{"id":39847,"date":"2009-07-07T11:23:51","date_gmt":"2009-07-07T11:23:51","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/07\/07\/enciclica-caritas-in-veritate\/"},"modified":"2009-07-07T11:23:51","modified_gmt":"2009-07-07T11:23:51","slug":"enciclica-caritas-in-veritate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/enciclica-caritas-in-veritate\/","title":{"rendered":"Enc\u00edclica \u00abCaritas in veritate\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>Carta Enc&iacute;clica &laquo;Caritas in veritate&raquo; do Sumo Pont&iacute;fice Bento XVI aos Bispos, aos presb&iacute;teros e di&aacute;conos &agrave;s pessoas consagradas aos fi&eacute;is leigos e a todos os homens de boa vontade sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>INTRODU&Ccedil;&Atilde;O<\/em><\/strong><\/p>\n<p>1. A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com a sua vida terrena e sobretudo com a sua morte e ressurrei&ccedil;&atilde;o, &eacute; a for&ccedil;a propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. O amor &#8211; &laquo;caritas&raquo; &#8211; &eacute; uma for&ccedil;a extraordin&aacute;ria, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justi&ccedil;a e da paz. &Eacute; uma for&ccedil;a que tem a sua origem em Deus, Amor eterno e Verdade absoluta. Cada um encontra o bem pr&oacute;prio, aderindo ao projecto que Deus tem para ele a fim de o realizar plenamente: com efeito, &eacute; em tal projecto que encontra a verdade sobre si mesmo e, aderindo a ela, torna-se livre (cf. Jo 8, 22). Por isso, defender a verdade, prop&ocirc;-la com humildade e convic&ccedil;&atilde;o e testemunh&aacute;-la na vida s&atilde;o formas exigentes e imprescind&iacute;veis de caridade. Esta, de facto, &laquo;rejubila com a verdade&raquo; (1 Cor 13, 6). Todos os homens sentem o impulso interior para amar de maneira aut&ecirc;ntica: amor e verdade nunca desaparecem de todo neles, porque s&atilde;o a voca&ccedil;&atilde;o colocada por Deus no cora&ccedil;&atilde;o e na mente de cada homem. Jesus Cristo purifica e liberta das nossas car&ecirc;ncias humanas a busca do amor e da verdade e desvenda-nos, em plenitude, a iniciativa de amor e o projecto de vida verdadeira que Deus preparou para n&oacute;s. Em Cristo, a caridade na verdade torna-se o Rosto da sua Pessoa, uma voca&ccedil;&atilde;o a n&oacute;s dirigida para amarmos os nossos irm&atilde;os na verdade do seu projecto. De facto, Ele mesmo &eacute; a Verdade (cf. Jo 14, 6).<\/p>\n<p>2. A caridade &eacute; a via mestra da doutrina social da Igreja. As diversas responsabilidades e compromissos por ela delineados derivam da caridade, que &eacute; &#8211; como ensinou Jesus &#8211; a s&iacute;ntese de toda a Lei (cf. Mt 22, 36-40). A caridade d&aacute; verdadeira subst&acirc;ncia &agrave; rela&ccedil;&atilde;o pessoal com Deus e com o pr&oacute;ximo; &eacute; o princ&iacute;pio n&atilde;o s&oacute; das micro-rela&ccedil;&otilde;es estabelecidas entre amigos, na fam&iacute;lia, no pequeno grupo, mas tamb&eacute;m das macro-rela&ccedil;&otilde;es como relacionamentos sociais, econ&oacute;micos, pol&iacute;ticos. Para a Igreja &#8211; instru&iacute;da pelo Evangelho -, a caridade &eacute; tudo porque, como ensina S. Jo&atilde;o (cf. 1 Jo 4, 8.16) e como recordei na minha primeira carta enc&iacute;clica, &laquo;Deus &eacute; caridade&raquo; (Deus caritas est): da caridade de Deus tudo prov&eacute;m, por ela tudo toma forma, para ela tudo tende. A caridade &eacute; o dom maior que Deus concedeu aos homens; &eacute; a sua promessa e a nossa esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Estou ciente dos desvios e esvaziamento de sentido que a caridade n&atilde;o cessa de enfrentar, com o risco, da&iacute; resultante, de ser mal entendida, de ser exclu&iacute;da da vida &eacute;tica e, em todo o caso, de impedir a sua correcta valoriza&ccedil;&atilde;o. Nos &acirc;mbitos social, jur&iacute;dico, cultural, pol&iacute;tico e econ&oacute;mico, ou seja, nos contextos mais expostos a tal perigo, n&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil ouvir declarar a sua irrelev&acirc;ncia para interpretar e orientar as responsabilidades morais. Daqui a necessidade de conjugar a caridade com a verdade, n&atilde;o s&oacute; na direc&ccedil;&atilde;o assinalada por S. Paulo da &laquo;veritas in caritate&raquo; (Ef 4, 15), mas tamb&eacute;m na direc&ccedil;&atilde;o inversa e complementar da &laquo;caritas in veritate&raquo;. A verdade h&aacute;-de ser procurada, encontrada e expressa na &laquo;economia&raquo; da caridade, mas esta, por sua vez, h&aacute;-de ser compreendida, avaliada e praticada sob a luz da verdade. Deste modo teremos n&atilde;o apenas prestado um servi&ccedil;o &agrave; caridade, iluminada pela verdade, mas tamb&eacute;m contribu&iacute;do para tornar cred&iacute;vel a verdade, mostrando o seu poder de autentica&ccedil;&atilde;o e persuas&atilde;o na vida social concreta. Facto este que se deve ter muito em conta hoje, num contexto social e cultural que relativiza a verdade, aparecendo muitas vezes negligente sen&atilde;o mesmo refract&aacute;rio &agrave; mesma.<\/p>\n<p>3. Pela sua estreita liga&ccedil;&atilde;o com a verdade, a caridade pode ser reconhecida como express&atilde;o aut&ecirc;ntica de humanidade e como elemento de import&acirc;ncia fundamental nas rela&ccedil;&otilde;es humanas, nomeadamente de natureza p&uacute;blica. S&oacute; na verdade &eacute; que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida. A verdade &eacute; luz que d&aacute; sentido e valor &agrave; caridade. Esta luz &eacute; simultaneamente a luz da raz&atilde;o e a da f&eacute;, atrav&eacute;s das quais a intelig&ecirc;ncia chega &agrave; verdade natural e sobrenatural da caridade: identifica o seu significado de doa&ccedil;&atilde;o, acolhimento e comunh&atilde;o. Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um inv&oacute;lucro vazio, que se pode encher arbitrariamente. &Eacute; o risco fatal do amor numa cultura sem verdade; acaba prisioneiro das emo&ccedil;&otilde;es e opini&otilde;es contingentes dos indiv&iacute;duos, uma palavra abusada e adulterada, chegando a significar o oposto do que &eacute; realmente. A verdade liberta a caridade dos estrangulamentos do emotivismo, que a despoja de conte&uacute;dos relacionais e sociais, e do fide&iacute;smo, que a priva de amplitude humana e universal. Na verdade, a caridade reflecte a dimens&atilde;o simultaneamente pessoal e p&uacute;blica da f&eacute; no Deus b&iacute;blico, que &eacute; conjuntamente &laquo;Ag&aacute;pe&raquo; e &laquo;L&oacute;gos&raquo;: Caridade e Verdade, Amor e Palavra.<\/p>\n<p>4. Porque repleta de verdade, a caridade pode ser compreendida pelo homem na sua riqueza de valores, partilhada e comunicada. Com efeito, a verdade &eacute; &laquo;l&oacute;gos&raquo; que cria &laquo;di&aacute;-logos&raquo; e, consequentemente, comunica&ccedil;&atilde;o e comunh&atilde;o. A verdade, fazendo sair os homens das opini&otilde;es e sensa&ccedil;&otilde;es subjectivas, permite-lhes ultrapassar determina&ccedil;&otilde;es culturais e hist&oacute;ricas para se encontrarem na avalia&ccedil;&atilde;o do valor e subst&acirc;ncia das coisas. A verdade abre e une as intelig&ecirc;ncias no l&oacute;gos do amor: tal &eacute; o an&uacute;ncio e o testemunho crist&atilde;o da caridade. No actual contexto social e cultural, em que aparece generalizada a tend&ecirc;ncia de relativizar a verdade, viver a caridade na verdade leva a compreender que a ades&atilde;o aos valores do cristianismo &eacute; um elemento &uacute;til e mesmo indispens&aacute;vel para a constru&ccedil;&atilde;o duma boa sociedade e dum verdadeiro desenvolvimento humano integral. Um cristianismo de caridade sem verdade pode ser facilmente confundido com uma reserva de bons sentimentos, &uacute;teis para a conviv&ecirc;ncia social mas marginais. Deste modo, deixaria de haver verdadeira e propriamente lugar para Deus no mundo. Sem a verdade, a caridade acaba confinada num &acirc;mbito restrito e carecido de rela&ccedil;&otilde;es; fica exclu&iacute;da dos projectos e processos de constru&ccedil;&atilde;o dum desenvolvimento humano de alcance universal, no di&aacute;logo entre o saber e a realiza&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica.<\/p>\n<p>5. A caridade &eacute; amor recebido e dado; &eacute; &laquo;gra&ccedil;a&raquo; (ch&aacute;ris). A sua nascente &eacute; o amor fontal do Pai pelo Filho no Esp&iacute;rito Santo. &Eacute; amor que, pelo Filho, desce sobre n&oacute;s. &Eacute; amor criador, pelo qual existimos; amor redentor, pelo qual somos recriados. Amor revelado e vivido por Cristo (cf. Jo 13, 1), &eacute; &laquo;derramado em nossos cora&ccedil;&otilde;es pelo Esp&iacute;rito Santo&raquo; (Rm 5, 5). Destinat&aacute;rios do amor de Deus, os homens s&atilde;o constitu&iacute;dos sujeitos de caridade, chamados a fazerem-se eles mesmos instrumentos da gra&ccedil;a, para difundir a caridade de Deus e tecer redes de caridade.<\/p>\n<p>A esta din&acirc;mica de caridade recebida e dada, prop&otilde;e-se dar resposta a doutrina social da Igreja. Tal doutrina &eacute; &laquo;caritas in veritate in re sociali&raquo;, ou seja, proclama&ccedil;&atilde;o da verdade do amor de Cristo na sociedade; &eacute; servi&ccedil;o da caridade, mas na verdade. Esta preserva e exprime a for&ccedil;a libertadora da caridade nas vicissitudes sempre novas da hist&oacute;ria. &Eacute; ao mesmo tempo verdade da f&eacute; e da raz&atilde;o, na distin&ccedil;&atilde;o e, conjuntamente, sinergia destes dois &acirc;mbitos cognitivos. O desenvolvimento, o bem-estar social, uma solu&ccedil;&atilde;o adequada dos graves problemas s&oacute;cio-econ&oacute;micos que afligem a humanidade precisam desta verdade. Mais ainda, necessitam que tal verdade seja amada e testemunhada. Sem verdade, sem confian&ccedil;a e amor pelo que &eacute; verdadeiro, n&atilde;o h&aacute; consci&ecirc;ncia e responsabilidade social, e a actividade social acaba &agrave; merc&ecirc; de interesses privados e l&oacute;gicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo numa sociedade em vias de globaliza&ccedil;&atilde;o que atravessa momentos dif&iacute;ceis como os actuais.<\/p>\n<p>6. &laquo;Caritas in veritate&raquo; &eacute; um princ&iacute;pio &agrave; volta do qual gira a doutrina social da Igreja, princ&iacute;pio que ganha forma operativa em crit&eacute;rios orientadores da ac&ccedil;&atilde;o moral. Destes, desejo lembrar dois em particular, requeridos especialmente pelo compromisso em prol do desenvolvimento numa sociedade em vias de globaliza&ccedil;&atilde;o: a justi&ccedil;a e o bem comum.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a justi&ccedil;a. Ubi societas, ibi ius: cada sociedade elabora um sistema pr&oacute;prio de justi&ccedil;a. A caridade supera a justi&ccedil;a, porque amar &eacute; dar, oferecer ao outro do que &eacute; &laquo;meu&raquo;; mas nunca existe sem a justi&ccedil;a, que induz a dar ao outro o que &eacute; &laquo;dele&raquo;, o que lhe pertence em raz&atilde;o do seu ser e do seu agir. N&atilde;o posso &laquo;dar&raquo; ao outro do que &eacute; meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justi&ccedil;a. Quem ama os outros com caridade &eacute;, antes de mais nada, justo para com eles. A justi&ccedil;a n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o &eacute; alheia &agrave; caridade, n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o &eacute; um caminho alternativo ou paralelo &agrave; caridade, mas &eacute; &laquo;insepar&aacute;vel da caridade&raquo;[1], &eacute;-lhe intr&iacute;nseca. A justi&ccedil;a &eacute; o primeiro caminho da caridade ou, como chegou a dizer Paulo VI, &laquo;a medida m&iacute;nima&raquo; dela[2], parte integrante daquele amor &laquo;por ac&ccedil;&otilde;es e em verdade&raquo; (1 Jo 3, 18) a que nos exorta o ap&oacute;stolo Jo&atilde;o. Por um lado, a caridade exige a justi&ccedil;a: o reconhecimento e o respeito dos leg&iacute;timos direitos dos indiv&iacute;duos e dos povos. Aquela empenha-se na constru&ccedil;&atilde;o da &laquo;cidade do homem&raquo; segundo o direito e a justi&ccedil;a. Por outro, a caridade supera a justi&ccedil;a e completa-a com a l&oacute;gica do dom e do perd&atilde;o[3]. A &laquo;cidade do homem&raquo; n&atilde;o se move apenas por rela&ccedil;&otilde;es feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por rela&ccedil;&otilde;es de gratuidade, miseric&oacute;rdia e comunh&atilde;o. A caridade manifesta sempre, mesmo nas rela&ccedil;&otilde;es humanas, o amor de Deus; d&aacute; valor teologal e salv&iacute;fico a todo o empenho de justi&ccedil;a no mundo.<\/p>\n<p>7. Depois, &eacute; preciso ter em grande considera&ccedil;&atilde;o o bem comum. Amar algu&eacute;m &eacute; querer o seu bem e trabalhar eficazmente pelo mesmo. Ao lado do bem individual, existe um bem ligado &agrave; vida social das pessoas: o bem comum. &Eacute; o bem daquele &laquo;n&oacute;s-todos&raquo;, formado por indiv&iacute;duos, fam&iacute;lias e grupos interm&eacute;dios que se unem em comunidade social[4]. N&atilde;o &eacute; um bem procurado por si mesmo, mas para as pessoas que fazem parte da comunidade social e que, s&oacute; nela, podem realmente e com maior efic&aacute;cia obter o pr&oacute;prio bem. Querer o bem comum e trabalhar por ele &eacute; exig&ecirc;ncia de justi&ccedil;a e de caridade. Comprometer-se pelo bem comum &eacute;, por um lado, cuidar e, por outro, valer-se daquele conjunto de institui&ccedil;&otilde;es que estruturam jur&iacute;dica, civil, pol&iacute;tica e culturalmente a vida social, que deste modo toma a forma de p&oacute;lis, cidade. Ama-se tanto mais eficazmente o pr&oacute;ximo, quanto mais se trabalha em prol de um bem comum que d&ecirc; resposta tamb&eacute;m &agrave;s suas necessidade reais. Todo o crist&atilde;o &eacute; chamado a esta caridade, conforme a sua voca&ccedil;&atilde;o e segundo as possibilidades que tem de incid&ecirc;ncia na p&oacute;lis. Este &eacute; o caminho institucional &#8211; podemos mesmo dizer pol&iacute;tico &#8211; da caridade, n&atilde;o menos qualificado e incisivo do que o &eacute; a caridade que vai directamente ao encontro do pr&oacute;ximo, fora das media&ccedil;&otilde;es institucionais da p&oacute;lis. Quando o empenho pelo bem comum &eacute; animado pela caridade, tem uma val&ecirc;ncia superior &agrave; do empenho simplesmente secular e pol&iacute;tico. Aquele, como todo o empenho pela justi&ccedil;a, inscreve-se no testemunho da caridade divina que, agindo no tempo, prepara o eterno. A ac&ccedil;&atilde;o do homem sobre a terra, quando &eacute; inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edifica&ccedil;&atilde;o daquela cidade universal de Deus que &eacute; a meta para onde caminha a hist&oacute;ria da fam&iacute;lia humana. Numa sociedade em vias de globaliza&ccedil;&atilde;o, o bem comum e o empenho em seu favor n&atilde;o podem deixar de assumir as dimens&otilde;es da fam&iacute;lia humana inteira, ou seja, da comunidade dos povos e das na&ccedil;&otilde;es[5], para dar forma de unidade e paz &agrave; cidade do homem e torn&aacute;-la em certa medida antecipa&ccedil;&atilde;o que prefigura a cidade de Deus sem barreiras.<\/p>\n<p>8. Ao publicar a enc&iacute;clica Populorum progressio em 1967, o meu venerado predecessor Paulo VI iluminou o grande tema do desenvolvimento dos povos com o esplendor da verdade e com a luz suave da caridade de Cristo. Afirmou que o an&uacute;ncio de Cristo &eacute; o primeiro e principal factor de desenvolvimento[6] e deixou-nos a recomenda&ccedil;&atilde;o de caminhar pela estrada do desenvolvimento com todo o nosso cora&ccedil;&atilde;o e com toda a nossa intelig&ecirc;ncia[7], ou seja, com o ardor da caridade e a sapi&ecirc;ncia da verdade. &Eacute; a verdade origin&aacute;ria do amor de Deus &#8211; gra&ccedil;a a n&oacute;s concedida &#8211; que abre ao dom a nossa vida e torna poss&iacute;vel esperar num &laquo;desenvolvimento do homem todo e de todos os homens&raquo;[8], numa passagem &laquo;de condi&ccedil;&otilde;es menos humanas a condi&ccedil;&otilde;es mais humanas&raquo;[9], que se obt&eacute;m vencendo as dificuldades que inevitavelmente se encontram ao longo do caminho.<\/p>\n<p>Passados mais de quarenta anos da publica&ccedil;&atilde;o da referida enc&iacute;clica, pretendo prestar homenagem e honrar a mem&oacute;ria do grande Pont&iacute;fice Paulo VI, retomando os seus ensinamentos sobre o desenvolvimento humano integral e colocando-me na senda pelos mesmos tra&ccedil;ada para os actualizar nos dias que correm. Este processo de actualiza&ccedil;&atilde;o teve in&iacute;cio com a enc&iacute;clica Sollicitudo rei socialis do Servo de Deus Jo&atilde;o Paulo II, que desse modo quis comemorar a Populorum progressio no vig&eacute;simo anivers&aacute;rio da sua publica&ccedil;&atilde;o. At&eacute; ent&atilde;o, semelhante comemora&ccedil;&atilde;o tinha-se reservado apenas para a Rerum novarum. Passados outros vinte anos, exprimo a minha convic&ccedil;&atilde;o de que a Populorum progressio merece ser considerada como &laquo;a Rerum novarum da &eacute;poca contempor&acirc;nea&raquo;, que ilumina o caminho da humanidade em vias de unifica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>9. O amor na verdade &#8211; caritas in veritate &#8211; &eacute; um grande desafio para a Igreja num mundo em crescente e incisiva globaliza&ccedil;&atilde;o. O risco do nosso tempo &eacute; que, &agrave; real interdepend&ecirc;ncia dos homens e dos povos, n&atilde;o corresponda a interac&ccedil;&atilde;o &eacute;tica das consci&ecirc;ncias e das intelig&ecirc;ncias, da qual possa resultar um desenvolvimento verdadeiramente humano. S&oacute; atrav&eacute;s da caridade, iluminada pela luz da raz&atilde;o e da f&eacute;, &eacute; poss&iacute;vel alcan&ccedil;ar objectivos de desenvolvimento dotados de uma val&ecirc;ncia mais humana e humanizadora. A partilha dos bens e recursos, da qual deriva o aut&ecirc;ntico desenvolvimento, n&atilde;o &eacute; assegurada pelo simples progresso t&eacute;cnico e por meras rela&ccedil;&otilde;es de conveni&ecirc;ncia, mas pelo potencial de amor que vence o mal com o bem (cf. Rm 12, 21) e abre &agrave; reciprocidade das consci&ecirc;ncias e das liberdades.<\/p>\n<p>A Igreja n&atilde;o tem solu&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas para oferecer[10] e n&atilde;o pretende &laquo;de modo algum imiscuir-se na pol&iacute;tica dos Estados&raquo;[11]; mas tem uma miss&atilde;o ao servi&ccedil;o da verdade para cumprir, em todo o tempo e conting&ecirc;ncia, a favor de uma sociedade &agrave; medida do homem, da sua dignidade, da sua voca&ccedil;&atilde;o. Sem verdade, cai-se numa vis&atilde;o empirista e c&eacute;ptica da vida, incapaz de se elevar acima da ac&ccedil;&atilde;o porque n&atilde;o est&aacute; interessada em identificar os valores &#8211; &agrave;s vezes nem sequer os significados &#8211; pelos quais julg&aacute;-la e orient&aacute;-la. A fidelidade ao homem exige a fidelidade &agrave; verdade, a &uacute;nica que &eacute; garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral. &Eacute; por isso que a Igreja a procura, anuncia incansavelmente e reconhece em todo o lado onde a mesma se apresente. Para a Igreja, esta miss&atilde;o ao servi&ccedil;o da verdade &eacute; irrenunci&aacute;vel. A sua doutrina social &eacute; um momento singular deste an&uacute;ncio: &eacute; servi&ccedil;o &agrave; verdade que liberta. Aberta &agrave; verdade, qualquer que seja o saber donde provenha, a doutrina social da Igreja acolhe-a, comp&otilde;e numa unidade os fragmentos em que frequentemente a encontra, e serve-lhe de medianeira na vida sempre nova da sociedade dos homens e dos povos[12].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CAP&Iacute;TULO I<\/p>\n<p><em>A MENSAGEM<br \/>DA POPULORUM PROGRESSIO<\/em><\/strong><\/p>\n<p>10. A releitura da Populorum progressio, mais de quarenta anos depois da sua publica&ccedil;&atilde;o, incita a permanecer fi&eacute;is &agrave; sua mensagem de caridade e de verdade, considerando-a no &acirc;mbito do magist&eacute;rio espec&iacute;fico de Paulo VI e, mais em geral, dentro da tradi&ccedil;&atilde;o da doutrina social da Igreja. Depois h&aacute; que avaliar os termos diferentes em que hoje, diversamente de ent&atilde;o, se coloca o problema do desenvolvimento. Por isso, o ponto de vista correcto &eacute; o da Tradi&ccedil;&atilde;o da f&eacute; apost&oacute;lica[13], patrim&oacute;nio antigo e novo, fora do qual a Populorum progressio seria um documento sem ra&iacute;zes e as quest&otilde;es do desenvolvimento ficariam reduzidas unicamente a dados sociol&oacute;gicos.<\/p>\n<p>11. A publica&ccedil;&atilde;o da Populorum progressio deu-se imediatamente depois da conclus&atilde;o do Conc&iacute;lio Ecum&eacute;nico Vaticano II. A pr&oacute;pria enc&iacute;clica sublinha, nos primeiros par&aacute;grafos, a sua rela&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima com o Conc&iacute;lio[14]. Vinte anos depois, era Jo&atilde;o Paulo II que destacava, na Sollicitudo rei socialis, a fecunda rela&ccedil;&atilde;o daquela enc&iacute;clica com o Conc&iacute;lio, particularmente com a constitui&ccedil;&atilde;o pastoral Gaudium et spes[15]. Desejo, tamb&eacute;m eu, lembrar aqui a import&acirc;ncia que o Conc&iacute;lio Vaticano II teve na enc&iacute;clica de Paulo VI e em todo o sucessivo magist&eacute;rio social dos Sumos Pont&iacute;fices. O Conc&iacute;lio aprofundou aquilo que desde sempre pertence &agrave; verdade da f&eacute;, ou seja, que a Igreja, estando ao servi&ccedil;o de Deus, serve o mundo em termos de amor e verdade. Foi precisamente desta perspectiva que partiu Paulo VI para nos comunicar duas grandes verdades. A primeira &eacute; que a Igreja inteira, em todo o seu ser e agir, quando anuncia, celebra e actua na caridade, tende a promover o desenvolvimento integral do homem. Ela tem um papel p&uacute;blico que n&atilde;o se esgota nas suas actividades de assist&ecirc;ncia ou de educa&ccedil;&atilde;o, mas revela todas as suas energias ao servi&ccedil;o da promo&ccedil;&atilde;o do homem e da fraternidade universal quando pode usufruir de um regime de liberdade. Em n&atilde;o poucos casos, tal liberdade v&ecirc;-se impedida por proibi&ccedil;&otilde;es e persegui&ccedil;&otilde;es; ou ent&atilde;o &eacute; limitada, quando a presen&ccedil;a p&uacute;blica da Igreja fica reduzida unicamente &agrave;s suas actividades s&oacute;cio-caritativas. A segunda verdade &eacute; que o aut&ecirc;ntico desenvolvimento do homem diz respeito unitariamente &agrave; totalidade da pessoa em todas as suas dimens&otilde;es[16]. Sem a perspectiva duma vida eterna, o progresso humano neste mundo fica privado de respiro. Fechado dentro da hist&oacute;ria, est&aacute; sujeito ao risco de reduzir-se a simples incremento do ter; deste modo, a humanidade perde a coragem de permanecer dispon&iacute;vel para os bens mais altos, para as grandes e altru&iacute;stas iniciativas solicitadas pela caridade universal. O homem n&atilde;o se desenvolve apenas com as suas pr&oacute;prias for&ccedil;as, nem o desenvolvimento &eacute; algo que se lhe possa dar simplesmente de fora. Muitas vezes, ao longo da hist&oacute;ria, pensou-se que era suficiente a cria&ccedil;&atilde;o de institui&ccedil;&otilde;es para garantir &agrave; humanidade a satisfa&ccedil;&atilde;o do direito ao desenvolvimento. Infelizmente foi depositada excessiva confian&ccedil;a em tais institui&ccedil;&otilde;es, como se estas pudessem conseguir automaticamente o objectivo desejado. Na realidade, as institui&ccedil;&otilde;es sozinhas n&atilde;o bastam, porque o desenvolvimento humano integral &eacute; primariamente voca&ccedil;&atilde;o e, por conseguinte, exige uma livre e solid&aacute;ria assun&ccedil;&atilde;o de responsabilidade por parte de todos. Al&eacute;m disso, tal desenvolvimento requer uma vis&atilde;o transcendente da pessoa, tem necessidade de Deus: sem Ele, o desenvolvimento ou &eacute; negado ou acaba confiado unicamente &agrave;s m&atilde;os do homem, que cai na presun&ccedil;&atilde;o da auto-salva&ccedil;&atilde;o e acaba por fomentar um desenvolvimento desumanizado. Ali&aacute;s, s&oacute; o encontro com Deus permite deixar de &laquo;ver no outro sempre e apenas o outro&raquo;[17], para reconhecer nele a imagem divina, chegando assim a descobrir verdadeiramente o outro e a maturar um amor que &laquo;se torna cuidado do outro e pelo outro&raquo;[18].<\/p>\n<p>12. A liga&ccedil;&atilde;o entre a Populorum progressio e o Conc&iacute;lio Vaticano II n&atilde;o representa um corte entre o magist&eacute;rio social de Paulo VI e o dos Pont&iacute;fices seus predecessores, visto que o Conc&iacute;lio constitui um aprofundamento de tal magist&eacute;rio na continuidade da vida da Igreja[19]. Neste sentido, n&atilde;o ajudam &agrave; clareza certas subdivis&otilde;es abstractas da doutrina social da Igreja, que aplicam ao ensinamento social pontif&iacute;cio categorias que lhe s&atilde;o alheias. N&atilde;o existem duas tipologias de doutrina social &#8211; uma pr&eacute;-conciliar e outra p&oacute;s-conciliar -, diversas entre si, mas um &uacute;nico ensinamento, coerente e simultaneamente sempre novo[20). &Eacute; justo evidenciar a peculiaridade de uma ou outra enc&iacute;clica, do ensinamento deste ou daquele Pont&iacute;fice, mas sem jamais perder de vista a coer&ecirc;ncia do corpus doutrinal inteiro[21]. Coer&ecirc;ncia n&atilde;o significa reclus&atilde;o num sistema, mas sobretudo fidelidade din&acirc;mica a uma luz recebida. A doutrina social da Igreja ilumina, com uma luz imut&aacute;vel, os problemas novos que v&atilde;o aparecendo[22]. Isto salvaguarda o car&aacute;cter quer permanente quer hist&oacute;rico deste &laquo;patrim&oacute;nio&raquo; doutrinal[23], o qual, com as suas caracter&iacute;sticas espec&iacute;ficas, faz parte da Tradi&ccedil;&atilde;o sempre viva da Igreja[24]. A doutrina social est&aacute; constru&iacute;da sobre o fundamento que foi transmitido pelos Ap&oacute;stolos aos Padres da Igreja e, depois, acolhido e aprofundado pelos grandes Doutores crist&atilde;os. Tal doutrina remonta, em &uacute;ltima an&aacute;lise, ao Homem novo, ao &laquo;&uacute;ltimo Ad&atilde;o que Se tornou esp&iacute;rito vivificante&raquo; (1 Cor 15, 45) e &eacute; princ&iacute;pio da caridade que &laquo;nunca acabar&aacute;&raquo; (1 Cor 13, 8). &Eacute; testemunhada pelos Santos e por quantos deram a vida por Cristo Salvador no campo da justi&ccedil;a e da paz. Nela se exprime a miss&atilde;o prof&eacute;tica que t&ecirc;m os Sumos Pont&iacute;fices de guiar apostolicamente a Igreja de Cristo e discernir as novas exig&ecirc;ncias da evangeliza&ccedil;&atilde;o. Por estas raz&otilde;es, a Populorum progressio, inserida na grande corrente da Tradi&ccedil;&atilde;o, &eacute; capaz de nos falar ainda a n&oacute;s, hoje.<\/p>\n<p>13. Al&eacute;m da sua importante liga&ccedil;&atilde;o com toda a doutrina social da Igreja, a Populorum progressio est&aacute; intimamente conexa com o magist&eacute;rio global de Paulo VI e, de modo particular, com o seu magist&eacute;rio social. De grande relevo foi, sem d&uacute;vida, o seu ensinamento social: reafirmou a exig&ecirc;ncia imprescind&iacute;vel do Evangelho para a constru&ccedil;&atilde;o da sociedade segundo a liberdade e a justi&ccedil;a, na perspectiva ideal e hist&oacute;rica de uma civiliza&ccedil;&atilde;o animada pelo amor. Paulo VI compreendeu claramente como se tinha tornado mundial a quest&atilde;o social[25] e viu a correla&ccedil;&atilde;o entre o impulso &agrave; unifica&ccedil;&atilde;o da humanidade e o ideal crist&atilde;o de uma &uacute;nica fam&iacute;lia dos povos, solid&aacute;ria na fraternidade comum. Indicou o desenvolvimento, humana e crist&atilde;mente entendido, como o cora&ccedil;&atilde;o da mensagem social crist&atilde; e prop&ocirc;s a caridade crist&atilde; como principal for&ccedil;a ao servi&ccedil;o do desenvolvimento. Movido pelo desejo de tornar o amor de Cristo plenamente vis&iacute;vel ao homem contempor&acirc;neo, Paulo VI enfrentou com firmeza importantes quest&otilde;es &eacute;ticas, sem ceder &agrave;s debilidades culturais do seu tempo.<\/p>\n<p>14. Depois, com a carta apost&oacute;lica Octogesima adveniens de 1971, Paulo VI tratou o tema do sentido da pol&iacute;tica e do perigo de vis&otilde;es ut&oacute;picas e ideol&oacute;gicas que prejudicavam a sua qualidade &eacute;tica e humana. S&atilde;o argumentos estritamente relacionados com o desenvolvimento. Infelizmente, as ideologias negativas florescem continuamente. Contra a ideologia tecnocr&aacute;tica, hoje particularmente radicada, j&aacute; Paulo VI tinha alertado[26], ciente do grande perigo que era confiar todo o processo do desenvolvimento unicamente &agrave; t&eacute;cnica, porque assim ficaria sem orienta&ccedil;&atilde;o. A t&eacute;cnica, em si mesma, &eacute; ambivalente. Se, por um lado, h&aacute; hoje quem seja propenso a confiar-lhe inteiramente tal processo de desenvolvimento, por outro, assiste-se &agrave; investida de ideologias que negam in toto a pr&oacute;pria utilidade do desenvolvimento, considerado radicalmente anti-humano e portador somente de degrada&ccedil;&atilde;o. Mas, deste modo, acaba-se por condenar n&atilde;o apenas a maneira errada e injusta como por vezes os homens orientam o progresso, mas tamb&eacute;m as descobertas cient&iacute;ficas que entretanto, se bem usadas, constituem uma oportunidade de crescimento para todos. A ideia de um mundo sem desenvolvimento exprime falta de confian&ccedil;a no homem e em Deus. Por conseguinte, &eacute; um grave erro desprezar as capacidades humanas de controlar os extravios do desenvolvimento ou mesmo ignorar que o homem est&aacute; constitutivamente inclinado para &laquo;ser mais&raquo;. Absolutizar ideologicamente o progresso t&eacute;cnico ou ent&atilde;o afagar a utopia duma humanidade reconduzida ao estado origin&aacute;rio da natureza s&atilde;o dois modos opostos de separar o progresso da sua aprecia&ccedil;&atilde;o moral e, consequentemente, da nossa responsabilidade.<\/p>\n<p>15. Outros dois documentos de Paulo VI, embora n&atilde;o estritamente ligados com a doutrina social &#8211; a enc&iacute;clica Human&aelig; vit&aelig;, de 25 de Julho de 1968, e a exorta&ccedil;&atilde;o apost&oacute;lica Evangelium nuntiandi, de 8 de Dezembro de 1975 -, s&atilde;o muito importantes para delinear o sentido plenamente humano do desenvolvimento proposto pela Igreja. Por isso &eacute; oportuno ler tamb&eacute;m estes textos em rela&ccedil;&atilde;o com a Populorum progressio.<\/p>\n<p>A enc&iacute;clica Human&aelig; vit&aelig; sublinha o significado conjuntamente unitivo e procriativo da sexualidade, pondo assim como fundamento da sociedade o casal de esposos, homem e mulher, que se acolhem reciprocamente na distin&ccedil;&atilde;o e na complementaridade; um casal, portanto, aberto &agrave; vida[27]. N&atilde;o se trata de uma moral meramente individual: a Human&aelig; vit&aelig; indica os fortes la&ccedil;os existentes entre &eacute;tica da vida e &eacute;tica social, inaugurando uma tem&aacute;tica do Magist&eacute;rio que aos poucos foi tomando corpo em v&aacute;rios documentos, sendo o mais recente a enc&iacute;clica Evangelium vit&aelig; de Jo&atilde;o Paulo II[28]. A Igreja prop&otilde;e, com vigor, esta liga&ccedil;&atilde;o entre &eacute;tica da vida e &eacute;tica social, ciente de que n&atilde;o pode &laquo;ter s&oacute;lidas bases uma sociedade que afirma valores como a dignidade da pessoa, a justi&ccedil;a e a paz, mas se contradiz radicalmente aceitando e tolerando as mais diversas formas de desprezo e viola&ccedil;&atilde;o da vida humana, sobretudo se d&eacute;bil e marginalizada&raquo;[29].<\/p>\n<p>Por sua vez, a exorta&ccedil;&atilde;o apost&oacute;lica Evangelium nuntiandi tem uma rela&ccedil;&atilde;o muito forte com o desenvolvimento, visto que &laquo;a evangeliza&ccedil;&atilde;o &#8211; escrevia Paulo VI &#8211; n&atilde;o seria completa, se n&atilde;o tomasse em considera&ccedil;&atilde;o a interpela&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca que se fazem constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social, do homem&raquo;[30]. &laquo;Entre evangeliza&ccedil;&atilde;o e promo&ccedil;&atilde;o humana &#8211; desenvolvimento, liberta&ccedil;&atilde;o &#8211; existem de facto la&ccedil;os profundos&raquo;[31]: partindo desta certeza, Paulo VI ilustrava claramente a rela&ccedil;&atilde;o entre o an&uacute;ncio de Cristo e a promo&ccedil;&atilde;o da pessoa na sociedade. O testemunho da caridade de Cristo atrav&eacute;s de obras de justi&ccedil;a, paz e desenvolvimento faz parte da evangeliza&ccedil;&atilde;o, pois a Jesus Cristo, que nos ama, interessa o homem inteiro. Sobre estes importantes ensinamentos, est&aacute; fundado o aspecto mission&aacute;rio[32] da doutrina social da Igreja como elemento essencial de evangeliza&ccedil;&atilde;o[33]. A doutrina social da Igreja &eacute; an&uacute;ncio e testemunho de f&eacute;; &eacute; instrumento e lugar imprescind&iacute;vel de educa&ccedil;&atilde;o para a mesma.<\/p>\n<p>16. Na Populorum progressio, Paulo VI quis dizer-nos, antes de mais nada, que o progresso &eacute;, na sua origem e na sua ess&ecirc;ncia, uma voca&ccedil;&atilde;o: &laquo;Nos des&iacute;gnios de Deus, cada homem &eacute; chamado a desenvolver-se, porque toda a vida &eacute; voca&ccedil;&atilde;o&raquo;[34]. &Eacute; precisamente este facto que legitima a interven&ccedil;&atilde;o da Igreja nas problem&aacute;ticas do desenvolvimento. Se este tocasse apenas aspectos t&eacute;cnicos da vida do homem, e n&atilde;o o sentido do seu caminhar na hist&oacute;ria juntamente com seus irm&atilde;os, nem a individua&ccedil;&atilde;o da meta de tal caminho, a Igreja n&atilde;o teria motivo para falar sobre ele. Mas Paulo VI, como antes dele Le&atilde;o XIII na Rerum novarum[35], estava consciente de cumprir um dever pr&oacute;prio da sua miss&atilde;o quando iluminava com a luz do Evangelho as quest&otilde;es sociais do seu tempo[36].<\/p>\n<p>Dizer que o desenvolvimento &eacute; voca&ccedil;&atilde;o equivale a reconhecer, por um lado, que o mesmo nasce de um apelo transcendente e, por outro, que &eacute; incapaz por si mesmo de atribuir-se o pr&oacute;prio significado &uacute;ltimo. N&atilde;o &eacute; sem motivo que a palavra &laquo;voca&ccedil;&atilde;o&raquo; volta a aparecer noutra passagem da enc&iacute;clica, onde se afirma: &laquo;N&atilde;o h&aacute;, portanto, verdadeiro humanismo sen&atilde;o o aberto ao Absoluto, reconhecendo uma voca&ccedil;&atilde;o que exprime a ideia exacta do que &eacute; a vida humana&raquo;[37]. Esta vis&atilde;o do desenvolvimento &eacute; o cora&ccedil;&atilde;o da Populorum progressio e motiva todas as reflex&otilde;es de Paulo VI sobre a liberdade, a verdade e a caridade no desenvolvimento. &Eacute; tamb&eacute;m a raz&atilde;o principal por que tal enc&iacute;clica ainda aparece actual nos nossos dias.<\/p>\n<p>17. A voca&ccedil;&atilde;o &eacute; um apelo que exige resposta livre e respons&aacute;vel. O desenvolvimento humano integral sup&otilde;e a liberdade respons&aacute;vel da pessoa e dos povos: nenhuma estrutura pode garantir tal desenvolvimento, prescindindo e sobrepondo-se &agrave; responsabilidade humana. Os &laquo;messianismos fascinantes, mas construtores de ilus&otilde;es&raquo;[38] fundam sempre as pr&oacute;prias propostas na nega&ccedil;&atilde;o da dimens&atilde;o transcendente do desenvolvimento, seguros de o terem inteiramente &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o. Esta falsa seguran&ccedil;a converte-se em fraqueza, porque implica a sujei&ccedil;&atilde;o do homem, reduzido &agrave; categoria de meio para o desenvolvimento, enquanto a humildade de quem acolhe uma voca&ccedil;&atilde;o se transforma em verdadeira autonomia, porque torna a pessoa livre. Paulo VI n&atilde;o tem d&uacute;vidas sobre a exist&ecirc;ncia de obst&aacute;culos e condicionamentos que refreiam o desenvolvimento, mas est&aacute; seguro tamb&eacute;m de que &laquo;cada um, sejam quais forem as influ&ecirc;ncias que sobre ele se exer&ccedil;am, permanece o art&iacute;fice principal do seu &ecirc;xito ou do seu fracasso&raquo;[39]. Esta liberdade diz respeito n&atilde;o s&oacute; ao desenvolvimento que usufru&iacute;mos, mas tamb&eacute;m &agrave;s situa&ccedil;&otilde;es de subdesenvolvimento, que n&atilde;o s&atilde;o fruto do acaso nem de uma necessidade hist&oacute;rica, mas dependem da responsabilidade humana. &Eacute; por isso que &laquo;os povos da fome se dirigem hoje, de modo dram&aacute;tico, aos povos da opul&ecirc;ncia&raquo;[40]. Tamb&eacute;m isto &eacute; voca&ccedil;&atilde;o, um apelo que homens livres dirigem a homens livres em ordem a uma assun&ccedil;&atilde;o comum de responsabilidade. Viva era, em Paulo VI, a percep&ccedil;&atilde;o da import&acirc;ncia das estruturas econ&oacute;micas e das institui&ccedil;&otilde;es, mas era igualmente clara nele a no&ccedil;&atilde;o da sua natureza de instrumentos da liberdade humana. Somente se for livre &eacute; que o desenvolvimento pode ser integralmente humano; apenas num regime de liberdade respons&aacute;vel, pode crescer de maneira adequada.<\/p>\n<p>18. Al&eacute;m de requerer a liberdade, o desenvolvimento humano integral enquanto voca&ccedil;&atilde;o exige tamb&eacute;m que se respeite a sua verdade. A voca&ccedil;&atilde;o ao progresso impele os homens a &laquo;realizar, conhecer e possuir mais, para ser mais&raquo;[41]. Mas aqui levanta-se o problema: que significa &laquo;ser mais&raquo;? A tal pergunta responde Paulo VI indicando a caracter&iacute;stica essencial do &laquo;desenvolvimento aut&ecirc;ntico&raquo;: este &laquo;deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo&raquo;[42]. Na concorr&ecirc;ncia entre as v&aacute;rias concep&ccedil;&otilde;es do homem, presentes na sociedade actual ainda mais intensamente do que na de Paulo VI, a vis&atilde;o crist&atilde; tem a peculiaridade de afirmar e justificar o valor incondicional da pessoa humana e o sentido do seu crescimento. A voca&ccedil;&atilde;o crist&atilde; ao desenvolvimento ajuda a empenhar-se na promo&ccedil;&atilde;o de todos os homens e do homem todo. Escrevia Paulo VI: &laquo;O que conta para n&oacute;s &eacute; o homem, cada homem, cada grupo de homens, at&eacute; se chegar &agrave; humanidade inteira&raquo;[43]. A f&eacute; crist&atilde; ocupa-se do desenvolvimento sem olhar a privil&eacute;gios nem posi&ccedil;&otilde;es de poder nem mesmo aos m&eacute;ritos dos crist&atilde;os &#8211; que sem d&uacute;vida existiram e existem, a par de naturais limita&ccedil;&otilde;es[44] -, mas contando apenas com Cristo, a Quem h&aacute;-de fazer refer&ecirc;ncia toda a aut&ecirc;ntica voca&ccedil;&atilde;o ao desenvolvimento humano integral. O Evangelho &eacute; elemento fundamental do desenvolvimento, porque l&aacute; Cristo, com &laquo;a pr&oacute;pria revela&ccedil;&atilde;o do mist&eacute;rio do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo&raquo;[45]. Instru&iacute;da pelo seu Senhor, a Igreja perscruta os sinais dos tempos e interpreta-os, oferecendo ao mundo &laquo;o que possui como pr&oacute;prio: uma vis&atilde;o global do homem e da humanidade&raquo;[46]. Precisamente porque Deus pronuncia o maior &laquo;sim&raquo; ao homem[47], este n&atilde;o pode deixar de se abrir &agrave; voca&ccedil;&atilde;o divina para realizar o pr&oacute;prio desenvolvimento. A verdade do desenvolvimento consiste na sua integralidade: se n&atilde;o &eacute; desenvolvimento do homem todo e de todo o homem, n&atilde;o &eacute; verdadeiro desenvolvimento. Esta &eacute; a mensagem central da Populorum progressio, v&aacute;lida hoje e sempre. O desenvolvimento humano integral no plano natural, enquanto resposta a uma voca&ccedil;&atilde;o de Deus criador[48], procura a pr&oacute;pria autentica&ccedil;&atilde;o num &laquo;humanismo transcendente, que leva [o homem] a atingir a sua maior plenitude: tal &eacute; a finalidade suprema do desenvolvimento pessoal&raquo;[49]. Portanto, a voca&ccedil;&atilde;o crist&atilde; a tal desenvolvimento compreende tanto o plano natural como o plano sobrenatural, motivo por que, &laquo;quando Deus fica eclipsado, come&ccedil;a a esmorecer a nossa capacidade de reconhecer a ordem natural, o fim e o &quot;bem&quot;&raquo;[50].<\/p>\n<p>19. Finalmente, a concep&ccedil;&atilde;o do desenvolvimento como voca&ccedil;&atilde;o inclui nele a centralidade da caridade. Paulo VI observava, na enc&iacute;clica Populorum progressio, que as causas do subdesenvolvimento n&atilde;o s&atilde;o primariamente de ordem material, convidando-nos a procur&aacute;-las noutras dimens&otilde;es do homem. Em primeiro lugar, na vontade, que muitas vezes descuida os deveres da solidariedade. Em segundo, no pensamento, que nem sempre sabe orientar convenientemente o querer; por isso, para a prossecu&ccedil;&atilde;o do desenvolvimento, servem &laquo;pensadores capazes de reflex&atilde;o profunda, em busca de um humanismo novo, que permita ao homem moderno o encontro de si mesmo&raquo;[51]. E n&atilde;o &eacute; tudo; o subdesenvolvimento tem uma causa ainda mais importante do que a car&ecirc;ncia de pensamento: &eacute; &laquo;a falta de fraternidade entre os homens e entre os povos&raquo;[52]. Esta fraternidade poder&aacute; um dia ser obtida pelos homens simplesmente com as suas for&ccedil;as? A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas n&atilde;o nos faz irm&atilde;os. A raz&atilde;o, por si s&oacute;, &eacute; capaz de ver a igualdade entre os homens e estabelecer uma conviv&ecirc;ncia c&iacute;vica entre eles, mas n&atilde;o consegue fundar a fraternidade. Esta tem origem numa voca&ccedil;&atilde;o transcendente de Deus Pai, que nos amou primeiro, ensinando-nos por meio do Filho o que &eacute; a caridade fraterna. Ao apresentar os v&aacute;rios n&iacute;veis do processo de desenvolvimento do homem, Paulo VI colocava no v&eacute;rtice, depois de ter mencionado a f&eacute;, &laquo;a unidade na caridade de Cristo que nos chama a todos a participar como filhos na vida do Deus vivo, Pai de todos os homens&raquo;[53].<\/p>\n<p>20. Abertas pela Populorum progressio, estas perspectivas permanecem fundamentais para dar amplitude e orienta&ccedil;&atilde;o ao nosso compromisso a favor do desenvolvimento dos povos. E a Populorum progressio sublinha repetidamente a urg&ecirc;ncia das reformas[54], pedindo para que, &agrave; vista dos grandes problemas da injusti&ccedil;a no desenvolvimento dos povos, se actue com coragem e sem demora. Esta urg&ecirc;ncia &eacute; ditada tamb&eacute;m pela caridade na verdade. &Eacute; a caridade de Cristo que nos impele: &laquo;caritas Christi urget nos&raquo; (2 Cor 5, 14). A urg&ecirc;ncia n&atilde;o est&aacute; inscrita s&oacute; nas coisas, n&atilde;o deriva apenas da r&aacute;pida sucess&atilde;o dos acontecimentos e dos problemas, mas tamb&eacute;m do que est&aacute; em jogo: a realiza&ccedil;&atilde;o de uma aut&ecirc;ntica fraternidade. A relev&acirc;ncia deste objectivo &eacute; tal que exige a nossa disponibilidade para o compreendermos profundamente e mobilizarmo-nos concretamente, com o &laquo;cora&ccedil;&atilde;o&raquo;, a fim de fazer avan&ccedil;ar os actuais processos econ&oacute;micos e sociais para metas plenamente humanas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CAP&Iacute;TULO II<\/p>\n<p><em>O DESENVOLVIMENTO HUMANO<br \/>NO NOSSO TEMPO<\/em><\/strong><\/p>\n<p>21. Paulo VI tinha uma vis&atilde;o articulada do desenvolvimento. Com o termo &laquo;desenvolvimento&raquo;, queria indicar, antes de mais nada, o objectivo de fazer sair os povos da fome, da mis&eacute;ria, das doen&ccedil;as end&eacute;micas e do analfabetismo. Isto significava, do ponto de vista econ&oacute;mico, a sua participa&ccedil;&atilde;o activa e em condi&ccedil;&otilde;es de igualdade no processo econ&oacute;mico internacional; do ponto de vista social, a sua evolu&ccedil;&atilde;o para sociedades instru&iacute;das e solid&aacute;rias; do ponto de vista pol&iacute;tico, a consolida&ccedil;&atilde;o de regimes democr&aacute;ticos capazes de assegurar a liberdade e a paz. Depois de tantos anos e enquanto contemplamos, preocupados, as evolu&ccedil;&otilde;es e as perspectivas das crises que foram sucedendo neste per&iacute;odo, interrogamo-nos at&eacute; que ponto as expectativas de Paulo VI tenham sido satisfeitas pelo modelo de desenvolvimento que foi adoptado nos &uacute;ltimos dec&eacute;nios. E reconhecemos que eram fundadas as preocupa&ccedil;&otilde;es da Igreja acerca das capacidades do homem meramente tecnol&oacute;gico conseguir impor-se objectivos realistas e saber gerir, sempre adequadamente, os instrumentos &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o. O lucro &eacute; &uacute;til se, como meio, for orientado para um fim que lhe indique o sentido e o modo como o produzir e utilizar. O objectivo exclusivo de lucro, quando mal produzido e sem ter como fim &uacute;ltimo o bem comum, arrisca-se a destruir riqueza e criar pobreza. O desenvolvimento econ&oacute;mico desejado por Paulo VI devia ser capaz de produzir um crescimento real, extensivo a todos e concretamente sustent&aacute;vel. &Eacute; verdade que o desenvolvimento foi e continua a ser um factor positivo, que tirou da mis&eacute;ria milh&otilde;es de pessoas e, ultimamente, deu a muitos pa&iacute;ses a possibilidade de se tornarem actores eficazes da pol&iacute;tica internacional. Todavia h&aacute; que reconhecer que o pr&oacute;prio desenvolvimento econ&oacute;mico foi e continua a ser molestado por anomalias e problemas dram&aacute;ticos, evidenciados ainda mais pela actual situa&ccedil;&atilde;o de crise. Esta coloca-nos improrrogavelmente diante de op&ccedil;&otilde;es que dizem respeito sempre mais ao pr&oacute;prio destino do homem, o qual ali&aacute;s n&atilde;o pode prescindir da sua natureza. As for&ccedil;as t&eacute;cnicas em campo, as inter-rela&ccedil;&otilde;es a n&iacute;vel mundial, os efeitos delet&eacute;rios sobre a economia real duma actividade financeira mal utilizada e maioritariamente especulativa, os imponentes fluxos migrat&oacute;rios, com frequ&ecirc;ncia provocados e depois n&atilde;o geridos adequadamente, a explora&ccedil;&atilde;o desregrada dos recursos da terra, induzem-nos hoje a reflectir sobre as medidas necess&aacute;rias para dar solu&ccedil;&atilde;o a problemas que s&atilde;o n&atilde;o apenas novos relativamente aos enfrentados pelo Papa Paulo VI, mas tamb&eacute;m e sobretudo com impacto decisivo no bem presente e futuro da humanidade. Os aspectos da crise e das suas solu&ccedil;&otilde;es bem como de um poss&iacute;vel novo desenvolvimento futuro est&atilde;o cada vez mais interdependentes, implicam-se reciprocamente, requerem novos esfor&ccedil;os de enquadramento global e uma nova s&iacute;ntese humanista. A complexidade e gravidade da situa&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica actual preocupa-nos, com toda a justi&ccedil;a, mas devemos assumir com realismo, confian&ccedil;a e esperan&ccedil;a as novas responsabilidades a que nos chama o cen&aacute;rio de um mundo que tem necessidade duma renova&ccedil;&atilde;o cultural profunda e da redescoberta de valores fundamentais para construir sobre eles um futuro melhor. A crise obriga-nos a projectar de novo o nosso caminho, a impor-nos regras novas e encontrar novas formas de empenhamento, a apostar em experi&ecirc;ncias positivas e rejeitar as negativas. Assim, a crise torna-se ocasi&atilde;o de discernimento e elabora&ccedil;&atilde;o de nova planifica&ccedil;&atilde;o. Com esta chave, feita mais de confian&ccedil;a que resigna&ccedil;&atilde;o, conv&eacute;m enfrentar as dificuldades da hora actual.<\/p>\n<p>22. Actualmente, o quadro do desenvolvimento &eacute; polic&ecirc;ntrico. Os actores e as causas tanto do subdesenvolvimento como do desenvolvimento s&atilde;o m&uacute;ltiplos, as culpas e os m&eacute;ritos s&atilde;o diferenciados. Este dado deveria induzir a libertar-se das ideologias que simplificam, de forma frequentemente artificiosa, a realidade, e levar a examinar com objectividade a espessura humana dos problemas. Hoje, a linha de demarca&ccedil;&atilde;o entre pa&iacute;ses ricos e pobres j&aacute; n&atilde;o &eacute; t&atilde;o n&iacute;tida como nos tempos da Populorum progressio, como ali&aacute;s foi assinalado por Jo&atilde;o Paulo II[55]. Cresce a riqueza mundial em termos absolutos, mas aumentam as desigualdades. Nos pa&iacute;ses ricos, novas categorias sociais empobrecem e nascem novas pobrezas. Em &aacute;reas mais pobres, alguns grupos gozam duma esp&eacute;cie de super-desenvolvimento dissipador e consumista que contrasta, de modo inadmiss&iacute;vel, com perdur&aacute;veis situa&ccedil;&otilde;es de mis&eacute;ria desumanizadora. Continua &laquo;o esc&acirc;ndalo de despropor&ccedil;&otilde;es revoltantes&raquo;[56]. Infelizmente a corrup&ccedil;&atilde;o e a ilegalidade est&atilde;o presentes tanto no comportamento de sujeitos econ&oacute;micos e pol&iacute;ticos dos pa&iacute;ses ricos, antigos e novos, como nos pr&oacute;prios pa&iacute;ses pobres. No n&uacute;mero de quantos n&atilde;o respeitam os direitos humanos dos trabalhadores, contam-se &agrave;s vezes grandes empresas transnacionais e tamb&eacute;m grupos de produ&ccedil;&atilde;o local. As ajudas internacionais foram muitas vezes desviadas das suas finalidades, por irresponsabilidades que se escondem tanto na cadeia dos sujeitos doadores como na dos benefici&aacute;rios. Tamb&eacute;m no &acirc;mbito das causas imateriais ou culturais do desenvolvimento e do subdesenvolvimento podemos encontrar a mesma articula&ccedil;&atilde;o de responsabilidades: existem formas excessivas de protec&ccedil;&atilde;o do conhecimento por parte dos pa&iacute;ses ricos, atrav&eacute;s duma utiliza&ccedil;&atilde;o demasiado r&iacute;gida do direito de propriedade intelectual, especialmente no campo sanit&aacute;rio; ao mesmo tempo, em alguns pa&iacute;ses pobres, persistem modelos culturais e normas sociais de comportamento que retardam o processo de desenvolvimento.<\/p>\n<p>23. Temos hoje muitas &aacute;reas do globo que &#8211; de forma por vezes problem&aacute;tica e n&atilde;o homog&eacute;nea &#8211; evolu&iacute;ram, entrando na categoria das grandes pot&ecirc;ncias destinadas a jogar um papel importante no futuro. Contudo h&aacute; que sublinhar que n&atilde;o &eacute; suficiente progredir do ponto de vista econ&oacute;mico e tecnol&oacute;gico; &eacute; preciso que o desenvolvimento seja, antes de mais nada, verdadeiro e integral. A sa&iacute;da do atraso econ&oacute;mico &#8211; um dado em si mesmo positivo &#8211; n&atilde;o resolve a complexa problem&aacute;tica da promo&ccedil;&atilde;o do homem, nem nos pa&iacute;ses protagonistas de tais avan&ccedil;os, nem nos pa&iacute;ses economicamente j&aacute; desenvolvidos, nem nos pa&iacute;ses ainda pobres que, al&eacute;m das antigas formas de explora&ccedil;&atilde;o, podem vir a sofrer tamb&eacute;m as consequ&ecirc;ncias negativas derivadas de um crescimento marcado por desvios e desequil&iacute;brios.<\/p>\n<p>Depois da queda dos sistemas econ&oacute;micos e pol&iacute;ticos dos pa&iacute;ses comunistas da Europa Oriental e do fim dos chamados &laquo;blocos contrapostos&raquo;, havia necessidade duma revis&atilde;o global do desenvolvimento. Pedira-o Jo&atilde;o Paulo II, que em 1987 tinha indicado a exist&ecirc;ncia destes &laquo;blocos&raquo; como uma das principais causas do subdesenvolvimento[57], enquanto a pol&iacute;tica subtra&iacute;a recursos &agrave; economia e &agrave; cultura e a ideologia inibia a liberdade. Em 1991, na sequ&ecirc;ncia dos acontecimentos do ano 1989, o Pont&iacute;fice pediu que o fim dos &laquo;blocos&raquo; fosse seguido por uma nova planifica&ccedil;&atilde;o global do desenvolvimento, n&atilde;o s&oacute; em tais pa&iacute;ses, mas tamb&eacute;m no Ocidente e nas regi&otilde;es do mundo que estavam a evoluir[58]. Isto, por&eacute;m, realizou-se apenas parcialmente, continuando a ser uma obriga&ccedil;&atilde;o real que precisa de ser satisfeita, talvez aproveitando-se precisamente das op&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias para superar os problemas econ&oacute;micos actuais.<\/p>\n<p>24. O mundo que Paulo VI tinha diante dos olhos registava muito menor integra&ccedil;&atilde;o do que hoje, embora o processo de sociabiliza&ccedil;&atilde;o se apresentasse j&aacute; t&atilde;o adiantado que ele p&ocirc;de falar de uma quest&atilde;o social tornada mundial. Actividade econ&oacute;mica e fun&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica desenrolavam-se em grande parte dentro do mesmo &acirc;mbito local e, por conseguinte, podiam inspirar rec&iacute;proca confian&ccedil;a. A actividade produtiva tinha lugar prevalentemente dentro das fronteiras nacionais e os investimentos financeiros tinham uma circula&ccedil;&atilde;o bastante limitada para o estrangeiro, de tal modo que a pol&iacute;tica de muitos Estados podia ainda fixar as prioridades da economia e, de alguma maneira, governar o seu andamento com os instrumentos de que ainda dispunha. Por este motivo, a Populorum progressio atribu&iacute;a um papel central, embora n&atilde;o exclusivo, aos &laquo;poderes p&uacute;blicos&raquo;[59].<\/p>\n<p>Actualmente, o Estado encontra-se na situa&ccedil;&atilde;o de ter de enfrentar as limita&ccedil;&otilde;es impostas &agrave; sua soberania pelo novo contexto econ&oacute;mico, comercial e financeiro internacional, caracterizado nomeadamente por uma crescente mobilidade dos capitais financeiros e dos meios de produ&ccedil;&atilde;o materiais e imateriais. Este novo contexto alterou o poder pol&iacute;tico dos Estados.<\/p>\n<p>Hoje, aproveitando inclusivamente a li&ccedil;&atilde;o resultante da crise econ&oacute;mica em curso que v&ecirc; os poderes p&uacute;blicos do Estado directamente empenhados a corrigir erros e disfun&ccedil;&otilde;es, parece mais realista uma renovada avalia&ccedil;&atilde;o do seu papel e poder, que h&atilde;o-de ser sapientemente reconsiderados e reavaliados para se tornarem capazes, mesmo atrav&eacute;s de novas modalidades de exerc&iacute;cio, de fazer frente aos desafios do mundo actual. Com uma melhor defini&ccedil;&atilde;o do papel dos poderes p&uacute;blicos, &eacute; previs&iacute;vel que sejam refor&ccedil;adas as novas formas de participa&ccedil;&atilde;o na pol&iacute;tica nacional e internacional que se realizam atrav&eacute;s da ac&ccedil;&atilde;o das organiza&ccedil;&otilde;es operantes na sociedade civil; nesta linha, &eacute; desej&aacute;vel que cres&ccedil;am uma aten&ccedil;&atilde;o e uma participa&ccedil;&atilde;o mais sentidas na res publica por parte dos cidad&atilde;os.<\/p>\n<p>25. Do ponto de vista social, os sistemas de seguran&ccedil;a e previd&ecirc;ncia &#8211; j&aacute; presentes em muitos pa&iacute;ses nos tempos de Paulo VI &#8211; sentem dificuldade, e poder&atilde;o senti-la ainda mais no futuro, em alcan&ccedil;ar os seus objectivos de verdadeira justi&ccedil;a social dentro de um quadro de for&ccedil;as profundamente alterado. O mercado, &agrave; medida que se foi tornando global, estimulou antes de mais nada, por parte dos pa&iacute;ses ricos, a busca de &aacute;reas para onde deslocar as actividades produtivas a baixo custo, a fim de reduzir os pre&ccedil;os de muitos bens, aumentar o poder de compra e deste modo acelerar o &iacute;ndice de desenvolvimento centrado sobre um maior consumo pelo pr&oacute;prio mercado interno. Consequentemente, o mercado motivou novas formas de competi&ccedil;&atilde;o entre Estados, procurando atrair centros produtivos de empresas estrangeiras atrav&eacute;s de variados instrumentos, tais como impostos favor&aacute;veis e a desregulamenta&ccedil;&atilde;o do mundo do trabalho. Estes processos implicaram a redu&ccedil;&atilde;o das redes de seguran&ccedil;a social em troca de maiores vantagens competitivas no mercado global, acarretando grave perigo para os direitos dos trabalhadores, os direitos fundamentais do homem e a solidariedade realizada pelas formas tradicionais do Estado social. Os sistemas de seguran&ccedil;a social podem perder a capacidade de desempenhar a sua fun&ccedil;&atilde;o, quer nos pa&iacute;ses emergentes, quer nos desenvolvidos h&aacute; mais tempo, quer naturalmente nos pa&iacute;ses pobres. Aqui, as pol&iacute;ticas relativas ao or&ccedil;amento, com os seus cortes na despesa social, muitas vezes fomentados pelas pr&oacute;prias institui&ccedil;&otilde;es financeiras internacionais, podem deixar os cidad&atilde;os impotentes diante de riscos antigos e novos; e tal impot&ecirc;ncia torna-se ainda maior devido &agrave; falta de protec&ccedil;&atilde;o eficaz por parte das associa&ccedil;&otilde;es dos trabalhadores. O conjunto das mudan&ccedil;as sociais e econ&oacute;micas faz com que as organiza&ccedil;&otilde;es sindicais sintam maiores dificuldades no desempenho do seu dever de representar os interesses dos trabalhadores, inclusive pelo facto de os governos, por raz&otilde;es de utilidade econ&oacute;mica, muitas vezes limitarem as liberdades sindicais ou a capacidade negociadora dos pr&oacute;prios sindicatos. Assim, as redes tradicionais de solidariedade encontram obst&aacute;culos cada vez maiores a superar. Por isso, o convite feito pela doutrina social da Igreja, a come&ccedil;ar da Rerum novarum[60], para se criarem associa&ccedil;&otilde;es de trabalhadores em defesa dos seus direitos h&aacute;-de ser honrado, hoje ainda mais do que ontem, dando antes de mais nada uma resposta pronta e clarividente &agrave; urg&ecirc;ncia de instaurar novas sinergias a n&iacute;vel internacional, sem descurar o n&iacute;vel local.<\/p>\n<p>A mobilidade laboral, associada &agrave; generalizada desregulamenta&ccedil;&atilde;o, constituiu um fen&oacute;meno importante, n&atilde;o desprovido de aspectos positivos porque capaz de estimular a produ&ccedil;&atilde;o de nova riqueza e o interc&acirc;mbio entre culturas diversas. Todavia, quando se torna end&eacute;mica a incerteza sobre as condi&ccedil;&otilde;es de trabalho, resultante dos processos de mobilidade e desregulamenta&ccedil;&atilde;o, geram-se formas de instabilidade psicol&oacute;gica, com dificuldade em construir percursos coerentes na pr&oacute;pria vida, incluindo o percurso rumo ao matrim&oacute;nio. Consequ&ecirc;ncia disto &eacute; o aparecimento de situa&ccedil;&otilde;es de degrada&ccedil;&atilde;o humana, al&eacute;m de desperd&iacute;cio de for&ccedil;a social. Comparado com o que sucedia na sociedade industrial do passado, hoje o desemprego provoca aspectos novos de irrelev&acirc;ncia econ&oacute;mica do indiv&iacute;duo, e a crise actual pode apenas piorar tal situa&ccedil;&atilde;o. A exclus&atilde;o do trabalho por muito tempo ou ent&atilde;o uma prolongada depend&ecirc;ncia da assist&ecirc;ncia p&uacute;blica ou privada corroem a liberdade e a criatividade da pessoa e as suas rela&ccedil;&otilde;es familiares e sociais, causando enormes sofrimentos a n&iacute;vel psicol&oacute;gico e espiritual. Queria recordar a todos, sobretudo aos governantes que est&atilde;o empenhados em dar um perfil renovado aos sistemas econ&oacute;micos e sociais do mundo, que o primeiro capital a preservar e valorizar &eacute; o homem, a pessoa, na sua integridade: &laquo;com efeito, o homem &eacute; o protagonista, o centro e o fim de toda a vida econ&oacute;mico-social&raquo;[61].<\/p>\n<p>26. No plano cultural, as diferen&ccedil;as, relativamente aos tempos de Paulo VI, s&atilde;o ainda mais acentuadas. Ent&atilde;o, as culturas apresentavam-se bastante bem definidas e tinham maiores possibilidades de se defenderem das tentativas de homogeneiza&ccedil;&atilde;o cultural. Hoje, cresceram notavelmente as possibilidades de interac&ccedil;&atilde;o das culturas, dando espa&ccedil;o a novas perspectivas de di&aacute;logo intercultural; um di&aacute;logo que, para ser eficaz, deve ter como ponto de partida uma profunda no&ccedil;&atilde;o da espec&iacute;fica identidade dos v&aacute;rios interlocutores. No entanto, n&atilde;o se deve descurar o facto de que esta aumentada transac&ccedil;&atilde;o de interc&acirc;mbios culturais traz consigo, actualmente, um duplo perigo. Em primeiro lugar, nota-se um ecletismo cultural assumido muitas vezes sem discernimento: as culturas s&atilde;o simplesmente postas lado a lado e vistas como substancialmente equivalentes e intercambi&aacute;veis umas com as outras. Isto favorece a ced&ecirc;ncia a um relativismo que n&atilde;o ajuda ao verdadeiro di&aacute;logo intercultural; no plano social, o relativismo cultural faz com que os grupos culturais se juntem ou convivam, mas separados, sem aut&ecirc;ntico di&aacute;logo e, consequentemente, sem verdadeira integra&ccedil;&atilde;o. Depois, temos o perigo oposto que &eacute; constitu&iacute;do pelo nivelamento cultural e a homogeneiza&ccedil;&atilde;o dos comportamentos e estilos de vida. Assim perde-se o significado profundo da cultura das diversas na&ccedil;&otilde;es, das tradi&ccedil;&otilde;es dos v&aacute;rios povos, no &acirc;mbito das quais a pessoa se confronta com as quest&otilde;es fundamentais da exist&ecirc;ncia[62]. Ecletismo e nivelamento cultural convergem no facto de separar a cultura da natureza humana. Assim, as culturas deixam de saber encontrar a sua medida numa natureza que as transcende[63], acabando por reduzir o homem a simples dado cultural. Quando isto acontece, a humanidade corre novos perigos de servid&atilde;o e manipula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>27. Em muitos pa&iacute;ses pobres, continua &#8211; com risco de aumentar &#8211; uma inseguran&ccedil;a extrema de vida, que deriva da car&ecirc;ncia de alimenta&ccedil;&atilde;o: a fome ceifa ainda in&uacute;meras v&iacute;timas entre os muitos L&aacute;zaros, a quem n&atilde;o &eacute; permitido &#8211; como esperara Paulo VI &#8211; sentar-se &agrave; mesa do rico avarento[64]. Dar de comer aos famintos (cf. Mt 25, 35.37.42) &eacute; um imperativo &eacute;tico para toda a Igreja, que &eacute; resposta aos ensinamentos de solidariedade e partilha do seu Fundador, o Senhor Jesus. Al&eacute;m disso, eliminar a fome no mundo tornou-se, na era da globaliza&ccedil;&atilde;o, tamb&eacute;m um objectivo a alcan&ccedil;ar para preservar a paz e a subsist&ecirc;ncia da terra. A fome n&atilde;o depende tanto de uma escassez material, como sobretudo da escassez de recursos sociais, o mais importante dos quais &eacute; de natureza institucional; isto &eacute;, falta um sistema de institui&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas que seja capaz de garantir um acesso regular e adequado, do ponto de vista nutricional, &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o e &agrave; &aacute;gua e tamb&eacute;m de enfrentar as car&ecirc;ncias relacionadas com as necessidades prim&aacute;rias e com a emerg&ecirc;ncia de reais e verdadeiras crises alimentares provocadas por causas naturais ou pela irresponsabilidade pol&iacute;tica nacional e internacional. O problema da inseguran&ccedil;a alimentar h&aacute;-de ser enfrentado numa perspectiva a longo prazo, eliminando as causas estruturais que o provocam e promovendo o desenvolvimento agr&iacute;cola dos pa&iacute;ses mais pobres por meio de investimentos em infra-estruturas rurais, sistemas de irriga&ccedil;&atilde;o, transportes, organiza&ccedil;&atilde;o dos mercados, forma&ccedil;&atilde;o e difus&atilde;o de t&eacute;cnicas agr&iacute;colas apropriadas, isto &eacute;, capazes de utilizar o melhor poss&iacute;vel os recursos humanos, naturais e s&oacute;cio-econ&oacute;micos mais acess&iacute;veis a n&iacute;vel local, para garantir a sua manuten&ccedil;&atilde;o a longo prazo. Tudo isto h&aacute;-de ser realizado, envolvendo as comunidades locais nas op&ccedil;&otilde;es e nas decis&otilde;es relativas ao uso da terra cultiv&aacute;vel. Nesta perspectiva, poderia revelar-se &uacute;til considerar as novas fronteiras abertas por um correcto emprego das t&eacute;cnicas de produ&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola, tanto as tradicionais como as inovadoras, desde que as mesmas tenham sido, depois de adequada verifica&ccedil;&atilde;o, reconhecidas oportunas, respeitadoras do ambiente e tendo em conta as popula&ccedil;&otilde;es mais desfavorecidas. Ao mesmo tempo, n&atilde;o deveria ser transcurada a quest&atilde;o de uma equitativa reforma agr&aacute;ria nos pa&iacute;ses em vias de desenvolvimento. Os direitos &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o e &agrave; &aacute;gua revestem um papel importante para a consecu&ccedil;&atilde;o de outros direitos, a come&ccedil;ar pelo direito prim&aacute;rio &agrave; vida. Por isso, &eacute; necess&aacute;rio a matura&ccedil;&atilde;o duma consci&ecirc;ncia solid&aacute;ria que considere a alimenta&ccedil;&atilde;o e o acesso &agrave; &aacute;gua como direitos universais de todos os seres humanos, sem distin&ccedil;&otilde;es nem discrimina&ccedil;&otilde;es[65]. Al&eacute;m disso, &eacute; importante p&ocirc;r em evid&ecirc;ncia que o caminho da solidariedade com o desenvolvimento dos pa&iacute;ses pobres pode constituir um projecto de solu&ccedil;&atilde;o para a presente crise global, como homens pol&iacute;ticos e respons&aacute;veis de institui&ccedil;&otilde;es internacionais t&ecirc;m intu&iacute;do nos &uacute;ltimos tempos. Sustentando, atrav&eacute;s de planos de financiamento inspirados pela solidariedade, os pa&iacute;ses economicamente pobres, para que provejam eles mesmos &agrave; satisfa&ccedil;&atilde;o das solicita&ccedil;&otilde;es de bens de consumo e de desenvolvimento dos pr&oacute;prios cidad&atilde;os, &eacute; poss&iacute;vel n&atilde;o apenas gerar verdadeiro crescimento econ&oacute;mico mas tamb&eacute;m concorrer para sustentar as capacidades produtivas dos pa&iacute;ses ricos que correm o risco de ficar comprometidas pela crise.<\/p>\n<p>28. Um dos aspectos mais evidentes do desenvolvimento actual &eacute; a import&acirc;ncia do tema do respeito pela vida, que n&atilde;o pode ser de modo algum separado das quest&otilde;es relativas ao desenvolvimento dos povos. Trata-se de um aspecto que, nos &uacute;ltimos tempos, est&aacute; a assumir uma relev&acirc;ncia sempre maior, obrigando-nos a alargar os conceitos de pobreza[66] e subdesenvolvimento &agrave;s quest&otilde;es relacionadas com o acolhimento da vida, sobretudo onde o mesmo &eacute; de v&aacute;rias maneiras impedido.<\/p>\n<p>N&atilde;o s&oacute; a situa&ccedil;&atilde;o de pobreza provoca ainda altas taxas de mortalidade infantil em muitas regi&otilde;es, mas perduram tamb&eacute;m, em v&aacute;rias partes do mundo, pr&aacute;ticas de controle demogr&aacute;fico por parte dos governos, que muitas vezes difundem a contracep&ccedil;&atilde;o e chegam mesmo a impor o aborto. Nos pa&iacute;ses economicamente mais desenvolvidos, s&atilde;o muito difusas as legisla&ccedil;&otilde;es contr&aacute;rias &agrave; vida, condicionando j&aacute; o costume e a pr&aacute;xis e contribuindo para divulgar uma mentalidade anti-natalista que muitas vezes se procura transmitir a outros Estados como se fosse um progresso cultural.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m algumas organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais trabalham activamente pela difus&atilde;o do aborto, promovendo nos pa&iacute;ses pobres a adop&ccedil;&atilde;o da pr&aacute;tica da esteriliza&ccedil;&atilde;o, mesmo sem as mulheres o saberem. Al&eacute;m disso, h&aacute; a fundada suspeita de que &agrave;s vezes as pr&oacute;prias ajudas ao desenvolvimento sejam associadas com determinadas pol&iacute;ticas sanit&aacute;rias que realmente implicam a imposi&ccedil;&atilde;o de um forte controle dos nascimentos. Igualmente preocupantes s&atilde;o as legisla&ccedil;&otilde;es que prev&ecirc;em a eutan&aacute;sia e as press&otilde;es de grupos nacionais e internacionais que reivindicam o seu reconhecimento jur&iacute;dico.<\/p>\n<p>A abertura &agrave; vida est&aacute; no centro do verdadeiro desenvolvimento. Quando uma sociedade come&ccedil;a a negar e a suprimir a vida, acaba por deixar de encontrar as motiva&ccedil;&otilde;es e energias necess&aacute;rias para trabalhar ao servi&ccedil;o do verdadeiro bem do homem. Se se perde a sensibilidade pessoal e social ao acolhimento duma nova vida, definham tamb&eacute;m outras formas de acolhimento &uacute;teis &agrave; vida social[67]. O acolhimento da vida revigora as energias morais e torna-nos capazes de ajuda rec&iacute;proca. Os povos ricos, cultivando a abertura &agrave; vida, podem compreender melhor as necessidades dos pa&iacute;ses pobres, evitar o emprego de enormes recursos econ&oacute;micos e intelectuais para satisfazer desejos ego&iacute;stas dos pr&oacute;prios cidad&atilde;os e promover, ao inv&eacute;s, ac&ccedil;&otilde;es virtuosas na perspectiva duma produ&ccedil;&atilde;o moralmente sadia e solid&aacute;ria, no respeito do direito fundamental de cada povo e de cada pessoa &agrave; vida.<\/p>\n<p>29. Outro aspecto da vida actual, intimamente relacionado com o desenvolvimento, &eacute; a nega&ccedil;&atilde;o do direito &agrave; liberdade religiosa. N&atilde;o me refiro s&oacute; &agrave;s lutas e conflitos que ainda se disputam no mundo por motiva&ccedil;&otilde;es religiosas, embora estas &agrave;s vezes sejam apenas a cobertura para raz&otilde;es de outro g&eacute;nero, tais como a sede de dom&iacute;nio e de riqueza. Na realidade, com frequ&ecirc;ncia hoje se faz apelo ao santo nome de Deus para matar, como diversas vezes foi sublinhado e deplorado publicamente pelo meu predecessor Jo&atilde;o Paulo II e por mim pr&oacute;prio[68]. As viol&ecirc;ncias refreiam o desenvolvimento aut&ecirc;ntico e impedem a evolu&ccedil;&atilde;o dos povos para um bem-estar s&oacute;cio-econ&oacute;mico e espiritual maior. Isto aplica-se de modo especial ao terrorismo de &iacute;ndole fundamentalista[69], que gera sofrimento, devasta&ccedil;&atilde;o e morte, bloqueia o di&aacute;logo entre as na&ccedil;&otilde;es e desvia grandes recursos do seu uso pac&iacute;fico e civil. Mas h&aacute; que acrescentar que, se o fanatismo religioso impede em alguns contextos o exerc&iacute;cio do direito de liberdade de religi&atilde;o, tamb&eacute;m a promo&ccedil;&atilde;o programada da indiferen&ccedil;a religiosa ou do ate&iacute;smo pr&aacute;tico por parte de muitos pa&iacute;ses contrasta com as necessidades do desenvolvimento dos povos, subtraindo-lhes recursos espirituais e humanos. Deus &eacute; o garante do verdadeiro desenvolvimento do homem, j&aacute; que, tendo-o criado &agrave; sua imagem, fundamenta de igual forma a sua dignidade transcendente e alimenta o seu anseio constitutivo de &laquo;ser mais&raquo;. O homem n&atilde;o &eacute; um &aacute;tomo perdido num universo casual[70], mas &eacute; uma criatura de Deus, &agrave; qual quis dar uma alma imortal e que desde sempre amou. Se o homem fosse fruto apenas do acaso ou da necessidade, se as suas aspira&ccedil;&otilde;es tivessem de reduzir-se ao horizonte restrito das situa&ccedil;&otilde;es em que vive, se tudo fosse somente hist&oacute;ria e cultura e o homem n&atilde;o tivesse uma natureza destinada a transcender-se numa vida sobrenatural, ent&atilde;o poder-se-ia falar de incremento ou de evolu&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o de desenvolvimento. Quando o Estado promove, ensina ou at&eacute; imp&otilde;e formas de ate&iacute;smo pr&aacute;tico, tira aos seus cidad&atilde;os a for&ccedil;a moral e espiritual indispens&aacute;vel para se empenharem no desenvolvimento humano integral e impede-os de avan&ccedil;arem com renovado dinamismo no pr&oacute;prio compromisso de uma resposta humana mais generosa ao amor divino[71]. Sucede tamb&eacute;m que os pa&iacute;ses economicamente desenvolvidos ou os emergentes exportem para os pa&iacute;ses pobres, no &acirc;mbito das suas rela&ccedil;&otilde;es culturais, comerciais e pol&iacute;ticas, esta vis&atilde;o redutiva da pessoa e do seu destino. &Eacute; o dano que o &laquo;super-desenvolvimento&raquo;[72] acarreta ao desenvolvimento aut&ecirc;ntico, quando &eacute; acompanhado pelo &laquo;subdesenvolvimento moral&raquo;[73].<\/p>\n<p>30. Nesta linha, o tema do desenvolvimento humano integral atinge um ponto ainda mais complexo: a correla&ccedil;&atilde;o entre os seus v&aacute;rios elementos requer que nos empenhemos por fazer interagir os diversos n&iacute;veis do saber humano tendo em vista a promo&ccedil;&atilde;o de um verdadeiro desenvolvimento dos povos. Muitas vezes pensa-se que o desenvolvimento ou as medidas s&oacute;cio-econ&oacute;micas com ele relacionadas necessitam apenas de ser postos em pr&aacute;tica como fruto de um agir comum, ignorando que este agir comum precisa de ser orientado, porque &laquo;toda a ac&ccedil;&atilde;o social implica uma doutrina&raquo;[74]. Vista a complexidade dos problemas, &eacute; &oacute;bvio que as v&aacute;rias disciplinas devem colaborar atrav&eacute;s de uma ordenada interdisciplinaridade. A caridade n&atilde;o exclui o saber, antes reclama-o, promove-o e anima-o a partir de dentro. O saber nunca &eacute; obra apenas da intelig&ecirc;ncia; pode, sem d&uacute;vida, ser reduzido a c&aacute;lculo e a experi&ecirc;ncia, mas se quer ser sapi&ecirc;ncia capaz de orientar o homem &agrave; luz dos princ&iacute;pios primeiros e dos seus fins &uacute;ltimos, deve ser &laquo;temperado&raquo; com o &laquo;sal&raquo; da caridade. A ac&ccedil;&atilde;o &eacute; cega sem o saber, e este &eacute; est&eacute;ril sem o amor. De facto, &laquo;aquele que est&aacute; animado de verdadeira caridade &eacute; engenhoso em descobrir as causas da mis&eacute;ria, encontrar os meios de a combater e venc&ecirc;-la resolutamente&raquo;[75]. Relativamente aos fen&oacute;menos que analisamos, a caridade na verdade requer, antes de mais nada, conhecer e compreender, no respeito consciencioso da compet&ecirc;ncia espec&iacute;fica de cada n&iacute;vel do saber. A caridade n&atilde;o &eacute; uma jun&ccedil;&atilde;o posterior, como se fosse um ap&ecirc;ndice ao trabalho j&aacute; conclu&iacute;do das v&aacute;rias disciplinas, mas dialoga com elas desde o in&iacute;cio. As exig&ecirc;ncias do amor n&atilde;o contradizem as da raz&atilde;o. O saber humano &eacute; insuficiente e as conclus&otilde;es das ci&ecirc;ncias n&atilde;o poder&atilde;o sozinhas indicar o caminho para o desenvolvimento integral do homem. Sempre &eacute; preciso lan&ccedil;ar-se mais al&eacute;m: exige-o a caridade na verdade[76]. Todavia, ir mais al&eacute;m nunca significa prescindir das conclus&otilde;es da raz&atilde;o, nem contradizer os seus resultados. N&atilde;o aparece a intelig&ecirc;ncia e depois o amor: h&aacute; o amor rico de intelig&ecirc;ncia e a intelig&ecirc;ncia cheia de amor.<\/p>\n<p>31. Isto significa que as pondera&ccedil;&otilde;es morais e a pesquisa cient&iacute;fica devem crescer juntas e que a caridade as deve animar num todo interdisciplinar harm&oacute;nico, feito de unidade e distin&ccedil;&atilde;o. A doutrina social da Igreja, que tem &laquo;uma importante dimens&atilde;o interdisciplinar&raquo;[77], pode desempenhar, nesta perspectiva, uma fun&ccedil;&atilde;o de extraordin&aacute;ria efic&aacute;cia. Ela permite &agrave; f&eacute;, &agrave; teologia, &agrave; metaf&iacute;sica e &agrave;s ci&ecirc;ncias encontrarem o pr&oacute;prio lugar no &acirc;mbito de uma colabora&ccedil;&atilde;o ao servi&ccedil;o do homem; &eacute; sobretudo aqui que a doutrina social da Igreja actua a sua dimens&atilde;o sapiencial. Paulo VI tinha visto claramente que, entre as causas do subdesenvolvimento, conta-se uma car&ecirc;ncia de sabedoria, de reflex&atilde;o, de pensamento capaz de realizar uma s&iacute;ntese orientadora[78], que requer &laquo;uma vis&atilde;o clara de todos os aspectos econ&oacute;micos, sociais, culturais e espirituais&raquo;[79]. A excessiva fragmenta&ccedil;&atilde;o do saber[80], o isolamento das ci&ecirc;ncias humanas relativamente &agrave; metaf&iacute;sica[81], as dificuldades no di&aacute;logo entre as ci&ecirc;ncias e a teologia danificam n&atilde;o s&oacute; o avan&ccedil;o do saber mas tamb&eacute;m o desenvolvimento dos povos, porque, quando isso se verifica, fica obstaculizada a vis&atilde;o do bem completo do homem nas v&aacute;rias dimens&otilde;es que o caracterizam. &Eacute; indispens&aacute;vel o &laquo;alargamento do nosso conceito de raz&atilde;o e do uso da mesma&raquo;[82] para se conseguir sopesar adequadamente todos os termos da quest&atilde;o do desenvolvimento e da solu&ccedil;&atilde;o dos problemas s&oacute;cio-econ&oacute;micos.<\/p>\n<p>32. As grandes novidades, que o quadro actual do desenvolvimento dos povos apresenta, exigem em muitos casos novas solu&ccedil;&otilde;es. Estas h&atilde;o-de ser procuradas conjuntamente no respeito das leis pr&oacute;prias de cada realidade e &agrave; luz duma vis&atilde;o integral do homem, que espelhe os v&aacute;rios aspectos da pessoa humana, contemplada com o olhar purificado pela caridade. Descobrir-se-&atilde;o ent&atilde;o singulares converg&ecirc;ncias e concretas possibilidades de solu&ccedil;&atilde;o, sem renunciar a qualquer componente fundamental da vida humana.<\/p>\n<p>A dignidade da pessoa e as exig&ecirc;ncias da justi&ccedil;a requerem, sobretudo hoje, que as op&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas n&atilde;o fa&ccedil;am aumentar, de forma excessiva e moralmente inaceit&aacute;vel, as diferen&ccedil;as de riqueza[83] e que se continue a perseguir como priorit&aacute;rio o objectivo do acesso ao trabalho para todos, ou da sua manuten&ccedil;&atilde;o. Bem vistas as coisas, isto &eacute; exigido tamb&eacute;m pela &laquo;raz&atilde;o econ&oacute;mica&raquo;. O aumento sistem&aacute;tico das desigualdades entre grupos sociais no interior de um mesmo pa&iacute;s e entre as popula&ccedil;&otilde;es dos diversos pa&iacute;ses, ou seja, o aumento maci&ccedil;o da pobreza em sentido relativo, tende n&atilde;o s&oacute; a minar a coes&atilde;o social &#8211; e, por este caminho, p&otilde;e em risco a democracia -, mas tem tamb&eacute;m um impacto negativo no plano econ&oacute;mico com a progressiva corros&atilde;o do &laquo;capital social&raquo;, isto &eacute;, daquele conjunto de rela&ccedil;&otilde;es de confian&ccedil;a, de credibilidade, de respeito das regras, indispens&aacute;veis em qualquer conviv&ecirc;ncia civil.<\/p>\n<p>E &eacute; ainda a ci&ecirc;ncia econ&oacute;mica a dizer-nos que uma situa&ccedil;&atilde;o estrutural de inseguran&ccedil;a gera comportamentos anti-produtivos e de desperd&iacute;cio de recursos humanos, j&aacute; que o trabalhador tende a adaptar-se passivamente aos mecanismos autom&aacute;ticos, em vez de dar largas &agrave; criatividade. Tamb&eacute;m neste ponto se verifica uma converg&ecirc;ncia entre ci&ecirc;ncia econ&oacute;mica e pondera&ccedil;&atilde;o moral. Os custos humanos s&atilde;o sempre tamb&eacute;m custos econ&oacute;micos, e as disfun&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas acarretam sempre tamb&eacute;m custos humanos.<\/p>\n<p>H&aacute; ainda que recordar que o nivelamento das culturas &agrave; dimens&atilde;o tecnol&oacute;gica, se a curto prazo pode favorecer a obten&ccedil;&atilde;o de lucros, a longo prazo dificulta o enriquecimento rec&iacute;proco e as din&acirc;micas de coopera&ccedil;&atilde;o. &Eacute; importante distinguir entre considera&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas ou sociol&oacute;gicas a curto prazo e a longo prazo. A diminui&ccedil;&atilde;o do n&iacute;vel de tutela dos direitos dos trabalhadores ou a ren&uacute;ncia a mecanismos de redistribui&ccedil;&atilde;o do rendimento, para fazer o pa&iacute;s ganhar maior competitividade internacional, impede a afirma&ccedil;&atilde;o de um desenvolvimento de longa dura&ccedil;&atilde;o. Por isso, h&aacute; que avaliar atentamente as consequ&ecirc;ncias que podem ter sobre as pessoas as tend&ecirc;ncia actuais para uma economia a curto sen&atilde;o mesmo curt&iacute;ssimo prazo. Isto requer uma nova e profunda reflex&atilde;o sobre o sentido da economia e dos seus fins[84], bem como uma revis&atilde;o profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento, para se corrigirem as suas disfun&ccedil;&otilde;es e desvios. Na realidade, exige-o o estado de sa&uacute;de ecol&oacute;gica da terra; pede-o sobretudo a crise cultural e moral do homem, cujos sintomas s&atilde;o evidentes por toda a parte.<\/p>\n<p>33. Passados mais de quarenta anos da publica&ccedil;&atilde;o da Populorum progressio, o seu tema de fundo &#8211; precisamente o progresso &#8211; permanece ainda um problema em aberto, que se tornou mais agudo e premente com a crise econ&oacute;mico-financeira em curso. Se algumas &aacute;reas do globo, outrora oprimidas pela pobreza, registaram mudan&ccedil;as not&aacute;veis em termos de crescimento econ&oacute;mico e de participa&ccedil;&atilde;o na produ&ccedil;&atilde;o mundial, h&aacute; outras zonas que vivem ainda numa situa&ccedil;&atilde;o de mis&eacute;ria compar&aacute;vel &agrave; existente nos tempos de Paulo VI; mais, em certos casos pode-se mesmo falar de agravamento. &Eacute; significativo que algumas causas desta situa&ccedil;&atilde;o tivessem sido j&aacute; identificadas na Populorum progressio, como, por exemplo, as altas tarifas aduaneiras impostas pelos pa&iacute;ses economicamente desenvolvidos que ainda impedem os produtos origin&aacute;rios dos pa&iacute;ses pobres de chegar aos mercados dos pa&iacute;ses ricos. Entretanto, outras causas que a enc&iacute;clica tinha apenas pressentido, apareceram depois com maior evid&ecirc;ncia; &eacute; o caso da avalia&ccedil;&atilde;o do processo de descoloniza&ccedil;&atilde;o, ent&atilde;o em pleno curso. Paulo VI almejava um percurso de autonomia que havia de realizar-se na liberdade e na paz; quarenta anos depois, temos de reconhecer como foi dif&iacute;cil tal percurso, tanto por causa de novas formas de colonialismo e depend&ecirc;ncia de antigos e novos pa&iacute;ses hegem&oacute;nicos, como por graves irresponsabilidades internas aos pr&oacute;prios pa&iacute;ses que se tornaram independentes.<\/p>\n<p>A novidade principal foi a explos&atilde;o da interdepend&ecirc;ncia mundial, j&aacute; conhecida comummente por globaliza&ccedil;&atilde;o. Paulo VI tinha-a em parte previsto, mas os termos e a impetuosidade com que aquela evoluiu s&atilde;o surpreendentes. Nascido no &acirc;mbito dos pa&iacute;ses economicamente desenvolvidos, este processo, por sua pr&oacute;pria natureza, causou um envolvimento de todas as economias. Foi o motor principal para a sa&iacute;da do subdesenvolvimento de regi&otilde;es inteiras e, por si mesmo, constitui uma grande oportunidade. Contudo, sem a guia da caridade na verdade, este &iacute;mpeto mundial pode concorrer para criar riscos de danos at&eacute; agora desconhecidos e de novas divis&otilde;es na fam&iacute;lia humana. Por isso, a caridade e a verdade colocam diante de n&oacute;s um compromisso in&eacute;dito e criativo, sem d&uacute;vida muito vasto e complexo. Trata-se de dilatar a raz&atilde;o e torn&aacute;-la capaz de conhecer e orientar estas novas e imponentes din&acirc;micas, animando-as na perspectiva daquela &laquo;civiliza&ccedil;&atilde;o do amor&raquo;, cuja semente Deus colocou em todo o povo e cultura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CAP&Iacute;TULO III<\/p>\n<p><em>FRATERNIDADE, <br \/>DESENVOLVIMENTO ECON&Oacute;MICO <br \/>E SOCIEDADE CIVIL<\/em><\/strong><\/p>\n<p>34. A caridade na verdade coloca o homem perante a admir&aacute;vel experi&ecirc;ncia do dom. A gratuidade est&aacute; presente na sua vida sob m&uacute;ltiplas formas, que frequentemente lhe passam despercebidas por causa duma vis&atilde;o meramente produtiva e utilitarista da exist&ecirc;ncia. O ser humano est&aacute; feito para o dom, que exprime e realiza a sua dimens&atilde;o de transcend&ecirc;ncia. Por vezes, o homem moderno convence-se, erroneamente, de que &eacute; o &uacute;nico autor de si mesmo, da sua vida e da sociedade. Trata-se de uma presun&ccedil;&atilde;o, resultante do encerramento ego&iacute;sta em si mesmo, que prov&eacute;m &#8211; se queremos exprimi-lo em termos de f&eacute; &#8211; do pecado das origens. Na sua sabedoria, a Igreja sempre prop&ocirc;s que se tivesse em conta o pecado original mesmo na interpreta&ccedil;&atilde;o dos fen&oacute;menos sociais e na constru&ccedil;&atilde;o da sociedade. &laquo;Ignorar que o homem tem uma natureza ferida, inclinada para o mal, d&aacute; lugar a graves erros no dom&iacute;nio da educa&ccedil;&atilde;o, da pol&iacute;tica, da ac&ccedil;&atilde;o social e dos costumes&raquo;[85]. No elenco dos campos onde se manifestam os efeitos perniciosos do pecado, h&aacute; muito tempo que se acrescentou tamb&eacute;m o da economia. Temos uma prova evidente disto mesmo nos dias que correm. Primeiro, a convic&ccedil;&atilde;o de ser auto-suficiente e de conseguir eliminar o mal presente na hist&oacute;ria apenas com a pr&oacute;pria ac&ccedil;&atilde;o induziu o homem a identificar a felicidade e a salva&ccedil;&atilde;o com formas imanentes de bem-estar material e de ac&ccedil;&atilde;o social. Depois, a convic&ccedil;&atilde;o da exig&ecirc;ncia de autonomia para a economia, que n&atilde;o deve aceitar &laquo;influ&ecirc;ncias&raquo; de car&aacute;cter moral, impeliu o homem a abusar dos instrumentos econ&oacute;micos at&eacute; mesmo de forma destrutiva. Com o passar do tempo, estas convic&ccedil;&otilde;es levaram a sistemas econ&oacute;micos, sociais e pol&iacute;ticos que espezinharam a liberdade da pessoa e dos corpos sociais e, por isso mesmo, n&atilde;o foram capazes de assegurar a justi&ccedil;a que prometiam. Deste modo, como afirmei na enc&iacute;clica Spe salvi[86], elimina-se da hist&oacute;ria a esperan&ccedil;a crist&atilde;, a qual, ao inv&eacute;s, constitui um poderoso recurso social ao servi&ccedil;o do desenvolvimento humano integral, procurado na liberdade e na justi&ccedil;a. A esperan&ccedil;a encoraja a raz&atilde;o e d&aacute;-lhe a for&ccedil;a para orientar a vontade[87]. J&aacute; est&aacute; presente na f&eacute;, pela qual ali&aacute;s &eacute; suscitada. Dela se nutre a caridade na verdade e, ao mesmo tempo, manifesta-a. Sendo dom de Deus absolutamente gratuito, irrompe na nossa vida como algo n&atilde;o devido, que transcende qualquer norma de justi&ccedil;a. Por sua natureza, o dom ultrapassa o m&eacute;rito; a sua regra &eacute; a exced&ecirc;ncia. Aquele precede-nos, na nossa pr&oacute;pria alma, como sinal da presen&ccedil;a de Deus em n&oacute;s e das suas expectativas a nosso respeito. A verdade, que &eacute; dom tal como a caridade, &eacute; maior do que n&oacute;s, conforme ensina Santo Agostinho[88]. Tamb&eacute;m a verdade acerca de n&oacute;s mesmos, da nossa consci&ecirc;ncia pessoal &eacute;-nos primariamente &laquo;dada&raquo;; com efeito, em qualquer processo cognoscitivo, a verdade n&atilde;o &eacute; produzida por n&oacute;s, mas sempre encontrada ou, melhor, recebida. Tal como o amor, ela &laquo;n&atilde;o nasce da intelig&ecirc;ncia e da vontade, mas de certa forma imp&otilde;e-se ao ser humano&raquo;[89].<\/p>\n<p>Enquanto dom recebido por todos, a caridade na verdade &eacute; uma for&ccedil;a que constitui a comunidade, unifica os homens segundo modalidades que n&atilde;o conhecem barreiras nem confins. A comunidade dos homens pode ser constitu&iacute;da por n&oacute;s mesmos; mas, com as nossas simples for&ccedil;as, nunca poder&aacute; ser uma comunidade plenamente fraterna nem alargada para al&eacute;m de qualquer fronteira, ou seja, n&atilde;o poder&aacute; tornar-se uma comunidade verdadeiramente universal: a unidade do g&eacute;nero humano, uma comunh&atilde;o fraterna para al&eacute;m de qualquer divis&atilde;o, nasce da convoca&ccedil;&atilde;o da palavra de Deus-Amor. Ao enfrentar esta quest&atilde;o decisiva, devemos especificar, por um lado, que a l&oacute;gica do dom n&atilde;o exclui a justi&ccedil;a nem se justap&otilde;e a ela num segundo tempo e de fora; e, por outro, que o desenvolvimento econ&oacute;mico, social e pol&iacute;tico precisa, se quiser ser autenticamente humano, de dar espa&ccedil;o ao princ&iacute;pio da gratuidade como express&atilde;o de fraternidade.<\/p>\n<p>35. O mercado, se houver confian&ccedil;a rec&iacute;proca e generalizada, &eacute; a institui&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica que permite o encontro entre as pessoas, na sua dimens&atilde;o de operadores econ&oacute;micos que usam o contrato como regra das suas rela&ccedil;&otilde;es e que trocam bens e servi&ccedil;os entre si fung&iacute;veis, para satisfazer as suas car&ecirc;ncias e desejos. O mercado est&aacute; sujeito aos princ&iacute;pios da chamada justi&ccedil;a comutativa, que regula precisamente as rela&ccedil;&otilde;es do dar e receber entre sujeitos iguais. Mas a doutrina social nunca deixou de p&ocirc;r em evid&ecirc;ncia a import&acirc;ncia que tem a justi&ccedil;a distributiva e a justi&ccedil;a social para a pr&oacute;pria economia de mercado, n&atilde;o s&oacute; porque integrada nas malhas de um contexto social e pol&iacute;tico mais vasto, mas tamb&eacute;m pela teia das rela&ccedil;&otilde;es em que se realiza. De facto, deixado unicamente ao princ&iacute;pio da equival&ecirc;ncia de valor dos bens trocados, o mercado n&atilde;o consegue gerar a coes&atilde;o social de que necessita para bem funcionar. Sem formas internas de solidariedade e de confian&ccedil;a rec&iacute;proca, o mercado n&atilde;o pode cumprir plenamente a pr&oacute;pria fun&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica. E, hoje, foi precisamente esta confian&ccedil;a que veio a faltar; e a perda da confian&ccedil;a &eacute; uma perda grave.<\/p>\n<p>Na Populorum progressio, Paulo VI sublinhava oportunamente o facto de que seria o pr&oacute;prio sistema econ&oacute;mico a tirar vantagem da pr&aacute;tica generalizada da justi&ccedil;a, uma vez que os primeiros a beneficiar do desenvolvimento dos pa&iacute;ses pobres teriam sido os pa&iacute;ses ricos[90]. N&atilde;o se tratava apenas de corrigir disfun&ccedil;&otilde;es, atrav&eacute;s da assist&ecirc;ncia. Os pobres n&atilde;o devem ser considerados um &laquo;fardo&raquo;[91] mas um recurso, mesmo do ponto de vista estritamente econ&oacute;mico. H&aacute; que considerar errada a vis&atilde;o de quantos pensam que a economia de mercado tenha estruturalmente necessidade duma certa quota de pobreza e subdesenvolvimento para poder funcionar do melhor modo. O mercado tem interesse em promover emancipa&ccedil;&atilde;o, mas, para o fazer verdadeiramente, n&atilde;o pode contar apenas consigo mesmo, porque n&atilde;o &eacute; capaz de produzir por si aquilo que est&aacute; para al&eacute;m das suas possibilidades; tem de haurir energias morais de outros sujeitos, que sejam capazes de as gerar.<\/p>\n<p>36. A actividade econ&oacute;mica n&atilde;o pode resolver todos os problemas sociais atrav&eacute;s da simples extens&atilde;o da l&oacute;gica mercantil. Esta h&aacute;-de ter como finalidade a prossecu&ccedil;&atilde;o do bem comum, do qual se deve ocupar tamb&eacute;m e sobretudo a comunidade pol&iacute;tica. Por isso, tenha-se presente que &eacute; causa de graves desequil&iacute;brios separar o agir econ&oacute;mico &#8211; ao qual competiria apenas produzir riqueza &#8211; do agir pol&iacute;tico, cuja fun&ccedil;&atilde;o seria buscar a justi&ccedil;a atrav&eacute;s da redistribui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Desde sempre a Igreja defende que n&atilde;o se h&aacute;-de considerar o agir econ&oacute;mico como anti-social. Por si mesmo, o mercado n&atilde;o &eacute;, nem se deve tornar, o lugar da prepot&ecirc;ncia do forte sobre o d&eacute;bil. A sociedade n&atilde;o tem que se proteger do mercado, como se o desenvolvimento deste implicasse ipso facto a morte das rela&ccedil;&otilde;es autenticamente humanas. &Eacute; verdade que o mercado pode ser orientado de modo negativo, n&atilde;o porque isso esteja na sua natureza, mas porque uma certa ideologia pode dirigi-lo em tal sentido. N&atilde;o se deve esquecer que o mercado, em estado puro, n&atilde;o existe; mas toma forma a partir das configura&ccedil;&otilde;es culturais que o especificam e orientam. Com efeito, a economia e as finan&ccedil;as, enquanto instrumentos, podem ser mal utilizadas se quem as gere tiver apenas refer&ecirc;ncias ego&iacute;stas. Deste modo, &eacute; poss&iacute;vel conseguir transformar instrumentos em si mesmos bons em instrumentos danosos; mas &eacute; a raz&atilde;o obscurecida do homem que produz estas consequ&ecirc;ncias, n&atilde;o o instrumento por si mesmo. Por isso, n&atilde;o &eacute; o instrumento que deve ser questionado, mas o homem, a sua consci&ecirc;ncia moral e a sua responsabilidade pessoal e social.<\/p>\n<p>A doutrina social da Igreja considera poss&iacute;vel viver rela&ccedil;&otilde;es autenticamente humanas de amizade e camaradagem, de solidariedade e reciprocidade, mesmo no &acirc;mbito da actividade econ&oacute;mica e n&atilde;o apenas fora dela ou &laquo;depois&raquo; dela. A &aacute;rea econ&oacute;mica n&atilde;o &eacute; nem eticamente neutra nem de natureza desumana e anti-social. Pertence &agrave; actividade do homem; e, precisamente porque humana, deve ser eticamente estruturada e institucionalizada.<\/p>\n<p>O grande desafio que temos diante de n&oacute;s &#8211; resultante das problem&aacute;ticas do desenvolvimento neste tempo de globaliza&ccedil;&atilde;o, mas revestindo-se de maior exig&ecirc;ncia com a crise econ&oacute;mico-financeira &#8211; &eacute; mostrar, a n&iacute;vel tanto de pensamento como de comportamentos, que n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o podem ser transcurados ou atenuados os princ&iacute;pios tradicionais da &eacute;tica social, como a transpar&ecirc;ncia, a honestidade e a responsabilidade, mas tamb&eacute;m que, nas rela&ccedil;&otilde;es comerciais, o princ&iacute;pio de gratuidade e a l&oacute;gica do dom como express&atilde;o da fraternidade podem e devem encontrar lugar dentro da actividade econ&oacute;mica normal. Isto &eacute; uma exig&ecirc;ncia do homem no tempo actual, mas tamb&eacute;m da pr&oacute;pria raz&atilde;o econ&oacute;mica. Trata-se de uma exig&ecirc;ncia simultaneamente da caridade e da verdade.<\/p>\n<p>37. A doutrina social da Igreja sempre defendeu que a justi&ccedil;a diz respeito a todas as fases da actividade econ&oacute;mica, porque esta sempre tem a ver com o homem e com as suas exig&ecirc;ncias. A angaria&ccedil;&atilde;o dos recursos, os financiamentos, a produ&ccedil;&atilde;o, o consumo e todas as outras fases do ciclo econ&oacute;mico t&ecirc;m inevitavelmente implica&ccedil;&otilde;es morais. Deste modo, cada decis&atilde;o econ&oacute;mica tem consequ&ecirc;ncias de car&aacute;cter moral. Tudo isto encontra confirma&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m nas ci&ecirc;ncias sociais e nas tend&ecirc;ncias da economia actual. Outrora, talvez se pudesse pensar, primeiro, em confiar &agrave; economia a produ&ccedil;&atilde;o de riqueza para, depois, atribuir &agrave; pol&iacute;tica a tarefa de a distribuir; hoje, tudo isto se apresenta mais dif&iacute;cil, porque, enquanto as actividades econ&oacute;micas deixaram de estar circunscritas no &acirc;mbito dos limites territoriais, a autoridade dos governos continua a ser sobretudo local. Por isso, os c&acirc;nones da justi&ccedil;a devem ser respeitados desde o in&iacute;cio, enquanto se desenrola o processo econ&oacute;mico, e n&atilde;o depois ou marginalmente. Al&eacute;m disso, &eacute; preciso que, no mercado, se abram espa&ccedil;os para actividades econ&oacute;micas realizadas por sujeitos que livremente escolhem configurar o pr&oacute;prio agir segundo princ&iacute;pios diversos do puro lucro, sem por isso renunciarem a produzir valor econ&oacute;mico. As numerosas express&otilde;es de economia que tiveram origem em iniciativas religiosas e laicas demonstram que isto &eacute; concretamente poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>Na &eacute;poca da globaliza&ccedil;&atilde;o, a economia denota a influ&ecirc;ncia de modelos competitivos ligados a culturas muito diversas entre si. Os comportamentos econ&oacute;mico-empresariais da&iacute; resultantes possuem, na sua maioria, um ponto de encontro no respeito da justi&ccedil;a comutativa. A vida econ&oacute;mica tem, sem d&uacute;vida, necessidade do contrato, para regular as rela&ccedil;&otilde;es de transac&ccedil;&atilde;o entre valores equivalentes; mas precisa igualmente de leis justas e de formas de redistribui&ccedil;&atilde;o guiadas pela pol&iacute;tica, para al&eacute;m de obras que tragam impresso o esp&iacute;rito do dom. A economia globalizada parece privilegiar a primeira l&oacute;gica, ou seja, a da transac&ccedil;&atilde;o contratual, mas directa ou indirectamente d&aacute; provas de necessitar tamb&eacute;m das outras duas: a l&oacute;gica pol&iacute;tica e a l&oacute;gica do dom sem contrapartidas.<\/p>\n<p>38. O meu antecessor Jo&atilde;o Paulo II sublinhara esta problem&aacute;tica, quando, na Centesimus annus, destacou a necessidade de um sistema com tr&ecirc;s sujeitos: o mercado, o Estado e a sociedade civil[92]. Ele tinha identificado na sociedade civil o &acirc;mbito mais apropriado para uma economia da gratuidade e da fraternidade, mas sem pretender neg&aacute;-la nos outros dois &acirc;mbitos. Hoje, podemos dizer que a vida econ&oacute;mica deve ser entendida como uma realidade com v&aacute;rias dimens&otilde;es: em todas deve estar presente, embora em medida diversa e com modalidades espec&iacute;ficas, o aspecto da reciprocidade fraterna. Na &eacute;poca da globaliza&ccedil;&atilde;o, a actividade econ&oacute;mica n&atilde;o pode prescindir da gratuidade, que difunde e alimenta a solidariedade e a responsabilidade pela justi&ccedil;a e o bem comum nos seus diversos sujeitos e actores. Trata-se, em &uacute;ltima an&aacute;lise, de uma forma concreta e profunda de democracia econ&oacute;mica. A solidariedade consiste primariamente em que todos se sintam respons&aacute;veis por todos[93] e, por conseguinte, n&atilde;o pode ser delegada s&oacute; no Estado. Se, no passado, era poss&iacute;vel pensar que havia necessidade primeiro de procurar a justi&ccedil;a e que a gratuidade intervinha depois como um complemento, hoje &eacute; preciso afirmar que, sem a gratuidade, n&atilde;o se consegue sequer realizar a justi&ccedil;a. Assim, temos necessidade de um mercado, no qual possam operar, livremente e em condi&ccedil;&otilde;es de igual oportunidade, empresas que persigam fins institucionais diversos. Ao lado da empresa privada orientada para o lucro e dos v&aacute;rios tipos de empresa p&uacute;blica, devem poder radicar-se e exprimir-se as organiza&ccedil;&otilde;es produtivas que perseguem fins mutualistas e sociais. Do seu rec&iacute;proco confronto no mercado, pode-se esperar uma esp&eacute;cie de hibridiza&ccedil;&atilde;o dos comportamentos de empresa e, consequentemente, uma aten&ccedil;&atilde;o sens&iacute;vel &agrave; civiliza&ccedil;&atilde;o da economia. Neste caso, caridade na verdade significa que &eacute; preciso dar forma e organiza&ccedil;&atilde;o &agrave;quelas iniciativas econ&oacute;micas que, embora sem negar o lucro, pretendam ir mais al&eacute;m da l&oacute;gica da troca de equivalentes e do lucro como fim em si mesmo.<\/p>\n<p>39. Na Populorum progressio, Paulo VI pedia que se configurasse um modelo de economia de mercado capaz de incluir, pelo menos intencionalmente, todos os povos e n&atilde;o apenas aqueles adequadamente habilitados. Solicitava que nos empenh&aacute;ssemos na promo&ccedil;&atilde;o de um mundo mais humano para todos, um mundo no qual &laquo;todos tenham qualquer coisa a dar e a receber, sem que o progresso de uns seja obst&aacute;culo ao desenvolvimento dos outros&raquo;[94]. Estendia assim ao plano universal as mesmas inst&acirc;ncias e aspira&ccedil;&otilde;es contidas na Rerum novarum, escrita quando pela primeira vez, em consequ&ecirc;ncia da revolu&ccedil;&atilde;o industrial, se afirmou a ideia &#8211; seguramente avan&ccedil;ada para aquele tempo &#8211; de que a ordem civil, para subsistir, tinha necessidade tamb&eacute;m da interven&ccedil;&atilde;o distributiva do Estado. Hoje, esta vis&atilde;o, al&eacute;m de ser posta em crise pelos processos de abertura dos mercados e das sociedades, revela-se incompleta para satisfazer as exig&ecirc;ncias duma economia plenamente humana. Aquilo que a doutrina social da Igreja, partindo da sua vis&atilde;o do homem e da sociedade, sempre defendeu, &eacute; hoje requerido tamb&eacute;m pelas din&acirc;micas caracter&iacute;sticas da globaliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Quando a l&oacute;gica do mercado e a do Estado se p&otilde;em de acordo entre si para continuar no monop&oacute;lio dos respectivos &acirc;mbitos de influ&ecirc;ncia, com o passar do tempo definha a solidariedade nas rela&ccedil;&otilde;es entre os cidad&atilde;os, a participa&ccedil;&atilde;o e a ades&atilde;o, o servi&ccedil;o gratuito, que s&atilde;o realidades diversas do &laquo;dar para ter&raquo;, pr&oacute;prio da l&oacute;gica da transac&ccedil;&atilde;o, e do &laquo;dar por dever&raquo;, pr&oacute;prio da l&oacute;gica dos comportamentos p&uacute;blicos impostos por lei do Estado. A vit&oacute;ria sobre o subdesenvolvimento exige que se actue n&atilde;o s&oacute; na melhoria das transac&ccedil;&otilde;es fundadas no interc&acirc;mbio, nem apenas nas transfer&ecirc;ncias das estruturas assistenciais de natureza p&uacute;blica, mas sobretudo na progressiva abertura, em contexto mundial, para formas de actividade econ&oacute;mica caracterizadas por quotas de gratuidade e de comunh&atilde;o. O bin&oacute;mio exclusivo mercado-Estado corr&oacute;i a sociabilidade, enquanto as formas econ&oacute;micas solid&aacute;rias, que encontram o seu melhor terreno na sociedade civil, sem contudo se reduzirem a ela, criam sociabilidade. O mercado da gratuidade n&atilde;o existe, tal como n&atilde;o se podem estabelecer por lei comportamentos gratuitos, e todavia tanto o mercado como a pol&iacute;tica precisam de pessoas abertas ao dom rec&iacute;proco.<\/p>\n<p>40. As actuais din&acirc;micas econ&oacute;micas internacionais, caracterizadas por graves desvios e disfun&ccedil;&otilde;es, requerem profundas mudan&ccedil;as inclusivamente no modo de conceber a empresa. Antigas modalidades da vida empresarial declinam, mas outras prometedoras se esbo&ccedil;am no horizonte. Um dos riscos maiores &eacute;, sem d&uacute;vida, que a empresa preste contas quase exclusivamente a quem nela investe, acabando assim por reduzir a sua val&ecirc;ncia social. Devido ao seu crescimento e &agrave; necessidade de capitais sempre maiores, s&atilde;o cada vez menos as empresas lideradas por um empres&aacute;rio est&aacute;vel que se sinta respons&aacute;vel, n&atilde;o apenas a curto mas a longo prazo, da vida e dos resultados da sua empresa, tal como diminui o n&uacute;mero das que dependem de um &uacute;nico territ&oacute;rio. Al&eacute;m disso, a chamada deslocaliza&ccedil;&atilde;o da actividade produtiva pode atenuar no empres&aacute;rio o sentido da responsabilidade para com os interessados, como os trabalhadores, os fornecedores, os consumidores, o ambiente natural e a sociedade circundante mais ampla, em benef&iacute;cio dos accionistas, que n&atilde;o est&atilde;o ligados a um espa&ccedil;o espec&iacute;fico, gozando por isso duma extraordin&aacute;ria mobilidade; de facto, o mercado internacional dos capitais oferece hoje uma grande liberdade de ac&ccedil;&atilde;o. Mas &eacute; verdade tamb&eacute;m que est&aacute; a aumentar a consci&ecirc;ncia sobre a necessidade de uma mais ampla &laquo;responsabilidade social&raquo; da empresa. Apesar de os par&acirc;metros &eacute;ticos que guiam actualmente o debate sobre a responsabilidade social da empresa n&atilde;o serem, segundo a perspectiva da doutrina social da Igreja, todos aceit&aacute;veis, &eacute; um facto que se vai difundindo cada vez mais a convic&ccedil;&atilde;o de que a gest&atilde;o da empresa n&atilde;o pode ter em conta unicamente os interesses dos propriet&aacute;rios da mesma, mas deve preocupar-se tamb&eacute;m com as outras diversas categorias de sujeitos que contribuem para a vida da empresa: os trabalhadores, os clientes, os fornecedores dos v&aacute;rios factores de produ&ccedil;&atilde;o, a comunidade de refer&ecirc;ncia. Nos &uacute;ltimos anos, notou-se o crescimento duma classe cosmopolita de gestores, que muitas vezes respondem s&oacute; &agrave;s indica&ccedil;&otilde;es dos accionistas da empresa, constitu&iacute;dos geralmente por fundos an&oacute;nimos que estabelecem de facto as suas remunera&ccedil;&otilde;es. Todavia, hoje, h&aacute; tamb&eacute;m muitos gestores que, atrav&eacute;s de an&aacute;lises clarividentes, se d&atilde;o conta cada vez mais dos profundos la&ccedil;os que a sua empresa tem com o territ&oacute;rio ou territ&oacute;rios onde opera. Paulo VI convidava a avaliar seriamente o dano que a transfer&ecirc;ncia de capitais para o estrangeiro, com exclusivas vantagens pessoais, pode causar &agrave; pr&oacute;pria na&ccedil;&atilde;o[95]. E Jo&atilde;o Paulo II advertia que investir tem sempre um significado moral, para al&eacute;m de econ&oacute;mico[96]. Tudo isto &#8211; h&aacute; que reafirm&aacute;-lo &#8211; &eacute; v&aacute;lido tamb&eacute;m hoje, n&atilde;o obstante o mercado dos capitais ter sido muito liberalizado e as mentalidades tecnol&oacute;gicas modernas poderem induzir a pensar que investir &eacute; apenas um facto t&eacute;cnico, e n&atilde;o humano e &eacute;tico. N&atilde;o h&aacute; motivo para negar que um certo capital possa ser ben&eacute;fico, se investido no estrangeiro antes que na p&aacute;tria; mas devem ressalvar-se os v&iacute;nculos de justi&ccedil;a, tendo em conta tamb&eacute;m o modo como aquele capital se formou e os danos que causar&aacute; &agrave;s pessoas o seu n&atilde;o investimento nos lugares onde o mesmo foi gerado[97]. &Eacute; preciso evitar que o motivo para o emprego dos recursos financeiros seja especulativo, cedendo &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o de procurar apenas o lucro a breve prazo, sem cuidar igualmente da sustentabilidade da empresa a longo prazo, do seu servi&ccedil;o concreto &agrave; economia real e duma adequada e oportuna promo&ccedil;&atilde;o de iniciativas econ&oacute;micas tamb&eacute;m nos pa&iacute;ses necessitados de desenvolvimento. Tamb&eacute;m n&atilde;o h&aacute; motivo para negar que a deslocaliza&ccedil;&atilde;o, quando implica investimentos e forma&ccedil;&atilde;o, possa fazer bem &agrave;s popula&ccedil;&otilde;es do pa&iacute;s que a acolhe &#8211; o trabalho e o conhecimento t&eacute;cnico s&atilde;o uma necessidade universal; mas n&atilde;o &eacute; l&iacute;cito deslocalizar somente para gozar de especiais condi&ccedil;&otilde;es de favor ou, pior ainda, para explora&ccedil;&atilde;o, sem prestar um verdadeiro contributo &agrave; sociedade local para o nascimento de um robusto sistema produtivo e social, factor imprescind&iacute;vel para um desenvolvimento est&aacute;vel.<\/p>\n<p>41. Dentro do mesmo tema, &eacute; &uacute;til observar que o esp&iacute;rito empresarial tem, e deve assumir cada vez mais, um significado polivalente. A longa preval&ecirc;ncia do bin&oacute;mio mercado-Estado habituou-nos a pensar exclusivamente, por um lado, no empres&aacute;rio privado de tipo capitalista e, por outro, no director estatal. Na realidade, o esp&iacute;rito empresarial h&aacute;-de ser entendido de modo articulado, como se depreende duma s&eacute;rie de motiva&ccedil;&otilde;es meta-econ&oacute;micas. O esp&iacute;rito empresarial, antes de ter significado profissional, possui um significado humano[98]; est&aacute; inscrito em cada trabalho, visto como &laquo;actus person&aelig;&raquo;[99], pelo que &eacute; bom oferecer a cada trabalhador a possibilidade de prestar a pr&oacute;pria contribui&ccedil;&atilde;o, de tal modo que ele mesmo &laquo;saiba trabalhar &quot;por conta pr&oacute;pria&quot;&raquo;[100]. Ensinava Paulo VI, n&atilde;o sem motivo, que &laquo;todo o trabalhador &eacute; um criador&raquo;[101]. Precisamente para dar resposta &agrave;s exig&ecirc;ncias e &agrave; dignidade de quem trabalha e &agrave;s necessidades da sociedade &eacute; que existem v&aacute;rios tipos de empresa, muito para al&eacute;m da simples distin&ccedil;&atilde;o entre &laquo;privado&raquo; e &laquo;p&uacute;blico&raquo;. Cada uma requer e exprime um esp&iacute;rito empresarial espec&iacute;fico. A fim de realizar uma economia que, num futuro pr&oacute;ximo, saiba colocar-se ao servi&ccedil;o do bem comum nacional e mundial, conv&eacute;m ter em conta este significado amplo de esp&iacute;rito empresarial. Tal concep&ccedil;&atilde;o mais ampla favorece o interc&acirc;mbio e a forma&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca entre as diversas tipologias de empresariado, com transfer&ecirc;ncia de compet&ecirc;ncias do mundo sem lucro para aquele com lucro e vice-versa, do sector p&uacute;blico para o &acirc;mbito pr&oacute;prio da sociedade civil, do mundo das economias avan&ccedil;adas para aquele dos pa&iacute;ses em vias de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m a &laquo;autoridade pol&iacute;tica&raquo; tem um significado polivalente, que n&atilde;o se pode esquecer quando se procede &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o duma nova ordem econ&oacute;mico-produtiva, respons&aacute;vel socialmente e &agrave; medida do homem. Assim como se pretende fomentar um esp&iacute;rito empresarial diferenciado no plano mundial, assim tamb&eacute;m se deve promover uma autoridade pol&iacute;tica repartida e activa a v&aacute;rios n&iacute;veis. A economia integrada dos nossos dias n&atilde;o elimina a fun&ccedil;&atilde;o dos Estados, antes obriga os governos a uma colabora&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca mais intensa. Raz&otilde;es de sabedoria e prud&ecirc;ncia sugerem que n&atilde;o se proclame depressa demais o fim do Estado; relativamente &agrave; solu&ccedil;&atilde;o da crise actual, a sua fun&ccedil;&atilde;o parece destinada a crescer, readquirindo muitas das suas compet&ecirc;ncias. Al&eacute;m disso, existem na&ccedil;&otilde;es, cuja edifica&ccedil;&atilde;o ou reconstru&ccedil;&atilde;o do Estado continua a ser um elemento-chave do seu desenvolvimento. A ajuda internacional, precisamente no &acirc;mbito de um projecto de solidariedade que tivesse em vista a solu&ccedil;&atilde;o dos problemas econ&oacute;micos actuais, deveria sobretudo apoiar a consolida&ccedil;&atilde;o de sistemas constitucionais, jur&iacute;dicos, administrativos nos pa&iacute;ses que ainda n&atilde;o gozam de tais bens. A par das ajudas econ&oacute;micas, devem existir outros apoios tendentes a refor&ccedil;ar as garantias pr&oacute;prias do Estado de direito, um sistema de ordem p&uacute;blica e carcer&aacute;rio eficiente no respeito dos direitos humanos, institui&ccedil;&otilde;es verdadeiramente democr&aacute;ticas. N&atilde;o &eacute; preciso que o Estado tenha, em todo o lado, as mesmas caracter&iacute;sticas: o apoio para refor&ccedil;o dos sistemas constitucionais d&eacute;beis pode muito bem ser acompanhado pelo desenvolvimento de outros sujeitos pol&iacute;ticos de natureza cultural, social, territorial ou religiosa, ao lado do Estado. A articula&ccedil;&atilde;o da autoridade pol&iacute;tica a n&iacute;vel local, nacional e internacional &eacute;, para al&eacute;m do mais, uma das vias mestras para se chegar a poder orientar a globaliza&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica; e &eacute; tamb&eacute;m o modo de evitar que esta mine realmente os alicerces da democracia.<\/p>\n<p>42. Notam-se &agrave;s vezes atitudes fatalistas a respeito da globaliza&ccedil;&atilde;o, como se as din&acirc;micas em acto fossem produzidas por for&ccedil;as impessoais an&oacute;nimas e por estruturas independentes da vontade humana[102]. A tal prop&oacute;sito, &eacute; bom recordar que a globaliza&ccedil;&atilde;o h&aacute;-de ser entendida, sem d&uacute;vida, como um processo s&oacute;cio-econ&oacute;mico, mas esta sua dimens&atilde;o n&atilde;o &eacute; a &uacute;nica. Sob o processo mais vis&iacute;vel, h&aacute; a realidade duma humanidade que se torna cada vez mais interligada; tal realidade &eacute; constitu&iacute;da por pessoas e povos, para quem o referido processo deve ser de utilidade e desenvolvimento[103], gra&ccedil;as &agrave; assun&ccedil;&atilde;o das respectivas responsabilidades por parte tanto dos indiv&iacute;duos como da colectividade. A supera&ccedil;&atilde;o das fronteiras &eacute; um dado n&atilde;o apenas material mas tamb&eacute;m cultural nas suas causas e efeitos. Se a globaliza&ccedil;&atilde;o for lida de maneira determinista, perdem-se os crit&eacute;rios para a avaliar e orientar. Trata-se de uma realidade humana que pode ter, na sua fonte, v&aacute;rias orienta&ccedil;&otilde;es culturais, sobre as quais &eacute; preciso fazer discernimento. A verdade da globaliza&ccedil;&atilde;o enquanto processo e o seu crit&eacute;rio &eacute;tico fundamental prov&ecirc;m da unidade da fam&iacute;lia humana e do seu desenvolvimento no bem. Por isso &eacute; preciso empenhar-se sem cessar por favorecer uma orienta&ccedil;&atilde;o cultural personalista e comunit&aacute;ria, aberta &agrave; transcend&ecirc;ncia, do processo de integra&ccedil;&atilde;o mundial.<\/p>\n<p>N&atilde;o obstante algumas limita&ccedil;&otilde;es estruturais, que n&atilde;o se h&atilde;o-de negar nem absolutizar, &laquo;a globaliza&ccedil;&atilde;o a priori n&atilde;o &eacute; boa nem m&aacute;. Ser&aacute; aquilo que as pessoas fizerem dela&raquo;[104]. N&atilde;o devemos ser v&iacute;timas dela, mas protagonistas, actuando com razoabilidade, guiados pela caridade e a verdade. Opor-se-lhe cegamente seria uma atitude errada, fruto de preconceito, que acabaria por ignorar um processo marcado tamb&eacute;m por aspectos positivos, com o risco de perder uma grande ocasi&atilde;o de se inserir nas m&uacute;ltiplas oportunidades de desenvolvimento por ele oferecidas. Adequadamente concebidos e geridos, os processos de globaliza&ccedil;&atilde;o oferecem a possibilidade duma grande redistribui&ccedil;&atilde;o da riqueza a n&iacute;vel mundial, como antes nunca tinha acontecido; se mal geridos, podem, pelo contr&aacute;rio, fazer crescer pobreza e desigualdade, bem como contagiar com uma crise o mundo inteiro. &Eacute; preciso corrigir as suas disfun&ccedil;&otilde;es, tantas vezes graves, que introduzem novas divis&otilde;es entre os povos e no interior dos mesmos, e fazer com que a redistribui&ccedil;&atilde;o da riqueza n&atilde;o se verifique &agrave; custa de uma redistribui&ccedil;&atilde;o da pobreza ou at&eacute; com o seu agravamento, como uma m&aacute; gest&atilde;o da situa&ccedil;&atilde;o actual poderia fazer-nos temer. Durante muito tempo, pensou-se que os povos pobres deveriam permanecer ancorados a um est&aacute;dio predeterminado de desenvolvimento, contentando-se com a filantropia dos povos desenvolvidos. Contra esta mentalidade, tomou posi&ccedil;&atilde;o Paulo VI na Populorum progressio. Hoje, as for&ccedil;as materiais de que se pode dispor para fazer aqueles povos sair da mis&eacute;ria s&atilde;o potencialmente maiores do que outrora, mas acabaram por se aproveitar delas prevalentemente os povos dos pa&iacute;ses desenvolvidos, que conseguiram desfrutar melhor o processo de liberaliza&ccedil;&atilde;o dos movimentos de capitais e do trabalho. Por isso a difus&atilde;o dos ambientes de bem-estar a n&iacute;vel mundial n&atilde;o deve ser refreada por projectos ego&iacute;stas, proteccionistas ou ditados por interesses particulares. De facto, hoje, o envolvimento dos pa&iacute;ses emergentes ou em vias de desenvolvimento permite gerir melhor a crise. A transi&ccedil;&atilde;o inerente ao processo de globaliza&ccedil;&atilde;o apresenta grandes dificuldades e perigos, que poder&atilde;o ser superados apenas se se souber tomar consci&ecirc;ncia daquela alma antropol&oacute;gica e &eacute;tica que, do mais fundo, impele a pr&oacute;pria globaliza&ccedil;&atilde;o para metas de humaniza&ccedil;&atilde;o solid&aacute;ria. Infelizmente esta alma &eacute; muitas vezes abafada e condicionada por perspectivas &eacute;tico-culturais de natureza individualista e utilitarista. A globaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; um fen&oacute;meno pluridimensional e polivalente, que exige ser compreendido na diversidade e unidade de todas as suas dimens&otilde;es, incluindo a teol&oacute;gica. Isto permitir&aacute; viver e orientar a globaliza&ccedil;&atilde;o da humanidade em termos de relacionamento, comunh&atilde;o e partilha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CAP&Iacute;TULO IV<\/p>\n<p><em>DESENVOLVIMENTO DOS POVOS,<br \/>DIREITOS E DEVERES, AMBIENTE<\/em><\/strong><\/p>\n<p>43. &laquo;A solidariedade universal &eacute; para n&oacute;s n&atilde;o s&oacute; um facto e um benef&iacute;cio, mas tamb&eacute;m um dever&raquo;[105]. Hoje, muitas pessoas tendem a alimentar a pretens&atilde;o de que n&atilde;o devem nada a ningu&eacute;m, a n&atilde;o ser a si mesmas. Considerando-se titulares s&oacute; de direitos, frequentemente deparam-se com fortes obst&aacute;culos para maturar uma responsabilidade no &acirc;mbito do desenvolvimento integral pr&oacute;prio e alheio. Por isso, &eacute; importante invocar uma nova reflex&atilde;o que fa&ccedil;a ver como os direitos pressup&otilde;em deveres, sem os quais o seu exerc&iacute;cio se transforma em arb&iacute;trio[106]. Assiste-se hoje a uma grave contradi&ccedil;&atilde;o: enquanto, por um lado, se reivindicam presum&iacute;veis direitos, de car&aacute;cter arbitr&aacute;rio e libertino, querendo v&ecirc;-los reconhecidos e promovidos pelas estruturas p&uacute;blicas, por outro, existem direitos elementares e fundamentais violados e negados a boa parte da humanidade[107]. Aparece com frequ&ecirc;ncia assinalada uma rela&ccedil;&atilde;o entre a reivindica&ccedil;&atilde;o do direito ao sup&eacute;rfluo, sen&atilde;o mesmo &agrave; transgress&atilde;o e ao v&iacute;cio, nas sociedades opulentas, e a falta de alimento, &aacute;gua pot&aacute;vel, instru&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica, cuidados sanit&aacute;rios elementares em certas regi&otilde;es do mundo do subdesenvolvimento e tamb&eacute;m nas periferias de grandes metr&oacute;poles. A rela&ccedil;&atilde;o est&aacute; no facto de que os direitos individuais, desvinculados de um quadro de deveres que lhes confira um sentido completo, enlouquecem e alimentam uma espiral de exig&ecirc;ncias praticamente ilimitada e sem crit&eacute;rios. A exaspera&ccedil;&atilde;o dos direitos desemboca no esquecimento dos deveres. Estes delimitam os direitos porque remetem para o quadro antropol&oacute;gico e &eacute;tico cuja verdade &eacute; o &acirc;mbito onde os mesmos se inserem e, deste modo, n&atilde;o descambam no arb&iacute;trio. Por este motivo, os deveres refor&ccedil;am os direitos e prop&otilde;em a sua defesa e promo&ccedil;&atilde;o como um compromisso a assumir ao servi&ccedil;o do bem. Se, pelo contr&aacute;rio, os direitos do homem encontram o seu fundamento apenas nas delibera&ccedil;&otilde;es duma assembleia de cidad&atilde;os, podem ser alterados em qualquer momento e, assim, o dever de os respeitar e promover atenua-se na consci&ecirc;ncia comum. Ent&atilde;o os governos e os organismos internacionais podem esquecer a objectividade e &laquo;indisponibilidade&raquo; dos direitos. Quando isto acontece, p&otilde;e-se em perigo o verdadeiro desenvolvimento dos povos[108]. Semelhantes posi&ccedil;&otilde;es comprometem a autoridade dos organismos internacionais, sobretudo aos olhos dos pa&iacute;ses mais carecidos de desenvolvimento. De facto, estes pedem que a comunidade internacional assuma como um dever ajud&aacute;-los a serem &laquo;art&iacute;fices do seu destino&raquo;[109], ou seja, a assumirem, por sua vez, deveres. A partilha dos deveres rec&iacute;procos mobiliza muito mais do que a mera reivindica&ccedil;&atilde;o de direitos.<\/p>\n<p>44. A concep&ccedil;&atilde;o dos direitos e dos deveres no desenvolvimento deve ter em conta tamb&eacute;m as problem&aacute;ticas ligadas com o crescimento demogr&aacute;fico. Trata-se de um aspecto muito importante do verdadeiro desenvolvimento, porque diz respeito aos valores irrenunci&aacute;veis da vida e da fam&iacute;lia[110]. Considerar o aumento da popula&ccedil;&atilde;o como a primeira causa do subdesenvolvimento &eacute; errado, inclusive do ponto de vista econ&oacute;mico: basta pensar, por um lado, na consider&aacute;vel diminui&ccedil;&atilde;o da mortalidade infantil e no aumento da esperan&ccedil;a m&eacute;dia de vida que se regista nos pa&iacute;ses economicamente desenvolvidos, e, por outro, nos sinais de crise que se observam nas sociedades onde se regista uma preocupante queda da natalidade. Obviamente, &eacute; for&ccedil;oso prestar a devida aten&ccedil;&atilde;o a uma procria&ccedil;&atilde;o respons&aacute;vel, que constitui, para al&eacute;m do mais, uma real contribui&ccedil;&atilde;o para o desenvolvimento integral. A Igreja, que tem a peito o verdadeiro desenvolvimento do homem, recomenda-lhe o respeito dos valores humanos tamb&eacute;m no uso da sexualidade: o mesmo n&atilde;o pode ser reduzido a um mero facto hedonista e l&uacute;dico, do mesmo modo que a educa&ccedil;&atilde;o sexual n&atilde;o se pode limitar &agrave; instru&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica, tendo como &uacute;nica preocupa&ccedil;&atilde;o defender os interessados de eventuais cont&aacute;gios ou do &laquo;risco&raquo; procriador. Isto equivaleria a empobrecer e negligenciar o significado profundo da sexualidade, que deve, pelo contr&aacute;rio, ser reconhecido e assumido responsavelmente tanto pela pessoa como pela comunidade. Com efeito, a responsabilidade impede que se considere a sexualidade como uma simples fonte de prazer ou que seja regulada com pol&iacute;ticas de planifica&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada dos nascimentos. Em ambos os casos, estamos perante concep&ccedil;&otilde;es e pol&iacute;ticas materialistas, no &acirc;mbito das quais as pessoas acabam por sofrer v&aacute;rias formas de viol&ecirc;ncia. A tudo isto h&aacute; que contrapor a compet&ecirc;ncia prim&aacute;ria das fam&iacute;lias neste campo[111], relativamente ao Estado e &agrave;s suas pol&iacute;ticas restritivas, e tamb&eacute;m uma apropriada educa&ccedil;&atilde;o dos pais.<\/p>\n<p>A abertura moralmente respons&aacute;vel &agrave; vida &eacute; uma riqueza social e econ&oacute;mica. Grandes na&ccedil;&otilde;es puderam sair da mis&eacute;ria, justamente gra&ccedil;as ao grande n&uacute;mero e &agrave;s capacidades dos seus habitantes. Pelo contr&aacute;rio, na&ccedil;&otilde;es outrora pr&oacute;speras atravessam agora uma fase de incerteza e, em alguns casos, de decl&iacute;nio precisamente por causa da diminui&ccedil;&atilde;o da natalidade, problema crucial para as sociedades de proeminente bem-estar. A diminui&ccedil;&atilde;o dos nascimentos, situando-se por vezes abaixo do chamado &laquo;&iacute;ndice de substitui&ccedil;&atilde;o&raquo;, p&otilde;e em crise tamb&eacute;m os sistemas de assist&ecirc;ncia social, aumenta os seus custos, contrai a acumula&ccedil;&atilde;o de poupan&ccedil;as e, consequentemente, os recursos financeiros necess&aacute;rios para os investimentos, reduz a disponibiliza&ccedil;&atilde;o de trabalhadores qualificados, restringe a reserva aonde ir buscar os &laquo;c&eacute;rebros&raquo; para as necessidades da na&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m disso, as fam&iacute;lias de pequena e, &agrave;s vezes, pequen&iacute;ssima dimens&atilde;o correm o risco de empobrecer as rela&ccedil;&otilde;es sociais e de n&atilde;o garantir formas eficazes de solidariedade. S&atilde;o situa&ccedil;&otilde;es que apresentam sintomas de escassa confian&ccedil;a no futuro e de cansa&ccedil;o moral. Deste modo, torna-se uma necessidade social, e mesmo econ&oacute;mica, continuar a propor &agrave;s novas gera&ccedil;&otilde;es a beleza da fam&iacute;lia e do matrim&oacute;nio, a correspond&ecirc;ncia de tais institui&ccedil;&otilde;es &agrave;s exig&ecirc;ncias mais profundas do cora&ccedil;&atilde;o e da dignidade da pessoa. Nesta perspectiva, os Estados s&atilde;o chamados a instaurar pol&iacute;ticas que promovam a centralidade e a integridade da fam&iacute;lia, fundada no matrim&oacute;nio entre um homem e uma mulher, c&eacute;lula primeira e vital da sociedade[112], preocupando-se tamb&eacute;m com os seus problemas econ&oacute;micos e fiscais, no respeito da sua natureza relacional.<\/p>\n<p>45. Dar resposta &agrave;s exig&ecirc;ncias morais mais profundas da pessoa tem tamb&eacute;m importantes e ben&eacute;ficas consequ&ecirc;ncias no plano econ&oacute;mico. De facto, a economia tem necessidade da &eacute;tica para o seu correcto funcionamento; n&atilde;o de uma &eacute;tica qualquer, mas de uma &eacute;tica amiga da pessoa. Hoje fala-se muito de &eacute;tica no &acirc;mbito econ&oacute;mico, financeiro, empresarial. Nascem centros de estudo e percursos formativos de neg&oacute;cios &eacute;ticos; difunde-se no mundo desenvolvido o sistema das certifica&ccedil;&otilde;es &eacute;ticas, na esteira do movimento de ideias nascido &agrave; volta da responsabilidade social da empresa. Os bancos prop&otilde;em contas e fundos de investimento chamados &laquo;&eacute;ticos&raquo;. Desenvolvem-se as &laquo;finan&ccedil;as &eacute;ticas&raquo;, sobretudo atrav&eacute;s do micro-cr&eacute;dito e, mais em geral, de micro-financiamentos. Tais processos suscitam apre&ccedil;o e merecem amplo apoio. Os seus efeitos positivos fazem-se sentir tamb&eacute;m nas &aacute;reas menos desenvolvidas da terra. Todavia, &eacute; bom formar tamb&eacute;m um v&aacute;lido crit&eacute;rio de discernimento, porque se nota um certo abuso do adjectivo &laquo;&eacute;tico&raquo;, o qual, se usado vagamente, presta-se a designar conte&uacute;dos muito diversos, chegando-se a fazer passar &agrave; sua sombra decis&otilde;es e op&ccedil;&otilde;es contr&aacute;rias &agrave; justi&ccedil;a e ao verdadeiro bem do homem.<\/p>\n<p>Com efeito, muito depende do sistema moral em que se baseia. Sobre este tema, a doutrina social da Igreja tem um contributo pr&oacute;prio e espec&iacute;fico para dar, que se funda na cria&ccedil;&atilde;o do homem &laquo;&agrave; imagem de Deus&raquo; (Gn 1, 27), um dado do qual deriva a dignidade inviol&aacute;vel da pessoa humana e tamb&eacute;m o valor transcendente das normas morais naturais. Uma &eacute;tica econ&oacute;mica que prescinda destes dois pilares arrisca-se inevitavelmente a perder o seu cunho espec&iacute;fico e a prestar-se a instrumentaliza&ccedil;&otilde;es; mais concretamente, arrisca-se a aparecer em fun&ccedil;&atilde;o dos sistemas econ&oacute;mico-financeiros existentes, em vez de servir de correc&ccedil;&atilde;o &agrave;s disfun&ccedil;&otilde;es dos mesmos. Al&eacute;m do mais, acabaria at&eacute; por justificar o financiamento de projectos que n&atilde;o s&atilde;o &eacute;ticos. Por outro lado, n&atilde;o se deve recorrer ao termo &laquo;&eacute;tico&raquo; de modo ideologicamente discriminat&oacute;rio, dando a perceber que n&atilde;o seriam &eacute;ticas as iniciativas n&atilde;o dotadas formalmente de tal qualifica&ccedil;&atilde;o. Um dado &eacute; essencial: a necessidade de trabalhar n&atilde;o s&oacute; para que nas&ccedil;am sectores ou segmentos &laquo;&eacute;ticos&raquo; da economia ou das finan&ccedil;as, mas tamb&eacute;m para que toda a economia e as finan&ccedil;as sejam &eacute;ticas: e n&atilde;o por uma rotulagem exterior, mas pelo respeito de exig&ecirc;ncias intr&iacute;nsecas &agrave; sua pr&oacute;pria natureza. A tal respeito, se pronuncia com clareza a doutrina social da Igreja, que recorda que a economia, em todas as suas extens&otilde;es, &eacute; um sector da actividade humana[113].<\/p>\n<p>46. Considerando as tem&aacute;ticas referentes &agrave; rela&ccedil;&atilde;o entre empresa e &eacute;tica e tamb&eacute;m a evolu&ccedil;&atilde;o que o sistema produtivo est&aacute; a fazer, parece que a distin&ccedil;&atilde;o usada at&eacute; agora entre empresas que t&ecirc;m por finalidade o lucro (profit) e organiza&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o buscam o lucro (non profit) j&aacute; n&atilde;o &eacute; capaz de dar cabalmente conta da realidade, nem de orientar eficazmente o futuro. Nestas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, foi surgindo entre as duas tipologias de empresa uma ampla &aacute;rea interm&eacute;dia. Esta &eacute; constitu&iacute;da por empresas tradicionais mas que subscrevem pactos de ajuda aos pa&iacute;ses atrasados, por funda&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o express&atilde;o de empresas individuais, por grupos de empresas que se prop&otilde;em objectivos de utilidade social, pelo mundo diversificado dos sujeitos da chamada economia civil e de comunh&atilde;o. N&atilde;o se trata apenas de um &laquo;terceiro sector&raquo;, mas de uma nova e ampla realidade complexa, que envolve o privado e o p&uacute;blico e que n&atilde;o exclui o lucro mas considera-o como instrumento para realizar finalidades humanas e sociais. O facto de tais empresas distribu&iacute;rem ou n&atilde;o os ganhos ou de assumirem uma ou outra das configura&ccedil;&otilde;es previstas pelas normas jur&iacute;dicas torna-se secund&aacute;rio relativamente &agrave; sua disponibilidade a conceber o lucro como um instrumento para alcan&ccedil;ar finalidades de humaniza&ccedil;&atilde;o do mercado e da sociedade. &Eacute; desej&aacute;vel que estas novas formas de empresa tamb&eacute;m encontrem, em todos os pa&iacute;ses, adequada configura&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica e fiscal. Sem nada tirar &agrave; import&acirc;ncia e utilidade econ&oacute;mica e social das formas tradicionais de empresa, fazem evoluir o sistema para uma assun&ccedil;&atilde;o mais clara e perfeita dos deveres por parte dos sujeitos econ&oacute;micos. E n&atilde;o s&oacute;&#8230; A pr&oacute;pria pluralidade das formas institucionais de empresa gera um mercado mais humano e simultaneamente mais competitivo.<\/p>\n<p>47. O fortalecimento das diversas tipologias de empresa, mormente das que s&atilde;o capazes de conceber o lucro como um instrumento para alcan&ccedil;ar finalidades de humaniza&ccedil;&atilde;o do mercado e das sociedades, deve ser procurado tamb&eacute;m nos pa&iacute;ses que sofrem exclus&atilde;o ou marginaliza&ccedil;&atilde;o dos circuitos da economia global, onde &eacute; muito importante avan&ccedil;ar com projectos de subsidiariedade, devidamente concebida e gerida, que tendam a potenciar os direitos, mas prevendo sempre tamb&eacute;m a assun&ccedil;&atilde;o das correlativas responsabilidades. Nas interven&ccedil;&otilde;es em prol do desenvolvimento, h&aacute; que salvaguardar o princ&iacute;pio da centralidade da pessoa humana, que &eacute; o sujeito que primariamente deve assumir o dever do desenvolvimento. A preocupa&ccedil;&atilde;o principal &eacute; a melhoria das situa&ccedil;&otilde;es de vida das pessoas concretas duma certa regi&atilde;o, para que possam desempenhar aqueles deveres que actualmente a indig&ecirc;ncia n&atilde;o lhes permite respeitar. A solicitude nunca pode ser uma atitude abstracta. Para poderem adaptar-se &agrave;s diversas situa&ccedil;&otilde;es, os programas de desenvolvimento devem ser flex&iacute;veis; e as pessoas benefici&aacute;rias deveriam estar envolvidas directamente na sua delinea&ccedil;&atilde;o e tornar-se protagonistas da sua efectiva&ccedil;&atilde;o. &Eacute; necess&aacute;rio tamb&eacute;m aplicar os crit&eacute;rios da progress&atilde;o e do acompanhamento &#8211; incluindo a monitoriza&ccedil;&atilde;o dos resultados &#8211; porque n&atilde;o h&aacute; receitas v&aacute;lidas universalmente; depende muito da gest&atilde;o concreta das interven&ccedil;&otilde;es. &laquo;S&atilde;o os povos os autores e primeiros respons&aacute;veis do pr&oacute;prio desenvolvimento. Mas n&atilde;o o poder&atilde;o realizar isolados&raquo;[114]. Esta advert&ecirc;ncia de Paulo VI &eacute; ainda mais v&aacute;lida hoje, com o processo de progressiva integra&ccedil;&atilde;o que se vai consolidando no planeta. As din&acirc;micas de inclus&atilde;o n&atilde;o t&ecirc;m nada de mec&acirc;nico. As solu&ccedil;&otilde;es h&atilde;o-de ser calibradas olhando a vida dos povos e das pessoas concretas com base numa ponderada avalia&ccedil;&atilde;o de cada situa&ccedil;&atilde;o. Ao lado dos macro-projectos servem os micro-projectos, e sobretudo serve a mobiliza&ccedil;&atilde;o real de todos os sujeitos da sociedade civil, das pessoas, tanto jur&iacute;dicas como f&iacute;sicas.<\/p>\n<p>A coopera&ccedil;&atilde;o internacional precisa de pessoas que partilhem o processo de desenvolvimento econ&oacute;mico e humano, atrav&eacute;s da solidariedade feita de presen&ccedil;a, acompanhamento, forma&ccedil;&atilde;o e respeito. Sob este ponto de vista, os pr&oacute;prios organismos internacionais deveriam interrogar-se sobre a real efic&aacute;cia dos seus aparatos burocr&aacute;ticos e administrativos, frequentemente muito dispendiosos. &Agrave;s vezes sucede que o destinat&aacute;rio das ajudas seja utilizado em fun&ccedil;&atilde;o de quem o ajuda e que os pobres sirvam para manter de p&eacute; dispendiosas organiza&ccedil;&otilde;es burocr&aacute;ticas que reservam para sua pr&oacute;pria conserva&ccedil;&atilde;o percentagens demasiado elevadas dos recursos que, ao inv&eacute;s, deveriam ser aplicados no desenvolvimento. Nesta perspectiva, seria desej&aacute;vel que todos os organismos internacionais e as organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais se comprometessem a uma plena transpar&ecirc;ncia, informando os doadores e a opini&atilde;o p&uacute;blica acerca da percentagem de fundos recebidos destinada aos programas de coopera&ccedil;&atilde;o, acerca do verdadeiro conte&uacute;do de tais programas e, por &uacute;ltimo, acerca da configura&ccedil;&atilde;o das despesas da pr&oacute;pria institui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>48. O tema do desenvolvimento aparece, hoje, estreitamente associado tamb&eacute;m com os deveres que nascem do relacionamento do homem com o ambiente natural. Este foi dado por Deus a todos, constituindo o seu uso uma responsabilidade que temos para com os pobres, as gera&ccedil;&otilde;es futuras e a humanidade inteira. Quando a natureza, a come&ccedil;ar pelo ser humano, &eacute; considerada como fruto do acaso ou do determinismo evolutivo, a no&ccedil;&atilde;o da referida responsabilidade debilita-se nas consci&ecirc;ncias. Na natureza, o crente reconhece o resultado maravilhoso da interven&ccedil;&atilde;o criadora de Deus, de que o homem se pode responsavelmente servir para satisfazer as suas leg&iacute;timas exig&ecirc;ncias &#8211; materiais e imateriais &#8211; no respeito dos equil&iacute;brios intr&iacute;nsecos da pr&oacute;pria cria&ccedil;&atilde;o. Se falta esta perspectiva, o homem acaba ou por considerar a natureza um tabu intoc&aacute;vel ou, ao contr&aacute;rio, por abusar dela. Nem uma nem outra destas atitudes corresponde &agrave; vis&atilde;o crist&atilde; da natureza, fruto da cria&ccedil;&atilde;o de Deus.<\/p>\n<p>A natureza &eacute; express&atilde;o de um des&iacute;gnio de amor e de verdade. Precede-nos, tendo-nos sido dada por Deus como ambiente de vida. Fala-nos do Criador (cf. Rm 1, 20) e do seu amor pela humanidade. Est&aacute; destinada, no fim dos tempos, a ser &laquo;instaurada&raquo; em Cristo (cf. Ef 1, 9-10; Col 1, 19-20). Por conseguinte, tamb&eacute;m ela &eacute; uma &laquo;voca&ccedil;&atilde;o&raquo;[115]. A natureza est&aacute; &agrave; nossa disposi&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o como &laquo;um monte de lixo espalhado ao acaso&raquo;[116], mas como um dom do Criador que tra&ccedil;ou os seus ordenamentos intr&iacute;nsecos, dos quais o homem h&aacute;-de tirar as devidas orienta&ccedil;&otilde;es para a &laquo;guardar e cultivar&raquo; (Gn 2, 15). Mas &eacute; preciso sublinhar tamb&eacute;m que &eacute; contr&aacute;rio ao verdadeiro desenvolvimento considerar a natureza mais importante do que a pr&oacute;pria pessoa humana. Esta posi&ccedil;&atilde;o induz a comportamentos neo-pag&atilde;os ou a um novo pante&iacute;smo: s&oacute; da natureza, entendida em sentido puramente naturalista, n&atilde;o pode derivar a salva&ccedil;&atilde;o para o homem. Por outro lado, h&aacute; que rejeitar tamb&eacute;m a posi&ccedil;&atilde;o oposta, que visa a sua completa tecniciza&ccedil;&atilde;o, porque o ambiente natural n&atilde;o &eacute; apenas mat&eacute;ria de que dispor a nosso bel-prazer, mas obra admir&aacute;vel do Criador, contendo nela uma &laquo;gram&aacute;tica&raquo; que indica finalidades e crit&eacute;rios para uma utiliza&ccedil;&atilde;o sapiente, n&atilde;o instrumental nem arbitr&aacute;ria. Adv&ecirc;m, hoje, muitos danos ao desenvolvimento precisamente destas concep&ccedil;&otilde;es deformadas. Reduzir completamente a natureza a um conjunto de simples dados reais acaba por ser fonte de viol&ecirc;ncia contra o ambiente e at&eacute; por motivar ac&ccedil;&otilde;es desrespeitadoras da pr&oacute;pria natureza do homem. Esta, constitu&iacute;da n&atilde;o s&oacute; de mat&eacute;ria mas tamb&eacute;m de esp&iacute;rito e, como tal, rica de significados e de fins transcendentes a alcan&ccedil;ar, tem um car&aacute;cter normativo tamb&eacute;m para a cultura. O homem interpreta e modela o ambiente natural atrav&eacute;s da cultura, a qual, por sua vez, &eacute; orientada por meio da liberdade respons&aacute;vel, atenta aos ditames da lei moral. Por isso, os projectos para um desenvolvimento humano integral n&atilde;o podem ignorar os vindouros, mas devem ser animados pela solidariedade e a justi&ccedil;a entre as gera&ccedil;&otilde;es, tendo em conta os diversos &acirc;mbitos: ecol&oacute;gico, jur&iacute;dico, econ&oacute;mico, pol&iacute;tico, cultural[117].<\/p>\n<p>49. Hoje, as quest&otilde;es relacionadas com o cuidado e a preserva&ccedil;&atilde;o do ambiente devem ter na devida considera&ccedil;&atilde;o as problem&aacute;ticas energ&eacute;ticas. De facto, o a&ccedil;ambarcamento dos recursos energ&eacute;ticos n&atilde;o renov&aacute;veis por parte de alguns Estados, grupos de poder e empresas constitui um grave impedimento para o desenvolvimento dos pa&iacute;ses pobres. Estes n&atilde;o t&ecirc;m os meios econ&oacute;micos para chegar &agrave;s fontes energ&eacute;ticas n&atilde;o renov&aacute;veis que existem, nem para financiar a pesquisa de fontes novas e alternativas. A monopoliza&ccedil;&atilde;o dos recursos naturais, que em muitos casos se encontram precisamente nos pa&iacute;ses pobres, gera explora&ccedil;&atilde;o e frequentes conflitos entre as na&ccedil;&otilde;es e dentro das mesmas. E muitas vezes estes conflitos s&atilde;o travados precisamente no territ&oacute;rio de tais pa&iacute;ses, com um pesado balan&ccedil;o em termos de mortes, destrui&ccedil;&otilde;es e maior degrada&ccedil;&atilde;o. A comunidade internacional tem o imperioso dever de encontrar as vias institucionais para regular a explora&ccedil;&atilde;o dos recursos n&atilde;o renov&aacute;veis, com a participa&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m dos pa&iacute;ses pobres, de modo a planificar em conjunto o futuro.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m sobre este aspecto, h&aacute; urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade, especialmente nas rela&ccedil;&otilde;es entre os pa&iacute;ses em vias de desenvolvimento e os pa&iacute;ses altamente industrializados[118]. As sociedades tecnicamente avan&ccedil;adas podem e devem diminuir o consumo energ&eacute;tico, seja porque as actividades manufactureiras evoluem, seja porque entre os seus cidad&atilde;os reina maior sensibilidade ecol&oacute;gica. Al&eacute;m disso, h&aacute; que acrescentar que, actualmente, &eacute; poss&iacute;vel melhorar a efici&ecirc;ncia energ&eacute;tica e fazer avan&ccedil;ar a pesquisa de energias alternativas; mas &eacute; necess&aacute;ria tamb&eacute;m uma redistribui&ccedil;&atilde;o mundial dos recursos energ&eacute;ticos, de modo que os pr&oacute;prios pa&iacute;ses desprovidos possam ter acesso aos mesmos. O seu destino n&atilde;o pode ser deixado nas m&atilde;os do primeiro a chegar nem estar sujeito &agrave; l&oacute;gica do mais forte. Trata-se de problemas relevantes que, para serem enfrentados de modo adequado, requerem da parte de todos uma respons&aacute;vel tomada de consci&ecirc;ncia das consequ&ecirc;ncias que recair&atilde;o sobre as novas gera&ccedil;&otilde;es, principalmente sobre a imensidade de jovens das na&ccedil;&otilde;es mais pobres, que &laquo;reclamam a sua parte activa na constru&ccedil;&atilde;o de um mundo melhor&raquo;[119].<\/p>\n<p>50. Esta responsabilidade &eacute; global, porque n&atilde;o diz respeito somente &agrave; energia, mas a toda a cria&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o devemos deixar &agrave;s novas gera&ccedil;&otilde;es depauperada dos seus recursos. &Eacute; l&iacute;cito ao homem exercer um governo respons&aacute;vel sobre a natureza para a guardar, fazer frutificar e cultivar inclusive com formas novas e tecnologias avan&ccedil;adas, para que possa acolher e alimentar condignamente a popula&ccedil;&atilde;o que a habita. H&aacute; espa&ccedil;o para todos nesta nossa terra: aqui a fam&iacute;lia humana inteira deve encontrar os recursos necess&aacute;rios para viver dignamente, com a ajuda da pr&oacute;pria natureza, dom de Deus aos seus filhos, e com o empenho do seu trabalho e engenho. Devemos, por&eacute;m, sentir como grav&iacute;ssimo o dever de entregar a terra &agrave;s novas gera&ccedil;&otilde;es num estado tal que tamb&eacute;m elas possam dignamente habit&aacute;-la e continuar a cultiv&aacute;-la. Isto implica &laquo;o empenho de decidir juntos, depois de ter ponderado responsavelmente qual a estrada a percorrer, com o objectivo de refor&ccedil;ar aquela alian&ccedil;a entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho&raquo;[120]. &Eacute; desej&aacute;vel que a comunidade internacional e os diversos governos saibam contrastar, de maneira eficaz, as modalidades de utiliza&ccedil;&atilde;o do ambiente que sejam danosas para o mesmo. &Eacute; igualmente for&ccedil;oso que se empreendam, por parte das autoridades competentes, todos os esfor&ccedil;os necess&aacute;rios para que os custos econ&oacute;micos e sociais derivados do uso dos recursos ambientais comuns sejam reconhecidos de maneira transparente e plenamente suportados por quem deles usufrui e n&atilde;o por outras popula&ccedil;&otilde;es nem pelas gera&ccedil;&otilde;es futuras: a protec&ccedil;&atilde;o do ambiente, dos recursos e do clima requer que todos os respons&aacute;veis internacionais actuem conjuntamente e se demonstrem prontos a agir de boa f&eacute;, no respeito da lei e da solidariedade para com as regi&otilde;es mais d&eacute;beis da terra[121]. Uma das maiores tarefas da economia &eacute; precisamente um uso mais eficiente dos recursos, n&atilde;o o abuso, tendo sempre presente que a no&ccedil;&atilde;o de efici&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; axiologicamente neutra.<\/p>\n<p>51. O modo como o homem trata o ambiente influi sobre o modo como se trata a si mesmo, e vice-versa. Isto chama a sociedade actual a uma s&eacute;ria revis&atilde;o do seu estilo de vida que, em muitas partes do mundo, pende para o hedonismo e o consumismo, sem olhar aos danos que da&iacute; derivam[122]. &Eacute; necess&aacute;ria uma real mudan&ccedil;a de mentalidade que nos induza a adoptar novos estilos de vida, &laquo;nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunh&atilde;o com os outros homens para um crescimento comum sejam os elementos que determinam as op&ccedil;&otilde;es dos consumos, das poupan&ccedil;as e dos investimentos&raquo;[123]. Toda a les&atilde;o da solidariedade e da amizade c&iacute;vica provoca danos ambientais, assim como a degrada&ccedil;&atilde;o ambiental, por sua vez, gera insatisfa&ccedil;&atilde;o nas rela&ccedil;&otilde;es sociais. A natureza, especialmente no nosso tempo, est&aacute; t&atilde;o integrada nas din&acirc;micas sociais e culturais que quase j&aacute; n&atilde;o constitui uma vari&aacute;vel independente. A desertifica&ccedil;&atilde;o e a pen&uacute;ria produtiva de algumas &aacute;reas agr&iacute;colas s&atilde;o fruto tamb&eacute;m do empobrecimento das popula&ccedil;&otilde;es que as habitam e do seu atraso. Incentivando o desenvolvimento econ&oacute;mico e cultural daquelas popula&ccedil;&otilde;es, tutela-se tamb&eacute;m a natureza. Al&eacute;m disso, quantos recursos naturais s&atilde;o devastados pela guerra! A paz dos povos e entre os povos permitiria tamb&eacute;m uma maior preserva&ccedil;&atilde;o da natureza. O a&ccedil;ambarcamento dos recursos, especialmente da &aacute;gua, pode provocar graves conflitos entre as popula&ccedil;&otilde;es envolvidas. Um acordo pac&iacute;fico sobre o uso dos recursos pode salvaguardar a natureza e, simultaneamente, o bem-estar das sociedades interessadas.<\/p>\n<p>A Igreja sente o seu peso de responsabilidade pela cria&ccedil;&atilde;o e deve fazer valer esta responsabilidade tamb&eacute;m em p&uacute;blico. Ao faz&ecirc;-lo, n&atilde;o tem apenas de defender a terra, a &aacute;gua e o ar como dons da cria&ccedil;&atilde;o que pertencem a todos, mas deve sobretudo proteger o homem da destrui&ccedil;&atilde;o de si mesmo. Requer-se uma esp&eacute;cie de ecologia do homem, entendida no justo sentido. De facto, a degrada&ccedil;&atilde;o da natureza est&aacute; estreitamente ligada &agrave; cultura que molda a conviv&ecirc;ncia humana: quando a &laquo;ecologia humana&raquo;[124] &eacute; respeitada dentro da sociedade, beneficia tamb&eacute;m a ecologia ambiental. Tal como as virtudes humanas s&atilde;o inter-comunicantes, de modo que o enfraquecimento de uma p&otilde;e em risco tamb&eacute;m as outras, assim tamb&eacute;m o sistema ecol&oacute;gico se baseia no respeito de um projecto que se refere tanto &agrave; s&atilde; conviv&ecirc;ncia em sociedade como ao bom relacionamento com a natureza.<\/p>\n<p>Para preservar a natureza n&atilde;o basta intervir com incentivos ou penaliza&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas, nem &eacute; suficiente uma instru&ccedil;&atilde;o adequada. Trata-se de instrumentos importantes, mas o problema decisivo &eacute; a solidez moral da sociedade em geral. Se n&atilde;o &eacute; respeitado o direito &agrave; vida e &agrave; morte natural, se se torna artificial a concep&ccedil;&atilde;o, a gesta&ccedil;&atilde;o e o nascimento do homem, se s&atilde;o sacrificados embri&otilde;es humanos na pesquisa, a consci&ecirc;ncia comum acaba por perder o conceito de ecologia humana e, com ele, o de ecologia ambiental. &Eacute; uma contradi&ccedil;&atilde;o pedir &agrave;s novas gera&ccedil;&otilde;es o respeito do ambiente natural, quando a educa&ccedil;&atilde;o e as leis n&atilde;o as ajudam a respeitar-se a si mesmas. O livro da natureza &eacute; uno e indivis&iacute;vel, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a vertente da vida, da sexualidade, do matrim&oacute;nio, da fam&iacute;lia, das rela&ccedil;&otilde;es sociais, numa palavra, do desenvolvimento humano integral. Os deveres que temos para com o ambiente est&atilde;o ligados com os deveres que temos para com a pessoa considerada em si mesma e em rela&ccedil;&atilde;o com os outros; n&atilde;o se podem exigir uns e espezinhar os outros. Esta &eacute; uma grave antinomia da mentalidade e do agir actuais, que avilta a pessoa, transtorna o ambiente e prejudica a sociedade.<\/p>\n<p>52. A verdade e o amor que a mesma desvenda n&atilde;o se podem produzir, mas apenas acolher. A sua fonte &uacute;ltima n&atilde;o &eacute; &#8211; nem pode ser &#8211; o homem, mas Deus, ou seja, Aquele que &eacute; Verdade e Amor. Este princ&iacute;pio &eacute; muito importante para a sociedade e para o desenvolvimento, enquanto nem uma nem outro podem ser somente produtos humanos; a pr&oacute;pria voca&ccedil;&atilde;o ao desenvolvimento das pessoas e dos povos n&atilde;o se funda sobre a simples delibera&ccedil;&atilde;o humana, mas est&aacute; inscrita num plano que nos precede e constitui para todos n&oacute;s um dever que h&aacute;-de ser livremente assumido. Aquilo que nos precede e constitui &#8211; o Amor e a Verdade subsistentes &#8211; indica-nos o que &eacute; o bem e em que consiste a nossa felicidade. E, por conseguinte, aponta-nos o caminho para o verdadeiro desenvolvimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CAP&Iacute;TULO V<\/p>\n<p><em>A COLABORA&Ccedil;&Atilde;O<br \/>DA FAM&Iacute;LIA HUMANA<\/em><\/strong><\/p>\n<p>53. Uma das pobrezas mais profundas que o homem pode experimentar &eacute; a solid&atilde;o. Vistas bem as coisas, as outras pobrezas, incluindo a material, tamb&eacute;m nascem do isolamento, de n&atilde;o ser amado ou da dificuldade de amar. As pobrezas frequentemente nasceram da recusa do amor de Deus, de uma origin&aacute;ria e tr&aacute;gica reclus&atilde;o do homem em si pr&oacute;prio, que pensa que se basta a si mesmo ou ent&atilde;o que &eacute; s&oacute; um facto insignificante e passageiro, um &laquo;estrangeiro&raquo; num universo formado por acaso. O homem aliena-se quando fica sozinho ou se afasta da realidade, quando renuncia a pensar e a crer num Fundamento[125]. A humanidade inteira aliena-se quando se entrega a projectos unicamente humanos, a ideologias e a falsas utopias[126]. A humanidade aparece, hoje, muito mais interactiva do que no passado: esta maior proximidade deve transformar-se em verdadeira comunh&atilde;o. O desenvolvimento dos povos depende sobretudo do reconhecimento de que s&atilde;o uma s&oacute; fam&iacute;lia, a qual colabora em verdadeira comunh&atilde;o e &eacute; formada por sujeitos que n&atilde;o se limitam a viver uns ao lado dos outros[127].<\/p>\n<p>Observava Paulo VI que &laquo;o mundo sofre por falta de convic&ccedil;&otilde;es&raquo;[128]. A afirma&ccedil;&atilde;o quer exprimir n&atilde;o apenas uma constata&ccedil;&atilde;o, mas sobretudo um voto: serve um novo &iacute;mpeto do pensamento para compreender melhor as implica&ccedil;&otilde;es do facto de sermos uma fam&iacute;lia; a interac&ccedil;&atilde;o entre os povos da terra chama-nos a este &iacute;mpeto, para que a integra&ccedil;&atilde;o se verifique sob o signo da solidariedade[129] e n&atilde;o da marginaliza&ccedil;&atilde;o. Tal pensamento obriga a um aprofundamento cr&iacute;tico e axiol&oacute;gico da categoria rela&ccedil;&atilde;o. Trata-se de uma tarefa que n&atilde;o pode ser desempenhada s&oacute; pelas ci&ecirc;ncias sociais, mas requer a contribui&ccedil;&atilde;o de ci&ecirc;ncias como a metaf&iacute;sica e a teologia para ver lucidamente a dignidade transcendente do homem.<\/p>\n<p>De natureza espiritual, a criatura humana realiza-se nas rela&ccedil;&otilde;es interpessoais: quanto mais as vive de forma aut&ecirc;ntica, tanto mais amadurece a pr&oacute;pria identidade pessoal. N&atilde;o &eacute; isolando-se que o homem se valoriza a si mesmo, mas relacionando-se com os outros e com Deus, pelo que estas rela&ccedil;&otilde;es s&atilde;o de import&acirc;ncia fundamental. Isto vale tamb&eacute;m para os povos; por isso &eacute; muito &uacute;til para o seu desenvolvimento uma vis&atilde;o metaf&iacute;sica da rela&ccedil;&atilde;o entre as pessoas. A tal respeito, a raz&atilde;o encontra inspira&ccedil;&atilde;o e orienta&ccedil;&atilde;o na revela&ccedil;&atilde;o crist&atilde;, segundo a qual a comunidade dos homens n&atilde;o absorve em si a pessoa, aniquilando a sua autonomia, como acontece nas v&aacute;rias formas de totalitarismo, mas valoriza-a ainda mais porque a rela&ccedil;&atilde;o entre pessoa e comunidade &eacute; feita de um todo para outro todo[130]. Do mesmo modo que a comunidade familiar n&atilde;o anula em si as pessoas que a comp&otilde;em e a pr&oacute;pria Igreja valoriza plenamente a &laquo;nova criatura&raquo; (Gal 6, 15; 2 Cor 5, 17) que pelo baptismo se insere no seu Corpo vivo, assim tamb&eacute;m a unidade da fam&iacute;lia humana n&atilde;o anula em si as pessoas, os povos e as culturas, mas torna-os mais transparentes reciprocamente, mais unidos nas suas leg&iacute;timas diversidades.<\/p>\n<p>54. O tema do desenvolvimento coincide com o da inclus&atilde;o relacional de todas as pessoas e de todos os povos na &uacute;nica comunidade da fam&iacute;lia humana, que se constr&oacute;i na solidariedade, tendo por base os valores fundamentais da justi&ccedil;a e da paz. Esta perspectiva encontra um decisivo esclarecimento na rela&ccedil;&atilde;o entre as Pessoas da Trindade na &uacute;nica Subst&acirc;ncia divina. A Trindade &eacute; absoluta unidade, enquanto as tr&ecirc;s Pessoas divinas s&atilde;o pura rela&ccedil;&atilde;o. A transpar&ecirc;ncia rec&iacute;proca entre as Pessoas divinas &eacute; plena, e a liga&ccedil;&atilde;o de uma com a outra total, porque constituem uma unidade e unicidade absoluta. Deus quer-nos associar tamb&eacute;m a esta realidade de comunh&atilde;o: &laquo;para que sejam um como N&oacute;s somos um&raquo; (Jo 17, 22). A Igreja &eacute; sinal e instrumento desta unidade[131]. As pr&oacute;prias rela&ccedil;&otilde;es entre os homens, ao longo da hist&oacute;ria, s&oacute; podem ganhar com a refer&ecirc;ncia a este Modelo divino. De modo particular compreende-se, &agrave; luz do mist&eacute;rio revelado da Trindade, que a verdadeira abertura n&atilde;o significa dispers&atilde;o centr&iacute;fuga, mas profunda compenetra&ccedil;&atilde;o. O mesmo resulta das experi&ecirc;ncias humanas comuns do amor e da verdade. Como o amor sacramental entre os esposos os une espiritualmente a ponto de formarem &laquo;uma s&oacute; carne&raquo; (Gn 2, 24; Mt 19, 5; Ef 5, 31) e, de dois que eram, faz uma unidade relacional e real, de forma an&aacute;loga a verdade une os esp&iacute;ritos entre si e f&aacute;-los pensar em un&iacute;ssono, atraindo-os e unindo-os nela.<\/p>\n<p>55. A revela&ccedil;&atilde;o crist&atilde; sobre a unidade do g&eacute;nero humano pressup&otilde;e uma interpreta&ccedil;&atilde;o metaf&iacute;sica do humanum na qual a rela&ccedil;&atilde;o seja elemento essencial. Tamb&eacute;m outras culturas e outras religi&otilde;es ensinam a fraternidade e a paz, revestindo-se, por isso, de grande import&acirc;ncia para o desenvolvimento humano integral; mas n&atilde;o faltam comportamentos religiosos e culturais em que n&atilde;o se assume plenamente o princ&iacute;pio do amor e da verdade, e acaba-se assim por refrear o verdadeiro desenvolvimento humano ou mesmo impedi-lo. O mundo actual regista a presen&ccedil;a de algumas culturas de matiz religioso que n&atilde;o empenham o homem na comunh&atilde;o, mas isolam-no na busca do bem-estar individual, limitando-se a satisfazer os seus anseios psicol&oacute;gicos. Tamb&eacute;m uma certa prolifera&ccedil;&atilde;o de percursos religiosos de pequenos grupos ou mesmo de pessoas individuais e o sincretismo religioso podem ser factores de dispers&atilde;o e de apatia. Um poss&iacute;vel efeito negativo do processo de globaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; a tend&ecirc;ncia a favorecer tal sincretismo[132], alimentando formas de &laquo;religi&atilde;o&raquo; que, em vez de fazer as pessoas encontrarem-se, alheiam-nas umas das outras e afastam-nas da realidade. Simultaneamente, &agrave;s vezes perduram legados culturais e religiosos que bloqueiam a sociedade em castas sociais est&aacute;ticas, em cren&ccedil;as m&aacute;gicas n&atilde;o respeitadoras da dignidade da pessoa, em comportamentos de sujei&ccedil;&atilde;o a for&ccedil;as ocultas. Nestes contextos, o amor e a verdade encontram dificuldade em afirmar-se, com preju&iacute;zo para o aut&ecirc;ntico desenvolvimento.<\/p>\n<p>Por este motivo, se &eacute; verdade, por um lado, que o desenvolvimento tem necessidade das religi&otilde;es e das culturas dos diversos povos, por outro, n&atilde;o o &eacute; menos a necessidade de um adequado discernimento. A liberdade religiosa n&atilde;o significa indiferentismo religioso, nem implica que todas as religi&otilde;es sejam iguais[133]. Para a constru&ccedil;&atilde;o da comunidade social no respeito do bem comum, torna-se necess&aacute;rio, sobretudo para quem exerce o poder pol&iacute;tico, o discernimento sobre o contributo das culturas e das religi&otilde;es. Tal discernimento dever&aacute; basear-se sobre o crit&eacute;rio da caridade e da verdade. Dado que est&aacute; em jogo o desenvolvimento das pessoas e dos povos, aquele h&aacute;-de ter em conta a possibilidade de emancipa&ccedil;&atilde;o e de inclus&atilde;o na perspectiva de uma comunidade humana verdadeiramente universal. O crit&eacute;rio &laquo;o homem todo e todos os homens&raquo; serve para avaliar tamb&eacute;m as culturas e as religi&otilde;es. O cristianismo, religi&atilde;o do &laquo;Deus de rosto humano&raquo;[134], traz em si mesmo tal crit&eacute;rio.<\/p>\n<p>56. A religi&atilde;o crist&atilde; e as outras religi&otilde;es s&oacute; podem dar o seu contributo para o desenvolvimento, se Deus encontrar lugar tamb&eacute;m na esfera p&uacute;blica, nomeadamente nas dimens&otilde;es cultural, social, econ&oacute;mica e particularmente pol&iacute;tica. A doutrina social da Igreja nasceu para reivindicar este &laquo;estatuto de cidadania&raquo;[135] da religi&atilde;o crist&atilde;. A nega&ccedil;&atilde;o do direito de professar publicamente a pr&oacute;pria religi&atilde;o e de fazer com que as verdades da f&eacute; moldem a vida p&uacute;blica, acarreta consequ&ecirc;ncias negativas para o verdadeiro desenvolvimento. A exclus&atilde;o da religi&atilde;o do &acirc;mbito p&uacute;blico e, na vertente oposta, o fundamentalismo religioso impedem o encontro entre as pessoas e a sua colabora&ccedil;&atilde;o para o progresso da humanidade. A vida p&uacute;blica torna-se pobre de motiva&ccedil;&otilde;es, e a pol&iacute;tica assume um rosto oprimente e agressivo. Os direitos humanos correm o risco de n&atilde;o ser respeitados, ou porque ficam privados do seu fundamento transcendente ou porque n&atilde;o &eacute; reconhecida a liberdade pessoal. No laicismo e no fundamentalismo, perde-se a possibilidade de um di&aacute;logo fecundo e de uma prof&iacute;cua colabora&ccedil;&atilde;o entre a raz&atilde;o e a f&eacute; religiosa. A raz&atilde;o tem sempre necessidade de ser purificada pela f&eacute;; e isto vale tamb&eacute;m para a raz&atilde;o pol&iacute;tica, que n&atilde;o se deve crer omnipotente. A religi&atilde;o, por sua vez, precisa sempre de ser purificada pela raz&atilde;o, para mostrar o seu aut&ecirc;ntico rosto humano. A ruptura deste di&aacute;logo implica um custo muito gravoso para o desenvolvimento da humanidade.<\/p>\n<p>57. O di&aacute;logo fecundo entre f&eacute; e raz&atilde;o n&atilde;o pode deixar de tornar mais eficaz a ac&ccedil;&atilde;o da caridade na sociedade, e constitui o quadro mais apropriado para incentivar a colabora&ccedil;&atilde;o fraterna entre crentes e n&atilde;o crentes na perspectiva comum de trabalhar pela justi&ccedil;a e a paz da humanidade. Na constitui&ccedil;&atilde;o pastoral Gaudium et spes, os Padres conciliares afirmavam: &laquo;Tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado em fun&ccedil;&atilde;o do homem, como seu centro e seu termo: neste ponto existe um acordo quase geral entre crentes e n&atilde;o crentes&raquo;[136]. Segundo os crentes, o mundo n&atilde;o &eacute; fruto do acaso nem da necessidade, mas de um projecto de Deus. Daqui nasce o dever que os crentes t&ecirc;m de unir os seus esfor&ccedil;os com todos os homens e mulheres de boa vontade, de outras religi&otilde;es ou n&atilde;o crentes, para que este nosso mundo corresponda efectivamente ao projecto divino: viver como uma fam&iacute;lia, sob o olhar do seu Criador. Particular manifesta&ccedil;&atilde;o da caridade e crit&eacute;rio orientador para a colabora&ccedil;&atilde;o fraterna de crentes e n&atilde;o crentes &eacute;, sem d&uacute;vida, o princ&iacute;pio de subsidiariedade[137], express&atilde;o da inalien&aacute;vel liberdade humana. A subsidiariedade &eacute;, antes de mais nada, uma ajuda &agrave; pessoa, na autonomia dos corpos interm&eacute;dios. Tal ajuda &eacute; oferecida quando a pessoa e os sujeitos sociais n&atilde;o conseguem operar por si s&oacute;s, e implica sempre finalidades emancipadoras, porque favorece a liberdade e a participa&ccedil;&atilde;o enquanto assun&ccedil;&atilde;o de responsabilidades. A subsidiariedade respeita a dignidade da pessoa, na qual v&ecirc; um sujeito sempre capaz de dar algo aos outros. Ao reconhecer na reciprocidade a constitui&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima do ser humano, a subsidiariedade &eacute; o ant&iacute;doto mais eficaz contra toda a forma de assistencialismo paternalista. Pode motivar tanto a m&uacute;ltipla articula&ccedil;&atilde;o dos v&aacute;rios n&iacute;veis e consequentemente a pluralidade dos sujeitos, como a sua coordena&ccedil;&atilde;o. Trata-se, pois, de um princ&iacute;pio particularmente id&oacute;neo para governar a globaliza&ccedil;&atilde;o e orient&aacute;-la para um verdadeiro desenvolvimento humano. Para n&atilde;o se gerar um perigoso poder universal de tipo monocr&aacute;tico, o governo da globaliza&ccedil;&atilde;o deve ser de tipo subsidi&aacute;rio, articulado segundo v&aacute;rios e diferenciados n&iacute;veis que colaborem reciprocamente. A globaliza&ccedil;&atilde;o tem necessidade, sem d&uacute;vida, de autoridade, enquanto p&otilde;e o problema de um bem comum global a alcan&ccedil;ar; mas tal autoridade dever&aacute; ser organizada de modo subsidi&aacute;rio e poli&aacute;rquico[138], seja para n&atilde;o lesar a liberdade, seja para resultar concretamente eficaz.<\/p>\n<p>58. O princ&iacute;pio de subsidiariedade h&aacute;-de ser mantido estritamente ligado com o princ&iacute;pio de solidariedade e vice-versa, porque, se a subsidiariedade sem a solidariedade decai no particularismo social, a solidariedade sem a subsidiariedade decai no assistencialismo que humilha o sujeito necessitado. Esta regra de car&aacute;cter geral deve ser tida em grande considera&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m quando se enfrentam as tem&aacute;ticas referentes &agrave;s ajudas internacionais destinadas ao desenvolvimento. Estas, independentemente das inten&ccedil;&otilde;es dos doadores, podem por vezes manter um povo num estado de depend&ecirc;ncia e at&eacute; favorecer situa&ccedil;&otilde;es de sujei&ccedil;&atilde;o local e de explora&ccedil;&atilde;o dentro do pa&iacute;s ajudado. Para serem verdadeiramente tais, as ajudas econ&oacute;micas n&atilde;o devem visar segundos fins. H&atilde;o-de ser concedidas envolvendo n&atilde;o s&oacute; os governos dos pa&iacute;ses interessados, mas tamb&eacute;m os agentes econ&oacute;micos locais e os sujeitos da sociedade civil portadores de cultura, incluindo as Igrejas locais. Os programas de ajuda devem assumir sempre mais as caracter&iacute;sticas de programas integrados e participados a partir de baixo. A verdade &eacute; que o maior recurso a valorizar nos pa&iacute;ses que s&atilde;o assistidos no desenvolvimento &eacute; o recurso humano: este &eacute; o aut&ecirc;ntico capital que se h&aacute;-de fazer crescer para assegurar aos pa&iacute;ses mais pobres um verdadeiro futuro aut&oacute;nomo. H&aacute; que recordar tamb&eacute;m que, no campo econ&oacute;mico, a principal ajuda de que t&ecirc;m necessidade os pa&iacute;ses em vias de desenvolvimento &eacute; a de permitir e favorecer a progressiva inser&ccedil;&atilde;o dos seus produtos nos mercados internacionais, tornando poss&iacute;vel assim a sua plena participa&ccedil;&atilde;o na vida econ&oacute;mica internacional. Muitas vezes, no passado, as ajudas serviram apenas para criar mercados marginais para os produtos destes pa&iacute;ses. Isto, frequentemente, fica a dever-se &agrave; falta de uma verdadeira procura destes produtos; por isso, &eacute; necess&aacute;rio ajudar tais pa&iacute;ses a melhorar os seus produtos e a adapt&aacute;-los melhor &agrave; procura. Al&eacute;m disso, alguns temem a concorr&ecirc;ncia das importa&ccedil;&otilde;es de produtos, normalmente agr&iacute;colas, provenientes dos pa&iacute;ses economicamente pobres; contudo devem-se recordar que, para estes pa&iacute;ses, a possibilidade de comercializar tais produtos significa muitas vezes garantir a sua sobreviv&ecirc;ncia a breve e longo prazo. Um com&eacute;rcio internacional justo e equilibrado no campo agr&iacute;cola pode trazer benef&iacute;cios a todos, quer do lado da oferta quer do lado da procura. Por este motivo, &eacute; preciso n&atilde;o s&oacute; orientar comercialmente estas produ&ccedil;&otilde;es, mas tamb&eacute;m estabelecer regras comerciais internacionais que as apoiem e refor&ccedil;ar o financiamento ao desenvolvimento para tornar mais produtivas estas economias.<\/p>\n<p>59. A coopera&ccedil;&atilde;o no desenvolvimento n&atilde;o deve limitar-se apenas &agrave; dimens&atilde;o econ&oacute;mica, mas h&aacute;-de tornar-se uma grande ocasi&atilde;o de encontro cultural e humano. Se os sujeitos da coopera&ccedil;&atilde;o dos pa&iacute;ses economicamente desenvolvidos n&atilde;o t&ecirc;m em conta &#8211; como &agrave;s vezes sucede &#8211; a identidade cultural, pr&oacute;pria e alheia, feita de valores humanos, n&atilde;o podem instaurar um di&aacute;logo profundo com os cidad&atilde;os dos pa&iacute;ses pobres. Se estes, por sua vez, se abrem indiferentemente e sem discernimento a qualquer proposta cultural, ficam sem condi&ccedil;&otilde;es para assumir a responsabilidade do seu aut&ecirc;ntico desenvolvimento[139]. As sociedades tecnologicamente avan&ccedil;adas n&atilde;o devem confundir o pr&oacute;prio desenvolvimento tecnol&oacute;gico com uma suposta superioridade cultural, mas h&atilde;o-de descobrir em si pr&oacute;prias virtudes, por vezes esquecidas, que as fizeram florescer ao longo da hist&oacute;ria. As sociedades em crescimento devem permanecer fi&eacute;is a tudo o que h&aacute; de verdadeiramente humano nas suas tradi&ccedil;&otilde;es, evitando de lhe sobrepor automaticamente os mecanismos da civiliza&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica globalizada. Existem, em todas as culturas, singulares e variadas converg&ecirc;ncias &eacute;ticas, express&atilde;o de uma mesma natureza humana querida pelo Criador e que a sabedoria &eacute;tica da humanidade chama lei natural[140]. Esta lei moral universal &eacute; um fundamento firme de todo o di&aacute;logo cultural, religioso e pol&iacute;tico e permite que o multiforme pluralismo das v&aacute;rias culturas n&atilde;o se desvie da busca comum da verdade, do bem e de Deus. Por isso, a ades&atilde;o a esta lei escrita nos cora&ccedil;&otilde;es &eacute; o pressuposto de qualquer colabora&ccedil;&atilde;o social construtiva. Em todas as culturas existem pesos de que libertar-se, sombras a que subtrair-se. A f&eacute; crist&atilde;, que se encarna nas culturas transcendendo-as, pode ajud&aacute;-las a crescer na fraterniza&ccedil;&atilde;o e solidariedade universais com benef&iacute;cio para o desenvolvimento comunit&aacute;rio e mundial.<\/p>\n<p>60. Quando se procurarem solu&ccedil;&otilde;es para a crise econ&oacute;mica actual, a ajuda ao desenvolvimento dos pa&iacute;ses pobres deve ser considerada como verdadeiro instrumento de cria&ccedil;&atilde;o de riqueza para todos. Que projecto de ajuda pode abrir perspectivas t&atilde;o significativas de mais valia &#8211; mesmo da economia mundial &#8211; como o apoio a popula&ccedil;&otilde;es que se encontram ainda numa fase inicial ou pouco avan&ccedil;ada do seu processo de desenvolvimento econ&oacute;mico? Nesta linha, os Estados economicamente mais desenvolvidos h&atilde;o-de fazer o poss&iacute;vel por destinar quotas maiores do seu produto interno bruto para as ajudas ao desenvolvimento, respeitando os compromissos que, sobre este ponto, foram tomados a n&iacute;vel de comunidade internacional. Poder&atilde;o faz&ecirc;-lo inclusivamente revendo as pol&iacute;ticas internas de assist&ecirc;ncia e de solidariedade social, aplicando-lhes o princ&iacute;pio de subsidiariedade e criando sistemas mais integradores de previd&ecirc;ncia social, com a participa&ccedil;&atilde;o activa dos sujeitos privados e da sociedade civil. Deste modo, pode-se at&eacute; melhorar os servi&ccedil;os sociais e de assist&ecirc;ncia e simultaneamente poupar recursos, eliminando desperd&iacute;cios e subven&ccedil;&otilde;es abusivas, para destinar &agrave; solidariedade internacional. Um sistema de solidariedade social melhor comparticipado e organizado, menos burocr&aacute;tico sem ficar menos coordenado, permitiria valorizar muitas energias, hoje adormecidas, em benef&iacute;cio tamb&eacute;m da solidariedade entre os povos.<\/p>\n<p>Uma possibilidade de ajuda para o desenvolvimento poderia derivar da aplica&ccedil;&atilde;o eficaz da chamada subsidiariedade fiscal, que permitiria aos cidad&atilde;os decidirem o destino de parte dos seus impostos devidos ao Estado. Evitando degenera&ccedil;&otilde;es particularistas, isso pode servir de incentivo para formas de solidariedade social a partir de baixo, com &oacute;bvios benef&iacute;cios tamb&eacute;m na vertente da solidariedade para o desenvolvimento.<\/p>\n<p>61. Uma solidariedade mais ampla a n&iacute;vel internacional exprime-se, antes de mais nada, continuando a promover, mesmo em condi&ccedil;&otilde;es de crise econ&oacute;mica, maior acesso &agrave; educa&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que esta &eacute; condi&ccedil;&atilde;o essencial para a efic&aacute;cia da pr&oacute;pria coopera&ccedil;&atilde;o internacional. Com o termo &laquo;educa&ccedil;&atilde;o&raquo;, n&atilde;o se pretende referir apenas a instru&ccedil;&atilde;o escolar ou a forma&ccedil;&atilde;o para o trabalho &#8211; ambas, causas importantes de desenvolvimento &#8211; mas a forma&ccedil;&atilde;o completa da pessoa. A este prop&oacute;sito, deve-se sublinhar um aspecto do problema: para educar, &eacute; preciso saber quem &eacute; a pessoa humana, conhecer a sua natureza. A progressiva difus&atilde;o de uma vis&atilde;o relativista desta coloca s&eacute;rios problemas &agrave; educa&ccedil;&atilde;o, sobretudo &agrave; educa&ccedil;&atilde;o moral, prejudicando a sua extens&atilde;o a n&iacute;vel universal. Cedendo a tal relativismo, ficam todos mais pobres, com consequ&ecirc;ncias negativas tamb&eacute;m sobre a efic&aacute;cia da ajuda &agrave;s popula&ccedil;&otilde;es mais carecidas, que n&atilde;o t&ecirc;m necessidade apenas de meios econ&oacute;micos ou t&eacute;cnicos, mas tamb&eacute;m de m&eacute;todos e meios pedag&oacute;gicos que ajudem as pessoas a chegar &agrave; sua plena realiza&ccedil;&atilde;o humana.<\/p>\n<p>Um exemplo da relev&acirc;ncia deste problema temo-lo no fen&oacute;meno do turismo internacional[141], que pode constituir not&aacute;vel factor de desenvolvimento econ&oacute;mico e de crescimento cultural, mas pode tamb&eacute;m transformar-se em ocasi&atilde;o de explora&ccedil;&atilde;o e degrada&ccedil;&atilde;o moral. A situa&ccedil;&atilde;o actual oferece singulares oportunidades para que os aspectos econ&oacute;micos do desenvolvimento, ou seja, os fluxos de dinheiro e o nascimento em sede local de significativas experi&ecirc;ncias empresariais, cheguem a combinar-se com os aspectos culturais, sendo o educativo o primeiro deles. H&aacute; casos onde isso ocorre, mas em muitos outros o turismo internacional &eacute; fen&oacute;meno deseducativo, tanto para o turista como para as popula&ccedil;&otilde;es locais. Com frequ&ecirc;ncia, estas s&atilde;o confrontadas com comportamentos imorais ou mesmo perversos, como no caso do chamado turismo sexual, em que s&atilde;o sacrificados muitos seres humanos, mesmo de tenra idade. &Eacute; doloroso constatar que isto acontece frequentemente com o aval dos governos locais, com o sil&ecirc;ncio dos governos donde prov&ecirc;m os turistas e com a cumplicidade de muitos agentes do sector. Mesmo quando n&atilde;o se chega t&atilde;o longe, o turismo internacional n&atilde;o raramente &eacute; vivido de modo consumista e hedonista, como evas&atilde;o e com modalidades de organiza&ccedil;&atilde;o t&iacute;picas dos pa&iacute;ses de proveni&ecirc;ncia, e assim n&atilde;o se favorece um verdadeiro encontro entre pessoas e culturas. Por isso, &eacute; preciso pensar num turismo diverso, capaz de promover verdadeiro conhecimento rec&iacute;proco, sem tirar espa&ccedil;o ao repouso e ao s&atilde;o divertimento: um turismo deste g&eacute;nero h&aacute;-de ser incrementado, gra&ccedil;as tamb&eacute;m a uma liga&ccedil;&atilde;o mais estreita com as experi&ecirc;ncias de coopera&ccedil;&atilde;o internacional e de empresariado para o desenvolvimento.<\/p>\n<p>62. Outro aspecto merecedor de aten&ccedil;&atilde;o, ao tratar do desenvolvimento humano integral, &eacute; o fen&oacute;meno das migra&ccedil;&otilde;es. &Eacute; um fen&oacute;meno impressionante pela quantidade de pessoas envolvidas, pelas problem&aacute;ticas sociais, econ&oacute;micas, pol&iacute;ticas, culturais e religiosas que levanta, pelos desafios dram&aacute;ticos que coloca &agrave;s comunidades nacional e internacional. Pode-se dizer que estamos perante um fen&oacute;meno social de natureza epocal, que requer uma forte e clarividente pol&iacute;tica de coopera&ccedil;&atilde;o internacional para ser convenientemente enfrentado. Esta pol&iacute;tica h&aacute;-de ser desenvolvida a partir de uma estreita colabora&ccedil;&atilde;o entre os pa&iacute;ses donde partem os emigrantes e os pa&iacute;ses de chegada; h&aacute;-de ser acompanhada por adequadas normativas internacionais capazes de harmonizar os diversos sistemas legislativos, na perspectiva de salvaguardar as exig&ecirc;ncias e os direitos das pessoas e das fam&iacute;lias emigradas e, ao mesmo tempo, os das sociedades de chegada dos pr&oacute;prios emigrantes. Nenhum pa&iacute;s se pode considerar capaz de enfrentar, sozinho, os problemas migrat&oacute;rios do nosso tempo. Todos somos testemunhas da carga de sofrimentos, contrariedades e aspira&ccedil;&otilde;es que acompanha os fluxos migrat&oacute;rios. Como &eacute; sabido, o fen&oacute;meno &eacute; de gest&atilde;o complicada; todavia &eacute; certo que os trabalhadores estrangeiros, n&atilde;o obstante as dificuldades relacionadas com a sua integra&ccedil;&atilde;o, prestam com o seu trabalho um contributo significativo para o desenvolvimento econ&oacute;mico do pa&iacute;s de acolhimento e tamb&eacute;m do pa&iacute;s de origem com as remessas monet&aacute;rias. Obviamente, tais trabalhadores n&atilde;o podem ser considerados como simples mercadoria ou mera for&ccedil;a de trabalho; por isso, n&atilde;o devem ser tratados como qualquer outro factor de produ&ccedil;&atilde;o. Todo o imigrante &eacute; uma pessoa humana e, enquanto tal, possui direitos fundamentais inalien&aacute;veis que h&atilde;o-de ser respeitados por todos em qualquer situa&ccedil;&atilde;o[142].<\/p>\n<p>63. Ao considerar os problemas do desenvolvimento, n&atilde;o se pode deixar de p&ocirc;r em evid&ecirc;ncia o nexo directo entre pobreza e desemprego. Em muitos casos, os pobres s&atilde;o o resultado da viola&ccedil;&atilde;o da dignidade do trabalho humano, seja porque as suas possibilidades s&atilde;o limitadas (desemprego, subemprego), seja porque s&atilde;o desvalorizados &laquo;os direitos que dele brotam, especialmente o direito ao justo sal&aacute;rio, &agrave; seguran&ccedil;a da pessoa do trabalhador e da sua fam&iacute;lia&raquo;[143]. Por isso, j&aacute; no dia 1 de Maio de 2000, o meu predecessor Jo&atilde;o Paulo II, de venerada mem&oacute;ria, lan&ccedil;ou um apelo, por ocasi&atilde;o do Jubileu dos Trabalhadores, para &laquo;uma coliga&ccedil;&atilde;o mundial em favor do trabalho decente&raquo;[144], encorajando a estrat&eacute;gia da Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional do Trabalho. Conferia, assim, uma forte val&ecirc;ncia moral a este objectivo, enquanto aspira&ccedil;&atilde;o das fam&iacute;lias em todos os pa&iacute;ses do mundo. Qual &eacute; o significado da palavra &laquo;dec&ecirc;ncia&raquo; aplicada ao trabalho? Significa um trabalho que, em cada sociedade, seja a express&atilde;o da dignidade essencial de todo o homem e mulher: um trabalho escolhido livremente, que associe eficazmente os trabalhadores, homens e mulheres, ao desenvolvimento da sua comunidade; um trabalho que, deste modo, permita aos trabalhadores serem respeitados sem qualquer discrimina&ccedil;&atilde;o; um trabalho que consinta satisfazer as necessidades das fam&iacute;lias e dar a escolaridade aos filhos, sem que estes sejam constrangidos a trabalhar; um trabalho que permita aos trabalhadores organizarem-se livremente e fazerem ouvir a sua voz; um trabalho que deixe espa&ccedil;o suficiente para reencontrar as pr&oacute;prias ra&iacute;zes a n&iacute;vel pessoal, familiar e espiritual; um trabalho que assegure aos trabalhadores aposentados uma vida digna.<\/p>\n<p>64. Ao reflectir sobre este tema do trabalho, &eacute; oportuna uma chamada de aten&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m para a urgente necessidade de as organiza&ccedil;&otilde;es sindicais dos trabalhadores &#8211; desde sempre encorajadas e apoiadas pela Igreja &#8211; se abrirem &agrave;s novas perspectivas que surgem no &acirc;mbito laboral. Superando as limita&ccedil;&otilde;es pr&oacute;prias dos sindicatos de categoria, as organiza&ccedil;&otilde;es sindicais s&atilde;o chamadas a responsabilizar-se pelos novos problemas das nossas sociedades: refiro-me, por exemplo, ao conjunto de quest&otilde;es que os peritos de ci&ecirc;ncias sociais identificam no conflito entre pessoa-trabalhadora e pessoa-consumidora. Sem ter necessariamente de abra&ccedil;ar a tese duma efectiva passagem da centralidade do trabalhador para a do consumidor, parece em todo o caso que tamb&eacute;m este seja um terreno para experi&ecirc;ncias sindicais inovadoras. O contexto global em que se realiza o trabalho requer igualmente que as organiza&ccedil;&otilde;es sindicais nacionais, fechadas prevalentemente na defesa dos interesses dos pr&oacute;prios inscritos, volvam o olhar tamb&eacute;m para os n&atilde;o inscritos, particularmente para os trabalhadores dos pa&iacute;ses em vias de desenvolvimento, onde frequentemente os direitos sociais s&atilde;o violados. A defesa destes trabalhadores, promovida com oportunas iniciativas tamb&eacute;m nos pa&iacute;ses de origem, permitir&aacute; &agrave;s organiza&ccedil;&otilde;es sindicais porem em evid&ecirc;ncia as aut&ecirc;nticas raz&otilde;es &eacute;ticas e culturais que lhes consentiram, em contextos sociais e laborais diferentes, ser um factor decisivo para o desenvolvimento. Continua sempre v&aacute;lido o ensinamento da Igreja que prop&otilde;e a distin&ccedil;&atilde;o de pap&eacute;is e fun&ccedil;&otilde;es entre sindicato e pol&iacute;tica. Esta distin&ccedil;&atilde;o possibilitar&aacute; &agrave;s organiza&ccedil;&otilde;es sindicais individualizarem na sociedade civil o &acirc;mbito mais ajustado para a sua ac&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria de defesa e promo&ccedil;&atilde;o do mundo do trabalho, sobretudo a favor dos trabalhadores explorados e n&atilde;o representados, cuja amarga condi&ccedil;&atilde;o resulta frequentemente ignorada pelo olhar distra&iacute;do da sociedade.<\/p>\n<p>65. Em seguida, &eacute; preciso que as finan&ccedil;as enquanto tais &#8211; com estruturas e modalidades de funcionamento necessariamente renovadas depois da sua m&aacute; utiliza&ccedil;&atilde;o que prejudicou a economia real &#8211; voltem a ser um instrumento que tenha em vista a melhor produ&ccedil;&atilde;o de riqueza e o desenvolvimento. Enquanto instrumentos, a economia e as finan&ccedil;as em toda a respectiva extens&atilde;o, e n&atilde;o apenas em alguns dos seus sectores, devem ser utilizadas de modo &eacute;tico, a fim de criar as condi&ccedil;&otilde;es adequadas para o desenvolvimento do homem e dos povos. &Eacute; certamente &uacute;til, sen&atilde;o mesmo indispens&aacute;vel em certas circunst&acirc;ncias, dar vida a iniciativas financeiras nas quais predomine a dimens&atilde;o humanit&aacute;ria. Isto, por&eacute;m, n&atilde;o deve fazer esquecer que o inteiro sistema financeiro deve ser orientado para dar apoio a um verdadeiro desenvolvimento. Sobretudo, &eacute; necess&aacute;rio que n&atilde;o se contraponha o intuito de fazer o bem ao da efectiva capacidade de produzir bens. Os operadores das finan&ccedil;as devem redescobrir o fundamento &eacute;tico pr&oacute;prio da sua actividade, para n&atilde;o abusarem de instrumentos sofisticados que possam atrai&ccedil;oar os aforradores. Recta inten&ccedil;&atilde;o, transpar&ecirc;ncia e busca de bons resultados s&atilde;o compat&iacute;veis entre si e n&atilde;o devem jamais ser separados. Se o amor &eacute; inteligente, sabe encontrar tamb&eacute;m os modos para agir segundo uma previdente e justa conveni&ecirc;ncia, como significativamente indicam muitas experi&ecirc;ncias no campo do cr&eacute;dito cooperativo.<\/p>\n<p>Tanto uma regulamenta&ccedil;&atilde;o do sector, capaz de proteger os mais d&eacute;beis e impedir escandalosas especula&ccedil;&otilde;es, como a experimenta&ccedil;&atilde;o de novas formas de financiamento, destinadas a favorecer projectos de desenvolvimento, s&atilde;o experi&ecirc;ncias positivas que h&atilde;o-de ser aprofundadas e encorajadas, invocando a responsabilidade pr&oacute;pria do aforrador. Tamb&eacute;m a experi&ecirc;ncia do micro-financiamento, que mergulha as pr&oacute;prias ra&iacute;zes na reflex&atilde;o e nas obras dos humanistas civis (penso nomeadamente no nascimento dos montepios), h&aacute;-de ser revigorada e sistematizada, sobretudo nestes tempos em que os problemas financeiros podem tornar-se dram&aacute;ticos para muitos sectores mais vulner&aacute;veis da popula&ccedil;&atilde;o, que devem ser tutelados dos riscos de usura ou do desespero. Os sujeitos mais d&eacute;beis h&atilde;o-de ser educados para se defenderem da usura, do mesmo modo que os povos pobres devem ser educados para tirarem real vantagem do micro-cr&eacute;dito, desencorajando assim as formas de explora&ccedil;&atilde;o poss&iacute;veis nestes dois campos. Uma vez que existem novas formas de pobreza tamb&eacute;m nos pa&iacute;ses ricos, o micro-financiamento pode proporcionar ajudas concretas para a cria&ccedil;&atilde;o de iniciativas e sectores novos em favor das classes d&eacute;beis da sociedade, mesmo numa fase de poss&iacute;vel empobrecimento da pr&oacute;pria sociedade.<\/p>\n<p>66. A interliga&ccedil;&atilde;o mundial fez surgir um novo poder pol&iacute;tico: o dos consumidores e das suas associa&ccedil;&otilde;es. Trata-se de um fen&oacute;meno carecido de aprofundamento, com elementos positivos que h&atilde;o-de ser incentivados e excessos que se devem evitar. &Eacute; bom que as pessoas ganhem consci&ecirc;ncia de que a ac&ccedil;&atilde;o de comprar &eacute; sempre um acto moral, para al&eacute;m de econ&oacute;mico. Por isso, ao lado da responsabilidade social da empresa, h&aacute; uma espec&iacute;fica responsabilidade social do consumidor. Este h&aacute;-de ser educado[145], sem cessar, para o papel que exerce diariamente e que pode desempenhar no respeito dos princ&iacute;pios morais, sem diminuir a racionalidade econ&oacute;mica intr&iacute;nseca ao acto de comprar. Tamb&eacute;m no sector das compras &#8211; precisamente em tempos como os que se est&atilde;o experimentando e que v&ecirc;em o poder de compra reduzir-se, devendo por conseguinte consumir-se com maior sobriedade &#8211; &eacute; necess&aacute;rio percorrer outros caminhos como, por exemplo, formas de coopera&ccedil;&atilde;o para as compras, &agrave; semelhan&ccedil;a das cooperativas de consumo activas a partir do s&eacute;culo XIX, gra&ccedil;as &agrave; iniciativa dos cat&oacute;licos. Al&eacute;m disso, &eacute; &uacute;til favorecer formas novas de comercializa&ccedil;&atilde;o de produtos provenientes de &aacute;reas pobres da terra para garantir uma retribui&ccedil;&atilde;o decente aos produtores, contanto que se trate de um mercado verdadeiramente transparente, que os produtores n&atilde;o usufruam apenas de uma margem maior de lucro mas tamb&eacute;m de maior forma&ccedil;&atilde;o, profissionaliza&ccedil;&atilde;o e tecnologia, e que, enfim, n&atilde;o se incluam em tais experi&ecirc;ncias de economia vis&otilde;es ideol&oacute;gicas partid&aacute;rias. Um papel mais incisivo dos consumidores, desde que n&atilde;o sejam eles pr&oacute;prios manipulados por associa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o verdadeiramente representativas, &eacute; desej&aacute;vel como factor de democracia econ&oacute;mica.<\/p>\n<p>67. Perante o crescimento incessante da interdepend&ecirc;ncia mundial, sente-se imenso &#8211; mesmo no meio de uma recess&atilde;o igualmente mundial &#8211; a urg&ecirc;ncia de uma reforma, quer da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, quer da arquitectura econ&oacute;mica e financeira internacional, para que seja poss&iacute;vel uma real concretiza&ccedil;&atilde;o do conceito de fam&iacute;lia de na&ccedil;&otilde;es. De igual modo, sente-se a urg&ecirc;ncia de encontrar formas inovadoras para implementar o princ&iacute;pio da responsabilidade de proteger[146] e para atribuir tamb&eacute;m &agrave;s na&ccedil;&otilde;es mais pobres uma voz eficaz nas decis&otilde;es comuns. Isto revela-se necess&aacute;rio precisamente no &acirc;mbito de um ordenamento pol&iacute;tico, jur&iacute;dico e econ&oacute;mico que incremente e guie a colabora&ccedil;&atilde;o internacional para o desenvolvimento solid&aacute;rio de todos os povos. Para o governo da economia mundial, para sanar as economias atingidas pela crise, de modo a prevenir o agravamento da mesma e, em consequ&ecirc;ncia, maiores desequil&iacute;brios, para realizar um oportuno e integral desarmamento, a seguran&ccedil;a alimentar e a paz, para garantir a salvaguarda do ambiente e para regulamentar os fluxos migrat&oacute;rios urge a presen&ccedil;a de uma verdadeira Autoridade pol&iacute;tica mundial, delineada j&aacute; pelo meu predecessor, o Beato Jo&atilde;o XXIII. A referida Autoridade dever&aacute; regular-se pelo direito, ater-se coerentemente aos princ&iacute;pios de subsidiariedade e solidariedade, estar orientada para a consecu&ccedil;&atilde;o do bem comum[147], comprometer-se na realiza&ccedil;&atilde;o de um aut&ecirc;ntico desenvolvimento humano integral inspirado nos valores da caridade na verdade. Al&eacute;m disso, uma tal Autoridade dever&aacute; ser reconhecida por todos, gozar de poder efectivo para garantir a cada um a seguran&ccedil;a, a observ&acirc;ncia da justi&ccedil;a, o respeito dos direitos[148]. Obviamente, deve gozar da faculdade de fazer com que as partes respeitem as pr&oacute;prias decis&otilde;es, bem como as medidas coordenadas e adoptadas nos diversos f&oacute;runs internacionais. &Eacute; que, se isso faltasse, o direito internacional, n&atilde;o obstante os grandes progressos realizados nos v&aacute;rios campos, correria o risco de ser condicionado pelos equil&iacute;brios de poder entre os mais fortes. O desenvolvimento integral dos povos e a colabora&ccedil;&atilde;o internacional exigem que seja institu&iacute;do um grau superior de ordenamento internacional de tipo subsidi&aacute;rio para o governo da globaliza&ccedil;&atilde;o[149] e que se d&ecirc; finalmente actua&ccedil;&atilde;o a uma ordem social conforme &agrave; ordem moral e &agrave;quela liga&ccedil;&atilde;o entre esfera moral e social, entre pol&iacute;tica e esfera econ&oacute;mica e civil que aparece j&aacute; perspectivada no Estatuto das Na&ccedil;&otilde;es Unidas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CAP&Iacute;TULO VI<\/p>\n<p><em>O DESENVOLVIMENTO<br \/>DOS POVOS E A T&Eacute;CNICA<\/em><\/strong><\/p>\n<p>68. O tema do desenvolvimento dos povos est&aacute; intimamente ligado com o do desenvolvimento de cada indiv&iacute;duo. Por sua natureza, a pessoa humana est&aacute; dinamicamente orientada para o pr&oacute;prio desenvolvimento. N&atilde;o se trata de um desenvolvimento garantido por mecanismos naturais, porque cada um de n&oacute;s sabe que &eacute; capaz de realizar op&ccedil;&otilde;es livres e respons&aacute;veis; tamb&eacute;m n&atilde;o se trata de um desenvolvimento &agrave; merc&ecirc; do nosso capricho, enquanto todos sabemos que somos dom e n&atilde;o resultado de auto-gera&ccedil;&atilde;o. Em n&oacute;s, a liberdade &eacute; originariamente caracterizada pelo nosso ser e pelos seus limites. Ningu&eacute;m plasma arbitrariamente a pr&oacute;pria consci&ecirc;ncia, mas todos formam a pr&oacute;pria personalidade sobre a base duma natureza que lhes foi dada. N&atilde;o s&atilde;o apenas as outras pessoas que s&atilde;o indispon&iacute;veis; tamb&eacute;m n&oacute;s n&atilde;o podemos dispor arbitrariamente de n&oacute;s mesmos. O desenvolvimento da pessoa degrada-se, se ela pretende ser a &uacute;nica produtora de si mesma. De igual modo, degenera o desenvolvimento dos povos, se a humanidade pensa que se pode re-criar valendo-se dos &laquo;prod&iacute;gios&raquo; da tecnologia. Analogamente, o progresso econ&oacute;mico revela-se fict&iacute;cio e danoso quando se abandona aos &laquo;prod&iacute;gios&raquo; das finan&ccedil;as para apoiar incrementos artificiais e consumistas. Perante esta pretens&atilde;o prometeica, devemos robustecer o amor por uma liberdade n&atilde;o arbitr&aacute;ria, mas tornada verdadeiramente humana pelo reconhecimento do bem que a precede. Com tal objectivo, &eacute; preciso que o homem reentre em si mesmo, para reconhecer as normas fundamentais da lei moral natural que Deus inscreveu no seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>69. Hoje, o problema do desenvolvimento est&aacute; estreitamente unido com o progresso tecnol&oacute;gico, com as suas deslumbrantes aplica&ccedil;&otilde;es no campo biol&oacute;gico. A t&eacute;cnica &#8211; &eacute; bom sublinh&aacute;-lo &#8211; &eacute; um dado profundamente humano, ligado &agrave; autonomia e &agrave; liberdade do homem. Nela exprime-se e confirma-se o dom&iacute;nio do esp&iacute;rito sobre a mat&eacute;ria. O esp&iacute;rito, &laquo;tornando-se assim &quot;mais liberto da escravid&atilde;o das coisas, pode facilmente elevar-se ao culto e &agrave; contempla&ccedil;&atilde;o do Criador&quot;&raquo;[150]. A t&eacute;cnica permite dominar a mat&eacute;ria, reduzir os riscos, poupar fadigas, melhorar as condi&ccedil;&otilde;es de vida. D&aacute; resposta &agrave; pr&oacute;pria voca&ccedil;&atilde;o do trabalho humano: na t&eacute;cnica, considerada como obra do g&eacute;nio pessoal, o homem reconhece-se a si mesmo e realiza a pr&oacute;pria humanidade. A t&eacute;cnica &eacute; o aspecto objectivo do agir humano[151], cuja origem e raz&atilde;o de ser est&atilde;o no elemento subjectivo: o homem que actua. Por isso, aquela nunca &eacute; simplesmente t&eacute;cnica; mas manifesta o homem e as suas aspira&ccedil;&otilde;es ao desenvolvimento, exprime a tens&atilde;o do &acirc;nimo humano para uma gradual supera&ccedil;&atilde;o de certos condicionamentos materiais. Assim, a t&eacute;cnica insere-se no mandato de &laquo;cultivar e guardar a terra&raquo; (Gn 2, 15) que Deus confiou ao homem, e h&aacute;-de ser orientada para refor&ccedil;ar aquela alian&ccedil;a entre ser humano e ambiente em que se deve reflectir o amor criador de Deus.<\/p>\n<p>70. O desenvolvimento tecnol&oacute;gico pode induzir &agrave; ideia de auto-sufici&ecirc;ncia da pr&oacute;pria t&eacute;cnica, quando o homem, interrogando-se apenas sobre o como, deixa de considerar os muitos porqu&ecirc;s pelos quais &eacute; impelido a agir. Por isso, a t&eacute;cnica apresenta-se com uma fisionomia amb&iacute;gua. Nascida da criatividade humana como instrumento da liberdade da pessoa, pode ser entendida como elemento de liberdade absoluta; aquela liberdade que quer prescindir dos limites que as coisas trazem consigo. O processo de globaliza&ccedil;&atilde;o poderia substituir as ideologias com a t&eacute;cnica[152], passando esta a ser um poder ideol&oacute;gico que exporia a humanidade ao risco de se ver fechada dentro de um a priori do qual n&atilde;o poderia sair para encontrar o ser e a verdade. Em tal caso, todos n&oacute;s conhecer&iacute;amos, avaliar&iacute;amos e decidir&iacute;amos as situa&ccedil;&otilde;es da nossa vida a partir do interior de um horizonte cultural tecnocr&aacute;tico, ao qual pertencer&iacute;amos estruturalmente, sem poder jamais encontrar um sentido que n&atilde;o fosse produzido por n&oacute;s. Esta vis&atilde;o torna hoje t&atilde;o forte a mentalidade tecnicista que faz coincidir a verdade com o fact&iacute;vel. Mas, quando o &uacute;nico crit&eacute;rio da verdade &eacute; a efici&ecirc;ncia e a utilidade, o desenvolvimento acaba automaticamente negado. De facto, o verdadeiro desenvolvimento n&atilde;o consiste primariamente no fazer; a chave do desenvolvimento &eacute; uma intelig&ecirc;ncia capaz de pensar a t&eacute;cnica e de individualizar o sentido plenamente humano do agir do homem, no horizonte de sentido da pessoa vista na globalidade do seu ser. Mesmo quando actua mediante um sat&eacute;lite ou um comando electr&oacute;nico &agrave; dist&acirc;ncia, o seu agir continua sempre humano, express&atilde;o de uma liberdade respons&aacute;vel. A t&eacute;cnica seduz intensamente o homem, porque o livra das limita&ccedil;&otilde;es f&iacute;sicas e alarga o seu horizonte. Mas a liberdade humana s&oacute; o &eacute; propriamente quando responde &agrave; sedu&ccedil;&atilde;o da t&eacute;cnica com decis&otilde;es que sejam fruto de responsabilidade moral. Daqui, a urg&ecirc;ncia de uma forma&ccedil;&atilde;o para a responsabilidade &eacute;tica no uso da t&eacute;cnica. A partir do fasc&iacute;nio que a t&eacute;cnica exerce sobre o ser humano, deve-se recuperar o verdadeiro sentido da liberdade, que n&atilde;o consiste no inebriamento de uma autonomia total, mas na resposta ao apelo do ser, a come&ccedil;ar pelo ser que somos n&oacute;s mesmos.<\/p>\n<p>71. Esta possibilidade da mentalidade t&eacute;cnica se desviar do seu s&oacute;lido humanismo origin&aacute;rio ressalta, hoje, nos fen&oacute;menos da tecniciza&ccedil;&atilde;o do desenvolvimento e da paz. Frequentemente, o desenvolvimento dos povos &eacute; considerado um problema de engenharia financeira, de abertura dos mercados, de redu&ccedil;&atilde;o das tarifas aduaneiras, de investimentos produtivos, de reformas institucionais; em suma, um problema apenas t&eacute;cnico. Todos estes &acirc;mbitos s&atilde;o muito importantes, mas n&atilde;o podemos deixar de interrogar-nos por que motivo, at&eacute; agora, as op&ccedil;&otilde;es de tipo t&eacute;cnico tenham resultado apenas de modo relativo. A raz&atilde;o h&aacute;-de ser procurada mais profundamente. O desenvolvimento n&atilde;o ser&aacute; jamais garantido completamente por for&ccedil;as de certo modo autom&aacute;ticas e impessoais, sejam elas as do mercado ou as da pol&iacute;tica internacional. O desenvolvimento &eacute; imposs&iacute;vel sem homens rectos, sem operadores econ&oacute;micos e homens pol&iacute;ticos que sintam intensamente em suas consci&ecirc;ncias o apelo do bem comum. S&atilde;o necess&aacute;rias tanto a prepara&ccedil;&atilde;o profissional como a coer&ecirc;ncia moral. Quando prevalece a absolutiza&ccedil;&atilde;o da t&eacute;cnica, verifica-se uma confus&atilde;o entre fins e meios: como &uacute;nico crit&eacute;rio de ac&ccedil;&atilde;o, o empres&aacute;rio considerar&aacute; o m&aacute;ximo lucro da produ&ccedil;&atilde;o; o pol&iacute;tico, a consolida&ccedil;&atilde;o do poder; o cientista, o resultado das suas descobertas. Deste modo sucede frequentemente que, sob a rede das rela&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas, financeiras ou pol&iacute;ticas, persistem incompreens&otilde;es, contrariedades e injusti&ccedil;as; os fluxos dos conhecimentos t&eacute;cnicos multiplicam-se, mas em benef&iacute;cio dos seus propriet&aacute;rios, enquanto a situa&ccedil;&atilde;o real das popula&ccedil;&otilde;es que vivem sob tais influxos, e quase sempre na sua ignor&acirc;ncia, permanece imut&aacute;vel e sem efectivas possibilidades de emancipa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>72. &Agrave;s vezes, tamb&eacute;m a paz corre o risco de ser considerada como uma produ&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica, fruto apenas de acordos entre governos ou de iniciativas tendentes a assegurar ajudas econ&oacute;micas eficientes. &Eacute; verdade que a constru&ccedil;&atilde;o da paz exige um constante tecer de contactos diplom&aacute;ticos, interc&acirc;mbios econ&oacute;micos e tecnol&oacute;gicos, encontros culturais, acordos sobre projectos comuns, e tamb&eacute;m a assun&ccedil;&atilde;o de empenhos compartilhados para conter as amea&ccedil;as de tipo b&eacute;lico e cercear &agrave; nascen&ccedil;a eventuais tenta&ccedil;&otilde;es terroristas. Mas, para que tais esfor&ccedil;os possam produzir efeitos duradouros, &eacute; necess&aacute;rio que se apoiem sobre valores radicados na verdade da vida. Por outras palavras, &eacute; preciso ouvir a voz das popula&ccedil;&otilde;es interessadas e atender &agrave; situa&ccedil;&atilde;o delas para interpretar adequadamente os seus anseios. De certo modo, deve-se colocar em continuidade com o esfor&ccedil;o an&oacute;nimo de tantas pessoas decididamente comprometidas a promover o encontro entre os povos e a favorecer o desenvolvimento partindo do amor e da compreens&atilde;o rec&iacute;proca. Entre tais pessoas, contam-se tamb&eacute;m fi&eacute;is crist&atilde;os, empenhados na grande tarefa de dar ao desenvolvimento e &agrave; paz um sentido plenamente humano.<\/p>\n<p>73. Ligada ao desenvolvimento tecnol&oacute;gico est&aacute; a crescente presen&ccedil;a dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o social. J&aacute; &eacute; quase imposs&iacute;vel imaginar a exist&ecirc;ncia da fam&iacute;lia humana sem eles. Para o bem e para o mal, est&atilde;o de tal modo encarnados na vida do mundo, que parece verdadeiramente absurda a posi&ccedil;&atilde;o de quantos defendem a sua neutralidade, reivindicando em consequ&ecirc;ncia a sua autonomia relativamente &agrave; moral, que diria respeito &agrave;s pessoas. Muitas vezes, tais perspectivas, que enfatizam a natureza estritamente t&eacute;cnica dos mass-media, de facto favorecem a sua subordina&ccedil;&atilde;o a c&aacute;lculos econ&oacute;micos, ao intuito de dominar os mercados e, n&atilde;o por &uacute;ltimo, ao desejo de impor par&acirc;metros culturais em fun&ccedil;&atilde;o de projectos de poder ideol&oacute;gico e pol&iacute;tico. Dada a import&acirc;ncia fundamental que t&ecirc;m na determina&ccedil;&atilde;o de altera&ccedil;&otilde;es no modo de ler e conhecer a realidade e a pr&oacute;pria pessoa humana, torna-se necess&aacute;ria uma atenta reflex&atilde;o sobre a sua influ&ecirc;ncia, principalmente na dimens&atilde;o &eacute;tico-cultural da globaliza&ccedil;&atilde;o e do desenvolvimento solid&aacute;rio dos povos. Como requerido por uma correcta gest&atilde;o da globaliza&ccedil;&atilde;o e do desenvolvimento, o sentido e a finalidade dos mass-media devem ser buscados no fundamento antropol&oacute;gico. Isto quer dizer que os mesmos podem tornar-se ocasi&atilde;o de humaniza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o s&oacute; quando, gra&ccedil;as ao desenvolvimento tecnol&oacute;gico, oferecem maiores possibilidades de comunica&ccedil;&atilde;o e de informa&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m e sobretudo quando s&atilde;o organizados e orientados &agrave; luz de uma imagem da pessoa e do bem comum que traduza os seus valores universais. Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o social n&atilde;o favorecem a liberdade nem globalizam o desenvolvimento e a democracia para todos, simplesmente porque multiplicam as possibilidades de interliga&ccedil;&atilde;o e circula&ccedil;&atilde;o das ideias; para alcan&ccedil;ar tais objectivos, &eacute; preciso que estejam centrados na promo&ccedil;&atilde;o da dignidade das pessoas e dos povos, animados expressamente pela caridade e colocados ao servi&ccedil;o da verdade, do bem e da fraternidade natural e sobrenatural. De facto, na humanidade, a liberdade est&aacute; intrinsecamente ligada a estes valores superiores. Os mass-media podem constituir uma v&aacute;lida ajuda para fazer crescer a comunh&atilde;o da fam&iacute;lia humana e o ethos das sociedades, quando se tornam instrumentos de promo&ccedil;&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o universal na busca comum daquilo que &eacute; justo.<\/p>\n<p>74. Hoje, um campo prim&aacute;rio e crucial da luta cultural entre o absolutismo da t&eacute;cnica e a responsabilidade moral do homem &eacute; o da bio&eacute;tica, onde se joga radicalmente a pr&oacute;pria possibilidade de um desenvolvimento humano integral. Trata-se de um &acirc;mbito delicad&iacute;ssimo e decisivo, onde irrompe, com dram&aacute;tica intensidade, a quest&atilde;o fundamental de saber se o homem se produziu por si mesmo ou depende de Deus. As descobertas cient&iacute;ficas neste campo e as possibilidades de interven&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica parecem t&atilde;o avan&ccedil;adas que imp&otilde;em a escolha entre estas duas concep&ccedil;&otilde;es: a da raz&atilde;o aberta &agrave; transcend&ecirc;ncia ou a da raz&atilde;o fechada na iman&ecirc;ncia. Est&aacute;-se perante uma op&ccedil;&atilde;o decisiva. No entanto, a racionalidade da tecnologia centrada sobre si mesma apresenta-se como irracional, porque implica uma decidida rejei&ccedil;&atilde;o do sentido e do valor. N&atilde;o &eacute; por acaso que a posi&ccedil;&atilde;o fechada &agrave; transcend&ecirc;ncia se defronta com a dificuldade de pensar como tenha sido poss&iacute;vel do nada ter brotado o ser e do acaso ter nascido a intelig&ecirc;ncia[153]. Face a estes dram&aacute;ticos problemas, raz&atilde;o e f&eacute; ajudam-se mutuamente; e s&oacute; conjuntamente salvar&atilde;o o homem: fascinada pela pura tecnologia, a raz&atilde;o sem a f&eacute; est&aacute; destinada a perder-se na ilus&atilde;o da pr&oacute;pria omnipot&ecirc;ncia, enquanto a f&eacute; sem a raz&atilde;o corre o risco do alheamento da vida concreta das pessoas[154].<\/p>\n<p>75. Paulo VI j&aacute; tinha reconhecido e indicado o horizonte mundial da quest&atilde;o social[155]. Prosseguindo por esta estrada, &eacute; preciso afirmar que hoje a quest&atilde;o social tornou-se radicalmente antropol&oacute;gica, enquanto toca o pr&oacute;prio modo n&atilde;o s&oacute; de conceber mas tamb&eacute;m de manipular a vida, colocada cada vez mais nas m&atilde;os do homem pelas biotecnologias. A fecunda&ccedil;&atilde;o in vitro, a pesquisa sobre os embri&otilde;es, a possibilidade da clonagem e hibrida&ccedil;&atilde;o humana nascem e promovem-se na actual cultura do desencanto total, que pensa ter desvendado todos os mist&eacute;rios porque j&aacute; se chegou &agrave; raiz da vida. Aqui o absolutismo da t&eacute;cnica encontra a sua m&aacute;xima express&atilde;o. Em tal cultura, a consci&ecirc;ncia &eacute; chamada apenas a registar uma mera possibilidade t&eacute;cnica. Contudo, n&atilde;o se podem minimizar os cen&aacute;rios inquietantes para o futuro do homem e os novos e poderosos instrumentos que a &laquo;cultura da morte&raquo; tem &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o. &Agrave; difusa e tr&aacute;gica chaga do aborto poder-se-ia juntar no futuro &#8211; embora sub-repticiamente j&aacute; esteja presente in nuce &#8211; uma sistem&aacute;tica planifica&ccedil;&atilde;o eug&eacute;nica dos nascimentos. No extremo oposto, vai abrindo caminho uma mens eutanasica, manifesta&ccedil;&atilde;o n&atilde;o menos abusiva de dom&iacute;nio sobre a vida, que &eacute; considerada, em certas condi&ccedil;&otilde;es, como n&atilde;o digna de ser vivida. Por detr&aacute;s destes cen&aacute;rios encontram-se posi&ccedil;&otilde;es culturais negacionistas da dignidade humana. Por sua vez, estas pr&aacute;ticas est&atilde;o destinadas a alimentar uma concep&ccedil;&atilde;o material e mecanicista da vida humana. Quem poder&aacute; medir os efeitos negativos de tal mentalidade sobre o desenvolvimento? Como poder&aacute; algu&eacute;m admirar-se com a indiferen&ccedil;a diante de situa&ccedil;&otilde;es humanas de degrada&ccedil;&atilde;o, quando se comporta indiferentemente com o que &eacute; humano e com aquilo que n&atilde;o o &eacute;? Causa estupefac&ccedil;&atilde;o a selec&ccedil;&atilde;o arbitr&aacute;ria do que hoje &eacute; proposto como digno de respeito: muitos, prontos a escandalizar-se por coisas marginais, parecem tolerar injusti&ccedil;as inauditas. Enquanto os pobres do mundo batem &agrave;s portas da opul&ecirc;ncia, o mundo rico corre o risco de deixar de ouvir tais apelos &agrave; sua porta por causa de uma consci&ecirc;ncia j&aacute; incapaz de reconhecer o humano. Deus revela o homem ao homem; a raz&atilde;o e a f&eacute; colaboram para lhe mostrar o bem, desde que o queira ver; a lei natural, na qual reluz a Raz&atilde;o criadora, indica a grandeza do homem, mas tamb&eacute;m a sua mis&eacute;ria quando ele desconhece o apelo da verdade moral.<\/p>\n<p>76. Um dos aspectos do esp&iacute;rito tecnicista moderno &eacute; palp&aacute;vel na propens&atilde;o a considerar os problemas e as mo&ccedil;&otilde;es ligados &agrave; vida interior somente do ponto de vista psicol&oacute;gico, chegando-se mesmo ao reducionismo neurol&oacute;gico. Assim esvazia-se a interioridade do homem e, progressivamente, vai-se perdendo a no&ccedil;&atilde;o da consist&ecirc;ncia ontol&oacute;gica da alma humana, com as profundidades que os Santos souberam p&ocirc;r a descoberto. O problema do desenvolvimento est&aacute; estritamente ligado tamb&eacute;m com a nossa concep&ccedil;&atilde;o da alma do homem, uma vez que o nosso eu acaba muitas vezes reduzido ao ps&iacute;quico, e a sa&uacute;de da alma &eacute; confundida com o bem-estar emotivo. Na base, estas redu&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m uma profunda incompreens&atilde;o da vida espiritual e levam-nos a ignorar que o desenvolvimento do homem e dos povos depende verdadeiramente tamb&eacute;m da solu&ccedil;&atilde;o dos problemas de car&aacute;cter espiritual. Al&eacute;m do crescimento material, o desenvolvimento deve incluir o espiritual, porque a pessoa humana &eacute; &laquo;um ser uno, composto de alma e corpo&raquo;[156], nascido do amor criador de Deus e destinado a viver eternamente. O ser humano desenvolve-se quando cresce no esp&iacute;rito, quando a sua alma se conhece a si mesma e apreende as verdades que Deus nela imprimiu em g&eacute;rmen, quando dialoga consigo mesma e com o seu Criador. Longe de Deus, o homem vive inquieto e est&aacute; mal. A aliena&ccedil;&atilde;o social e psicol&oacute;gica e as in&uacute;meras neuroses que caracterizam as sociedades opulentas devem-se tamb&eacute;m a causas de ordem espiritual. Uma sociedade do bem-estar, materialmente desenvolvida mas oprimente para a alma, n&atilde;o est&aacute;, por si mesma, orientada para o aut&ecirc;ntico desenvolvimento. As novas formas de escravid&atilde;o da droga e o desespero em que caem tantas pessoas t&ecirc;m uma explica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&oacute; sociol&oacute;gica e psicol&oacute;gica, mas essencialmente espiritual. O vazio em que a alma se sente abandonada, embora no meio de tantas terapias para o corpo e para a mente, gera sofrimento. N&atilde;o h&aacute; desenvolvimento pleno nem bem comum universal sem o bem espiritual e moral das pessoas, consideradas na sua totalidade de alma e corpo.<\/p>\n<p>77. O absolutismo da t&eacute;cnica tende a produzir uma incapacidade de perceber aquilo que n&atilde;o se explica meramente pela mat&eacute;ria; e, no entanto, todos os homens experimentam os numerosos aspectos imateriais e espirituais da sua vida. Conhecer n&atilde;o &eacute; um acto apenas material, porque o conhecido esconde sempre algo que est&aacute; para al&eacute;m do dado emp&iacute;rico. Todo o nosso conhecimento, mesmo o mais simples, &eacute; sempre um pequeno prod&iacute;gio, porque nunca se explica completamente com os instrumentos materiais que utilizamos. Em cada verdade, h&aacute; sempre mais do que n&oacute;s mesmos ter&iacute;amos esperado; no amor que recebemos, h&aacute; sempre qualquer coisa que nos surpreende. N&atilde;o deveremos cessar jamais de maravilhar-nos diante destes prod&iacute;gios. Em cada conhecimento e em cada acto de amor, a alma do homem experimenta um &laquo;extra&raquo; que se assemelha muito a um dom recebido, a uma altura para a qual nos sentimos atra&iacute;dos. Tamb&eacute;m o desenvolvimento do homem e dos povos se coloca a uma tal altura, se considerarmos a dimens&atilde;o espiritual que deve necessariamente conotar aquele para que possa ser aut&ecirc;ntico. Este requer olhos novos e um cora&ccedil;&atilde;o novo, capaz de superar a vis&atilde;o materialista dos acontecimentos humanos e entrever no desenvolvimento um &laquo;mais al&eacute;m&raquo; que a t&eacute;cnica n&atilde;o pode dar. Por este caminho, ser&aacute; poss&iacute;vel perseguir aquele desenvolvimento humano integral que tem o seu crit&eacute;rio orientador na for&ccedil;a propulsora da caridade na verdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>CONCLUS&Atilde;O<\/em><\/strong><\/p>\n<p>78. Sem Deus, o homem n&atilde;o sabe para onde ir e n&atilde;o consegue sequer compreender quem seja. Perante os enormes problemas do desenvolvimento dos povos que quase nos levam ao des&acirc;nimo e &agrave; rendi&ccedil;&atilde;o, vem em nosso aux&iacute;lio a palavra do Senhor Jesus Cristo que nos torna cientes deste dado fundamental: &laquo;Sem Mim, nada podeis fazer&raquo; (Jo 15, 5), e encoraja: &laquo;Eu estarei sempre convosco, at&eacute; ao fim do mundo&raquo; (Mt 28, 20). Diante da vastid&atilde;o do trabalho a realizar, somos apoiados pela f&eacute; na presen&ccedil;a de Deus junto daqueles que se unem no seu nome e trabalham pela justi&ccedil;a. Paulo VI recordou-nos, na Populorum progressio, que o homem n&atilde;o &eacute; capaz de gerir sozinho o pr&oacute;prio progresso, porque n&atilde;o pode por si mesmo fundar um verdadeiro humanismo. Somente se pensarmos que somos chamados, enquanto indiv&iacute;duos e comunidade, a fazer parte da fam&iacute;lia de Deus como seus filhos, &eacute; que seremos capazes de produzir um novo pensamento e desenvolver novas energias ao servi&ccedil;o de um verdadeiro humanismo integral. Por isso, a maior for&ccedil;a ao servi&ccedil;o do desenvolvimento &eacute; um humanismo crist&atilde;o[157] que reavive a caridade e que se deixe guiar pela verdade, acolhendo uma e outra como dom permanente de Deus. A disponibilidade para Deus abre &agrave; disponibilidade para os irm&atilde;os e para uma vida entendida como tarefa solid&aacute;ria e jubilosa. Pelo contr&aacute;rio, o fechamento ideol&oacute;gico a Deus e o ate&iacute;smo da indiferen&ccedil;a, que esquecem o Criador e correm o risco de esquecer tamb&eacute;m os valores humanos, contam-se hoje entre os maiores obst&aacute;culos ao desenvolvimento. O humanismo que exclui Deus &eacute; um humanismo desumano. S&oacute; um humanismo aberto ao Absoluto pode guiar-nos na promo&ccedil;&atilde;o e realiza&ccedil;&atilde;o de formas de vida social e civil &#8211; no &acirc;mbito das estruturas, das institui&ccedil;&otilde;es, da cultura, do ethos &#8211; preservando-nos do risco de cairmos prisioneiros das modas do momento. &Eacute; a consci&ecirc;ncia do Amor indestrut&iacute;vel de Deus que nos sustenta no fadigoso e exaltante compromisso a favor da justi&ccedil;a, do desenvolvimento dos povos, por entre &ecirc;xitos e fracassos, na busca incessante de ordenamentos rectos para as realidades humanas. O amor de Deus chama-nos a sair daquilo que &eacute; limitado e n&atilde;o definitivo, d&aacute;-nos coragem de agir continuando a procurar o bem de todos, ainda que n&atilde;o se realize imediatamente, ainda que aquilo que conseguimos realizar &#8211; n&oacute;s e as autoridades pol&iacute;ticas e os operadores econ&oacute;micos &#8211; seja sempre menos do que quanto anelamos[158]. Deus d&aacute;-nos a for&ccedil;a de lutar e sofrer por amor do bem comum, porque Ele &eacute; o nosso Tudo, a nossa esperan&ccedil;a maior.<\/p>\n<p>79. O desenvolvimento tem necessidade de crist&atilde;os com os bra&ccedil;os levantados para Deus em atitude de ora&ccedil;&atilde;o, crist&atilde;os movidos pela consci&ecirc;ncia de que o amor cheio de verdade &#8211; caritas in veritate -, do qual procede o desenvolvimento aut&ecirc;ntico, n&atilde;o o produzimos n&oacute;s, mas &eacute;-nos dado. Por isso, inclusive nos momentos mais dif&iacute;ceis e complexos, al&eacute;m de reagir conscientemente, devemos sobretudo referir-nos ao seu amor. O desenvolvimento implica aten&ccedil;&atilde;o &agrave; vida espiritual, uma s&eacute;ria considera&ccedil;&atilde;o das experi&ecirc;ncias de confian&ccedil;a em Deus, de fraternidade espiritual em Cristo, de entrega &agrave; provid&ecirc;ncia e &agrave; miseric&oacute;rdia divina, de amor e de perd&atilde;o, de ren&uacute;ncia a si mesmo, de acolhimento do pr&oacute;ximo, de justi&ccedil;a e de paz. Tudo isto &eacute; indispens&aacute;vel para transformar os &laquo;cora&ccedil;&otilde;es de pedra&raquo; em &laquo;cora&ccedil;&otilde;es de carne&raquo; (Ez 36, 26), para tornar &laquo;divina&raquo; e consequentemente mais digna do homem a vida sobre a terra. Tudo isto &eacute; do homem, porque o homem &eacute; sujeito da pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia; e ao mesmo tempo &eacute; de Deus, porque Deus est&aacute; no princ&iacute;pio e no fim de tudo aquilo que tem valor e redime: &laquo;quer o mundo, quer a vida, quer a morte, quer o presente, quer o futuro, tudo &eacute; vosso; mas v&oacute;s sois de Cristo, e Cristo &eacute; de Deus&raquo; (1 Cor 3, 22-23). A &acirc;nsia do crist&atilde;o &eacute; que toda a fam&iacute;lia humana possa invocar a Deus como o &laquo;Pai nosso&raquo;. Juntamente com o Filho unig&eacute;nito, possam todos os homens aprender a rezar ao Pai e a pedir-Lhe, com as palavras que o pr&oacute;prio Jesus nos ensinou, que saibam santific&aacute;-Lo, vivendo segundo a sua vontade, e tamb&eacute;m que tenham o p&atilde;o necess&aacute;rio para cada dia, compreens&atilde;o e generosidade para com quem os ofendeu, que n&atilde;o sejam postos &agrave; prova acima das suas for&ccedil;as e sejam livres do mal (cf. Mt 6, 9-13).<\/p>\n<p>No final do Ano Paulino, apraz-me formular os seguintes votos, com palavras do Ap&oacute;stolo tiradas da sua Carta aos Romanos: &laquo;Que a vossa caridade seja sincera, aborrecendo o mal e aderindo ao bem. Amai-vos uns aos outros com amor fraternal, adiantando-vos em honrar uns aos outros&raquo; (12, 9-10). Que a Virgem Maria, proclamada por Paulo VI Mater Ecclesi&aelig; e honrada pelo povo crist&atilde;o como Speculum Iustiti&aelig; e Regina Pacis, nos proteja e obtenha, com a sua intercess&atilde;o celeste, a for&ccedil;a, a esperan&ccedil;a e a alegria necess&aacute;rias para continuarmos a dedicar-nos com generosidade ao compromisso de realizar o &laquo;desenvolvimento integral do homem todo e de todos os homens&raquo;[159].<\/p>\n<p>Dado em Roma, junto de S&atilde;o Pedro, no dia 29 de Junho &#8211; Solenidade dos Santos Ap&oacute;stolos Pedro e Paulo &#8211; do ano 2009, quinto do meu Pontificado. <\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Tradu&ccedil;&atilde;o: Confer&ecirc;ncia Episcopal Portuguesa<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p>[1] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 22: AAS 59 (1967), 268; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor&acirc;neo Gaudium et spes, 69.<\/p>\n<p>[2] Discurso na Jornada do Desenvolvimento (23 de Agosto de 1968): AAS 60 (1968), 626-627.<\/p>\n<p>[3] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2002: AAS 94 (2002), 132-140.<\/p>\n<p>[4] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor&acirc;neo Gaudium et spes, 26.<\/p>\n<p>[5] Cf. Jo&atilde;o XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de Abril de 1963): AAS 55 (1963), 268-270.<\/p>\n<p>[6] Cf. n. 16: AAS 59 (1967), 265.<\/p>\n<p>[7] Cf. ibid., 82: o.c., 297.<\/p>\n<p>[8] Ibid., 42: o.c., 278.<\/p>\n<p>[9] Ibid., 20: o.c., 267.<\/p>\n<p>[10] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor&acirc;neo Gaudium et spes, 36; Paulo VI, Carta ap. Octogesima adveniens (14 de Maio de 1971), 4: AAS 63 (1971), 403-404; Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 43: AAS 83 (1991), 847.<\/p>\n<p>[11] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 13: AAS 59 (1967), 263-264.<\/p>\n<p>[12] Cf. Pont. Conselho &laquo;Justi&ccedil;a e Paz&raquo;, Comp&ecirc;ndio da Doutrina Social da Igreja, n. 76.<\/p>\n<p>[13] Cf. Bento XVI, Discurso na Sess&atilde;o inaugural dos trabalhos da V Confer&ecirc;ncia Geral do Episcopado Latino-Americano e das Cara&iacute;bas (13 de Maio de 2007): Insegnamenti III\/1 (2007), 854-870.<\/p>\n<p>[14] Cf. nn. 3-5: AAS 59 (1967), 258-260.<\/p>\n<p>[15] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 6-7: AAS 80 (1988), 517-519.<\/p>\n<p>[16] Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967) 14: AAS 59 (1967), 264.<\/p>\n<p>[17] Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 18: AAS 98 (2006), 232.<\/p>\n<p>[18] Ibid., 6: o.c., 222.<\/p>\n<p>[19] Cf. Bento XVI, Discurso &agrave; C&uacute;ria Romana durante a apresenta&ccedil;&atilde;o de votos natal&iacute;cios (22 de Dezembro de 2005): Insegnamenti I (2005), 1023-1032.<\/p>\n<p>[20] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 3: AAS 80 (1988), 515.<\/p>\n<p>[21] Cf. ibid., 1: o.c., 513-514.<\/p>\n<p>[22] Cf. ibid., 3: o.c., 515.<\/p>\n<p>[23] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 3: AAS 73 (1981), 583-584.<\/p>\n<p>[24] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 3: AAS 83 (1991), 794-796.<\/p>\n<p>[25] Cf. Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 3: AAS 59 (1967), 258.<\/p>\n<p>[26] Cf. ibid., 34: o.c., 274.<\/p>\n<p>[27] Cf. nn. 8-9: AAS 60 (1968), 485-487; Bento XVI, Discurso aos participantes no Congresso Internacional organizado no 40&ordm; anivers&aacute;rio da &laquo;Humanae vitae&raquo; (10 de Maio de 2008): Insegnamenti IV\/1 (2008), 753-756.<\/p>\n<p>[28] Cf. Carta enc. Evangelium vitae (25 de Mar&ccedil;o de 1995), 93: AAS 87 (1995), 507-508.<\/p>\n<p>[29] Ibid., 101: o.c., 516-518.<\/p>\n<p>[30] N. 29: AAS 68 (1976), 25.<\/p>\n<p>[31] Ibid., 31: o.c., 26.<\/p>\n<p>[32] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 41: AAS 80 (1988), 570-572.<\/p>\n<p>[33] Cf. ibid., 41: o.c., 570-572; Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 5.54: AAS 83 (1991), 799.859-860.<\/p>\n<p>[34] N. 15: AAS 59 (1967), 265.<\/p>\n<p>[35] Cf. ibid., 2: o.c., 481-482; Le&atilde;o XIII, Carta enc. Rerum novarum (15 de Maio de 1891): Leonis XIII P. M. Acta, XI (1892), 97-144; Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 8: AAS 80 (1988), 519-520; Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 5: AAS 83 (1991), 799.<\/p>\n<p>[36] Cf. Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 2.13: AAS 59 (1967), 258.263-264.<\/p>\n<p>[37] Ibid., 42: o.c., 278.<\/p>\n<p>[38] Ibid., 11: o.c., 262; cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 25: AAS 83 (1991), 822-824.<\/p>\n<p>[39] Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 15: AAS 59 (1967), 265.<\/p>\n<p>[40] Ibid., 3: o.c., 258.<\/p>\n<p>[41] Ibid., 6: o.c., 260.<\/p>\n<p>[42] Ibid., 14: o.c., 264.<\/p>\n<p>[43] Ibid., 14: o.c., 264; cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 53-62: AAS 83 (1991), 859-867; Carta enc. Redemptor hominis (4 de Mar&ccedil;o de 1979), 13-14: AAS 71 (1979), 282-286.<\/p>\n<p>[44] Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 12: AAS 59 (1967), 262-263.<\/p>\n<p>[45] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor&acirc;neo Gaudium et spes, 22.<\/p>\n<p>[46] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 13: AAS 59 (1967), 263-264.<\/p>\n<p>[47] Cf. Bento XVI, Discurso aos participantes no IV Congresso Eclesial Nacional da Igreja que est&aacute; em It&aacute;lia (19 de Outubro de 2006): Insegnamenti II\/2 (2006), 465-477.<\/p>\n<p>[48] Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 16: AAS 59 (1967), 265.<\/p>\n<p>[49] Ibid., 16: o.c., 265.<\/p>\n<p>[50] Bento XVI, Discurso aos jovens no cais de Barangaroo (17 de Julho de 2008): L&#39;Osservatore Romano (ed. portuguesa de 19\/\/VII\/2008), 4.<\/p>\n<p>[51] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 20: AAS 59 (1967), 267.<\/p>\n<p>[52] Ibid., 66: o.c., 289-290.<\/p>\n<p>[53] Ibid., 21: o.c., 267-268.<\/p>\n<p>[54] Cf. nn. 3.29.32: o.c., 258.272.273.<\/p>\n<p>[55] Cf. Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 28: AAS 80 (1988), 548-550.<\/p>\n<p>[56] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 9: AAS 59 (1967), 261-262.<\/p>\n<p>[57] Cf. Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 20: AAS 80 (1988), 536-537.<\/p>\n<p>[58] Cf. Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 22-29: AAS 83 (1991), 819-830.<\/p>\n<p>[59] Cf. nn. 23.33: AAS 59 (1967), 268-269.273-274.<\/p>\n<p>[60] Cf. Leonis XIII P. M. Acta, XI (1892), 135.<\/p>\n<p>[61] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor&acirc;neo Gaudium et spes, 63.<\/p>\n<p>[62] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 24: AAS 83 (1991), 821-822.<\/p>\n<p>[63] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Veritatis splendor (6 de Agosto de 1993), 33.46.51: AAS 85 (1993), 1160.1169-1171.1174-1175; Discurso &agrave; Assembleia Geral das Na&ccedil;&otilde;es Unidas na comemora&ccedil;&atilde;o do cinquenten&aacute;rio de funda&ccedil;&atilde;o (5 de Outubro de 1995), 3: Insegnamenti XVIII\/2 (1995), 732-733.<\/p>\n<p>[64] Cf. Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 47: AAS 59 (1967), 280-281; Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 42: AAS 80 (1988), 572-574.<\/p>\n<p>[65] Cf. Bento XVI, Mensagem por ocasi&atilde;o do Dia Mundial da Alimenta&ccedil;&atilde;o 2007: AAS 99 (2007), 933-935.<\/p>\n<p>[66] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Evangelium vitae (25 de Mar&ccedil;o de 1995), 18.59.63-64: AAS 87 (1995), 419-421.467-468.472-475.<\/p>\n<p>[67] Cf. Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2007, 5: Insegnamenti II\/2 (2006), 778.<\/p>\n<p>[68] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2002, 4-7.12-15: AAS 94 (2002), 134-136.138-140; Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2004, 8: AAS 96 (2004), 119; Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2005, 4: AAS 97 (2005), 177-178; Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2006, 9-10: AAS 98 (2006), 60-61; Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2007, 5.14: Insegnamenti II\/2 (2006), 778.782-783.<\/p>\n<p>[69] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2002, 6: AAS 94 (2002), 135; Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2006, 9-10: AAS 98 (2006), 60-61.<\/p>\n<p>[70] Cf. Bento XVI, Homilia da Santa Missa no &laquo;Islinger Feld&raquo; di Regensburg (12 de Setembro de 2006): Insegnamenti II\/2 (2006), 252-256.<\/p>\n<p>[71] Cf. Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 1: AAS 98 (2006), 217-218.<\/p>\n<p>[72] Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 28: AAS 80 (1988), 548-550.<\/p>\n<p>[73] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 19: AAS 59 (1967), 266-267.<\/p>\n<p>[74] Ibid., 39: o.c., 276-277.<\/p>\n<p>[75] Ibid., 75: o.c., 293-294.<\/p>\n<p>[76] Cf. Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 28: AAS 98 (2006), 238-240.<\/p>\n<p>[77] Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 59: AAS 83 (1991), 864.<\/p>\n<p>[78] Cf. Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 40.85: AAS 59 (1967), 277.298-299.<\/p>\n<p>[79] Ibid., 13: o.c., 263-264.<\/p>\n<p>[80] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 85: AAS 91 (1999), 72-73.<\/p>\n<p>[81] Cf. ibid., 83: o.c., 70-71.<\/p>\n<p>[82] Bento XVI, Discurso na Universidade de Regensburg (12 de Setembro de 2006): Insegnamenti II\/2 (2006), 265.<\/p>\n<p>[83] Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 33: AAS 59 (1967), 273-274.<\/p>\n<p>[84] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2000, 15: AAS 92 (2000), 366.<\/p>\n<p>[85] Catecismo da Igreja Cat&oacute;lica, 407; cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 25: AAS 83 (1991), 822-824.<\/p>\n<p>[86] Cf. n. 17: AAS 99 (2007), 1000.<\/p>\n<p>[87] Cf. ibid., 23: o.c., 1004-1005.<\/p>\n<p>[88] Santo Agostinho exp&otilde;e, de maneira detalhada, este ensinamento no di&aacute;logo sobre o livre arb&iacute;trio (De libero arbitrio, II, 3, 8s.). Aponta para a exist&ecirc;ncia de um &laquo;sentido interno&raquo; dentro da alma humana. Este sentido consiste num acto que se realiza fora das fun&ccedil;&otilde;es normais da raz&atilde;o, um acto n&atilde;o reflexo e quase instintivo, pelo qual a raz&atilde;o, ao dar-se conta da sua condi&ccedil;&atilde;o transit&oacute;ria e fal&iacute;vel, admite acima de si mesma a exist&ecirc;ncia de algo de eterno, absolutamente verdadeiro e certo. O nome, que Santo Agostinho d&aacute; a esta verdade interior, umas vezes &eacute; Deus (Confiss&otilde;es X, 24, 35; XII, 25, 35; De libero arbitrio, II, 3, 8, 27), outras e mais frequentemente &eacute; Cristo (De magistro 11, 38; Confiss&otilde;es VII, 18, 24; XI, 2, 4).<\/p>\n<p>[89] Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 3: AAS 98 (2006), 219.<\/p>\n<p>[90] Cf. n. 49: AAS 59 (1967), 281.<\/p>\n<p>[91] Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 28: AAS 83 (1991), 827-828.<\/p>\n<p>[92] Cf. n. 35: AAS 83 (1991), 836-838.<\/p>\n<p>[93] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 38: AAS 80 (1988), 565-566.<\/p>\n<p>[94] N. 44: AAS 59 (1967), 279.<\/p>\n<p>[95] Cf. ibid., 24: o.c., 269.<\/p>\n<p>[96] Cf. Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 36: AAS 83 (1991), 838-840.<\/p>\n<p>[97] Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 24: AAS 59 (1967), 269.<\/p>\n<p>[98] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 32: AAS 83 (1991), 832-833; Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 25: AAS 59 (1967), 269-270.<\/p>\n<p>[99] Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 24: AAS 73 (1981), 637-638.<\/p>\n<p>[100] Ibid., 15: o.c., 616-618.<\/p>\n<p>[101] Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 27: AAS 59 (1967), 271.<\/p>\n<p>[102] Cf. Congr. da Doutrina da F&eacute;, Instr. sobre a liberdade crist&atilde; e a liberta&ccedil;&atilde;o Libertatis conscientia (22 de Mar&ccedil;o de 1987), 74: AAS 79 (1987), 587.<\/p>\n<p>[103] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Entrevista ao di&aacute;rio cat&oacute;lico &laquo;La Croix&raquo; de 20 de Agosto de 1997.<\/p>\n<p>[104] Jo&atilde;o Paulo II, Discurso &agrave; Pontif&iacute;cia Academia das Ci&ecirc;ncias Sociais (27 de Abril de 2001): Insegnamenti XXIV\/1 (2001), 800.<\/p>\n<p>[105] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 17: AAS 59 (1967), 265-266.<\/p>\n<p>[106] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2003, 5: AAS 95 (2003), 343.<\/p>\n<p>[107] Cf. ibid., 5: o.c., 343.<\/p>\n<p>[108] Cf. Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2007, 13: Insegnamenti II\/2 (2006), 781-782.<\/p>\n<p>[109] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 65: AAS 59 (1967), 289.<\/p>\n<p>[110] Cf. ibid., 36-37: o.c., 275-276.<\/p>\n<p>[111] Cf. ibid., 37: o.c., 275-276.<\/p>\n<p>[112] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o apostolado dos leigos Apostolicam actuositatem, 11.<\/p>\n<p>[113] Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 14: AAS 59 (1967), 264; Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 32: AAS 83 (1991), 832-833.<\/p>\n<p>[114] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 77: AAS 59 (1967), 295.<\/p>\n<p>[115] Jo&atilde;o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1990, 6: AAS 82 (1990), 150.<\/p>\n<p>[116] Her&aacute;clito de &Eacute;feso (&plusmn; 535-475 a.C.), Fragmento 22B124, in H. Diels-W. Kranz, Die Fragmente der Vorsokratiker (Weidmann, Berlim 61952).<\/p>\n<p>[117] Cf. Pont. Conselho &laquo;Justi&ccedil;a e Paz&raquo;, Comp&ecirc;ndio da Doutrina Social da Igreja, nn. 451-487.<\/p>\n<p>[118] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1990, 10: AAS 82 (1990), 152-153.<\/p>\n<p>[119] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 65: AAS 59 (1967), 289.<\/p>\n<p>[120] Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2008, 7: AAS 100 (2008), 41.<\/p>\n<p>[121] Cf. Bento XVI, Discurso aos participantes na Assembleia Geral das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (18 de Abril de 2008): Insegnamenti IV\/\/1 (2008), 618-626. <\/p>\n<p>[122] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1990, 13: AAS 82 (1990), 154-155. <\/p>\n<p>[123] Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1967), 36: AAS 83 (1991), 838-840. <\/p>\n<p>[124] Ibid., 38: o.c., 840-841; cf. Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2007, 8: Insegnamenti II\/2 (2006), 779.<\/p>\n<p>[125] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 2009), 41: AAS 83 (1991), 843-845.<\/p>\n<p>[126] Cf. ibid., 41: o.c., 843-845.<\/p>\n<p>[127] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Evangelium vitae (25 de Mar&ccedil;o de 1995), 20: AAS 87 (1995), 422-424.<\/p>\n<p>[128] Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 85: AAS 59 (1967), 298-299.<\/p>\n<p>[129] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1998, 3: AAS 90 (1998), 150; Discurso aos Membros da Funda&ccedil;&atilde;o &laquo;Centesimus annus&raquo; (9 de Maio de 1998), 2: Insegnamenti XXI\/1 (1998), 873-874; Discurso &agrave;s Autoridades Civis e Pol&iacute;ticas e ao Corpo Diplom&aacute;tico durante o encontro no &laquo;Wiener Hofburg&raquo; (20 de Junho de 1998), 8: Insegnamenti XXI\/1 (1998), 1435-1436; Mensagem ao Reitor Magn&iacute;fico da Universidade Cat&oacute;lica &laquo;Sacro Cuore&raquo; por ocasi&atilde;o do Dia Anual desta Institui&ccedil;&atilde;o (5 de Maio de 2000), 6: Insegnamenti XXIII\/1 (2000), 759-760.<\/p>\n<p>[130] Segundo S&atilde;o Tom&aacute;s, &laquo;ratio partis contrariatur rationi personae&raquo;, in III Sent. d. 5, 3, 2; e ainda &laquo;homo non ordinatur ad communitatem politicam secundum se totum et secundum omnia sua&raquo;, in Summa Theologiae I-II, q. 21, a. 4, ad 3um.<\/p>\n<p>[131] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 1.<\/p>\n<p>[132] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Discurso aos participantes na Sess&atilde;o P&uacute;blica das Academias Pontif&iacute;cias de Teologia e de S&atilde;o Tom&aacute;s de Aquino (8 de Novembro de 2001), 3: Insegnamenti XXIX\/2 (2001), 676-677.<\/p>\n<p>[133] Cf. Congr. da Doutrina da F&eacute;, Decl. sobre a unicidade e universalidade salv&iacute;fica de Jesus Cristo e da Igreja Dominus Iesus (6 de Agosto 2000), 22: AAS 92 (2000), 763-764; Nota doutrinal sobre algumas quest&otilde;es relativas &agrave; participa&ccedil;&atilde;o e comportamento dos cat&oacute;licos na vida pol&iacute;tica (24 de Novembro de 2002) 8: L&#39;Osservatore Romano (ed. portuguesa de 25\/I\/2005), 11.<\/p>\n<p>[134] Bento XVI, Carta enc. Spe salvi (30 de Novembro de 2007), 31: AAS 99 (2007), 1010; Discurso aos participantes no IV Congresso Eclesial Nacional da Igreja que est&aacute; em It&aacute;lia (19 de Outubro de 2006): Insegnamenti II\/2 (2006), 465-477.<\/p>\n<p>[135] Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 5: AAS 83 (1991), 798-800; cf. Bento XVI, Discurso aos participantes no IV Congresso Eclesial Nacional da Igreja que est&aacute; em It&aacute;lia (19 de Outubro de 2006): Insegnamenti II\/2 (2006), 471.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[136] N. 12.<\/p>\n<p>[137] Cf. Pio XI, Carta enc. Quadragesimo anno (15 de Maio de 1931): AAS 23 (1931), 203; Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 48: AAS 83 (1991), 852-854; Catecismo da Igreja Cat&oacute;lica, n. 1883.<\/p>\n<p>[138] Cf. Jo&atilde;o XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de Abril de 1963): AAS 55 (1963), 274.<\/p>\n<p>[139] Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 10.41: AAS 59 (1967), 262.277-278.<\/p>\n<p>[140] Cf. Bento XVI, Discurso aos membros da Comiss&atilde;o Teol&oacute;gica Internacional (5 de Outubro de 2007): Insegnamenti III\/2 (2007), 418-421; Discurso aos participantes no Congresso internacional sobre &laquo;Lei Moral Natural&raquo; promovido pelo Pontif&iacute;cia Universidade Lateranense (12 de Fevereiro de 2007): Insegnamenti III\/1 (2007), 209-212.<\/p>\n<p>[141] Cf. Bento XVI, Discurso aos membros da Confer&ecirc;ncia Episcopal da Tail&acirc;ndia em &laquo;Visita ad Limina&raquo; (16 de Maio de 2008): Insegnamenti IV\/1 (2008), 798-801.<\/p>\n<p>[142] Cf. Pont. Conselho da Pastoral para os Migrantes e os Itinerantes, Instr. Erga migrantes caritas Christi (3 de Maio de 2004): AAS 96 (2004), 762-822.<\/p>\n<p>[143] Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 8: AAS 73 (1981), 594-598.<\/p>\n<p>[144] Discurso no final da Concelebra&ccedil;&atilde;o Eucar&iacute;stica por ocasi&atilde;o do Jubileu dos Trabalhadores (1 de Maio de 2000): Insegnamenti XXIII\/1 (2000), 720.<\/p>\n<p>[145] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 36: AAS 83 (1991), 838-840.<\/p>\n<p>[146] Cf. Bento XVI, Discurso aos participantes na Assembleia Geral das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (18 de Abril de 2008): Insegnamenti IV\/1 (2008), 618-626. <\/p>\n<p>[147] Cf. Jo&atilde;o XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de Abril de 1963): AAS 55 (1963), 293; Pont. Conselho &laquo;Justi&ccedil;a e Paz&raquo;, Comp&ecirc;ndio da Doutrina Social da Igreja, n. 441.<\/p>\n<p>[148] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor&acirc;neo Gaudium et spes, 82.<\/p>\n<p>[149] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 43: AAS 80 (1988), 574-575.<\/p>\n<p>[150] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 41: AAS 59 (1967), 277-278; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor&acirc;neo Gaudium et spes, 57.<\/p>\n<p>[151] Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc. Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 5: AAS 73 (1981), 586-589.<\/p>\n<p>[152] Cf. Paulo VI, Carta ap. Octogesima adveniens (14 de Maio de 1971), 29: AAS 63 (1971), 420.<\/p>\n<p>[153] Cf. Bento XVI, Discurso aos participantes no IV Congresso Eclesial Nacional da Igreja que est&aacute; em It&aacute;lia (19 de Outubro de 2006): Insegnamenti II\/2 (2006), 465-477; Homilia da Santa Missa no &laquo;Islinger Feld&raquo; di Regensburg (12 de Setembro de 2006): Insegnamenti II\/2 (2006), 252-256.<\/p>\n<p>[154] Cf. Congr. da Doutrina da F&eacute;, Instr. sobre algumas quest&otilde;es de bio&eacute;tica Dignitas personae (8 de Setembro de 2008): AAS 100 (2008), 858-887.<\/p>\n<p>[155] Cf. Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 3: AAS 59 (1967), 258.<\/p>\n<p>[156] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor&acirc;neo Gaudium et spes, 14.<\/p>\n<p>[157] Cf. n. 42: AAS 59 (1967), 278.<\/p>\n<p>[158] Cf. Bento XVI, Carta enc. Spe salvi (30 de Novembro de 2007), 35: AAS 99 (2007), 1013-1014.<\/p>\n<p>[159] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar&ccedil;o de 1967), 42: AAS 59 (1967), 278.<\/p>\n<p>________________<\/p>\n<p>&Iacute; N D I C E<\/p>\n<p>Introdu&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p>Cap&iacute;tulo I: A mensagem da Populorum progressio<\/p>\n<p>Cap&iacute;tulo II: O desenvolvimento humano no nosso tempo <\/p>\n<p>Cap&iacute;tulo III: Fraternidade, desenvolvimento econ&oacute;mico e sociedade civil <\/p>\n<p>Cap&iacute;tulo IV: Desenvolvimento dos povos, direitos e deveres, ambiente <\/p>\n<p>Cap&iacute;tulo V: A colabora&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia humana<\/p>\n<p>Cap&iacute;tulo VI: O desenvolvimento dos povos e a t&eacute;cnica<\/p>\n<p>Conclus&atilde;o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carta Enc&iacute;clica &laquo;Caritas in veritate&raquo; do Sumo Pont&iacute;fice Bento XVI aos Bispos, aos presb&iacute;teros e di&aacute;conos &agrave;s pessoas consagradas aos fi&eacute;is leigos e a todos os homens de boa vontade sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade. 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