{"id":3998,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-fe-e-uma-pedagogia-para-a-paz\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-fe-e-uma-pedagogia-para-a-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-fe-e-uma-pedagogia-para-a-paz\/","title":{"rendered":"A F\u00e9 \u00e9 uma pedagogia para a Paz"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Jos\u00e9 Policarpo, na Solenidade de Santa Maria M\u00e3e de Deus  <!--more-->  Dia Mundial da Paz P\u00f3voa de Santa Iria, 1 de Janeiro de 2004 Neste Dia Mundial da Paz, Solenidade de Santa Maria, M\u00e3e de Deus, o Santo Padre, no seu esfor\u00e7o incans\u00e1vel de grande lutador pela paz, dirigiu, mais uma vez uma mensagem ao mundo, que sublinha o compromisso, actual e indeclin\u00e1vel, de educar para a paz. Neste dia festivo para toda a Igreja e, de modo particular para esta Comunidade, que consagra a sua nova Igreja dedicada a Nossa Senhora da Paz, quero falar-vos da pedagogia da f\u00e9 como uma pedagogia para a paz. Esse \u00e9, ali\u00e1s, um elemento central de toda a educa\u00e7\u00e3o para a paz, individual e colectivamente: a f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 um caminho de paz, toda a verdadeira f\u00e9 religiosa deve ser um caminho para a paz. A f\u00e9 abre-nos para uma colabora\u00e7\u00e3o da liberdade do homem, na luta pelos seus ideais, com a for\u00e7a de Deus, que tra\u00e7a o verdadeiro rosto desses ideais e nos fortalece o cora\u00e7\u00e3o para os prosseguir. Nesta quadra natal\u00edcia, a paz \u00e9 uma mensagem proclamada pelo pr\u00f3prio Cristo, no Seu nascimento. Anunciado pelos profetas como \u201cPr\u00edncipe da Paz\u201d, d\u2019Ele dir\u00e1 S\u00e3o Paulo, na sua plenitude de ressuscitado, que \u00e9 \u201ca nossa Paz\u201d. A f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 uma pedagogia para a paz no horizonte alargado da plenitude humana que nos prop\u00f5e: a paz \u00e9 a harmonia da felicidade, que podemos construir e experimentar, j\u00e1 neste mundo, mas que ter\u00e1 a sua plenitude na Jerusal\u00e9m Celeste. Nos textos lit\u00fargicos da Sagra\u00e7\u00e3o da Igreja e do Altar, a atrac\u00e7\u00e3o da cidade celeste d\u00e1 sentido \u00e0 nossa caminhada presente. A paz n\u00e3o \u00e9 algo que, cada homem e cada gera\u00e7\u00e3o, recebam completamente constru\u00edda. \u00c9 preciso lutar pela paz. Ela \u00e9 um caminho a percorrer, poss\u00edvel com a for\u00e7a do Esp\u00edrito de Jesus, at\u00e9 \u00e0 sua plenitude que ser\u00e1 escatol\u00f3gica. O primeiro pilar de uma pedagogia para a paz, \u00e9 acreditar que a paz \u00e9 poss\u00edvel. E como diz o Santo Padre, se \u00e9 poss\u00edvel, \u201cent\u00e3o \u00e9 um dever\u201d. Ningu\u00e9m se empenha, sinceramente, na constru\u00e7\u00e3o da paz, se as suas proclama\u00e7\u00f5es de paz n\u00e3o se tornam num compromisso moral, que nos impele, generosamente, para a ac\u00e7\u00e3o. A constru\u00e7\u00e3o da paz \u00e9, tamb\u00e9m, um caminho de santidade. E a santidade \u00e9 o objectivo de toda a caminhada da f\u00e9, e encontra na constru\u00e7\u00e3o do amor o seu dinamismo decisivo. E construir o amor \u00e9 fazer comunh\u00e3o, com aqueles que est\u00e3o mais perto, com quem convivemos e partilhamos o mesmo ideal, mas a comunh\u00e3o de amor \u00e9 sempre aberta \u00e0 universalidade, ou seja, quem vive amando, est\u00e1 dispon\u00edvel para amar todos os homens. E a constru\u00e7\u00e3o da paz \u00e9 a luta por uma civiliza\u00e7\u00e3o do amor, como diz o Papa. Os \u00f3dios, de toda a ordem e em todas as circunst\u00e2ncias, s\u00e3o o primeiro obst\u00e1culo a vencer para a constru\u00e7\u00e3o da paz. Mas tamb\u00e9m a indiferen\u00e7a ou a rejei\u00e7\u00e3o, todas as formas de auto-afirma\u00e7\u00e3o, individual ou colectiva, que levem \u00e0 exclus\u00e3o dos outros. O amor \u00e9 tamb\u00e9m a alegria de descobrir a beleza da diferen\u00e7a, sentindo que o amor nos aproxima. E lutar por isso \u00e9 construir a paz. Um outro elemento s\u00f3lido que o dinamismo da f\u00e9 oferece a uma pedagogia da paz, \u00e9 o amor \u00e0 verdade. Jo\u00e3o XXIII, na \u201cPacem in Terris\u201d, afirmou que a verdade \u00e9 um dos esteios sobre que se alicer\u00e7a a paz. Para os crist\u00e3os, a verdade \u00e9 a luz que guia todos os seus passos na constru\u00e7\u00e3o da vida. E, para eles, a verdade vem-lhes do alto. Jesus Cristo \u00e9 a verdade, como ouv\u00edamos na confiss\u00e3o de f\u00e9 de S\u00e3o Pedro e a sua Palavra ser\u00e1 sempre a verdade que nos inspira e nos guia. J\u00e1 no Antigo Testamento assim era: a primeira leitura narra-nos a festa da Palavra redescoberta, a alegria de ter reencontrado a luz que pode guiar o Povo para a vida e para a paz. Quem n\u00e3o cultiva apaixonadamente a verdade, nunca ser\u00e1 construtor da paz. E isso significa a humildade para aceitar que a nossa verdade nunca \u00e9 completa. Desejar a paz \u00e9 estar aberto \u00e0 verdade, que nos vem de Deus. A mentira \u00e9 a primeira das agress\u00f5es \u00e0 harmonia que a paz sup\u00f5e. Quando se mente nas rela\u00e7\u00f5es internacionais, no di\u00e1logo pol\u00edtico, na luta econ\u00f3mica, est\u00e1-se a semear na sociedade focos de viol\u00eancia. Quando se mente nas rela\u00e7\u00f5es inter-pessoais, na sociedade, na fam\u00edlia, na Igreja, est\u00e1-se a construir em falso um edif\u00edcio que pode afundar-se na viol\u00eancia destruidora. A verdade \u00e9 exigente; a fidelidade a ela sup\u00f5e coragem, humildade, lealdade, honestidade. A verdade \u00e9 um alicerce da paz, porque \u00e9 uma express\u00e3o de virtude e uma exig\u00eancia da santidade. A experi\u00eancia da f\u00e9 \u00e9 uma pedagogia de paz porque \u00e9 uma caminhada de liberdade. A paz \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o de homens livres, que sabem que a generosidade e a responsabilidade s\u00e3o atributos da liberdade. S\u00e3o Paulo, na Carta aos G\u00e1latas, liga o mist\u00e9rio de Cristo a essa passagem maravilhosa da escravid\u00e3o \u00e0 liberdade, da situa\u00e7\u00e3o de escravos \u00e0 qualidade de filhos. \u201cE a prova de que sois filhos \u00e9 que Deus enviou aos nossos cora\u00e7\u00f5es o Esp\u00edrito do Seu Filho que clama: \u00abAbba, \u00f3 Pai\u00bb. Assim, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9s escravo, mas filho\u201d. A paz sup\u00f5e a vit\u00f3ria sobre todas as formas de escravatura, de todas as express\u00f5es de viol\u00eancia e de desrespeito pela dignidade da pessoa humana, que come\u00e7a nessa atitude primordial de respeito pela vida, sobretudo pela vida humana em todas as etapas do seu desenvolvimento. N\u00e3o tenhamos ilus\u00f5es: toda a viol\u00eancia, mesmo quando alguma das suas express\u00f5es s\u00e3o toleradas pela sociedade ou mesmo permitidas pela Lei, \u00e9 contra a paz. Esta compromete-se antes de eclodirem as guerras e as injusti\u00e7as s\u00e3o o terreno onde nascem as agress\u00f5es e os conflitos. A toler\u00e2ncia, o perd\u00e3o, o respeito pela dignidade e pela diferen\u00e7a, s\u00e3o express\u00f5es maiores da liberdade e sementes de paz. A experi\u00eancia da f\u00e9 pode oferecer \u00e0 paz o seu modelo org\u00e2nico: a harmonia da comunidade. Do mesmo modo que \u00e9 imposs\u00edvel haver experi\u00eancia de comunh\u00e3o sem paz, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel construir a paz sem experi\u00eancia de comunidade. Esta promove objectivos colectivos, que se sobrep\u00f5em aos interesses individuais, aprofunda a verdadeira dimens\u00e3o moral da conviv\u00eancia, contrap\u00f5e aos direitos a exig\u00eancia dos deveres. Desenvolvendo o sentido da moralidade, acentua a import\u00e2ncia da legalidade, como quadro de normas indispens\u00e1veis \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do bem comum. Na perspectiva crist\u00e3, a Lei \u00e9 uma pedagogia, um caminho para a liberdade e para o amor, dando densidade e objectivando o horizonte da primeira das leis gravada no \u00edntimo de cada um: a lei da consci\u00eancia. A Igreja sempre englobou na sua pedagogia da f\u00e9 o respeito pelas leis justas, pois \u00e9 um caminho para a constru\u00e7\u00e3o da harmonia da sociedade e, por conseguinte, da paz. N\u00e3o haver\u00e1 constru\u00e7\u00e3o da paz sem respeito pela justa legalidade. E isto \u00e9 verdade para os indiv\u00edduos, para os grupos, para os Estados. O Santo Padre sublinha, na sua mensagem, a particular import\u00e2ncia da legalidade internacional. \u201cNeste dever de educar para a paz, insere-se com particular urg\u00eancia a necessidade de levar os indiv\u00edduos e os povos a respeitarem a ordem internacional e a observarem os compromissos assumidos pelas autoridades, que legitimamente os representam. A paz e o direito internacional est\u00e3o intimamente ligados entre si: o direito favorece a paz\u201d. Este aspecto \u00e9 particularmente importante na harmonia das sociedades contempor\u00e2neas. Um dos valores essenciais das democracias \u00e9 que as leis brotem dos interesses da comunidade, para serem justas e poderem promover o bem comum. Certamente que cada pessoa e cada grupo gostariam de ver contemplados nas leis os seus interesses e os seus pontos de vista. Mas isso n\u00e3o \u00e9 sempre poss\u00edvel; compete \u00e0queles a quem a sociedade democr\u00e1tica entregou o poder, a responsabilidade de fazerem as melhores leis poss\u00edveis, que t\u00eam de ser cumpridas, para que haja paz. A ordem internacional vai mais longe nesta exig\u00eancia de harmonia, pois sup\u00f5e a concilia\u00e7\u00e3o dos interesses dos Estados e das Na\u00e7\u00f5es com as exig\u00eancias do bem-comum de toda a fam\u00edlia humana, o primeiro dos quais \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o da paz. Se as leis s\u00f3 forem cumpridas por aqueles a quem d\u00e3o jeito, sejam os Estados, os grupos \u00e9tnicos, pol\u00edticos e econ\u00f3micos, sejam os cidad\u00e3os individualmente considerados, a paz \u00e9 imposs\u00edvel. Porque n\u00e3o h\u00e1 paz sem justi\u00e7a, as leis t\u00eam de ser continuamente melhoradas; porque n\u00e3o h\u00e1 paz sem ordem, as leis t\u00eam de ser respeitadas. Oxal\u00e1 a ordem e a harmonia das nossas comunidades crist\u00e3s possam ser o fermento da Paz. Nossa Senhora, Rainha da Paz, guiar-nos-\u00e1, maternalmente, por esse caminho da generosidade e da fraternidade.   \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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