{"id":3964,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/as-religioes-e-a-paz-3\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"as-religioes-e-a-paz-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/as-religioes-e-a-paz-3\/","title":{"rendered":"As religi\u00f5es e a paz"},"content":{"rendered":"<p>D. Manuel Clemente, Bispo Auxiliar de Lisboa <!--more--> 1. Falando genericamente, a religi\u00e3o tem-se manifestado como a forma mais ampla de reconhecimento e garantia de pessoas e sociedades inteiras. De tal modo, que as pr\u00f3prias ideologias de substitui\u00e7\u00e3o, mesmo pouco ou nada religiosas, acabam por assimilar e manifestar alguns aspectos basilares das cren\u00e7as.  Por outro lado, s\u00e3o facilmente detect\u00e1veis os tra\u00e7os \u00e9tnicos e comunais das diversas religi\u00f5es, pois tamb\u00e9m por elas as sociedades se t\u00eam perpetuado e defendido. S\u00f3 o que est\u00e1 aqu\u00e9m ou al\u00e9m do epis\u00f3dico poder\u00e1 corresponder \u00e0 inquieta\u00e7\u00e3o \u2013 transcendente ou metaf\u00edsica \u2013 que a religi\u00e3o quer resolver. Cabe aqui, portanto, definir os termos. Por transcend\u00eancia, indica-se o \u201ccar\u00e1cter dos princ\u00edpios cuja aplica\u00e7\u00e3o ultrapassa os limites da experi\u00eancia poss\u00edvel\u201d. E tamb\u00e9m \u201co outro, face ao qual a consci\u00eancia se reconhece\u201d. Por religi\u00e3o, entende-se a \u201ccren\u00e7a na exist\u00eancia de um poder superior, do qual o homem depende\u201d. Ou um \u201csistema estruturado de doutrinas, cren\u00e7as, regras e pr\u00e1ticas de uma determinada comunidade de pessoas que instituem um determinado tipo de rela\u00e7\u00e3o com um poder superior, sobre-humano\u201d. E pretende-se religar, \u201cjuntar de novo aquilo que se separou\u201d, ou \u201cestabelecer novamente uma rela\u00e7\u00e3o\u201d (cf. Dicion\u00e1rio da L\u00edngua Portuguesa Contempor\u00e2nea da Academia das Ci\u00eancias de Lisboa).   Poderemos pensar que as religi\u00f5es definem as comunidades no que t\u00eam de mais agregativo. E que, assim como as sociedades isoladas se reconheceram nos seus cultos espec\u00edficos, tamb\u00e9m as globais os integraram ou submeteram a outros mais universais, gerando tens\u00f5es nunca inteiramente resolvidas. Esta fenomenologia \u00e9tnico-religiosa, fazendo da religi\u00e3o uma al\u00ednea complementar da hist\u00f3ria das civiliza\u00e7\u00f5es, pode encar\u00e1-la tamb\u00e9m como potenciadora de conflitos. N\u00e3o afastamos imediatamente tal hip\u00f3tese. Mesmo entre crentes da mesma religi\u00e3o geral, as diferen\u00e7as pol\u00edticas podem ilustrar-se com apelativos religiosos particulares. N\u00e3o s\u00f3 entre mu\u00e7ulmanos sunitas e xiitas, por exemplo; tamb\u00e9m entre crist\u00e3os cat\u00f3licos, protestantes e ortodoxos; ou mesmo s\u00f3 entre crist\u00e3os cat\u00f3licos, quando em Aljubarrota grit\u00e1vamos por S. Jorge e os castelhanos por Santiago\u2026  \u00c9 ineg\u00e1vel, por\u00e9m, que a religi\u00e3o em si mesma, se ultrapassar esta caracterologia, consegue tornar-se factor de unidade universal, porque (re)liga o crente ao princ\u00edpio vivo e \u00fanico, n\u00e3o s\u00f3 de si pr\u00f3prio, mas de todos os membros da humanidade comum. Se admitirmos este ponto, n\u00e3o procuraremos ultrapassar os males das \u201cguerras de religi\u00e3o\u201d pela nega\u00e7\u00e3o dela, quer tirando-lhe subst\u00e2ncia (reduzindo o te\u00edsmo a um vago de\u00edsmo), quer negando-a ou combatendo-a. As doen\u00e7as religiosas (fundamentalismos, intoler\u00e2ncia, etc) s\u00e3o afinal doen\u00e7as do homem que se procura; podem ultrapassar-se com melhor religi\u00e3o, onde a solu\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria esteja dispon\u00edvel a todos. Dispon\u00edvel e n\u00e3o compulsiva.  2. Que tal n\u00e3o \u00e9 quim\u00e9rico nem meramente paliativo, demonstra-o a experi\u00eancia religiosa nos seus melhores efeitos, evidenciando, por um lado, a limita\u00e7\u00e3o de algumas an\u00e1lises t\u00e3o gerais que n\u00e3o atendem \u00e0 verdade concreta, s\u00f3 verific\u00e1vel mais de perto. Como seria, por exemplo, falar da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, entre os s\u00e9culos VIII e XV, como palco cont\u00ednuo de uma guerra desencadeada ou latente entre \u201ccrist\u00e3os\u201d e \u201cmu\u00e7ulmanos\u201d. Ou usar as mesmas categorias para o que aconteceu e acontece no Pr\u00f3ximo Oriente, desde a expans\u00e3o \u00e1rabe \u00e0s Cruzadas e \u00e0 actualidade. Tanto num caso como no outro, houve e h\u00e1 conviv\u00eancias pac\u00edficas mutuamente enriquecedoras e at\u00e9 identifica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, de crist\u00e3os com mu\u00e7ulmanos e vice-versa, at\u00e9 face a outros crist\u00e3os e outros mu\u00e7ulmanos.   Um exemplo apenas, donde e quando menos se esperaria: do s\u00e9culo XI, quase em v\u00e9speras das Cruzadas\u2026 Uma carta not\u00e1vel e felizmente guardada do papa Greg\u00f3rio VII, mostra-nos como podiam ser as rela\u00e7\u00f5es entre as duas margens do Mediterr\u00e2neo, mesmo entre o chefe espiritual dos crist\u00e3os ocidentais e um governante mu\u00e7ulmano, indo este ao ponto de promover a vida religiosa dos seus s\u00fabditos crist\u00e3os: \u201cGreg\u00f3rio, Bispo, servo dos servos de Deus, a An-Nasir, Rei da prov\u00edncia da Maurit\u00e2nia sitifiana, em \u00c1frica. A tua nobreza escreveu-nos, neste mesmo ano, para que consagremos bispo, segundo a lei crist\u00e3, o padre Servandus. [\u2026] Para mais, mandaste-nos presentes e libertaste, por defer\u00eancia para com o bem-aventurado Pedro, pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos, e por amor para connosco, alguns crist\u00e3os que estavam presos como cativos entre os teus. [\u2026] Foi certamente Deus, criador de todas as coisas, [\u2026] que inspirou ao teu cora\u00e7\u00e3o esta boa ac\u00e7\u00e3o [\u2026]. Na verdade, Deus todo-poderoso [\u2026] nada aprecia mais, em cada um de n\u00f3s, do que o amor do pr\u00f3ximo depois do amor de Deus, e o cuidado em n\u00e3o fazer aos outros o que n\u00e3o quer\u00edamos que nos fizessem a n\u00f3s. Ora, esta caridade, n\u00f3s e v\u00f3s devemo-la mutuamente, ainda mais do que a devemos a outros povos, pois confessamos e reconhecemos &#8211; de modo diferente, \u00e9 verdade \u2013 um Deus \u00fanico, que louvamos e veneramos cada dia, como Criador dos s\u00e9culos e Senhor deste mundo. Segundo a palavra do ap\u00f3stolo: \u2018Ele \u00e9 a nossa Paz, Ele que dos dois fez um s\u00f3\u2019\u201d (Greg\u00f3rio VII \u2013 Carta a An-Nasir, 1076. In Teissier, Henri (dir.) &#8211; Histoire des chr\u00e9tiens d\u2019 Afrique du Nord. Paris: Descl\u00e9e, 1991, p. 53-54).   Um caso exemplar, \u00e9 certo, pois demonstra como, h\u00e1 mais de um mil\u00e9nio e por motivos especificamente religiosos se podiam respeitar e ajudar homens de diversos credos, frisando o que lhes era comum e fundamental, precisamente a partir da cren\u00e7a num \u00fanico Criador de todos. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que a liberdade de consci\u00eancia ainda n\u00e3o \u00e9 universalmente aceite e concretizada e que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil a um mu\u00e7ulmano deixar de o ser, como noutros tempos n\u00e3o foi f\u00e1cil a um crist\u00e3o abandonar a f\u00e9 de seus pais e do seu povo. A liberdade concedida \u00e0 expans\u00e3o de outros credos em pa\u00edses de tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 correspondida por id\u00eantica liberdade em pa\u00edses de tradi\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana. Em entrevista recente, o bispo latino de Bagdad, Jean Benjamim Sleiman reconhece: \u201cNos pa\u00edses isl\u00e2micos, o conceito de liberdade de consci\u00eancia n\u00e3o existe. Ou seja, a possibilidade de escolher a religi\u00e3o, a f\u00e9 em que acreditar. Mais precisamente: um crist\u00e3o pode tornar-se mu\u00e7ulmano, mas n\u00e3o vice-versa. H\u00e1, no entanto, liberdade de culto no sentido em que \u00e9 permitido frequentar as pr\u00e1ticas religiosas no interior da igreja, ao passo que toda a actividade exterior \u00e9 negada. [\u2026] A presen\u00e7a crist\u00e3 \u00e9 uma riqueza para o M\u00e9dio Oriente. [\u2026] N\u00e3o se trata de proselitismo, mas de partilhar uma vida e demonstrar que certos valores podem ajudar tamb\u00e9m os outros. Os crist\u00e3os devem estar conscientes disto\u201d (In Passos, Novembro 2003, p. 25).   Nada disto invalida o citado texto de 1076: homens autenticamente religiosos conseguiam, h\u00e1 um mil\u00e9nio j\u00e1, ultrapassar as severas condicionantes civilizacionais e culturais da altura, para servirem mutuamente uma paz onde todos coubessem j\u00e1. Algo semelhante aconteceu no princ\u00edpio do s\u00e9culo XIII, quando Francisco de Assis preferiu encontrar-se pacificamente com o sult\u00e3o do Egipto, aquando da Quinta Cruzada. E n\u00e3o nos faltariam sinais prof\u00e9ticos daquilo que a religi\u00e3o em si mesma pode fazer para aproximar povos e ultrapassar conflitos, afirmando raz\u00f5es \u00faltimas que desmentem raz\u00f5es imediatas, geralmente menos altru\u00edstas estas.        Como tamb\u00e9m \u00e9 verific\u00e1vel que os fundamentalistas vitimam ou comprometem antes de mais os pr\u00f3prios correligion\u00e1rios que n\u00e3o os acompanham. E, em certo sentido, poder\u00e1 dizer-se que os surtos fundamentalistas se caracterizam mais pela pouca religi\u00e3o \u2013 no sentido essencial do termo &#8211; dos respectivos promotores, que ficam obnubilados pelo sentimento individual, sem o confrontar com os dos outros, ou n\u00e3o conseguem ir al\u00e9m da  dimens\u00e3o regional da religiosidade em bruto, que pretende vencer a inseguran\u00e7a pela imposi\u00e7\u00e3o agressiva, interna e externamente. Da abertura a um Deus \u00fanico e transcendente, Greg\u00f3rio VII e An-Nasir conclu\u00edam poder cooperar em mat\u00e9ria religiosa e social, beneficiando as popula\u00e7\u00f5es. A afirma\u00e7\u00e3o do absoluto, realtivizava as diferen\u00e7as pessoais. O fundamentalismo, por outro lado, afirma t\u00e3o exclusivamente a perspectiva particular que n\u00e3o admite contradi\u00e7\u00e3o. Ora, como acaba de dizer o fil\u00f3sofo franc\u00eas Paul Ricoeur, \u201co di\u00e1logo entre as confiss\u00f5es pode ser desenvolvido a partir de um ponto fixo: a consci\u00eancia de que a nossa interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 limitada. Sobre este pressuposto se fundamente o respeito rec\u00edproco\u201d (In Fam\u00edlia Crist\u00e3, Dezembro de 2003, p. 33). No fundamentalismo particularista, obvia-se o caminho para aquele ponto verdadeiramente universal, onde os tempos e os espa\u00e7os se libertam e partilham, no horizonte comum dos crentes. N\u00e3o foi por acaso que Jesus em Jerusal\u00e9m, ou Maom\u00e9 em Meca, se preocuparam com a restitui\u00e7\u00e3o do recinto sagrado \u00e0 sua finalidade \u00fanica, porque universal\u2026 Ou que Jesus falou dum tempo em que o verdadeiro culto \u00e9 feito \u201cem esp\u00edrito e verdade\u201d, independentemente de lugares e povos, ou seja, onde nem os lugares nem os povos t\u00eam a preval\u00eancia, mas unicamente o Criador de todos.  3. Nesta esteira se integraram e integram numerosos homens e mulheres, levados por motivos religiosos e raz\u00f5es \u00faltimas ao incessante trabalho da paz. A religi\u00e3o, em qualquer caso, libertou-os do particularismo de origem para a universalidade do fim. E, porque atende ao fim, liberta tamb\u00e9m o tempo ao seu pr\u00f3prio curso e risco, como j\u00e1 o reconhecia Tocqueville, captando na jovem democracia norte-americana o papel positivo da religi\u00e3o numa sociedade livre: \u201cA religi\u00e3o v\u00ea na liberdade civil um nobre exerc\u00edcio das faculdades do Homem; no mundo pol\u00edtico v\u00ea um terreno livre que o Criador ofereceu aos esfor\u00e7os da intelig\u00eancia. Livre e poderosa na sua esfera, satisfeita com o lugar que lhe \u00e9 reservado, ela sabe que o seu imp\u00e9rio se estabelece tanto melhor quanto reine apenas pelas suas pr\u00f3prias for\u00e7as e quanto domine os cora\u00e7\u00f5es sem precisar de ser se servir de outros apoios. A liberdade v\u00ea na religi\u00e3o a companheira das suas lutas e dos seus triunfos, o ber\u00e7o da sua inf\u00e2ncia, a fonte divina dos seus direitos. Considera-a a salvaguarda dos costumes e estes garantes das leis e da sua pr\u00f3pria durabilidade\u201d (Alexis de Tocqueville \u2013 Da Democracia na Am\u00e9rica. Cascais: Principia, 2001, p. 80-81. Tocqueville visitou os Estados Unidos em 1831-1832\u2026). Tocqueville pensava assim. Outros demoraram mais tempo, julgando negativamente o lugar da religi\u00e3o na sociedade e prevendo-lhe o destino de tudo o que a hist\u00f3ria deixa para tr\u00e1s. Todavia, mais perto de n\u00f3s, foi esta previs\u00e3o a ser revista. Como o fez Peter Berger, na viragem do s\u00e9culo: \u201cO \u00edmpeto religioso [\u2026] \u00e9 hoje semelhante ao que sempre foi e, em alguns locais, maior do que no passado. O que significa que toda uma literatura produzida por historiadores e cientistas sociais durante os anos 50 e 60, e vagamente denominada \u2018teoria da seculariza\u00e7\u00e3o\u2019, estava essencialmente errada. [\u2026] A ideia-chave da teoria da seculariza\u00e7\u00e3o \u00e9 simples e enra\u00edza-se no Iluminismo: a moderniza\u00e7\u00e3o conduz, necessariamente, ao decl\u00ednio da religi\u00e3o na sociedade e nos indiv\u00edduos. Ora, foi precisamente esta ideia que se provou estar errada. [\u2026] O impulso religioso, a busca de um significado que transcenda o espa\u00e7o restrito da exist\u00eancia emp\u00edrica neste mundo, constituiu, desde sempre, uma caracter\u00edstica essencial da humanidade. (Esta afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o possui um car\u00e1cter teol\u00f3gico, mas antropol\u00f3gico \u2013 um fil\u00f3sofo agn\u00f3stico, ou mesmo ateu, concordar\u00e1, provavelmente, com ela)\u201d (In Nova Cidadania, Outubro\/Dezembro de 2000, p. 32-40. Peter Berger \u00e9 professor de Sociologia na Universidade de Boston. Este ensaio parte duma palestra sua e foi publicado em ingl\u00eas em 1996\/97).  4. Admitamos pois que a motiva\u00e7\u00e3o religiosa, afinal prevalecente, possa ser tamb\u00e9m um factor de paz, se permanecer na sua essencialidade e partir sempre desta, sem desvios fundamentalistas. Ilustro esta afirma\u00e7\u00e3o com um r\u00e1pido relance de datas e atitudes: A 11 de Setembro de 2001 fomos abalados com a destrui\u00e7\u00e3o das \u201cTorres G\u00e9meas\u201d de Nova Iorque. N\u00e3o faltaram pren\u00fancios de guerra civilizacional e religiosa, eminente. No dia seguinte, o papa Jo\u00e3o Paulo II pronunciava-se em Roma, mas nos seguintes termos: \u201cOntem foi um dia obscuro na hist\u00f3ria da humanidade, uma ofensa terr\u00edvel contra a dignidade do homem. [\u2026] O cora\u00e7\u00e3o do homem \u00e9 um abismo de que, \u00e0s vezes, emergem des\u00edgnios de ferocidade inaudita [\u2026]. Mesmo quando a for\u00e7a das trevas parece prevalecer, o crente sabe que o mal e a morte n\u00e3o s\u00e3o a \u00faltima palavra\u201d (Jo\u00e3o Paulo II \u2013 Audi\u00eancia geral de 12 de Setembro de 2001. L\u2019Osservatore Romano, ed. port., 15 de Setembro de 2001, p. 1). A reac\u00e7\u00e3o papal faz-se em nome da dignidade humana. Mas tamb\u00e9m alerta para a raiz profunda do mal, num dom\u00ednio t\u00e3o imponder\u00e1vel como o \u00e9 o \u201ccora\u00e7\u00e3o\u201d do homem, onde qualquer an\u00e1lise positivista n\u00e3o chega\u2026 A refer\u00eancia final \u00e9 tamb\u00e9m transcendente: \u201co crente sabe que o mal e a morte n\u00e3o s\u00e3o a \u00faltima palavra\u201d. \u00c9 desta ordem \u00faltima o contributo da religi\u00e3o \u00e0 causa da paz: um optimismo que prov\u00e9m mais do fim do que de tr\u00e1s, do que Deus garante e n\u00e3o apenas do que cada um consiga.  Entretanto, Jo\u00e3o Paulo II tinha uma viagem programada ao Cazaquist\u00e3o, para da\u00ed a dias. N\u00e3o faltaram press\u00f5es para desistir, dados os perigos previs\u00edveis, num pa\u00eds t\u00e3o pr\u00f3ximo dos fundamentalistas, bem como dos alvos prov\u00e1veis de repres\u00e1lias norte-americanas. Mas as motiva\u00e7\u00f5es religiosas do papa pesaram mais e da\u00ed a dias chegava a Astana, capital dum grande pa\u00eds em que os mu\u00e7ulmanos s\u00e3o metade da popula\u00e7\u00e3o, para refor\u00e7ar a causa da paz com o apelo \u00e0 raiz da cren\u00e7a, de todas as cren\u00e7as: \u201cDilectos Povos do Cazaquist\u00e3o! [\u2026] Quando no interior de uma determinada comunidade civil os cidad\u00e3os sabem aceitar-se nas respectivas convic\u00e7\u00f5es religiosas, \u00e9 mais f\u00e1cil que se afirme entre eles o reconhecimento efectivo dos outros direitos humanos e o entendimento acerca dos valores fundamentais de uma conviv\u00eancia pac\u00edfica e construtiva. Com efeito, as pessoas sentem-se unidas pela consci\u00eancia de ser irm\u00e3os, porque s\u00e3o filhos do \u00fanico Deus, Criador do universo\u201d (Jo\u00e3o Paulo II \u2013 Discurso durante a cerim\u00f3nia de boas-vindas na capital do Cazaquist\u00e3o, Astana, 22 de Setembro de 2001. L\u2019Osservatore Romano, ed. port., 29 de Setembro de 2001, p. 5). Dois dias depois foi mais longe ainda, aludindo positivamente ao Isl\u00e3o, sublinhando-lhe a bondade essencial, ent\u00e3o muito contestada em todo o Ocidente: \u201cNeste contexto, e precisamente aqui, nesta terra, aberta ao encontro e ao di\u00e1logo, e perante uma assembleia t\u00e3o qualificada, desejo reafirmar o respeito da Igreja Cat\u00f3lica pelo Isl\u00e3o, o aut\u00eantico Isl\u00e3o: o Isl\u00e3o que reza, que sabe ser solid\u00e1rio com quem se encontra em necessidade. Recordando-nos dos horrores do passado tamb\u00e9m recente, todos os crentes devem unir os seus esfor\u00e7os, para que jamais Deus seja ref\u00e9m das ambi\u00e7\u00f5es dos homens. O \u00f3dio, o fanatismo e o terrorismo profanam o nome de Deus e desfiguram a aut\u00eantica imagem do homem\u201d (Jo\u00e3o Paulo II \u2013 Encontro com os representantes do mundo da cultura, da arte e da ci\u00eancia, Astana, 24 de Setembro de 2001. L\u2019Osservatore Romano, ed. port., 29 de Setembro de 2001, p. 11). \u00c9 precisamente em nome da unidade de Deus, unidade de origem e de fim para a humanidade inteira, que as religi\u00f5es t\u00eam motivos de sobra para se empenharem na causa da paz entre todos os homens e civiliza\u00e7\u00f5es. J\u00e1 por isso Jo\u00e3o Paulo II convidara em 1986 os representantes das v\u00e1rias religi\u00f5es para se juntarem com ele em Assis, em prol da paz. O contexto internacional recente veio incentivar ainda mais essa inten\u00e7\u00e3o. Os crentes de todas as religi\u00f5es s\u00f3 podem sentir como profana\u00e7\u00e3o o uso do nome de Deus para levar \u00e0 guerra: dum lado e doutro do conflito s\u00f3 existiriam afinal criaturas suas\u2026  Criaturas que, no terreno, se conseguem entender melhor. Valha de exemplo a recente entrevista do bispo caldeu em\u00e9rito de Bagdad, Emanuel-Karin Delly: \u201cOs nossos antepassados sofreram momentos piores que o actual. E tudo suportaram com paci\u00eancia e hero\u00edsmo, coabitando com os seus irm\u00e3os mu\u00e7ulmanos. Tamb\u00e9m n\u00f3s devemos imitar os nossos pais. Em muitas ocasi\u00f5es colabor\u00e1mos com os mu\u00e7ulmanos. E muitos deles estimam-nos, visitam-nos e n\u00f3s retribu\u00edmos-lhes. Desde h\u00e1 dois mil anos que estamos aqui, e acredito que estaremos ainda por outros tantos s\u00e9culos\u201d. E o bispo iraquiano refere de seguida o problema fundamentalista, mas para dizer que os mu\u00e7ulmanos moderados podem estar do lado dos crist\u00e3os: \u201cN\u00f3s, do Patriarcado [dos crist\u00e3os caldeus de Bagdad], participamos em todas as festas dos mu\u00e7ulmanos, para partilhar com eles as suas datas mais festivas, tal como eles fazem connosco. Outro dia, por exemplo, quando alguns fundamentalistas atacaram as f\u00e1bricas dos crist\u00e3os, apelei aos chefes dos mu\u00e7ulmanos que me receberam com grande amizade, e escreveram duras cartas \u00e0queles que eles achavam que poderiam intervir\u201d (In Cidade Nova, Nov\/Dez 2003, p. 6-7).  O esfor\u00e7o ecum\u00e9nico pela paz tem dado os seus frutos. Cada vez h\u00e1 mais manifesta\u00e7\u00f5es inter-religiosas nesse sentido, constituindo uma for\u00e7a de grande valia para o desanuviamento mundial. Conhecendo-se os l\u00edderes, aproximam-se as religi\u00f5es, na motiva\u00e7\u00e3o \u00faltima que as (re)concilia e no suporte humano em que incarnam. Em Setembro passado realizou-se, tamb\u00e9m em Astana, o primeiro Congresso dos L\u00edderes das Religi\u00f5es Mundiais e Tradicionais. Termino, respigando algumas das suas conclus\u00f5es mais ilustrativas do que pode e quer ser o contributo das religi\u00f5es para a causa comum da paz: \u201cN\u00f3s, participantes no primeiro Congresso dos L\u00edderes das Religi\u00f5es Mundiais e Tradicionais [entre os quais o Cardeal Jozef Tomko, representando a Santa S\u00e9], realizado nos dias 23-24 de Setembro de 2003 em Astana, Capital da Rep\u00fablica do Cazaquist\u00e3o: reconhecendo o direito de cada pessoa humana a decidir-se livremente, a escolher, a expressar e praticar a sua religi\u00e3o; considerando o di\u00e1logo inter-religioso como um dos mais importantes instrumentos para assegurar a paz e a harmonia entre os povos e as na\u00e7\u00f5es; [\u2026] condenando a representa\u00e7\u00e3o err\u00f3nea das religi\u00f5es e o uso impr\u00f3prio das diferen\u00e7as entre as religi\u00f5es, como modo de alcan\u00e7ar finalidades ego\u00edstas, separatistas e violentas [\u2026]; DECLARAMOS que: a promo\u00e7\u00e3o dos valores da Toler\u00e2ncia, da Justi\u00e7a e da Caridade deve ser a finalidade de qualquer ensinamento religioso; o extremismo, o terrorismo e outras formas de viol\u00eancia em nome da religi\u00e3o nada t\u00eam a ver com a compreens\u00e3o aut\u00eantica da religi\u00e3o, mas constituem amea\u00e7as contra a vida do homem e, por conseguinte, deveriam ser rejeitados; [\u2026] a diversidade dos credos e das pr\u00e1ticas religiosas n\u00e3o leva \u00e0 suspeita rec\u00edproca, \u00e0 descrimina\u00e7\u00e3o e \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o, mas \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o m\u00fatua e \u00e0 harmonia, manifestando as diversas caracter\u00edsticas de cada uma das religi\u00f5es e culturas; as religi\u00f5es devem aspirar a uma maior coopera\u00e7\u00e3o, reconhecendo a toler\u00e2ncia e a aceita\u00e7\u00e3o m\u00fatua como instrumentos essenciais para a coexist\u00eancia pac\u00edfica de todos os povos; [\u2026] devemos revigorar a coopera\u00e7\u00e3o na promo\u00e7\u00e3o dos valores espirituais e da cultura do di\u00e1logo, com vistas a garantir a paz no novo mil\u00e9nio; [\u2026] Os participantes [\u2026] DECIDIRAM: convocar o Congresso pelo menos uma vez em cada tr\u00eas anos; [\u2026] realizar o segundo Congresso em Astana, na Rep\u00fablica do Cazaquist\u00e3o\u201d (L\u2019Osservatore Romano, ed. port., 11 de Outubro de 2003, p. 10).  5. Neste momento, subsistem muitos factores de separa\u00e7\u00e3o e conflito pelo Mundo al\u00e9m. Alguns deles alegam motivos religiosos. Estas linhas quiseram evidenciar apenas que em nome da religi\u00e3o e da refer\u00eancia a grandes vultos religiosos, tais motivos de oposi\u00e7\u00e3o s\u00e3o critic\u00e1veis e super\u00e1veis. Mais ainda, que a liga\u00e7\u00e3o a um \u00fanico Criador aproxima necessariamente as criaturas, j\u00e1 que a experi\u00eancia religiosa essencial o subtrai a qualquer instrumentaliza\u00e7\u00e3o particularista. M\u00edsticos de todos os credos sempre se encontraram mais facilmente do que outros, que tingem de colora\u00e7\u00e3o religiosa combates antigos e modernos. Por outro lado, tamb\u00e9m a vida concreta, pessoa a pessoa, dissipa mal entendidos e constituiu a melhor base para construir a paz. As grandes institui\u00e7\u00f5es religiosas, conservando a mem\u00f3ria exemplar dos respectivos iniciadores, s\u00e3o geralmente capazes de rever pr\u00e1ticas e abrir futuro, como o que se tem constru\u00eddo no actual movimento ecum\u00e9nico a favor da paz: Santo Eg\u00eddio, Assis, Astana, v\u00e3o-se somando, rumo ao mais precioso dos bens.         D. Manuel Clemente Bispo Auxiliar de Lisboa Confer\u00eancia proferida no Instituto da Defesa Nacional <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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