{"id":399670,"date":"2025-11-16T09:31:49","date_gmt":"2025-11-16T09:31:49","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=399670"},"modified":"2025-11-14T15:05:02","modified_gmt":"2025-11-14T15:05:02","slug":"igreja-sociedade-podermos-transformar-o-medo-daquele-que-e-diferente-o-medo-do-pobre-numa-oportunidade-de-encontro-ana-mansoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-sociedade-podermos-transformar-o-medo-daquele-que-e-diferente-o-medo-do-pobre-numa-oportunidade-de-encontro-ana-mansoa\/","title":{"rendered":"Igreja\/Sociedade: \u00abPodermos transformar o medo daquele que \u00e9 diferente &#8211; o medo do pobre &#8211; numa oportunidade de encontro\u00bb &#8211; Ana Mansoa"},"content":{"rendered":"<p><em>A Igreja Cat\u00f3lica assinala hoje o Dia Mundial dos Pobres. \u00c9 uma jornada que nos convida a refletir sobre as estruturas que perpetuam a exclus\u00e3o, procurando dar solu\u00e7\u00f5es concretas. Para falar sobre respostas que procuram ir al\u00e9m da assist\u00eancia e construir autonomia, \u00e9 convidada da Ecclesia e da Renascen\u00e7a a diretora-executiva do CEPAC &#8211; Centro Padre Alves Correia<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_399635\" aria-describedby=\"caption-attachment-399635\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-399635 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Ana-Mansoa_CEPAC1.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Ana-Mansoa_CEPAC1.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Ana-Mansoa_CEPAC1-400x225.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Ana-Mansoa_CEPAC1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Ana-Mansoa_CEPAC1-768x432.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Ana-Mansoa_CEPAC1-1536x864.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-399635\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Estamos a celebrar este Dia Mundial dos Pobres, em 2025, a sua 9\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Para o CEPAC, o que \u00e9 que isto significa? A pobreza mudou de rosto? <\/em><\/p>\n<p>Celebrar o Dia Mundial dos Pobres, e particularmente no ano que estamos a viver, o ano do Jubileu da Esperan\u00e7a, \u00e9 sempre uma oportunidade que temos, enquanto cat\u00f3licos, enquanto organiza\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, de olhar para o outro como algu\u00e9m que nos d\u00e1 a oportunidade de viver o Evangelho de forma concreta. Olhar o pobre n\u00e3o como algu\u00e9m que beneficia da nossa caridade, meramente, mas como algu\u00e9m que nos d\u00e1 a oportunidade de vivermos efetivamente aquilo que Jesus nos pede no nosso dia-a-dia.<\/p>\n<p>E \u00e9 tamb\u00e9m uma oportunidade de podermos transformar o medo daquele que \u00e9 diferente &#8211; o medo do pobre &#8211; numa oportunidade de encontro e numa oportunidade de olhar para o pobre como algu\u00e9m que precisa de mim, como companheiro neste caminho de encontro com Cristo.<\/p>\n<p>Quando me pergunta se o pobre mudou de rosto, eu gostaria de poder dizer que n\u00e3o, que independentemente da condi\u00e7\u00e3o social, do pa\u00eds de origem, de dominar ou n\u00e3o o portugu\u00eas, n\u00e3o deve condicionar a forma como olhamos para o outro. Acho que vivemos tempos em que se torna urgente pensarmos no olhar que depositamos no encontro com o outro. Durante a pandemia, se as pessoas que nos procuravam eram essencialmente pessoas que estavam \u00e0 procura de emprego, para al\u00e9m de quest\u00f5es de regulariza\u00e7\u00e3o documental; hoje quem nos procura s\u00e3o na maioria das vezes mulheres, m\u00e3es solteiras, empregadas, algumas delas at\u00e9 com mais do que um emprego, mas que mesmo assim n\u00e3o conseguem fazer face \u00e0s suas despesas, e, portanto, \u00e9 a chamada pobreza envergonhada. S\u00e3o mulheres que querem viver uma vida digna e dar uma vida digna tamb\u00e9m aos seus filhos, mas que se veem de facto com muitas dificuldades em conseguir fazer face \u00e0s despesas do dia-a-dia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vamos falar de uma resposta concreta que se liga \u00e0 necessidade mais b\u00e1sica, a alimenta\u00e7\u00e3o. O Projeto RIMES, a Rede Integrada de Mercearias Sociais. O que \u00e9 que esta mercearia social tem de diferente de um tradicional cabaz alimentar?<\/em><\/p>\n<p>De facto falamos de dois projetos. O projeto da Mercearia Sabura, que foi inaugurado em 2021, \u00e9 uma iniciativa inovadora do CEPAC, que visou na altura poder transformar a entrega do cabaz alimentar numa resposta mais digna, e portanto dando a oportunidade de escolha \u00e0quela pessoa e \u00e0quela fam\u00edlia que muitas vezes recebiam um saco com alimentos que n\u00e3o correspondiam a alimentos que faziam parte da sua alimenta\u00e7\u00e3o, ou at\u00e9 desconheciam alguns desses alimentos, e portanto aquilo que procur\u00e1mos fazer foi dar a possibilidade \u00e0quela fam\u00edlia de poder, dentro do leque de alimentos que n\u00f3s temos dispon\u00edveis, escolher o que melhor se adequa aos seus h\u00e1bitos, \u00e0s suas necessidades, aos seus gostos. E fizemos esse caminho em 2021, dando aqui um incremento \u00e0 dignidade e \u00e0 autonomia de escolha da pessoa. A cria\u00e7\u00e3o da Rede RIMES, da Rede Integrada de Mercearias Sociais, \u00e9 um projeto que foi lan\u00e7ado em outubro deste ano, em parceria com a Funda\u00e7\u00e3o Auchan, e que traz aqui o direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e a import\u00e2ncia que consideramos enquanto entidades que lan\u00e7aram esta rede, que consideramos que a resposta alimentar carece de uma maior dignidade. Aquilo que n\u00f3s queremos \u00e9 poder partilhar boas pr\u00e1ticas, partilhar conhecimento entre n\u00f3s e outras entidades que j\u00e1 t\u00eam esta tipologia de resposta, e poder, no fundo, encontrar aqui solu\u00e7\u00f5es mais dignas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O projeto foi apresentado com v\u00e1rios parceiros em Lisboa, porqu\u00ea \u00e9 que foi t\u00e3o importante lan\u00e7\u00e1-lo como uma rede integrada?<\/em><\/p>\n<p>Precisamente por esta import\u00e2ncia de podermos partilhar boas pr\u00e1ticas e podermos replicar um tipo de resposta que n\u00f3s consideramos ser mais digna do que a entrega de um mero cabaz alimentar n\u00e3o personalizado e sem a possibilidade de escolha. E, portanto, aquilo que n\u00f3s pretendemos \u00e9 escalar este modelo que dignifica e humaniza a resposta alimentar e poder tamb\u00e9m, enquanto rede, termos mais for\u00e7a para podermos influenciar pol\u00edticas p\u00fablicas na \u00e1rea da alimenta\u00e7\u00e3o, garantindo o direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 seguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Outro grande foco do combate \u00e0 pobreza \u00e9 a autonomiza\u00e7\u00e3o a partir do trabalho. Penso que isto \u00e9 indiscut\u00edvel. Podemos falar agora de outro projeto, o Baob\u00e1 2.0, que arranca em janeiro de 2026. Tamb\u00e9m foi um projeto premiado e tem o seu foco em mulheres imigrantes, que de certa forma est\u00e1 relacionado ao que nos disse no in\u00edcio. De qualquer maneira, porqu\u00ea este foco t\u00e3o espec\u00edfico? <\/em><\/p>\n<p>Sim, antes de mais e muito rapidamente explicar por que \u201cBaob\u00e1\u201d: \u00e9 um outro nome para o embondeiro &#8211; a \u00e1rvore do \u201cPrincipezinho\u201d. E n\u00f3s, quando olhamos para as mulheres imigrantes que acompanhamos, vemo-las enquanto estas baob\u00e1s, estas \u00e1rvores milenares que s\u00e3o capazes de, no tempo da chuva, acolher pessoas dentro da sua grande estrutura e durante o tempo das secas &#8211; porque armazenam \u00e1gua no tempo da chuva \u2013 conseguem saciar a sede das comunidades que vivem junto dessas \u00e1rvores.<\/p>\n<p>E as mulheres que n\u00f3s acompanhamos, para n\u00f3s, s\u00e3o como estas baob\u00e1s. S\u00e3o mulheres com hist\u00f3rias de vida de grande supera\u00e7\u00e3o, de grande sofrimento, de grande supera\u00e7\u00e3o e muito resilientes. Portanto, s\u00e3o mulheres que muitas vezes v\u00eam para Portugal sozinhas ou a acompanhar os seus filhos que est\u00e3o doentes e que v\u00eam fazer tratamentos, ou quando v\u00eam em fam\u00edlia, s\u00e3o sempre, ou na maior parte das vezes, as que ficam para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Ou seja, nas fam\u00edlias que n\u00f3s acompanhamos, na esmagadora maioria das vezes, \u00e9 o homem que consegue integrar o mercado de trabalho com mais facilidade e a mulher fica em casa a cuidar dos filhos, a cuidar da casa. E, portanto, a sua integra\u00e7\u00e3o na sociedade, a aprendizagem da l\u00edngua, a integra\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria comunidade e, posteriormente, a integra\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho, \u00e9 sempre mais dif\u00edcil. E da\u00ed o nosso foco nestas mulheres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ali\u00e1s, \u00e9 uma experi\u00eancia que muitos portugueses conseguem relacionar com o que aconteceu com as suas fam\u00edlias no passado. Eu tenho uma pergunta que tem a ver com alguns termos do projeto que eu achei curiosos. O projeto fala em diagn\u00f3stico participado, isto parece-me natural; consultoria de imagem e at\u00e9 teatro playback. Estas ferramentas, porque \u00e9 que elas s\u00e3o necess\u00e1rias para encontrar um emprego?<\/em><\/p>\n<p>Sim, todo este projeto que foi agora premiado vem de muitos anos tamb\u00e9m de experi\u00eancia do CEPAC na \u00e1rea do desenvolvimento de compet\u00eancias para a integra\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho. E, de facto, a nossa experi\u00eancia foi-nos dizendo que, mais do que desenvolvermos compet\u00eancias t\u00e9cnicas adequadas a determinadas \u00e1reas do mercado, era importante preparar estas pessoas para uma sociedade diferente, uma forma de se inserir no mercado de trabalho tamb\u00e9m diferente e recuperar nelas alguma da esperan\u00e7a, alguma da autoconfian\u00e7a e da autoestima que muitas destas mulheres perdem ao embarcar nesta aventura que \u00e9 a imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta dimens\u00e3o da consultoria de imagem vai muito para al\u00e9m da imagem visual da mulher, mas pretende mergulhar &#8211; e aqui com mentoria de psic\u00f3logos &#8211; pretende mergulhar naquela que \u00e9 a identidade da mulher, muito antes da sua experi\u00eancia de imigra\u00e7\u00e3o, recuperar nela toda a sua experi\u00eancia do pa\u00eds de origem, que muitas destas mulheres tendem a apagar por vergonha ou por considerarem que n\u00e3o \u00e9 relevante para a sua experi\u00eancia de trabalho. E, portanto, aquilo que n\u00f3s queremos devolver a estas mulheres \u00e9 a capacidade de se olharem ao espelho e se reconhecerem e gostarem delas pr\u00f3prias, porque \u00e9 essencial para tamb\u00e9m serem boas profissionais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E isso tamb\u00e9m garante uma ponte para o mercado de trabalho real?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, sem d\u00favida nenhuma, e aqui associando a consultoria com o teatro playback, onde n\u00f3s simulamos situa\u00e7\u00f5es reais de potenciais conflitos no contexto de emprego, de eventualmente, alguma discrimina\u00e7\u00e3o ou de alguma dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o, e, portanto, simulamos em contexto controlado aquele que deve ser o comportamento e a rea\u00e7\u00e3o destas pessoas. E, portanto, o trabalho que depois fazemos \u00e9 de articula\u00e7\u00e3o com as empresas, para tamb\u00e9m com elas preparar todo o processo de acolhimento e de integra\u00e7\u00e3o destas pessoas no mercado de trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E como \u00e9 que estes dois projetos se ligam \u00e0 miss\u00e3o do CEPAC? <\/em><\/p>\n<p>Sim, de uma forma muito bonita e muito linear, porque, de facto, como o Oct\u00e1vio dizia h\u00e1 pouco, quer a alimenta\u00e7\u00e3o quer a empregabilidade e a habita\u00e7\u00e3o s\u00e3o pilares para a dignidade de qualquer vida humana. E o CEPAC, quando foi criado, e o nome de Padre Alves Correia traz-nos a mem\u00f3ria deste grande democrata e deste grande defensor de direitos humanos, traz-nos, tamb\u00e9m precisamente, este foco no desenvolvimento da dignidade da pessoa humana. E, portanto, aquilo que, enquanto institui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m canonicamente erigida, nos comprometemos \u00e9, n\u00e3o s\u00f3 a promover a integra\u00e7\u00e3o destas pessoas na sociedade, mas que esta integra\u00e7\u00e3o seja muito para al\u00e9m da dimens\u00e3o socioecon\u00f3mica. Seja tamb\u00e9m uma integra\u00e7\u00e3o na dimens\u00e3o espiritual, na dimens\u00e3o do bem-estar social, que \u00e9 fundamental de parte a parte da comunidade que recebe e de quem chega para que este percurso seja de sucesso. E, portanto, todo o nosso trabalho \u00e9 centrado na inclus\u00e3o social e na integra\u00e7\u00e3o plena das pessoas, e, portanto, estes dois projetos respondem em pleno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s temos esta conversa por ocasi\u00e3o do Dia Mundial dos Pobres, criado por Francisco, continuado por Le\u00e3o XIV, quer ser um apelo \u00e0 a\u00e7\u00e3o e a mudan\u00e7a de olhar sobre esta tem\u00e1tica. A pobreza n\u00e3o \u00e9 uma escolha, mas a exclus\u00e3o social \u00e9, por parte de quem exclui. A minha pergunta \u00e9, como \u00e9 que se faz do combate \u00e0 pobreza uma preocupa\u00e7\u00e3o transversal a toda a sociedade? <\/em><\/p>\n<p>Eu creio que, e daquela que tem sido a nossa experi\u00eancia, particularmente nestes \u00faltimos anos, em que enfrentamos enquanto sociedade tempos novos e tamb\u00e9m novas formas de olhar para os desafios que enfrentamos enquanto sociedade; eu acredito que o grande desafio da nossa sociedade hoje \u00e9 n\u00e3o corrermos o risco de tornarmos esta aporofobia, esta fobia dos pobres, ou este medo, ou este desprezo por aquilo que nada tem, em \u00f3dio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Papa Francisco falava mesmo em \u00f3dio\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim de facto. Ent\u00e3o devemos reconhecer\u00a0que esse comportamento \u00e9 contr\u00e1rio ao Evangelho. Quem defende ou quem vive este medo, ou este desprezo, ou este \u00f3dio ao pobre, contraria de facto o Evangelho, contraria a empatia que nos constr\u00f3i enquanto sociedade. Seja por este medo de perder privil\u00e9gios, seja por uma culpa escondida, pela injusti\u00e7a que muitas vezes est\u00e1 na base da perpetua\u00e7\u00e3o dos ciclos de pobreza, seja por vivermos numa sociedade com uma cultura de sucesso e cultura de apar\u00eancia, em que aquele que est\u00e1 mais mal vestido, ou n\u00e3o t\u00e3o bem cal\u00e7ado, ou tem um ar de maior vulnerabilidade, nos incomoda.<\/p>\n<p>E de facto, excluir \u00e9 uma escolha na medida em que n\u00f3s negarmos a compreens\u00e3o daquilo que nos pede o Evangelho e daquilo que nos pede o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica. E, portanto, acho que o grande desafio para n\u00f3s hoje em dia, enquanto Igreja e enquanto sociedade tamb\u00e9m, \u00e9 sermos capazes de olhar o outro com sinceridade, estar dispon\u00edvel para ouvir e para partilhar espa\u00e7os e tamb\u00e9m contribuirmos enquanto Igreja para esta educa\u00e7\u00e3o para a justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falamos da sociedade e da necessidade da inclus\u00e3o. N\u00e3o sei se tem notado uma interven\u00e7\u00e3o cada vez maior da sociedade civil na procura de solu\u00e7\u00f5es para a pobreza em Portugal. E eu queria lhe perguntar se, eventualmente, essa maior interven\u00e7\u00e3o da sociedade \u00e9 sinal de que perdeu a experi\u00eancia na possibilidade do Estado resolver, atenuar os problemas? <\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o o vejo dessa forma. Eu creio que ambas as for\u00e7as ou ambas dimens\u00f5es devem trabalhar em paralelo. A sociedade civil aqui, enquanto for\u00e7a que questiona a estrutura do Estado, que prop\u00f5e muitas vezes at\u00e9 solu\u00e7\u00f5es inovadoras que depois, devidamente testadas e devidamente comprovadas, acabam por muitas vezes tamb\u00e9m ser replicadas e at\u00e9 ser transcritas para pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>E aqui a Igreja tem tido tamb\u00e9m este papel muitas vezes provocador.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas, a Estrat\u00e9gia Nacional de Combate \u00e0 Pobreza est\u00e1 a funcionar? <\/em><\/p>\n<p>A Estrat\u00e9gia Nacional de Combate \u00e0 Pobreza insere-se tamb\u00e9m num contexto e num tempo em que vivemos desafios novos. E aquilo que eu vejo \u00e9 a sociedade civil e muitas organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil verdadeiramente comprometidas na sua implementa\u00e7\u00e3o. Mas, de facto, acho que \u00e9 preciso ainda mais vontade e um maior envolvimento, maior di\u00e1logo com as for\u00e7as do Estado para que aquilo que est\u00e1 desenhado na estrat\u00e9gia possa ser concretizado e concretizado de forma escal\u00e1vel.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o com respostas que s\u00f3 tenham resultados em pequena escala, mas que possam de facto ter depois um impacto a n\u00edvel nacional. Estamos a fazer um caminho, mas \u00e9 um caminho longo e que exige o compromisso de todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s, ao longo da nossa conversa, j\u00e1 aqui fizemos destacar que os fluxos migrat\u00f3rios por vezes tamb\u00e9m contribuem para o aumento das situa\u00e7\u00f5es de pobreza e a Ana teve a possibilidade de nos dar aqui alguns exemplos e, portanto, a experi\u00eancia do CEPAC permite, se calhar, confirmar esta realidade. A nossa \u00faltima pergunta tem a ver precisamente com a imigra\u00e7\u00e3o e com a forma como quer o Estado, quer a sociedade est\u00e1 a olhar para esta realidade da imigra\u00e7\u00e3o em Portugal. Estamos a lidar bem com esta realidade ou n\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma pergunta dif\u00edcil porque, de facto, sim \u00e9 importante que o pa\u00eds e, cumprindo as diretivas europeias tenha os fluxos migrat\u00f3rios controlados. Tamb\u00e9m \u00e9 importante que esse controle dos fluxos migrat\u00f3rios seja feito com verdadeiro humanismo e que n\u00e3o corramos o risco, como acontece noutros Estados-membros, de atribuirmos a responsabilidade de muitos dos desafios sociais que vivemos hoje em dia, a habita\u00e7\u00e3o, o acesso ao trabalho, o aumento do custo de vida, n\u00e3o atribuirmos a responsabilidade desses desafios aquele que chega. Aquele que chega que muitas vezes n\u00e3o vem, de facto, competir com quem j\u00e1 est\u00e1 integrado no mercado de trabalho e aqui, enquanto sociedade, mais uma vez, enquanto igreja, tamb\u00e9m temos uma responsabilidade grande de n\u00e3o perpetuar e at\u00e9 mitigar aquilo que s\u00e3o informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o correspondem \u00e0 verdade e que acabam por alimentar este discurso de \u00f3dio que vivemos ou que sentimos muitas vezes.<\/p>\n<p>Portanto, eu acho que o processo de integra\u00e7\u00e3o das pessoas migrantes ainda est\u00e1 por fazer. Estamos focados e compreende-se que era importante fazer esse caminho na regulariza\u00e7\u00e3o dos fluxos migrat\u00f3rios, mas h\u00e1 um caminho muito longo e que tem que envolver a igreja, tem que envolver a sociedade civil, para al\u00e9m das for\u00e7as do Estado, h\u00e1 um caminho muito longo a fazer no processo de integra\u00e7\u00e3o plena e digna de quem chega, n\u00e3o como amea\u00e7a, n\u00e3o como algu\u00e9m que nos vem privar de privil\u00e9gios, mas como algu\u00e9m que contribui com toda a sua riqueza, com toda a sua experi\u00eancia de vida e know-how para o desenvolvimento da nossa sociedade, que sequer plural e sequer diversa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Igreja Cat\u00f3lica assinala hoje o Dia Mundial dos Pobres. \u00c9 uma jornada que nos convida a refletir sobre as estruturas que perpetuam a exclus\u00e3o, procurando dar solu\u00e7\u00f5es concretas. Para falar sobre respostas que procuram ir al\u00e9m da assist\u00eancia e construir autonomia, \u00e9 convidada da Ecclesia e da Renascen\u00e7a a diretora-executiva do CEPAC &#8211; Centro [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":399635,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[492,861],"class_list":["post-399670","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-dia-mundial-dos-pobres","tag-igreja-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/399670","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=399670"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/399670\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/399635"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=399670"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=399670"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=399670"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}