmo que n&atilde;o queiras. E estas s&atilde;o as minhas &uacute;ltimas palavras, meu Deus de c&oacute;lera: N&atilde;o conseguir&aacute;s fazer com que te renegue.<\/p>\n<p>Tentaste de tudo para fazer-me cair na d&uacute;vida, mas eu morro como vivi: numa f&eacute; inabal&aacute;vel em ti. Louvado seja o Deus dos mortos, o Deus da vingan&ccedil;a, o Deus da verdade e da f&eacute; que ime&not;diatamente mostrar&aacute; os fundamentos com a sua voz omnipo&not;tente. Shema&#39; Israel, Adonai Elohenu, Adonai echad! Escuto, Israel, o Senhor &eacute; o nosso Deus, o Senhor &eacute; um!&raquo;<\/p>\n<p>Este amor a Deus deveria ser a nossa originalidade. N&atilde;o nasce espontaneamente. Teremos de o cultivar cuidadosamente e com todos os meios. O Simp&oacute;sio do Clero, em F&aacute;tima, de 1 a 4 de Setembro deve ser gra&ccedil;a a aproveitar. Que Deus concede a coragem de deixar outras coisas para estar com Ele, sozinhos e com os outros sacerdotes. <\/p>\n<p><em>&dagger; Jorge Ortiga, A.P.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em jeito de Ac&ccedil;&atilde;o de Gra&ccedil;as e prece no final das Ordena&ccedil;&otilde;es, gostaria de rezar com a Carta do Judeu do Gueto de Vars&oacute;via que, perante as atrocidades cometidas contra os judeus, durante a &uacute;ltima grande guerra, algu&eacute;m a redigiu colocando-a dentro de uma garrafa vazia. &laquo;Algo de muito surpreendente acontece hoje no mundo. 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