{"id":39960,"date":"2009-07-14T11:28:03","date_gmt":"2009-07-14T11:28:03","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/07\/14\/mais-alem-razao-e-medida-do-desenvolvimento-que-a-tecnica-nao-pode-dar\/"},"modified":"2009-07-14T11:28:03","modified_gmt":"2009-07-14T11:28:03","slug":"mais-alem-razao-e-medida-do-desenvolvimento-que-a-tecnica-nao-pode-dar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mais-alem-razao-e-medida-do-desenvolvimento-que-a-tecnica-nao-pode-dar\/","title":{"rendered":"Mais al\u00e9m &#8211; Raz\u00e3o e medida do desenvolvimento que a t\u00e9cnica n\u00e3o pode dar"},"content":{"rendered":"<p>Henrique Pinto <!--more--> <em>&quot;Em cada conhecimento e em cada acto de amor, a alma do homem experimenta um &quot;extra&quot; que se assemelha muito a um dom recebido, a uma altura para a qual nos sentimos atra&iacute;dos&quot; (Caritas in Veritate, n&ordm; &nbsp;77)<\/em> <\/p>\n<p><em>&quot;Enquanto os pobres do um do mundo batem &agrave;s portas da opul&ecirc;ncia, o mundo rico corre o risco de deixar de ouvir tais apelos &agrave; sua porta por causa de uma consci&ecirc;ncia j&aacute; incapaz de reconhecer o humano&quot; (Caritas in Veritate, n&ordm; 75)<\/em><\/p>\n<p>O que me ocorre defender de imediato, conclu&iacute;da a leitura da mais recente enc&iacute;clica de Bento XVI, <em>Caritas in Veritate<\/em>, &eacute; que apesar de se dirigir sobretudo &agrave; hierarquia e fi&eacute;is da Igreja Cat&oacute;lica, ela devia ser seriamente considerada por toda a gente. E n&atilde;o penso apenas nos que se t&ecirc;m por pessoas de boa vontade, mas nos que sabem reconhecer a sua conting&ecirc;ncia, o enigma do existir e o &quot;mais&quot; que nos excede, tamb&eacute;m em v&eacute;spera de elei&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Pela m&atilde;o do Papa, a Igreja reconhece n&atilde;o ter solu&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas para oferecer, como sublinha n&atilde;o ser sua inten&ccedil;&atilde;o &quot;imiscuir-se na pol&iacute;tica dos Estados&quot; (n&ordm; 9). Mas num servi&ccedil;o &agrave; &quot;caridade na verdade&quot;, testemunhada por Jesus de Nazar&eacute;, e em linha de continuidade com o pensamento socioecon&oacute;mico cultural e pol&iacute;tico dos seus &uacute;ltimos Sumos Pont&iacute;fices, a Igreja oferece &agrave; globaliza&ccedil;&atilde;o e ao momento de actual crise econ&oacute;mica e financeira, um elaborado, amplo e importante tratado sobre o desenvolvimento humano integral. Da distribui&ccedil;&atilde;o da riqueza ao respeito pela vida, do ambiente &agrave; urg&ecirc;ncia de uma reforma da ONU, este trabalho de Bento XVI denuncia com grande actualidade, clareza e rigor a <em>aus&ecirc;ncia de verdade no ser humano<\/em>, chamado ao desenvolvimento ou &agrave; supera&ccedil;&atilde;o de si mesmo pela pr&aacute;tica da &quot;caritas&quot; nascida da verdade inerente ao incondicional reconhecimento do outro. <\/p>\n<p>No entanto, retenho que a Carta Enc&iacute;clica, mesmo do ponto de vista de quem se tem por crist&atilde;o cat&oacute;lico, n&atilde;o deixa de ter as suas dificuldades. No seu centro est&aacute; uma determinada ideia de &quot;verdade crist&atilde;&quot; e esta, num tempo dito p&oacute;s-moderno, n&atilde;o ser&aacute; certamente poupada aos mais variados questionamentos. <\/p>\n<p>Na verdade, ao reconhecer que o mercado n&atilde;o existe em <em>estado puro<\/em> (n&ordm; 36), Bento XVI, parece esquecer que tamb&eacute;m a verdade dita &quot;dom permanente de Deus&quot; (n&ordm; 78), ou &quot;projecto divino&quot; (n&ordm; 57), carece de pureza, precisamente porque ref&eacute;m de infinitos e intermin&aacute;veis processos de interpreta&ccedil;&atilde;o &#8211; ainda que para travar esta condi&ccedil;&atilde;o do conhecimento humano, a Igreja invoque uma assist&ecirc;ncia privilegiada do &quot;Esp&iacute;rito de Deus&quot; e, no seu seguimento, a infalibilidade do seu governo em quest&otilde;es de f&eacute; e moral. Por isso, talvez n&atilde;o seja mesmo a n&atilde;o aceita&ccedil;&atilde;o da &quot;caridade na verdade&quot;, ou a aus&ecirc;ncia de verdade, de confian&ccedil;a e de amor, como diz Bento XVI, a raz&atilde;o por que &quot;n&atilde;o h&aacute; consci&ecirc;ncia e responsabilidade social&quot; &quot;e a actividade social acaba &agrave; merc&ecirc; de interesses privados e l&oacute;gicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade&quot; (n&ordm; 5). Se assim fosse, talvez a pr&oacute;pria hist&oacute;ria do Cristianismo n&atilde;o estivesse t&atilde;o manchada de vergonhosa viol&ecirc;ncia e morte. <\/p>\n<p>Preocupa o actual Papa o relativismo e o niilismo. Por isso, ele n&atilde;o cessa de defender um &quot;fundamento&quot;, a &quot;metaf&iacute;sica&quot; e de sustentar que nem todas as culturas e religi&otilde;es s&atilde;o iguais. Mas sublinho, uma vez mais, que talvez n&atilde;o seja mesmo a aus&ecirc;ncia de um princ&iacute;pio e fim &uacute;ltimo da hist&oacute;ria humana a raz&atilde;o da &quot;tr&aacute;gica reclus&atilde;o do homem em si pr&oacute;prio&quot; (n&ordm; 53). <\/p>\n<p>Ainda que n&atilde;o partilhem da &quot;caridade na verdade&quot; que serve de alicerce ao que Bento XVI tem para dizer sobre o desenvolvimento humano integral, diversos pensadores, ao contribu&iacute;rem para uma rigorosa e meticulosa ontologia do presente, &quot;libertaram&quot; do mais profundo, solit&aacute;rio e abandonado c&aacute;rcere uma realidade a que se tem dado o nome de &quot;tout&#39;Autre&quot; (em franc&ecirc;s) ou de radical Alteridade, e ao faz&ecirc;-lo, o seu incondicional respeito tem-se vindo a tornar &quot;forma&quot; inevit&aacute;vel do agir humano. Apesar de Bento XVI n&atilde;o se render a uma hist&oacute;ria sem um &quot;Fundamento &Uacute;ltimo&quot;, ainda que totalmente aberta a um &quot;pensamento do exterior&quot;, defendida mesmo em ambientes acad&eacute;micos cat&oacute;licos, n&atilde;o deixa de ser curioso verificar que o Sumo Pont&iacute;fice come&ccedil;a por falar num rosto, Jesus Cristo, passando pelo Deus Trino, para nas suas derradeiras p&aacute;ginas falar de um &quot;extra&quot; que o &quot;conhecido esconde&quot;, de um &quot;dom&quot; de uma &quot;altura&quot;, de um &quot;mais al&eacute;m&quot; para a qual o desejo de &quot;ser mais&quot; tende, mas, nestas express&otilde;es, j&aacute; sem rosto (n&ordm; 77). Neste esvaziamento, que vai da afirma&ccedil;&atilde;o de um nome na direc&ccedil;&atilde;o de algo situado para l&aacute; dele, Bento XVI n&atilde;o s&oacute; parece desejar dialogar com uma <em>religi&atilde;o sem religi&atilde;o<\/em>, uma <em>teologia sem teologia<\/em>, numa rela&ccedil;&atilde;o aberta e interdisciplinar, como consegue com que os termos da sua enc&iacute;clica sejam reconhecidos por quem hoje n&atilde;o absolutiza certamente uma particular transcend&ecirc;ncia mas vive o cuidado pelo outro como transforma&ccedil;&atilde;o pessoal, numa dedica&ccedil;&atilde;o ao MAIS que excede o momento presente e a hist&oacute;ria humana n&atilde;o esgota. <\/p>\n<p>No centro da <em>Caritas in Veritate<\/em> e no centro da vida de quem se vive numa total dedica&ccedil;&atilde;o incondicional ao tout&#39;Autre, est&aacute; a finitude humana, a consci&ecirc;ncia da interdepend&ecirc;ncia de tudo quanto existe e por conseguinte, a certeza de que o Bem, quando se deseja e constr&oacute;i, n&atilde;o pode excluir nada nem ningu&eacute;m e que, como tal, s&oacute; pode ser Comum.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Henrique Pinto, Associa&ccedil;&atilde;o Cais<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Henrique Pinto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120],"class_list":["post-39960","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39960","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39960"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39960\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39960"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39960"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39960"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}