{"id":398343,"date":"2025-11-06T10:00:59","date_gmt":"2025-11-06T10:00:59","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=398343"},"modified":"2025-11-06T10:00:59","modified_gmt":"2025-11-06T10:00:59","slug":"ciberhumanitas-que-devir-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ciberhumanitas-que-devir-humano\/","title":{"rendered":"CIBERHUMANITAS &#8211; Que Devir Humano?"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Estava de sa\u00edda para a missa. N\u00e3o sabia se havia de levar o telem\u00f3vel comigo ou n\u00e3o. Por um momento pensei e decidi n\u00e3o levar. Enquanto caminhava, entrava na igreja, e sentava-me, comecei a pensar. Antigamente, n\u00e3o havia telem\u00f3vel e n\u00e3o era necess\u00e1rio. A ideia de estar sempre contact\u00e1vel, pela hip\u00f3tese de poder surgir alguma mensagem ou telefonema urgente, n\u00e3o existia. E n\u00e3o me lembro de alguma vez ter acontecido uma situa\u00e7\u00e3o em que tivesse pensado\u2014<em>\u00abse tivesse em casa para atender aquela chamada\u2026<\/em>\u00bb\u2014por isso, de um modo novo e inesperado esta simples experi\u00eancia levou-me a pensar no tipo de ser humano que nos torn\u00e1mos a partir do momento em que deix\u00e1mos que os ambientes digitais digitalizassem a nossa vida sem nos darmos conta disso. Enquanto rezava, sentia a necessidade de um certo retorno ao caminho que nos orienta e torna cada vez mais e melhores humanos. Senti a necessidade de evoluir na reflex\u00e3o sobre a <em>cibercultura<\/em>\u2014 cultura que emerge do ambiente digital\u2014, para uma reflex\u00e3o mais profunda dedicada \u00e0 <em>ciberhumanitas<\/em> como a humanidade que emerge do ambiente digital.<\/p>\n<p>Dizer &#8220;sou humano&#8221; n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o real como dizer &#8220;torno-me humano&#8221;. Neste sentido, <em>devir humano<\/em> seria uma express\u00e3o mais pr\u00f3xima da nossa experi\u00eancia quotidiana do que <em>ser humano<\/em>. O <em>ser humano<\/em> coloca a t\u00f3nica do meu pensamento no sujeito, enquanto o <em>devir humano<\/em> coloca a t\u00f3nica na sua evolu\u00e7\u00e3o. O <em>ser humano<\/em> \u00e9 e deixa de ser. O <em>devir humano<\/em> n\u00e3o \u00e9 porque continuamente deixa de ser para se tornar. N\u00e3o acredito que tenhamos chegado ao ponto mais alto da evolu\u00e7\u00e3o humana porque o devir humano \u00e9 permanente. Costuma-se dizer que, quem n\u00e3o anda para a frente, anda para tr\u00e1s, como se andar para tr\u00e1s fosse um retrocesso, uma involu\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, ao menos &#8220;anda&#8221;, em vez de ficar parado. O <em>devir humano<\/em> acontece de cada fez que nos pomos a caminhar, independentemente do sentido. Por\u00e9m, a quest\u00e3o mais profunda que se coloca ao humano em plena evolu\u00e7\u00e3o s\u00e3o as raz\u00f5es que orientam o seu <em>devir<\/em> mediante a interac\u00e7\u00e3o que tem com o ambiente que o molda enquanto o humano pensa que est\u00e1 a moldar o ambiente. Em particular, estou a pensar no ambiente digital.<\/p>\n<p>Ao dizermos \u2014 quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto \u2014 significava que a mente do emissor introduz \u201cru\u00eddo\u201d alterando a mensagem quando a comunica ao receptor. Ao escrevermos a mensagem, promovemos uma maior fidelidade ao conte\u00fado a comunicar, da\u00ed o valor que tinha (e tem) a carta escrita. As in\u00fameras cartas que circulavam pelo mundo criavam um ambiente comunicacional entre as pessoas como comunh\u00e3o de vida e pensamento. Mas o processo era lento e resolvemos inventar, por exemplo, o tel\u00e9grafo. Por\u00e9m, em \u201cWalden e a Vida dos Bosques\u201d, Henry David Thoreau referiu-se ao impacto do tel\u00e9grafo nos relacionamentos entre o Texas e o Maine, dizendo \u2014 \u00abTemos grande pressa em construir um tel\u00e9grafo do Maine at\u00e9 ao Texas; mas talvez Maine e Texas n\u00e3o tenham nada de importante a comunicar.\u00bb Ou seja, gradualmente emerge um modo de comunicar feito de pontos, tra\u00e7os e pausas.<\/p>\n<p>Com os computadores, os descodificadores permitiram que letras, n\u00fameros, pontos, v\u00edrgulas e outros s\u00edmbolos se convertessem numa combina\u00e7\u00e3o de 0&#8217;s e 1&#8217;s. E pouco a pouco, a comunica\u00e7\u00e3o converte-se em informa\u00e7\u00e3o transmitida por um novo ambiente, o digital. A comunica\u00e7\u00e3o, como encontro de cora\u00e7\u00f5es da mente, converte-se em rios de informa\u00e7\u00e3o sem forma, onde a banalidade tem o mesmo peso que a profundidade. Apesar de haver ainda a comunica\u00e7\u00e3o auditiva (e agora a visual) entre n\u00f3s, n\u00e3o existem muitas d\u00favidas de que a maior parte da comunica\u00e7\u00e3o passou a ser escrita em formato digital.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o levava o telefone para a missa pelas mesmas raz\u00f5es que n\u00e3o levava um teclado para escrever uma mensagem a algu\u00e9m: ambos tinham fio e, por isso, eram fixos. Por outro lado, s\u00f3 um de n\u00f3s podia usar qualquer um destes instrumentos que traduziam o pensamento em palavras ditas ou escritas. N\u00e3o estou certo de que pens\u00e1ssemos que o fio estaria a aprisionar o uso, mas o certo \u00e9 que algu\u00e9m pensou e foi suficientemente criativo para nos livrarmos dele. Celebr\u00e1mos o feito com a nossa ades\u00e3o massiva, mas livr\u00e1mo-nos tamb\u00e9m do efeito. Estaria o fio a preservar a qualidade daquilo a que prest\u00e1vamos aten\u00e7\u00e3o? Independentemente da resposta, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 fio.<\/p>\n<p>Com a comunica\u00e7\u00e3o sem fios experiment\u00e1mos grandes vantagens e o facto de ser um avan\u00e7o tecnol\u00f3gico irrevers\u00edvel, demonstra que o benef\u00edcio ter\u00e1 superado o malef\u00edcio, mas o \u00faltimo s\u00f3 se nota quando damos tempo suficiente para que o seu efeito ganhe propor\u00e7\u00f5es vis\u00edveis. Ningu\u00e9m podia prever que o grande efeito da redu\u00e7\u00e3o da fric\u00e7\u00e3o na comunica\u00e7\u00e3o, que a aus\u00eancia do fio gerou, seria o de a superficializar. A mensagem profunda come\u00e7ou a dar lugar \u00e0 Simples Mensagem Superficial (SMS). De tal modo, que muitos preferem escrever uma curta mensagem para poupar tempo na comunica\u00e7\u00e3o. O tempo usado para perguntar \u201ccomo est\u00e1s?\u201d tornou-se um inc\u00f3modo porque o mundo acelerou ap\u00f3s eliminar muita da fric\u00e7\u00e3o comunicacional existente entre n\u00f3s. Temos tanta coisa para fazer que um SMS ou mensagem WhatsApp se tornou mais eficaz para comunicar o trigo e o joio porque perdemos um pouco a capacidade de o distinguir. Que devir humano \u00e9 este que se desenvolve no fren\u00e9tico ambiente digital?<\/p>\n<p>A gota de \u00e1gua que despertou a inten\u00e7\u00e3o da <em>ciberhumanitas<\/em> foi pensar que toco mais vezes num ecr\u00e3 por dia do que penso em Deus. Consumo mais informa\u00e7\u00e3o do que vivo em ora\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 a tecnologia, e o que o ambiente digital faz em mim, uma nova forma de religi\u00e3o que morfoseia o meu devir humano de um modo inconsciente? Posso ter o evangelho quotidiano como mais uma App entre outras Apps, mas leio-o e medito-o com a profundidade que gera transforma\u00e7\u00e3o na minha vida espiritual? Terei a coragem de continuar a deixar o telem\u00f3vel em casa e voltar ao missal se quiser acompanhar as leituras? Quem sabe que via <em>ciberhumanitas<\/em> se gera quando fazemos um s\u00e9rio exame de consci\u00eancia ao papel dos apegos tecnol\u00f3gicos no devir humano.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Para acompanhar o que escrevo pode subscrever a Newsletter\u00a0<em>Escritos<\/em>\u00a0neste\u00a0<a href=\"https:\/\/miguelpanao.us21.list-manage.com\/subscribe?u=79afec46a9b51d4f2fd96b42b&amp;id=de0124808e\">LINK<\/a>; \u2013 \u201c<a href=\"https:\/\/cordeldeprata.pt\/produto\/tempo-3-0-uma-visao-revolucionaria-da-experiencia-mais-transformativa-do-mundo\/\">Tempo 3.0 \u2013 Uma vis\u00e3o revolucion\u00e1ria da experi\u00eancia mais transformativa do mundo<\/a>\u201d (<a href=\"https:\/\/www.bertrand.pt\/livro\/tempo-3-0-uma-visao-revolucionaria-da-experiencia-mais-transformativa-do-mundo-miguel-oliveira-panao\/29562630\">Bertrand<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.wook.pt\/livro\/tempo-3-0-uma-visao-revolucionaria-da-experiencia-mais-transformativa-do-mundo-miguel-oliveira-panao\/29562630\">Wook<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.fnac.pt\/Tempo-3-0-Uma-Visao-Revolucionaria-da-Experiencia-Mais-Transformativa-do-Mundo-Miguel-Panao\/a11534362\">FNAC<\/a>\u00a0)<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-398343","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/398343","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=398343"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/398343\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=398343"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=398343"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=398343"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}