{"id":39767,"date":"2009-07-02T10:05:24","date_gmt":"2009-07-02T10:05:24","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/07\/02\/homilia-do-bispo-do-funchal-no-dia-da-madeira\/"},"modified":"2009-07-02T10:05:24","modified_gmt":"2009-07-02T10:05:24","slug":"homilia-do-bispo-do-funchal-no-dia-da-madeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-funchal-no-dia-da-madeira\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo do Funchal  no dia da Madeira"},"content":{"rendered":"<p><span><strong>&laquo;Construir uma sociedade mais humana, mais justa e crist&atilde;&raquo;<span style=\"color: black\"><\/span><\/strong><\/span> <\/p>\n<p>A Catedral da nossa Diocese congrega-nos mais uma vez para a Eucaristia, a celebra&ccedil;&atilde;o por excel&ecirc;ncia do louvor e ac&ccedil;&atilde;o de gra&ccedil;as a Deus por todos os Seus dons e benef&iacute;cios, neste Dia da Regi&atilde;o Aut&oacute;noma da Madeira e das Comunidades Madeirenses.<\/p>\n<p>Este Dia bem pode considerar-se o Dia de todo o Povo Madeirense e Porto-Santense, num grande abra&ccedil;o que une e associa os residentes a todos quantos vivem fora, em tantas comunidades espalhadas pelo mundo. <\/p>\n<p>&Eacute; um Dia que recorda o nosso Passado e celebra o que hoje somos, com gratid&atilde;o e respeito por todos aqueles que o constru&iacute;ram. Um Dia que coloca diante de n&oacute;s o Presente, sem ilus&otilde;es e sem medos, com as suas d&uacute;vidas e as suas esperan&ccedil;as, um presente que nos interpela a uma vontade forte de construir um Futuro cada vez mais digno de homens e mulheres livres, que somos chamados a ser.<\/p>\n<p>Assim, para todos e cada um de n&oacute;s, celebrar o Dia da Regi&atilde;o, &eacute;, antes de mais, sentir-se chamado a dar o seu melhor, em todos os campos da vida social, econ&oacute;mica, pol&iacute;tica e cultural, para que a Sociedade de hoje e do amanh&atilde; seja a express&atilde;o do trabalho, dedica&ccedil;&atilde;o e generosidade de todos n&oacute;s.<\/p>\n<p><em>Solidariedade e amor fraterno<\/em> <\/p>\n<p>Os textos b&iacute;blicos que acab&aacute;mos de escutar constituem um forte convite e apelo &agrave; solidariedade e ao amor fraterno, numa mensagem que bem pode considerar-se a base para a constru&ccedil;&atilde;o de uma sociedade mais humana, mais justa e mais evang&eacute;lica. &Eacute; verdade que &eacute; uma Palavra, dirigida antes de mais e de modo particular aos crentes, mas n&atilde;o deixa de questionar e interpelar tamb&eacute;m todos quantos se esfor&ccedil;am por orientar a sua vida por princ&iacute;pios, crit&eacute;rios e valores de verdadeiro Humanismo.<\/p>\n<p>Na primeira leitura (Rom 12,5-16), S. Paulo exorta a comunidade de Roma &agrave; viv&ecirc;ncia do amor e do servi&ccedil;o fraterno, sinal de comunh&atilde;o e unidade em Cristo. Todos unidos, formam um s&oacute; &quot;corpo&quot; e, conforme a gra&ccedil;a recebida, partilham os dons, complementam-se e enriquecem-se mutuamente. <\/p>\n<p>Na comunidade dos crentes, onde Cristo &eacute; o centro unificador, todos os baptizados devem viver como verdadeiros irm&atilde;os e ningu&eacute;m se h&aacute;-de julgar superior aos outros. S&atilde;o Paulo assim recomenda: &quot;Seja a vossa caridade sem fingimento&quot;, &quot;amai-vos uns aos outros com amor fraterno&quot;, &quot;praticai generosamente a hospitalidade&quot;, &quot;alegrai-vos com os que est&atilde;o alegres, chorai com os que choram&quot;, &quot;vivei em harmonia uns com os outros&quot; e &quot;n&atilde;o aspireis &agrave;s grandezas, mas conformai-vos com o que &eacute; humilde&quot; (Rom 12, 9-16).<\/p>\n<p>A harmonia da comunidade crist&atilde;, concretizada, assim, em gestos fraternos de solidariedade, &eacute; o melhor an&uacute;ncio prof&eacute;tico do amor de Cristo, que &eacute; Fonte de alegria perene e do aut&ecirc;ntico dinamismo comunit&aacute;rio. &quot;O Amor&quot;, disse Bento XVI, &quot;&eacute; a caracter&iacute;stica suprema de Deus&quot; e a voca&ccedil;&atilde;o intr&iacute;nseca do homem.<\/p>\n<p><em>Maior mandamento social<\/em><\/p>\n<p>A chave de leitura do texto do Evangelho de S. Jo&atilde;o (15, 9-17) &eacute; a express&atilde;o &quot;permanecer no amor&quot;, porque a caridade &eacute;, na verdade, a fonte inspiradora da solicitude pastoral, mas &eacute;, tamb&eacute;m, &quot;o maior mandamento social&quot;, conforme refere a Doutrina Social da Igreja. De facto, s&oacute; o Amor de Cristo, na entrega da vida que fez de Si mesmo, pode iluminar, transformar e configurar integralmente o homem e a mulher, e conduzi-los &agrave; mais alta dignidade e plenitude humanas. &quot;&Eacute; este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. Ningu&eacute;m tem maior amor do que dar a vida pelos amigos&quot;- disse Jesus (Jo 15,12-13).<\/p>\n<p>Dizer que a caridade &eacute; o &quot;maior mandamento social&quot; n&atilde;o significa reduzir o &quot;amor-servi&ccedil;o&quot; fraterno &agrave; sua dimens&atilde;o assistencial, que n&atilde;o poder&aacute; deixar de existir, certamente, perante car&ecirc;ncias espec&iacute;ficas, que reclamam ajudas personalizadas e muito concretas. Importa, sem d&uacute;vida, estar atento, reconhecer e descobrir as verdadeiras necessidades, abrir o cora&ccedil;&atilde;o e agir, procurando respostas e solu&ccedil;&otilde;es para os problemas que as pessoas e as fam&iacute;lias, por si s&oacute;s, n&atilde;o podem resolver.<\/p>\n<p>Neste momento, em que se acentuam as consequ&ecirc;ncias da crise global por todos reconhecida, mais do que elencar as car&ecirc;ncias e os problemas, j&aacute; tantas vezes repetidos, importa sobretudo congregar esfor&ccedil;os e vontades, na concretiza&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas concertadas de desenvolvimento integral e de participa&ccedil;&atilde;o solid&aacute;ria de todos os cidad&atilde;os e institui&ccedil;&otilde;es. &Eacute; uma ac&ccedil;&atilde;o a realizar, em di&aacute;logo e converg&ecirc;ncia, entre as institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas e privadas, de acordo com o princ&iacute;pio geral da autonomia e coopera&ccedil;&atilde;o, que entre elas deve existir. <\/p>\n<p><em>Nova enc&iacute;clica de Bento XVI<\/em><\/p>\n<p>E, a este prop&oacute;sito, alegra-me poder mencionar a nova enc&iacute;clica do Papa Bento XVI, intitulada &quot;Caritas in Veritate&quot; (Caridade na Verdade), assinada no passado dia 29 de Junho, Solenidade de S&atilde;o Pedro e S&atilde;o Paulo, e que, em breve, estar&aacute; publicada. Trata-se de mais um Documento do Magist&eacute;rio da Igreja sobre as quest&otilde;es sociais, procurando &quot;aprofundar alguns aspectos do desenvolvimento integral&quot; na &eacute;poca actual, &quot;&agrave; luz da caridade na verdade&quot;, como afirmou Bento XVI; constitui, como disse o Papa, um novo contributo, que a Igreja Cat&oacute;lica &quot;oferece &agrave; Humanidade, no seu empenho por um progresso sustent&aacute;vel, no pleno respeito pela dignidade humana e pelas reais exig&ecirc;ncias de todos&quot;.<\/p>\n<p>Neste documento pastoral, Bento XVI retoma os temas tratados por Paulo VI, em 1967, na enc&iacute;clica &quot;Populorum Progressio&quot; (O desenvolvimento dos povos), considerado de refer&ecirc;ncia para a Doutrina Social da Igreja. Aponta, segundo consta, para a necessidade de potenciar um Humanismo que concilie o desenvolvimento social e econ&oacute;mico com o m&aacute;ximo respeito pelo ser humano, que diminua as diferen&ccedil;as entre ricos e pobres, neste mundo globalizado.<\/p>\n<p>No pensamento da Igreja, a verdadeira consci&ecirc;ncia da f&eacute; e o mandamento novo do Amor-Caridade-Servi&ccedil;o s&atilde;o imperativos crist&atilde;os para uma aposta no desenvolvimento integral e harmonioso, no investimento e cria&ccedil;&atilde;o de riqueza, com a dimens&atilde;o social que a deve caracterizar, ao servi&ccedil;o do bem comum.<\/p>\n<p>Como seria bom &quot;darmo-nos as m&atilde;os&quot;, solidariamente, em torno da causa mais nobre que &eacute; a viv&ecirc;ncia do sentido da igualdade e fraternidade humanas. &quot;Todo o Homem &eacute; meu irm&atilde;o!&quot; &#8211; proclamava o Papa Paulo VI, propondo o ideal da Fraternidade como caminho para o desenvolvimento e a Paz verdadeira.<\/p>\n<p><em>Uma quest&atilde;o de cidadania<\/em>&nbsp; <\/p>\n<p>&Eacute; uma quest&atilde;o de cidadania, que a todos obriga e &eacute; bom recordar, neste Dia da Regi&atilde;o Aut&oacute;noma e das Comunidades Madeirenses. Quanto aos crist&atilde;os, em particular, direi que est&atilde;o obrigados, em consci&ecirc;ncia e por exig&ecirc;ncia da pr&oacute;pria f&eacute;, a assumirem-se e comportarem-se como &quot;bons cidad&atilde;os&quot;, cidad&atilde;os de um mundo novo, que n&atilde;o podem ignorar os seus direitos e deveres sociais, como tamb&eacute;m n&atilde;o podem desvincular-se das suas inerentes responsabilidades, antes participando, com generoso empenho, no desenvolvimento de uma Sociedade nova ao servi&ccedil;o do Homem integral.<\/p>\n<p>Aos crist&atilde;os leigos, porque inseridos mais profundamente no tecido social, na fam&iacute;lia, na economia, na pol&iacute;tica, nas diversas responsabilidades do mundo laboral, cabe intervir, de forma muito pr&oacute;pria, na constru&ccedil;&atilde;o da nova Civiliza&ccedil;&atilde;o do Amor, atrav&eacute;s do testemunho claro da f&eacute; em Cristo e do Seu Evangelho. Eles devem participar, com empenho e di&aacute;logo construtivo, no desenvolvimento cient&iacute;fico, tecnol&oacute;gico, cultural e fraterno da comunidade humana, sem esquecer que a edifica&ccedil;&atilde;o duma verdadeira sociedade assenta, obviamente, na Caridade, na Verdade e na Justi&ccedil;a. <\/p>\n<p>Uma sociedade sem valores e sem refer&ecirc;ncias &agrave; transcend&ecirc;ncia pode conduzir o homem e a mulher para o abismo de uma crise e ang&uacute;stia existencial, sem retorno.<\/p>\n<p><em>O testemunho do Beato Carlos de &Aacute;ustria<\/em><\/p>\n<p>Neste dia de celebra&ccedil;&otilde;es comemorativas regionais, apraz-me recordar o eloquente testemunho do ilustre Imperador, Beato Carlos de &Aacute;ustria, exilado na Madeira, onde veio a falecer, aos 34 anos de idade. Com o seu porte distinto e af&aacute;vel, rapidamente conquistou a simpatia do nosso povo. No exerc&iacute;cio das suas fun&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, notabilizou-se pelo empenho na promo&ccedil;&atilde;o da paz, no amor e respeito pelos povos que lhe foram confiados. <\/p>\n<p>A sua breve vida foi um belo e nobre exemplo de coragem e dignidade, no servi&ccedil;o de autoridade pol&iacute;tica, na vida familiar e testemunho crist&atilde;o. Face aos in&uacute;meros sofrimentos, que lhe foram infligidos, perdoou incondicionalmente aos inimigos. Na Adora&ccedil;&atilde;o di&aacute;ria da Eucaristia, encontrava for&ccedil;a para aceitar humildemente tantas adversidades, humilha&ccedil;&otilde;es e pobreza.<\/p>\n<p>O meu antecessor, o ent&atilde;o Bispo do Funchal, D. Ant&oacute;nio Manuel Pereira Ribeiro, dizia a prop&oacute;sito do testemunho exemplar do Beato Carlos: &quot;a presen&ccedil;a do Senhor Imperador na Madeira corresponde &agrave; gra&ccedil;a de uma prega&ccedil;&atilde;o&quot;. Na &uacute;ltima noite da sua vida, na Quinta do Monte, em 1922, confidenciou &agrave; esposa, a imperatriz Zita: &quot; Amo-te sem limites. Todo o meu empenho sempre foi reconhecer claramente, em tudo, a vontade de Deus e segui-la da maneira mais perfeita&quot;.<\/p>\n<p><em>Aos nossos emigrantes<\/em><\/p>\n<p>Seja-me permitida, neste momento, uma palavra de sauda&ccedil;&atilde;o e de est&iacute;mulo para todos aqueles que, da Venezuela ao Canad&aacute;, do Brasil &agrave; &Aacute;frica do Sul, da Austr&aacute;lia aos Estados Unidos da Am&eacute;rica e em tantos outros lugares, vivem, lutam e trabalham, dando tamb&eacute;m um precioso testemunho da sua f&eacute; crist&atilde; e assumindo, sem vergonha nem desfalecimento, as tradi&ccedil;&otilde;es religiosas que receberam desde o ber&ccedil;o e que agora, por sua vez, se esfor&ccedil;am por transmitir a seus filhos e netos. <\/p>\n<p>&Eacute; impressionante verificar, que o factor religioso continua a ser o elo mais forte de uni&atilde;o &agrave;s Ilhas que os viram nascer e crescer. Para os nossos emigrantes, de permeio com os sonhos concretizados e o desejo de regressar, &quot;a saudade &eacute; a esperan&ccedil;a do futuro&quot;, como diria Teixeira de Pascoais. <\/p>\n<p><em>Prece final<\/em><\/p>\n<p>&Agrave; nossa Padroeira, Senhora do Monte, que tem vindo a acompanhar os destinos desta terra e dos nossos emigrantes, particularmente nos momentos de crise e adversidade, com a ternura e a solicitude de M&atilde;e, pedimos que nos ensine o segredo de viver e testemunhar o mandamento do Amor, da Paz e da Fraternidade universal, neste mundo sedento de Verdade e de Essencial.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Funchal, 1 de Julho de 2009, <br \/>&dagger; Ant&oacute;nio Carrilho, Bispo do Funchal<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&laquo;Construir uma sociedade mais humana, mais justa e crist&atilde;&raquo; A Catedral da nossa Diocese congrega-nos mais uma vez para a Eucaristia, a celebra&ccedil;&atilde;o por excel&ecirc;ncia do louvor e ac&ccedil;&atilde;o de gra&ccedil;as a Deus por todos os Seus dons e benef&iacute;cios, neste Dia da Regi&atilde;o Aut&oacute;noma da Madeira e das Comunidades Madeirenses. 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