{"id":39961,"date":"2009-07-14T11:29:45","date_gmt":"2009-07-14T11:29:45","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/07\/14\/por-uma-orientacao-cultural-personalista-e-comunitaria-aberta-a-transcendencia-do-processo-de-integracao-mundial\/"},"modified":"2009-07-14T11:29:45","modified_gmt":"2009-07-14T11:29:45","slug":"por-uma-orientacao-cultural-personalista-e-comunitaria-aberta-a-transcendencia-do-processo-de-integracao-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/por-uma-orientacao-cultural-personalista-e-comunitaria-aberta-a-transcendencia-do-processo-de-integracao-mundial\/","title":{"rendered":"Por uma \u00aborienta\u00e7\u00e3o cultural personalista e comunit\u00e1ria, aberta \u00e0 transcend\u00eancia, do processo de integra\u00e7\u00e3o mundial\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Joana Rigato <!--more--> Quarenta e dois anos depois da <em>Populorum Progressio<\/em>, Bento XVI publica a enc&iacute;clica <em>Caritas in Veritate<\/em>, mediante a qual pretende actualizar a mensagem de Paulo VI &agrave; luz da nova era da globaliza&ccedil;&atilde;o e dos &uacute;ltimos dois anos de crise econ&oacute;mica e financeira internacional. Assistimos hoje, portanto, a mais um passo na constru&ccedil;&atilde;o sempre nova da doutrina social da Igreja, na procura de respostas para os desafios hist&oacute;ricos da sociedade &agrave; luz da Verdade do evangelho e da lei do Amor. Amor (caridade) e Verdade s&atilde;o, com efeito, o cerne da pr&oacute;pria doutrinal social, come&ccedil;a por dizer Bento XVI: &quot;tal doutrina &eacute; &laquo;<em>caritas in veritate in re sociali<\/em>&raquo;, ou seja, proclama&ccedil;&atilde;o da verdade do amor de Cristo na sociedade; &eacute; servi&ccedil;o da caridade, mas na verdade&quot;. Essa verdade, que evitar&aacute; os &quot;estrangulamentos do emotivismo&quot; e a arbitrariedade de um amor sem um norte que o oriente, &eacute; a &quot;luz da raz&atilde;o e da f&eacute;&quot;. Luz esta que ilumina a gratuidade da caridade, portanto, para que esta realize (e simultaneamente ultrapasse) a Justi&ccedil;a na prossecu&ccedil;&atilde;o do Bem Comum, constituindo o caminho que a humanidade tem de retomar numa &eacute;poca que se apresenta plena de desafios, riscos e exig&ecirc;ncias. <\/p>\n<p>&Eacute; com base nesta premissa que o Papa analisa os tempos actuais e aborda, numa enc&iacute;clica densa e rica, temas relativos &agrave; economia globalizada, ao ambiente, &agrave; pobreza e &agrave; fome, ao desemprego e aos direitos dos trabalhadores, ao fen&oacute;meno das migra&ccedil;&otilde;es e &agrave; dignidade dos migrantes, &agrave; especula&ccedil;&atilde;o financeira, &agrave; pol&iacute;tica nacional e transnacional, &agrave; &eacute;tica empresarial, &agrave; t&eacute;cnica, ou &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o social.<\/p>\n<p>A centralidade da pessoa humana e a sua inalien&aacute;vel dignidade, tanto &agrave; luz da f&eacute; crist&atilde;, como do quadro antropol&oacute;gico e &eacute;tico que consagrou os direitos humanos como universais e &quot;indispon&iacute;veis&quot;, &eacute; o denominador comum que serve de base &agrave; leitura de todos estes fen&oacute;menos contempor&acirc;neos.<\/p>\n<p>&quot;A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas n&atilde;o nos faz irm&atilde;os&quot;, explica Bento XVI. Com efeito, o erro de dissociar a economia de um quadro &eacute;tico assente na caridade (&quot;a l&oacute;gica do dom como express&atilde;o da fraternidade&quot;) tem conduzido a fam&iacute;lia humana a desequil&iacute;brios que exigem uma mudan&ccedil;a de paradigma. <\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O desenvolvimento das &uacute;ltimas d&eacute;cadas tem sido heterog&eacute;neo e contradit&oacute;rio, crescendo a riqueza &agrave; escala global ao mesmo tempo que aumentam as desigualdades entre ricos e pobres, e surgem inclusivamente novas bolsas de pobreza no seio dos pa&iacute;ses tradicionalmente mais desenvolvidos. Bento XVI relembra, pois, que &quot;o aumento sistem&aacute;tico das desigualdades (&#8230;) tende n&atilde;o s&oacute; a minar a coes&atilde;o social &#8211; e, por este caminho, p&otilde;e em risco a democracia -, mas tem tamb&eacute;m um impacto negativo no plano econ&oacute;mico com a progressiva corros&atilde;o do &laquo;capital social&raquo;, isto &eacute;, daquele conjunto de rela&ccedil;&otilde;es de confian&ccedil;a, de credibilidade, de respeito das regras, indispens&aacute;veis em qualquer conviv&ecirc;ncia civil&quot;. <\/p>\n<p>Bento XVI denuncia o erro da vis&atilde;o segundo a qual &quot;a economia de mercado tem estruturalmente necessidade duma certa quota de pobreza e subdesenvolvimento para poder funcionar do melhor modo&quot;. Pelo contr&aacute;rio, diz o Papa, &quot;o mercado tem interesse em promover emancipa&ccedil;&atilde;o&quot; e em garantir que todos os intervenientes possam ser considerados como um recurso (e n&atilde;o um &quot;fardo&quot;), participando no jogo dos interc&acirc;mbios comerciais e financeiros &agrave; escala mundial enquanto sujeitos activos, sob pena de o desenvolvimento global embater dramaticamente no obst&aacute;culo da pobreza. Para tal, o mercado, que n&atilde;o &eacute; negativo por natureza, precisa de ser regulado por um poder pol&iacute;tico com autoridade real, para que n&atilde;o seja o &quot;lugar da prepot&ecirc;ncia do forte sobre o d&eacute;bil&quot;. A justi&ccedil;a, nas suas m&uacute;ltiplas formas, &eacute; o meio para garantir esta emancipa&ccedil;&atilde;o generalizada na prossecu&ccedil;&atilde;o do Bem Comum.<\/p>\n<p>A tend&ecirc;ncia, portanto, a considerar que as sombras e falhas do quadro de desenvolvimento mundial s&atilde;o inevit&aacute;veis, tem de ser considerada incorrecta, j&aacute; que as situa&ccedil;&otilde;es de subdesenvolvimento &quot;n&atilde;o s&atilde;o fruto do acaso nem de uma necessidade hist&oacute;rica&quot;, mas de op&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e econ&oacute;micas, pelo que &quot;dependem da responsabilidade humana&quot;. <\/p>\n<p>A enc&iacute;clica &eacute; marcada pelo repetido apelo a uma preocupa&ccedil;&atilde;o priorit&aacute;ria com o capital humano nas suas diferentes dimens&otilde;es. Sublinha, em particular, a necessidade de defesa dos direitos dos trabalhadores num contexto de deslocaliza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o e de perda de direitos sociais, a favor do lucro como fim em si mesmo, gra&ccedil;as ao crescente poder das grandes empresas transnacionais que influenciam at&eacute; os governos nas suas pol&iacute;ticas sociais. Bento XVI defende como priorit&aacute;rio o acesso ao trabalho para todos e a tutela dos direitos laborais, j&aacute; que &quot;o primeiro capital a preservar e valorizar &eacute; o homem&quot;. <\/p>\n<p>Tamb&eacute;m no &acirc;mbito da coopera&ccedil;&atilde;o internacional o capital humano tem de voltar a estar no centro das pol&iacute;ticas e do modo de proceder das institui&ccedil;&otilde;es. Neste sentido, Bento XVI alerta para o risco de &quot;assistencialismo paternalista&quot; em que governos e organismos incorrem quando n&atilde;o d&atilde;o a devida centralidade aos benefici&aacute;rios e esquecem o princ&iacute;pio da subsidiariedade. Para al&eacute;m disto, o Papa exorta os pa&iacute;ses mais desenvolvidos a respeitarem os compromissos assumidos quanto &agrave;s quotas do seu produto interno bruto a destinar &agrave;s ajudas ao desenvolvimento (0,7% do PIB). Por outro lado, apela a que os organismos internacionais que se ocupam da coopera&ccedil;&atilde;o repensem as suas prioridades, reconhecendo a incoer&ecirc;ncia que representam as m&aacute;quinas burocr&aacute;ticas excessivamente pesadas e ineficazes que suportam: &quot;&agrave;s vezes sucede que o destinat&aacute;rio das ajudas seja utilizado em fun&ccedil;&atilde;o de quem o ajuda e que os pobres sirvam para manter de p&eacute; dispendiosas organiza&ccedil;&otilde;es burocr&aacute;ticas que reservam para sua pr&oacute;pria conserva&ccedil;&atilde;o percentagens demasiado elevadas dos recursos que, ao inv&eacute;s, deveriam ser aplicados no desenvolvimento&quot;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em suma, todas as quest&otilde;es mais prementes da economia e da pol&iacute;tica (como a gest&atilde;o dos desafios da imigra&ccedil;&atilde;o, o uso dos recursos energ&eacute;ticos e a rela&ccedil;&atilde;o do homem com o meio ambiente, o papel dos Estados na regula&ccedil;&atilde;o da economia, as actividades de natureza financeira ou a t&eacute;cnica como instrumento de poder) devem ser reanalisadas &agrave; luz de um quadro &eacute;tico de direitos e deveres (sendo fundamental compreender que &quot;a partilha dos deveres rec&iacute;procos mobiliza muito mais do que a mera reivindica&ccedil;&atilde;o de direitos&quot;), ao mesmo tempo que se torna imperioso que o desenvolvimento seja entendido n&atilde;o s&oacute; na sua vertente material. Como recorda Bento XVI, Deus tem de encontrar &quot;lugar na esfera p&uacute;blica&quot;, n&atilde;o s&oacute; na medida em que a liberdade religiosa de professar a pr&oacute;pria f&eacute; num mundo cada vez mais secularizado &eacute; um direito a reconquistar, como tamb&eacute;m porque a aus&ecirc;ncia de sentido da transcend&ecirc;ncia no cora&ccedil;&atilde;o do homem e na sociedade resulta numa falta de consci&ecirc;ncia &eacute;tica cujas consequ&ecirc;ncias est&atilde;o &agrave; vista de todos. &quot;Enquanto os pobres do mundo batem &agrave;s portas da opul&ecirc;ncia, o mundo rico corre o risco de deixar de ouvir tais apelos &agrave; sua porta por causa de uma consci&ecirc;ncia j&aacute; incapaz de reconhecer o humano&quot;. <\/p>\n<p>A caridade (fruto directo de um Deus que &eacute; Amor) iluminada pela verdade (da raz&atilde;o e da f&eacute;), &eacute; portanto o requisito fundamental para mudar a arquitectura pol&iacute;tica, econ&oacute;mica e financeira &agrave; escala nacional e transnacional, a par das pr&oacute;prias mentalidades e estilos de vida de cada um, reconhecendo o mundo globalizado como fam&iacute;lia humana, j&aacute; que &quot;sem Deus, o homem n&atilde;o sabe para onde ir e n&atilde;o consegue sequer compreender quem seja&quot;. <\/p>\n<p align=\"right\"><em>Joana Rigato, Vice-Presidente da Comiss&atilde;o Nacional Justi&ccedil;a e Paz<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joana Rigato<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120,189,191,256],"class_list":["post-39961","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi","tag-direitos-humanos","tag-economia","tag-meio-ambiente"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39961","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39961"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39961\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39961"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39961"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39961"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}