{"id":39962,"date":"2009-07-14T11:33:11","date_gmt":"2009-07-14T11:33:11","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/07\/14\/uma-enciclica-notavel\/"},"modified":"2009-07-14T11:33:11","modified_gmt":"2009-07-14T11:33:11","slug":"uma-enciclica-notavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/uma-enciclica-notavel\/","title":{"rendered":"Uma enc\u00edclica not\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Bag\u00e3o F\u00e9lix <!--more--> <\/p>\n<p>No meio de muita poeira medi&aacute;tica e de uma preocupante lassid&atilde;o &eacute;tica, foi divulgada a 296&ordf; Enc&iacute;clica Papal e a terceira de Bento XVI, &quot;<em>Caritas in Veritate<\/em>&quot;. &Eacute; um extenso e profundo documento que constituir&aacute; um marco assinal&aacute;vel de enriquecimento da Doutrina Social da Igreja enquanto patrim&oacute;nio universal n&atilde;o apenas destinado a orientar a ac&ccedil;&atilde;o na vida dos fi&eacute;is, como a dirigir-se a todos os homens e mulheres de boa vontade, de todas as na&ccedil;&otilde;es e credos. <\/p>\n<p>Pena que aqui e nos dias que se seguiram &agrave; sua divulga&ccedil;&atilde;o, tenha passado ao lado das primeiras not&iacute;cias, quase sempre num fugidio rodap&eacute;. Tivessem sido umas palavras (descontextualizadas) do Papa sobre, por exemplo, o uso do preservativo e durante dias, ter&iacute;amos assistido a uma avalancha de opini&otilde;es, coment&aacute;rios e <em>diktats<\/em>.<\/p>\n<p>Condensar em poucas palavras o significado e riqueza desta Enc&iacute;clica &eacute; tarefa imposs&iacute;vel tal a densidade de cada palavra e pensamento. Por isso, a minha primeira sugest&atilde;o &eacute; a da sua leitura reflexiva n&atilde;o apenas no interior da Igreja (onde nem sempre &eacute; lida&#8230;), como no seio da sociedade civil, pol&iacute;tica e econ&oacute;mica.<\/p>\n<p>&Eacute; uma Enc&iacute;clica fascinante onde para cada frase se pode e deve reflectir com profundidade. Uma Enc&iacute;clica de um Papa intelectual e teologicamente brilhante.<\/p>\n<p>Bento XVI parte de todo o ensinamento social desde a <em>Rerum Novarum<\/em> at&eacute; &agrave;s enc&iacute;clicas de Jo&atilde;o Paulo II e sobretudo &agrave; <em>Populorum Progressio<\/em> (Paulo VI) de h&aacute; 40 anos para, com sabedoria, e &agrave; luz dos dias de hoje e da natureza plur&iacute;voca da crise por que passamos, oferecer princ&iacute;pios de estudo e de comprometimento, tendo a pessoa humana como princ&iacute;pio, sujeito e centro.<\/p>\n<p>A palavra-chave desta Enc&iacute;clica &eacute; a de <strong>desenvolvimento humano<\/strong>. Um desenvolvimento integral, aut&ecirc;ntico, libertador, pluridimensional. Um desenvolvimento associado &agrave; &eacute;tica e &agrave; responsabilidade pessoal e social. &Agrave; justi&ccedil;a distributiva e n&atilde;o apenas &aacute; justi&ccedil;a contratual e comutativa. &Agrave; capacidade de conciliar Mercado, Sociedade e Estado. &Agrave; afirma&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio da subsidiariedade para &quot;governar a globaliza&ccedil;&atilde;o&quot;. &Agrave; necessidade de ultrapassar a ideologia tecnocr&aacute;tica dominante. Ao &quot;<em>ser mais e melhor<\/em>&quot; e n&atilde;o apenas &quot;<em>ao incremento do ter<\/em>&quot;. &Agrave; import&acirc;ncia das energias morais para neutralizar os excessos alienantes de produtivismo e de utilitarismo. &Agrave; sustentabilidade social, demogr&aacute;fica e geracional que erradique a primazia da l&oacute;gica estrita do curto-prazo.<\/p>\n<p>Mais do que palavras que possa escrever, permito-me seleccionar (o que n&atilde;o &eacute; nada f&aacute;cil), &quot;meia d&uacute;zia&quot; de frases do documento que desejo possam aumentar o interesse do leitor pela sua leitura integral:<\/p>\n<p><em>O mercado est&aacute; sujeito aos princ&iacute;pios da chamada justi&ccedil;a comutativa, que regula precisamente as rela&ccedil;&otilde;es do dar e receber entre sujeitos iguais. Mas a doutrina social nunca deixou de p&ocirc;r em evid&ecirc;ncia a import&acirc;ncia que tem a justi&ccedil;a distributiva (&#8230;).<\/em><\/p>\n<p><em>A gest&atilde;o da empresa n&atilde;o pode ter em conta unicamente os interesses dos propriet&aacute;rios da mesma, mas deve preocupar-se tamb&eacute;m com as outras diversas categorias de sujeitos que contribuem para a vida da empresa: os trabalhadores, os clientes, os fornecedores dos v&aacute;rios factores de produ&ccedil;&atilde;o, a comunidade de refer&ecirc;ncia.<\/em><\/p>\n<p><em>&Eacute; preciso evitar que o motivo para o emprego dos recursos financeiros seja especulativo, cedendo &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o de procurar apenas o lucro a breve prazo sem cuidar igualmente da sustentabilidade da empresa a longo prazo, do seu servi&ccedil;o concreto &agrave; economia real<\/em><\/p>\n<p><em>N&atilde;o &eacute; l&iacute;cito deslocalizar somente para gozar de especiais condi&ccedil;&otilde;es de favor ou, pior ainda, para explora&ccedil;&atilde;o, sem prestar uma verdadeira contribui&ccedil;&atilde;o &agrave; sociedade local para o nascimento de um robusto sistema produtivo e social, factor imprescind&iacute;vel para um desenvolvimento est&aacute;vel.<\/em><\/p>\n<p><em>Qual &eacute; o significado da palavra &laquo;dec&ecirc;ncia&raquo; aplicada ao trabalho? Significa um trabalho que, em cada sociedade, seja a express&atilde;o da dignidade essencial de todo o homem e mulher: um trabalho escolhido livremente, que associe eficazmente os trabalhadores, homens e mulheres, ao desenvolvimento da sua comunidade; um trabalho que, deste modo, permita aos trabalhadores serem respeitados sem qualquer discrimina&ccedil;&atilde;o; um trabalho que consinta satisfazer as necessidades das fam&iacute;lias e dar a escolaridade aos filhos, sem que estes sejam constrangidos a trabalhar; um trabalho que permita aos trabalhadores organizarem-se livremente&nbsp; fazerem ouvir a sua voz; um trabalho que deixe espa&ccedil;o suficiente para reencontrar as pr&oacute;prias ra&iacute;zes a n&iacute;vel pessoal familiar e espiritual; um trabalho que assegure aos trabalhadores aposentados uma condi&ccedil;&atilde;o decorosa.<\/em><\/p>\n<p><em>Quando prevalece a absolutiza&ccedil;&atilde;o da t&eacute;cnica, verifica-se uma confus&atilde;o entre fins e meios: como &uacute;nico crit&eacute;rio de ac&ccedil;&atilde;o, o empres&aacute;rio considerar&aacute; o m&aacute;ximo lucro da produ&ccedil;&atilde;o; o pol&iacute;tico, a consolida&ccedil;&atilde;o do poder; o cientista, o resultado das suas descobertas<\/em><\/p>\n<p><em>Raz&atilde;o e f&eacute; ajudam-se mutuamente; e s&oacute; conjuntamente salvar&atilde;o o homem: fascinada pela pura tecnologia, a raz&atilde;o sem a f&eacute; est&aacute; destinada a perder-se na ilus&atilde;o da pr&oacute;pria omnipot&ecirc;ncia, enquanto a f&eacute; sem a raz&atilde;o corre o risco do alheamento da vida concreta das pessoas.<\/em><\/p>\n<p><em>Al&eacute;m do crescimento material, o desenvolvimento deve incluir o espiritual, porque a pessoa humana &eacute; &laquo;um ser uno, composto de alma e corpo&raquo;.<\/em><\/p>\n<p><em>Sem Deus, o homem n&atilde;o sabe para onde ir e n&atilde;o consegue sequer compreender quem seja.<\/em><\/p>\n<p align=\"right\"><em>Ant&oacute;nio Bag&atilde;o F&eacute;lix<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Bag\u00e3o 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