{"id":39572,"date":"2009-06-22T13:01:02","date_gmt":"2009-06-22T13:01:02","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/06\/22\/congresso-francisco-marto-crescer-para-o-dom-2\/"},"modified":"2009-06-22T13:01:02","modified_gmt":"2009-06-22T13:01:02","slug":"congresso-francisco-marto-crescer-para-o-dom-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/congresso-francisco-marto-crescer-para-o-dom-2\/","title":{"rendered":"Congresso Francisco Marto &#8211; Crescer para o Dom"},"content":{"rendered":"<p>O congresso desenhou os contornos jur&iacute;dicos em que se deram os interrogat&oacute;rios aos Pastorinhos, come&ccedil;ando por comparar o c&oacute;digo civil de 1867 (em vigor &agrave; altura das Apari&ccedil;&otilde;es) com as inova&ccedil;&otilde;es legislativas introduzidas pela rep&uacute;blica emergente, tentando desta forma oferecer uma vis&atilde;o jur&iacute;dica (o que em nosso entendimento constitui uma verdadeira novidade do ponto de vista dos estudos da mensagem de F&aacute;tima). Foram colocadas inicialmente algumas perguntas: o que &eacute; uma crian&ccedil;a? O que pensa? Qual a rela&ccedil;&atilde;o com os pais? Estas e outras quest&otilde;es pretenderam ajudar a precisar o n&iacute;vel da maturidade jur&iacute;dica da crian&ccedil;a para precisar por sua vez o que aconteceu com os interrogat&oacute;rios dos Pastorinhos, e do Francisco em particular. Neste esfor&ccedil;o foi evidenciado que o conceito de inf&acirc;ncia &eacute; um conceito recente no mundo jur&iacute;dico, surge recentemente na hist&oacute;ria, pois at&eacute; ao s&eacute;culo XVII a crian&ccedil;a &eacute; apenas considerada do ponto de vista dos adultos. O direito reverteu em lei muitas das viv&ecirc;ncias e das rela&ccedil;&otilde;es familiares que moldaram a sociedade at&eacute; ao s&eacute;culo XX. A inf&acirc;ncia foi a&iacute; colocada numa rela&ccedil;&atilde;o baseada na autoridade e no dever, inspirada no modelo pag&atilde;o romano da <em>patria potestas<\/em>, em que a fam&iacute;lia surge hierarquizada fortemente em fun&ccedil;&atilde;o do g&eacute;nero e do poder paternal, o qual olha para os filhos como propriedade sua, o que constitui claramente um modelo n&atilde;o crist&atilde;o, pag&atilde;o. &Eacute; neste mundo de rela&ccedil;&otilde;es, em que juridicamente n&atilde;o existe o dever de os pais respeitarem os filhos, que vive o Francisco. A inf&acirc;ncia vive assim uma condi&ccedil;&atilde;o de conting&ecirc;ncia, depende de muitos factores contextuais e, sobretudo, dos interesses do mundo dos adultos. Ainda &agrave; &eacute;poca do Francisco, as crian&ccedil;as constituem um grupo social e juridicamente discriminado. Isto mesmo foi justificado com in&uacute;meros exemplos das leis do c&oacute;digo civil de 1867 e da rep&uacute;blica em que as crian&ccedil;as continuavam a ser tratadas passivamente, sem qualquer personalidade socialmente contributiva. O processo dos Pastorinhos foi, por isso, confrontado com este mundo e com este corpo legislativo, numa &eacute;poca em que o direito previa que uma crian&ccedil;a poderia servir de testemunha em ju&iacute;zo. Foi demonstrado que, apesar disso, os interrogat&oacute;rios foram excessivos e violaram as mais elementares regras. As crian&ccedil;as tinham direito ao sil&ecirc;ncio, mas muitas vezes nem isso foi respeitado. N&atilde;o podiam ser amea&ccedil;adas e foram. Por &uacute;ltimo, foi reconhecida a veracidade dos testemunhos dos Pastorinhos, na medida em que os seus testemunhos mostram-se coincidentes. Foi muito notado o facto de as crian&ccedil;as ao deporem n&atilde;o terem querido chamar a aten&ccedil;&atilde;o sobre si pr&oacute;prias, mas sempre responderam pela verdade, mesmo sob coac&ccedil;&atilde;o, o que abona em favor da veracidade que as move e pela qual tudo suportam.<\/p>\n<p>A seguir a este mundo concreto do direito, foi visitado o mundo concreto do texto, do texto que &eacute; o Francisco Marto enquanto tal. A partir da literatura, no fundo outra forma de mostrar que comunga o Francisco, conseguiu mostrar-se como outra porta de acesso &agrave; vida do Francisco e como a&iacute; Francisco mostra desejar a transcend&ecirc;ncia. V&aacute;rios exemplos foram apresentados, v&aacute;rios detalhes da sua vida foram vasculhados para apresentar as evidentes afinidades entre a literatura, a filosofia e a religi&atilde;o. A absoluta humanidade da literatura comunga da absoluta humanidade do Francisco, humanidade que o congresso sempre teve presente. O texto da vida do Francisco &eacute; o espa&ccedil;o da revela&ccedil;&atilde;o do sentido da sua vida. Por isso se l&ecirc;, por isso o congresso a quis reler. A aventura do sentido est&aacute; presente no texto Francisco Marto. Este &eacute; ent&atilde;o um texto diferente do texto do direito, que fala de modo vinculante no imperativo, ao contr&aacute;rio do texto da vida que manifesta, que shows. &Eacute; nos pormenores afinal que o Francisco mostra.<\/p>\n<p>Isto obriga a ler o texto Francisco Marto de modo diferente e com muito cuidado &agrave; maneira da narratologia contempor&acirc;nea, respeitando escrupulosamente o texto, este tipo de texto. Nem todas as confer&ecirc;ncias do congresso o conseguiram fazer. Mas este exerc&iacute;cio foi concretizado e confrontado com outros exemplos de poesia sobre crian&ccedil;as, sobre o mundo da inf&acirc;ncia. V&aacute;rios poemas foram declamados e comentados nos quais, para l&aacute; dos detalhes mas precisamente nos detalhes, foram descobertos muitos ind&iacute;cios de uma vida outra, de uma espiritualidade, de uma transcend&ecirc;ncia que vai e vem. As crian&ccedil;as surgem nesses textos, como Francisco Marto no seu, envolvidas numa atmosfera intuitiva, inclinadas ao futuro e abertas &agrave; escatologia, inclinadas ao cumprimento das suas vidas. Ent&atilde;o estes textos manifestam outra coisa daquilo que superficialmente dizem.<\/p>\n<p>A partir ent&atilde;o do texto Francisco Marto tentou-se aurir os ensinamentos de pedagogia e de humaniza&ccedil;&atilde;o na experi&ecirc;ncia do pequeno vidente, sempre com o pressuposto que a inf&acirc;ncia n&atilde;o &eacute; uma adultez diminu&iacute;da nem meramente uma faixa et&aacute;ria, mas um estado de esp&iacute;rito, uma juventude de alma, aquilo que nos constitui. Neste momento, foram confrontados dois grandes modelos pedag&oacute;gicos: o primeiro inspirado no iluminismo kantiano do dever e o segundo em Rousseau. Foi declaradamente preferido o segundo devido &agrave; imagem positiva que d&aacute; da crian&ccedil;a por a&iacute; ser ela mesma portadora de humanidade, enquanto a primeira perspectiva foi criticada devido &agrave; no&ccedil;&atilde;o de inoc&ecirc;ncia que lhe est&aacute; por tr&aacute;s e que marca negativamente os modelos de desenvolvimento da inf&acirc;ncia ou das crian&ccedil;as no seu conjunto. Este modelo iluminista tudo submete ao tribunal da raz&atilde;o, onde naturalmente as crian&ccedil;as reprovam sendo por isso consideradas n&atilde;o livres. Nesse modelo s&oacute; o adulto &eacute; livre porque s&oacute; esse acede &agrave; humaniza&ccedil;&atilde;o porque s&oacute; ele manipula a raz&atilde;o que a tal permite. Daqui decorre uma &ecirc;nfase kantiana exagerada na disciplina, no adestramento da crian&ccedil;a para a obrigar a ser o que um adulto &eacute; e segundo os modelos adultos. O segundo modelo foi privilegiado porque a&iacute; a crian&ccedil;a &eacute; mais respeitada como algu&eacute;m que sabe de uma certa maneira, &agrave; sua maneira. No entanto, n&atilde;o foi suficientemente explorada a rela&ccedil;&atilde;o entre espiritualidade e pedagogia. No caso do Francisco, se ele n&atilde;o teve tempo de ver a sua intimidade da inf&acirc;ncia aberta ao mundo pela educa&ccedil;&atilde;o, se esta segunda fase da viv&ecirc;ncia da inf&acirc;ncia do Francisco chegou &agrave; dita espiritualidade (sendo por a&iacute; que Francisco &eacute; aberto ao mundo), ent&atilde;o ser&aacute; poss&iacute;vel que a pr&oacute;pria linguagem religiosa seja espa&ccedil;o de transcend&ecirc;ncia na medida em que a experi&ecirc;ncia religiosa do Francisco prende-o e apreendo-o, ou seja, educa-o ao melhor de si mesmo.<\/p>\n<p>De seguida, o congresso ofereceu exemplos concretos de uma comunidade paroquial onde pedagogicamente se tenta ajudar as novas gera&ccedil;&otilde;es ao contacto vivencial desta linguagem e experi&ecirc;ncia religiosas. Num evidente esfor&ccedil;o pedag&oacute;gico, a&iacute; s&atilde;o oferecidas v&aacute;rias estrat&eacute;gias para que as crian&ccedil;as n&atilde;o sejam objecto do rito mas sujeitos activos do mesmo. Isto &eacute; realizado incrementando as experi&ecirc;ncias sensoriais, narrativas, performativas e comunit&aacute;rias como meios de integra&ccedil;&atilde;o e de inicia&ccedil;&atilde;o &agrave; f&eacute; crist&atilde;.<\/p>\n<p>A dimens&atilde;o &eacute;tica deste processo partiu de seguida da constitui&ccedil;&atilde;o radical do eu no encontro buberiano com o tu, cuja diferen&ccedil;a constitui a identidade do eu. Esta faceta filos&oacute;fica da identidade relativa ficou por explorar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Jos&eacute; Carlos Carvalho<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O congresso desenhou os contornos jur&iacute;dicos em que se deram os interrogat&oacute;rios aos Pastorinhos, come&ccedil;ando por comparar o c&oacute;digo civil de 1867 (em vigor &agrave; altura das Apari&ccedil;&otilde;es) com as inova&ccedil;&otilde;es legislativas introduzidas pela rep&uacute;blica emergente, tentando desta forma oferecer uma vis&atilde;o jur&iacute;dica (o que em nosso entendimento constitui uma verdadeira novidade do ponto de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[199],"class_list":["post-39572","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39572","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39572"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39572\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39572"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39572"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39572"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}