{"id":3997,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/as-varias-faces-do-prisma-da-paz\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"as-varias-faces-do-prisma-da-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/as-varias-faces-do-prisma-da-paz\/","title":{"rendered":"As v\u00e1rias faces do prisma da paz"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do bispo do Porto, no Dia Mundial da Paz <!--more--> Celebramos, na oitava do Natal e primeiro dia do novo Ano Civil, o Dia Mundial da Paz. Segundo a liturgia da Igreja, Deus anunciou e prometeu a Mois\u00e9s que aben\u00e7oaria o seu povo com o dom da paz. No relato evang\u00e9lico do nascimento em Bel\u00e9m e na sequ\u00eancia da integra\u00e7\u00e3o de Jesus nos costumes e tradi\u00e7\u00e3o do povo de Deus, o Menino rec\u00e9m-nascido recebe o nome de Jesus, isto \u00e9, Salvador. Explica S. Paulo que todo este mist\u00e9rio concreto da encarna\u00e7\u00e3o de Deus, para ser no mundo o Salvador, marca o tempo hist\u00f3rico como refer\u00eancia para o futuro: \u201cQuando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher e sujeito \u00e0 Lei, para resgatar os que estavam sujeitos \u00e0 Lei\u201d (Gal. 4, 4-5). Como escreveu S. Bernardo, \u201capareceu a bondade e a humanidade de Deus nosso Salvador &#8230; Quando chegou a plenitude dos tempos, veio tamb\u00e9m a plenitude da divindade &#8230; no Menino que nos foi dado .. Desde ent\u00e3o e portanto agora n\u00e3o se trata de uma paz prometida, mas enviada; n\u00e3o adiada, mas concedida; n\u00e3o profetizada, mas presente\u201d (Hom. 20 de Janeiro). Dom de Deus presente entre n\u00f3s pela encarna\u00e7\u00e3o do seu Filho, o Cristo Salvador, a paz \u00e9 tamb\u00e9m tarefa nossa, como se depreende do Serm\u00e3o da Montanha: \u201cBem-aventurados os obreiros da paz, porque ser\u00e3o chamados filhos de Deus\u201d (Mt. 5, 9). Se Deus \u00e9 o Deus da paz, n\u00e3o merecemos o nome de seus filhos sen\u00e3o como obreiros diligentes da paz. De resto a indica\u00e7\u00e3o positiva da nossa tarefa resulta naturalmente do anseio humano e da esperan\u00e7a indestrut\u00edvel de paz, subjacente mesmo \u00e0s experimenta\u00e7\u00f5es e horrores de qualquer guerra. E a Igreja tem consci\u00eancia de que os ensinamentos doutrinais que difunde, a partir da experi\u00eancia humana e da Palavra revelada, constituem as bases para a elabora\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios que s\u00e3o necess\u00e1rios para a conviv\u00eancia pac\u00edfica de homens e na\u00e7\u00f5es. Em 1968 o Papa Paulo VI tomou a iniciativa de neste dia celebrarmos o Dia Mundial da Paz, com o apelo ao voto e promessa de no in\u00edcio de cada ano sermos fi\u00e9is a esta causa e celebra\u00e7\u00e3o. E assim aconteceu at\u00e9 1978, de tal maneira que se pode dizer que ao longo desses anos o Papa ilustrou os v\u00e1rios cap\u00edtulos de uma \u201cCi\u00eancia da paz\u201d. A convic\u00e7\u00e3o de que a paz \u00e9 poss\u00edvel e \u00e9 um dever radica  na doutrina da Enc\u00edclica \u201cPacem in terris\u201d de Jo\u00e3o XXIII ( o Beato Jo\u00e3o XXIII) e assenta sobre as quatro colunas ali indicadas: A verdade, a justi\u00e7a, o amor e a liberdade. Educar para a paz \u00e9 educar para estes ideais: Verdade, justi\u00e7a, amor e liberdade. Terminado o ciclo da Ci\u00eancia elaborada, Jo\u00e3o Paulo II iniciou um novo ciclo, que vem de 1979 at\u00e9 este ano de 2004. O tema em 1979 foi: \u201cPara alcan\u00e7ar a paz, educar para a paz\u201d. Neste ano de 2004 tem-se a impress\u00e3o de que o ciclo encerra, como verdadeiro c\u00edrculo que fecha: \u201cUm compromisso sempre actual: educar para a paz\u201d. E de modo insistente: \u201cA paz continua ainda poss\u00edvel. E, se \u00e9 poss\u00edvel, ent\u00e3o a paz \u00e9 um dever\u201d. De um modo estritamente pessoal, manifestamente inusitado e sem d\u00favida de prop\u00f3sito, Jo\u00e3o Paulo II fala (escreve) na primeira pessoa: Dirijo-me a v\u00f3s&#8230; A minha primeira mensagem&#8230; Assumindo o voto, eu quis&#8230; N\u00e3o cessei de levantar a voz&#8230; Sinto o dever&#8230; Pela minha parte&#8230; Eu lan\u00e7ara apelo&#8230; etc. E deixa-nos um breve mas incisivo comp\u00eandio a que chama \u201cSilab\u00e1rio da paz\u201d, que \u00e9 uma s\u00edntese doutrinal sobre a paz (n\u00ba 3 da Mensagem), da qual pode ler-se: \u201cAs v\u00e1rias faces do prisma da paz foram j\u00e1 abundantemente ilustradas. Agora falta apenas agir\u201d. E ainda: \u201cO esfor\u00e7o de educar a n\u00f3s mesmos e aos outros para a paz, n\u00f3s, os crist\u00e3os, sentimo-lo como fazendo parte da \u00edndole mesma da nossa religi\u00e3o. De facto, para o crist\u00e3o proclamar a paz  \u00e9 anunciar Cristo que \u00e9 \u201ca nossa paz\u201d (Ef. 2, 14), anunciar o seu Evangelho que \u00e9 \u201cEvangelho da paz\u201d (Ef. 6, 15), chamar todos \u00e0 bem-aventuran\u00e7a de ser obreiros da paz\u201d (Cf. Mt. 5, 9). A educa\u00e7\u00e3o para a paz sup\u00f5e e exige a educa\u00e7\u00e3o para a legalidade, o que aconteceu \u201cdesde os alvores da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d atrav\u00e9s de acordos, pactos, ordenamentos jur\u00eddicos, direito internacional, postulados do direito natural e princ\u00edpios aceites como superiores aos pr\u00f3prios Estados. A tenta\u00e7\u00e3o de impor o direito \u00e0 for\u00e7a \u00e0 for\u00e7a do direito provocou a maior crise de que foi v\u00edtima a humanidade no s\u00e9culo passado, com a II\u00aa Guerra Mundial. Esta conduziu a \u201cuma profunda renova\u00e7\u00e3o do ordenamento jur\u00eddico internacional\u201d, de que resultaram a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, o Conselho de Seguran\u00e7a (com a proibi\u00e7\u00e3o do recurso \u00e0 for\u00e7a) e a Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas, que abriu duas excep\u00e7\u00f5es a tal proibi\u00e7\u00e3o. A Mensagem do Papa para o dia de hoje e para o ano agora come\u00e7ado, faz a hist\u00f3ria deste reordenamento jur\u00eddico, reconhece o respectivo contributo positivo para a dignidade humana, liberdade dos povos, desenvolvimento cultural e cultura da paz. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o esquece, e tem a coragem de apontar, os in\u00eaxitos, desilus\u00f5es ou fracassos cujas causas n\u00e3o podem ser omitidas: \u201cO sistema elaborado com a Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas deveria preservar as futuras gera\u00e7\u00f5es do flagelo da guerra\u201d (n\u00ba 6), o que n\u00e3o acontece por for\u00e7a da divis\u00e3o da comunidade internacional em blocos contrapostos, da guerra fria, e de violentos conflitos desencadeados em fontes enigm\u00e1ticas que culminaram com o terrorismo de voca\u00e7\u00e3o internacional. E por isso o Papa fala da necessidade de um novo ordenamento jur\u00eddico, estimulado j\u00e1 pela ac\u00e7\u00e3o e voca\u00e7\u00e3o das Organiza\u00e7\u00f5es N\u00e3o-Governamentais e dos Movimentos a favor dos direitos humanos: \u201cA humanidade &#8230; hoje tem necessidade de um grau superior de ordenamento internacional\u201d; \u201c\u00c9 necess\u00e1rio que a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas se eleve cada vez mais do estado frio de institui\u00e7\u00e3o de tipo administrativo ao de \u201ccentro moral\u201d, onde todas as na\u00e7\u00f5es do mundo se sintam como em casa pr\u00f3pria\u201d (n\u00ba 7). \u00c9 particularmente visada \u201ca chaga funesta do terrorismo\u201d, cujos protagonistas s\u00e3o \u201cactores que n\u00e3o s\u00e3o Estados\u201d, donde resulta a maior dificuldade para os Estados organizados a conviver segundo normas jur\u00eddicas conhecidas e aceites. Do Silab\u00e1rio do Papa e pensamento da Igreja formulamos alguns princ\u00edpios: \u201c A luta contra o terrorismo n\u00e3o pode exaurir-se meramente em opera\u00e7\u00f5es repressivas e punitivas. \u00c9 necess\u00e1rio que o recurso necess\u00e1rio \u00e0 for\u00e7a seja acompanhado por uma an\u00e1lise corajosa e l\u00facida das motiva\u00e7\u00f5es subjacentes aos ataques terroristas. O empenhamento contra o terrorismo deve traduzir-se tamb\u00e9m no plano pol\u00edtico e pedag\u00f3gico\u201d (n\u00ba 8). Finalmente, e sendo certo que s\u00f3 falta agir para termos paz e vivermos em paz, Jo\u00e3o Paulo II volta aos seus ensinamentos na Enc\u00edclica \u201cDives in Misericordia\u201d : \u201cSinto o dever de recordar que, para a instaura\u00e7\u00e3o da verdadeira paz no mundo, a justi\u00e7a deve ser completada pela caridade&#8230; Justi\u00e7a e amor s\u00e3o duas faces duma mesma realidade&#8230; A justi\u00e7a, sozinha, n\u00e3o basta &#8230; V\u00e1rias vezes recordei aos crist\u00e3os e a todas as pessoas de boa vontade a necessidade do perd\u00e3o para resolver os problemas quer dos indiv\u00edduos quer dos povos. N\u00e3o h\u00e1 paz sem perd\u00e3o&#8230; S\u00f3 uma humanidade onde reine a \u201cciviliza\u00e7\u00e3o do amor\u201d poder\u00e1 gozar duma paz aut\u00eantica e duradoura\u201d (n\u00ba 10). Na sua Mensagem o Santo Padre dirige-se aos Chefes das na\u00e7\u00f5es, aos juristas, aos educadores da juventude, a todos os terroristas, homens e mulheres; a todos&#8230; Tamb\u00e9m por isso a n\u00f3s. Abramos o cora\u00e7\u00e3o e a intelig\u00eancia a estes apelos.  S\u00e9 Catedral do Porto , 1 de Janeiro de 2004   D. Armindo Lopes Coelho, Bispo do Porto <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do bispo do Porto, no Dia Mundial da Paz<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[160,165,187,189,193,237,238,246,266,267,272],"class_list":["post-3997","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-d-armindo-lopes-coelho","tag-dia-mundial-da-paz","tag-diocese-do-porto","tag-direitos-humanos","tag-educacao","tag-joao-paulo-ii","tag-joao-xxiii","tag-liturgia","tag-nacoes-unidas","tag-natal","tag-pacem-in-terris"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3997","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3997"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3997\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3997"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3997"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3997"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}