{"id":40042,"date":"2009-07-20T12:57:25","date_gmt":"2009-07-20T12:57:25","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/07\/20\/homilia-das-ordenacoes-sacerdotais-em-braga\/"},"modified":"2009-07-20T12:57:25","modified_gmt":"2009-07-20T12:57:25","slug":"homilia-das-ordenacoes-sacerdotais-em-braga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-das-ordenacoes-sacerdotais-em-braga\/","title":{"rendered":"Homilia das ordena\u00e7\u00f5es sacerdotais em Braga"},"content":{"rendered":"<p>Na vida da Arquidiocese h&aacute; momentos que se revestem dum car&aacute;cter de extraordinaridade por aquilo que s&atilde;o e significam. As Ordena&ccedil;&otilde;es s&atilde;o aquele momento de gra&ccedil;a a acolher de joelhos e a provocar entusiasmo e novo ardor nos caminhos do an&uacute;ncio do Evangelho e da edifica&ccedil;&atilde;o de comunidades verdadeiramente crist&atilde;s.<\/p>\n<p>Estamos congregados como Povo Sacerdotal que, com S. Paulo, quis deixar-se encontrar pela Palavra. Prosseguimos a caminhada e vamos colocar-nos nos horizontes onde o Esp&iacute;rito Santo nos quer conduzir, &quot;acolhendo a mesma Palavra&quot; como Programa Pastoral Arquidiocesano. Conscientes de ser Povo Sacerdotal, os presb&iacute;teros privilegiam este Ano Sacerdotal confrontando-se com a fidelidade ao Sim dado a Cristo nesta querida Igreja Particular de Braga. Se o Povo de Deus presenciar sacerdotes que acolhem a Palavra, n&atilde;o ficar&aacute; indiferente: os crist&atilde;os comprometidos ganhar&atilde;o novas motiva&ccedil;&otilde;es, os adormecidos acordar&atilde;o para o essencial, os que deixaram morrer o dom da f&eacute; reconhecer&atilde;o a alegria de recome&ccedil;ar novo encontro com Cristo Vivo, os afastados da Igreja, indiferentes, agn&oacute;sticos, ateus, hostilizantes reconhecer&atilde;o na Palavra de Deus um sentido existencial que n&atilde;o engana e que ultrapassa as &quot;questi&uacute;nculas&quot; onde se perdem quotidianamente.<\/p>\n<p>Para v&oacute;s, car&iacute;ssimos ordenandos, e para todo o presbit&eacute;rio de Braga, gostaria de pedir ao Senhor que, na linguagem de Jeremias, nenhum seja daqueles pastores que &quot;perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho&quot;, que as &quot;escorra&ccedil;am sem terem cuidado delas&quot; mas pastores com a consci&ecirc;ncia de que s&atilde;o dados (enviados) pelo Senhor para reunir e apascentar sem medo ou sobressaltos pois nenhuma se perder&aacute; por causa da muita solicitude, compreens&atilde;o, acolhimento, ternura.<\/p>\n<p>Estes pastores, na experi&ecirc;ncia de Paulo relatada aos crist&atilde;os de &Eacute;feso, fazem de Cristo, e de mais nada nem ningu&eacute;m, a sua paz no meio das vicissitudes duma hist&oacute;ria hodierna enigm&aacute;tica. Sabem que s&oacute; Ele, para al&eacute;m de grupos ou partidos, edifica &quot;um s&oacute; povo&quot;, derruba os muros da inimizade ou repres&aacute;lias, testemunha &quot;um s&oacute; homem novo&quot;.<\/p>\n<p>Para isso o pastor &eacute;, prioritariamente, aquele que &quot;vai com Cristo para um lugar isolado&quot;, com tempo para assimilar a Palavra. Este partir para lugar isolado, &quot;sem mais ningu&eacute;m&quot;, &eacute; experi&ecirc;ncia individual (pessoal) mas Jesus quis retirar-se com &quot;eles&quot;, os ap&oacute;stolos, todos juntos. &Eacute; preciso tempo mas se, como aconteceu no Evangelho, for necess&aacute;rio interromper porque &quot;eram como ovelhas sem pastor&quot; haver&aacute; coragem, serenidade, transpar&ecirc;ncia para &quot;ensinar muitas coisas&quot;, transmitdas se anunciadas em presbit&eacute;rio, ou seja, numa sintonia absoluta, em mundo de divis&otilde;es antag&oacute;nicas, vivenciando a unidade dum corpo de pessoas e de doutrina. S&oacute; a unidade, doutrinal e pastoral, d&aacute; capacidade para a Igreja mostrar que merece credibilidade.<\/p>\n<p>Procurando olhar para o Ano Sacerdotal onde o santo Padre recorda aos Sacerdotes a fidelidade para fazer com que o Evangelho incida na vida hodierna, gostaria de enumerar um conjunto de itiner&aacute;rios, a confirmar ou percorrer de novo. Podem ser sugest&otilde;es para um exame de consci&ecirc;ncia pessoal e colectivo. Atrevo-me, ainda, a solicitar uma circula&ccedil;&atilde;o de ideias entre sacerdotes e leigos e estes comigo sobre estas perspectivas. Seria um modo de viver a comunh&atilde;o.<\/p>\n<p>Na vida dos padres e dos leigos rezo para que se encontre:<\/p>\n<p>1 &#8211; Mais Evangelho, acolhido e vivido, e menos tradicionalismo e devocionismo. O encontro com o Evangelho sup&otilde;e uma constante novidade de vida que sabe estar dum modo novo e coabitando com a Tradi&ccedil;&atilde;o sabiamente entendida. Muitos pretendem que a Igreja seja um reposit&oacute;rio de tradi&ccedil;&otilde;es. O Evangelho &eacute; ruptura e provoca uma ades&atilde;o nova a coisas que animam a f&eacute;. S&oacute; o Evangelho conta.<\/p>\n<p>2 &#8211; Mais disc&iacute;pulos procuradores da verdade e menos dogmatismos r&iacute;gidos. A grande aspira&ccedil;&atilde;o do ser humano consiste na coer&ecirc;ncia com um projecto capaz de dar sentido &agrave; vida. O crist&atilde;o caracteriza-se pela humildade de se deixar conduzir pela verdade que Cristo encerra e reconhecer que os outros s&atilde;o, igualmente, procuradores e possuidores de verdade. Os autoritarismos ou imposi&ccedil;&otilde;es nunca se poder&atilde;o conciliar com a alegria de seguir, em comum, um itiner&aacute;rio que se descobre com a colabora&ccedil;&atilde;o s&eacute;ria de todos, humildes e inteligentes.<\/p>\n<p>3 &#8211; Mais testemunhos aut&ecirc;nticos e menos mestres conhecedores de toda a verdade. Quando se procura a verdade, descortina-se a coer&ecirc;ncia como a linguagem que convence e arrasta. Num mundo de muitos barulhos eivados de auto-afirma&ccedil;&atilde;o, urge &quot;o vedetismo&quot; duma fidelidade evang&eacute;lica, a &uacute;nica capaz de permear os mais rec&ocirc;nditos meandros das realidades terrestres que nos circundam. As palavras podem convencer momentaneamente, o testemunho arrasta e molda consci&ecirc;ncias para um ritmo de permanente convers&atilde;o.<\/p>\n<p>4 &#8211; Mais acolhimento e menos condena&ccedil;&atilde;o. O mundo ser&aacute; sempre um cen&aacute;rio de mentalidades contrastantes. A uniformidade est&aacute; ultrapassada. E f&aacute;cil condenar o diferente quanto se imp&otilde;e uma capacidade de acolher quem pensa diferente, quem erra, quem disse coisas injuriosas, quem necessita dum espa&ccedil;o para retemperar energias e ganhar coragem. Os erros devem ser condenados, as pessoas acolhidas com ternura e carinho de quem nos enriquece com o diferente modo de pensar e ver as coisas e os acontecimentos. A castidade, verdadeiramente assumida significa &quot;ver a multid&atilde;o&quot;, compadecer-se e verificar que s&atilde;o como ovelhas sem pastor e depois ensinar as coisas do Reino.<\/p>\n<p>5 &#8211; Mais sinais de esperan&ccedil;a, menos temores e medos. Na aventura duma civiliza&ccedil;&atilde;o nova com paradigmas enigm&aacute;ticos e geradores de confus&atilde;o e perplexidades, s&oacute; a multiplica&ccedil;&atilde;o de sinais concretos e objectivos de esperan&ccedil;a ser&aacute; capaz de destruir os medos e de ultrapassar os temores. H&aacute; raz&otilde;es para ver a beleza da vida e o profetismo da Igreja reside nesta capacidade de descortinar algo de novo a nascer. As violetas aparecem onde menos se espera. Urge ver um mundo novo que est&aacute; a nascer.<\/p>\n<p>6 &#8211; Mais humanismo integral e menos moralismos redutores. O mundo novo acontece na luta por uma dignidade de vida para todos. As mis&eacute;rias imp&otilde;em o seu realismo e muitos acreditam na felicidade do &quot;ter&quot;, adquirido por todos os processos e meios. Outros vivem marginalizados do m&iacute;nimo indispens&aacute;vel e procurando contentar-se com conselhos que n&atilde;o conduzem &agrave; alegria. S&oacute; o protagonismo no compromisso de fazer com que os crit&eacute;rios transcendentais se tornem motivo de ultrapassar a crise, far&aacute; com que ricos e pobres se aproximem, n&atilde;o no sentido de meras ajudas assistencialistas e tranquilizadoras de quem d&aacute; algo. O mundo deve ultrapassar esta grande dicotomia e fazer com que a vida dos ricos e dos pobres se aproxime tornando a sociedade um jogo de oportunidades v&aacute;lidas para todos.<\/p>\n<p>7 &#8211; Maior op&ccedil;&atilde;o pelos pobres, menos compromissos com interesses. A universalidade do amor do disc&iacute;pulo de Cristo olha com paci&ecirc;ncia e persist&ecirc;ncia activa para a pobreza que ultraja e procura individualizar as causas para as eliminar e criar condi&ccedil;&otilde;es de vida digna para todos. H&aacute; muitos interesses a motivar a vida dentro da Igreja, na Sociedade, nos partidos. Urge inverter o sentido e acreditar que a pobreza dos outros nunca permitir&aacute; a felicidade de alguns. Pode parecer. O tempo demonstrar&aacute; que s&oacute; uma verdadeira civiliza&ccedil;&atilde;o do amor se justifica.<\/p>\n<p>8 &#8211; Mais crist&atilde;os adultos, menos leigos executores. Neste mundo a Igreja deve aparecer como mediador da dignidade da vida que Cristo quer oferecer a todos. Da&iacute; que o futuro da Igreja passa pela capacidade duma verdadeira comunh&atilde;o que os documentos especificam de afectiva, como arte de querer bem, e efectiva, como responsabilidade concorde no discernir do espec&iacute;fico de sacerdote e dos crist&atilde;os. O Povo de Deus nunca dever&aacute; ser um mero executor de ordens. Toca-lhe uma responsabilidade espec&iacute;fica que j&aacute; cresceu muito e j&aacute; se manifesta verdadeiramente em muitos lugares. S&oacute; que n&atilde;o &eacute; suficiente. E, n&atilde;o esque&ccedil;amos, a forma&ccedil;&atilde;o &eacute; a &uacute;nica forma de permitir uma f&eacute; adulta que explica como agir e como intervir em correponsabilidade.<\/p>\n<p>9 &#8211; Mais sinodalidade como testemunho e menos sintomas de imposi&ccedil;&atilde;o clerical por parte dos sacerdotes e leigos. O Povo de Deus foi sempre Povo a caminho, procurando terras novas e abrindo-se a experi&ecirc;ncias estruturantes, in&eacute;ditos e contrastantes com os povos vizinhos. N&atilde;o nos podemos comparar &agrave; assembleia que imp&otilde;e o crit&eacute;rio da maioria quase sempre delineada ou imposta pelos mais influentes. Caminhar &eacute; sin&oacute;nimo de escutar o que o Esp&iacute;rito diz &agrave; Igreja Arquidiocesana ou paroquial para permitir que tudo esteja, de verdade, no &quot;pareceu-nos a n&oacute;s e ao Esp&iacute;rito&quot;. Necessitamos de procurar juntos e os diversos conselhos, s&atilde;o imprescind&iacute;veis. Saber escutar, saber dizer, saber aceitar, pode e deve tornar-se o paradigma duma sinodalidade que ainda se encontra longe duma efectiva concretiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>10 &#8211; Mais Arquidiocese, menos esp&iacute;rito individualista. O caminho da Igreja foi reconhecido pelo Conc&iacute;lio Vat. II como uma experi&ecirc;ncia que s&oacute; se encontra na Diocese e que s&oacute; a&iacute; tem a sua plenitude e verdadeiro significado. O Centro dinamizador e orientador ter&aacute; de chegar aos espa&ccedil;os mais rec&ocirc;nditos e a&iacute; encontrar a particularidade dum povo que, no contexto uniformizante da globaliza&ccedil;&atilde;o, tem exig&ecirc;ncias peculiares e insubstitu&iacute;veis. A credibilidade da Igreja no mundo moderno passa pelo testemunho da unidade. O individualismo pastoral separa da verdadeira vida que existe no todo. Nunca a obedi&ecirc;ncia, interpretada como entrega da vida, exprimiu t&atilde;o visivelmente a comunh&atilde;o eclesial como ant&iacute;doto a tantos interesses parciais e de grupo.<\/p>\n<p>11 &#8211; Mais transpar&ecirc;ncia em todos os aspectos e menos preocupa&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica. Acolher a Palavra significa disponibilizar-se para possuir um dom que nos &eacute; oferecido e encerra as f&oacute;rmulas para encontrar o necess&aacute;rio. A fantasia do amor consegue descortinar modos novos e permite que n&atilde;o vivamos preocupados com o dia de amanh&atilde;. Mas o dom deve tornar-se transparente e mostrar-se em todas as dimens&otilde;es e significados. Centralizar numa pessoa &eacute; contradit&oacute;rio do sentido da comunidade e ocultar pode significar medo da verdade. A transpar&ecirc;ncia mobiliza e responsabiliza, n&atilde;o ofende quem age por crit&eacute;rios do Reino e, no mundo actual, mostra o valor dos processos evang&eacute;licos. Ao pobre nada falta e sobra-lhe capacidade para oferecer e permite que de &quot;uns e outros&quot; permane&ccedil;amos &quot;reunidos num s&oacute; corpo&quot;.<\/p>\n<p>12 &#8211; Mais realismo sereno, menos pessimismo desmotivador. Deixar-se encontrar pela Palavra, para a acolher na sua profundidade, n&atilde;o significa alhear-se e refugiar-se num mundo sonhado e irrealista. Teremos de mergulhar em todos os contextos e ter consci&ecirc;ncia da verdadeira realidade. N&atilde;o &eacute; f&aacute;cil. S&oacute; que o realismo sombrio n&atilde;o pode colocar-nos em atitude de defesa ou de paralisia. As dificuldades suscitam os profetas capazes de convencer para uma ac&ccedil;&atilde;o concorde, destruidora do que parece um pessimismo que impede a alegria de viver. O caminho que a Igreja deve percorrer neste momento tem de ser o da f&eacute;, da coragem e, particularmente, duma alegria serena que manifesta entusiasmo e paix&atilde;o. Para o crist&atilde;o a morte nunca &eacute; sin&oacute;nimo de fim; conduz a manh&atilde;s novas inesperadas e em que muitos demoram a acreditar. N&atilde;o queremos ser esta Igreja da esperan&ccedil;a activa motivadora da concretiza&ccedil;&atilde;o efectiva dum aut&ecirc;ntico bem comum?<\/p>\n<p>Neste Ano Sacerdotal, para uma Igreja Sacerdotal gerada pelo acolher da Palavra, quis deixar estas 12 pistas. N&atilde;o valer&aacute; a pena pegar nelas, suscitar reflex&atilde;o conjunta, promover partilha a publicar na P&aacute;gina da Internet da Arquidiocese ou no nosso Jornal Di&aacute;rio do Minho? Precisamos de est&iacute;mulos. A viv&ecirc;ncia &eacute; a comprova&ccedil;&atilde;o da verdade do conte&uacute;do destas afirma&ccedil;&otilde;es, a partilha pode ser est&iacute;mulo a motivar-nos para novos estilos de vida e de comunidades.<\/p>\n<p>Pensando nos sacerdotes, e concretamente em v&oacute;s que sereis ordenados, quero terminar com a palavra do Papa Bento XVI para este Ano Sacerdotal: &quot;Este ano tem como objectivo promover um esfor&ccedil;o de renova&ccedil;&atilde;o interior, de todos os padres para um testemunho evang&eacute;lico maior e mais incisivo no mundo de hoje.&quot; &#8211; Renova&ccedil;&atilde;o interior de todos, identidade procurada num s&eacute;rio exame de consci&ecirc;ncia, colocar o Evangelho no cora&ccedil;&atilde;o da sociedade moderna. Eis o que o Papa espera. Sejamos capazes dum trabalho pessoal sem desculpas. Na vida mais sacerdotal de cada um teremos uma Igreja mais renovada e levaremos o Evangelho ao mundo, com alegria vis&iacute;vel e felicidade no exerc&iacute;cio do minist&eacute;rio.<\/p>\n<p>Sameiro, 19-07-09<\/p>\n<p><em>&dagger; Jorge Ortiga, A.P.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na vida da Arquidiocese h&aacute; momentos que se revestem dum car&aacute;cter de extraordinaridade por aquilo que s&atilde;o e significam. As Ordena&ccedil;&otilde;es s&atilde;o aquele momento de gra&ccedil;a a acolher de joelhos e a provocar entusiasmo e novo ardor nos caminhos do an&uacute;ncio do Evangelho e da edifica&ccedil;&atilde;o de comunidades verdadeiramente crist&atilde;s. 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