{"id":39547,"date":"2009-06-20T12:54:47","date_gmt":"2009-06-20T12:54:47","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/06\/20\/congresso-sobre-o-beato-francisco-prossegue-em-fatima\/"},"modified":"2009-06-20T12:54:47","modified_gmt":"2009-06-20T12:54:47","slug":"congresso-sobre-o-beato-francisco-prossegue-em-fatima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/congresso-sobre-o-beato-francisco-prossegue-em-fatima\/","title":{"rendered":"Congresso sobre o Beato Francisco prossegue em F\u00e1tima"},"content":{"rendered":"<p>Francisco Marto: Crescer para o dom <!--more--> Como qualquer texto, para ser correctamente interpretado, h&aacute; que conhecer o respectivo contexto. O mesmo se passa com o texto que &eacute; a vida do Francisco. Neste sentido, o Congresso neste segundo dia come&ccedil;ou por olhar para os contextos hist&oacute;rico, social, pol&iacute;tico e eclesial da &eacute;poca das Apari&ccedil;&otilde;es, contextos esses que envolvem e que ajudam a explicar ou a conhecer melhor a vida do pequeno vidente. Assim, foi demonstrado como a mundivid&ecirc;ncia religiosa da &eacute;poca ultrapassa largamente no imagin&aacute;rio religioso a esfera do dom&iacute;nio institucional. Esta mundivid&ecirc;ncia foi por sua vez contextualizada remotamente um s&eacute;culo antes desde o tempo das revolu&ccedil;&otilde;es liberais, passando pela crise do racionalismo e proximamente &agrave; &eacute;poca das Apari&ccedil;&otilde;es pelo confronto agudo com a rep&uacute;blica emergente. Este percurso pretendeu mostrar como o pr&oacute;prio catolicismo desde a cent&uacute;ria de dezanove passou por um processo de desagrega&ccedil;&atilde;o e de posterior recomposi&ccedil;&atilde;o, ainda que n&atilde;o homog&eacute;nea. Foi chamada a aten&ccedil;&atilde;o precisamente para, ao contr&aacute;rio do que normalmente &eacute; referido e tido como dado adquirido, o clima mais favor&aacute;vel propiciado pelos novos movimentos republicanos e socialistas dos finais de novecentos, em claro distanciamento das tend&ecirc;ncias absolutistas e regalistas da monarquia constitucional e do pr&oacute;prio liberalismo que claramente pretendiam instrumentalizar a Igreja. A mundivid&ecirc;ncia religiosa ao tempo das Apari&ccedil;&otilde;es for&ccedil;osamente estar&aacute; marcada por este ambiente. Al&eacute;m disso, a revolu&ccedil;&atilde;o sidonista dos finais de 1917 n&atilde;o teve ainda eco nessa mundivid&ecirc;ncia, n&atilde;o alterando substancialmente o clima em que as Apari&ccedil;&otilde;es se d&atilde;o. Nesse sentido, foram apresentadas como caracter&iacute;sticas mais marcantes do ano de 1917 no horizonte externo das rela&ccedil;&otilde;es entre a Igreja e o Estado o anticlericalismo e a laiciza&ccedil;&atilde;o por parte de alguns sectores desse mesmo Estado, caracter&iacute;sticas depois vertidas em lei. A mundivid&ecirc;ncia religiosa foi situada assim num processo de reconfigura&ccedil;&atilde;o de uma nova fisionomia do posicionamento da Igreja perante o Estado e a sociedade. O mundo religioso da &eacute;poca est&aacute; marcado por uma profunda crise de paz (apelo t&atilde;o insistente na Mensagem de F&aacute;tima) devido &agrave;s consequ&ecirc;ncias que a partir de 1916 a guerra traz a Portugal, para al&eacute;m de 1917 assistir internacionalmente &agrave; implanta&ccedil;&atilde;o no poder de um regime ateu. <\/p>\n<p>Ficou claro que o catolicismo dos in&iacute;cios do s&eacute;culo passado &eacute; muito mais rico do que a sua vertente institucional, riqueza onde se inscrevem os Pastorinhos. A no&ccedil;&atilde;o aguda da centralidade do mist&eacute;rio de Deus para o m&iacute;stico Francisco &eacute; sinal de uma sadia relativiza&ccedil;&atilde;o do institucional e de uma profunda consci&ecirc;ncia da hierarquia das verdades da f&eacute;. Por outro lado, ficou tamb&eacute;m e evidente que o processo de recomposi&ccedil;&atilde;o por que passa o catolicismo desde novecentos conduzir&aacute; sobretudo &agrave; preocupa&ccedil;&atilde;o com o &acirc;mbito social de interven&ccedil;&atilde;o das comunidades crist&atilde;s, ganhando a ac&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica junto das classes desfavorecidas produzidas pela revolu&ccedil;&atilde;o industrial um novo interlocutor e a Igreja novos interlocutores junto desses grupos atrav&eacute;s de grupos compostos por leigos que n&atilde;o se reviam em alguma da dita classe dirigente eclesial da &eacute;poca (alguma dela perfeitamente pares do reino). Aqui surgiu um nome &#8211; Ab&uacute;ndio da Silva &#8211; cujo livro O Dever Presente de 1908 editado no Porto na Figueirinhas n&atilde;o foi mencionado.<\/p>\n<p>Num segundo momento, foram apresentadas as formas mais comuns de devo&ccedil;&atilde;o ao tempo das Apari&ccedil;&otilde;es: miss&otilde;es populares, peregrina&ccedil;&otilde;es &agrave; Virgem aos v&aacute;rios santu&aacute;rios marianos, exerc&iacute;cios de piedade, prociss&otilde;es, e uma forte rever&ecirc;ncia ao papado. Francisco encontra espiritualmente um mundo com uma grande intensidade afectiva (o que vai contra a piedade austera e intimista anterior) bem como uma procura exuberante pela visibiliza&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, externa da f&eacute; contra a tend&ecirc;ncia a privatizar o fen&oacute;meno religioso e a f&eacute;. Neste contexto foram apontadas como pr&aacute;ticas devocionais mais difundidas a adora&ccedil;&atilde;o do Sagrado Cora&ccedil;&atilde;o de Jesus (ainda que &agrave; maneira da piedade seiscentista), o culto eucar&iacute;stico com car&aacute;cter reparador e penitencial (o que explica a pr&aacute;tica da necessidade da comunh&atilde;o frequente), a devo&ccedil;&atilde;o mariana &agrave; Senhora do Ros&aacute;rio e &agrave; Imaculada Concei&ccedil;&atilde;o sobretudo desde Lourdes.<\/p>\n<p>Posto isto, o Congresso estava em condi&ccedil;&otilde;es de dar o passo seguinte: abordar a espiritualidade da inf&acirc;ncia como fen&oacute;meno crist&atilde;o e como possibilidade. Para tal foram colocadas &agrave; partida cinco quest&otilde;es que foram sucessivamente respondidas de modo muito objectivo e claro: 1) qual o sentido etimol&oacute;gico do termo &quot;espiritualidade&quot;? 2) existir&aacute; uma disponibilidade precoce na inf&acirc;ncia para a espiritualidade? 3) como conduzir a crian&ccedil;a ao mist&eacute;rio 4) ser&aacute; vi&aacute;vel a santifica&ccedil;&atilde;o de uma crian&ccedil;a? E finalmente 5) que ensinamentos extrair para a dita espiritualidade dos adultos da espiritualidade da inf&acirc;ncia?<\/p>\n<p>Assim, o termo foi apresentado nas diversas acep&ccedil;&otilde;es e precisado no sentido crist&atilde;o como sendo aquele caminho a percorrer na presen&ccedil;a do Esp&iacute;rito de Deus em n&oacute;s. Fundamentando a segunda resposta em estudos da psiquiatria actual, a segunda quest&atilde;o foi respondida afirmativamente. Na crian&ccedil;a, que n&atilde;o &eacute; um adulto em ponto pequeno (como foi salientado), existe uma propens&atilde;o, um impulso natural para l&aacute; dos sentidos (assim foi designado), existe uma inclina&ccedil;&atilde;o meramente natural, espont&acirc;nea para ir al&eacute;m do mundo captado pelos sentidos. Mas foi justamente advertido que isto n&atilde;o se pode sem mais identificar com todo o processo de crescimento espiritual do dito mundo dos adultos. Esta inclina&ccedil;&atilde;o na crian&ccedil;a n&atilde;o conduz imediatamente a Deus, o processo n&atilde;o &eacute; autom&aacute;tico. Para isso, foi chamado &agrave; cola&ccedil;&atilde;o o papel decisivo do meio como catalizador ou obstaculizador desse processo, desse caminho a percorrer na presen&ccedil;a do Esp&iacute;rito do Senhor. Esta inclina&ccedil;&atilde;o natural &eacute; apenas uma porta aberta pela qual h&aacute; que entrar. O meio pode ajudar a abrir ainda mais ou a fechar essa porta. Cabe ent&atilde;o ao meio ajudar a crian&ccedil;a a fazer a experi&ecirc;ncia da transcend&ecirc;ncia. Mas mais uma vez foi advertido que transcend&ecirc;ncia no mundo infantil n&atilde;o &eacute; sin&oacute;nimo de religioso. Significa t&atilde;o-somente um acontecimento, uma experi&ecirc;ncia vital. Se o meio tem um papel decisivo, ent&atilde;o foi encontrada o caminho para a terceira quest&atilde;o: a crian&ccedil;a n&atilde;o pode ser levada de qualquer maneira para esse encontro, nem se pode suprir algum recurso. Assim, insistiu-se no facto que, visto tratar-se de um acontecimento e n&atilde;o de um discurso l&oacute;gico, e n&atilde;o podendo ser ignorada a linguagem que a crian&ccedil;a j&aacute; possui, n&atilde;o bastam as palavras, mas s&atilde;o imprescind&iacute;veis os acontecimentos, os factos, os eventos. S&atilde;o necess&aacute;rios gestisverbisque (DV 2). Isto exige naturalmente um ambiente favor&aacute;vel para a transmiss&atilde;o da f&eacute;, um meio favor&aacute;vel, onde a fam&iacute;lia tem um exemplo insubstitu&iacute;vel. Neste sentido, &eacute; ent&atilde;o poss&iacute;vel aceitar uma crian&ccedil;a santa, a santifica&ccedil;&atilde;o de uma crian&ccedil;a. Mas em que condi&ccedil;&otilde;es? A sua estrutura humana &eacute; j&aacute; suficiente para tal? E o que se entende por santifica&ccedil;&atilde;o: d&aacute;diva ou conquista? O paradoxo foi colocado propositadamente como factor de reflex&atilde;o para avaliar o papel do mundo ps&iacute;quico neste acontecimento, neste processo, neste caminho a percorrer. A quest&atilde;o resumia-se a saber se o mundo ps&iacute;quico se intromete ou n&atilde;o na ac&ccedil;&atilde;o de um Deus que por gra&ccedil;a agarra por dentro o ser humano? Sendo o dom espiritual precisamente um dom ent&atilde;o n&atilde;o depende do mundo ps&iacute;quico. Daqui decorre que n&atilde;o existe uma aptid&atilde;o ps&iacute;quica para a santifica&ccedil;&atilde;o entendida como necessidade. Logo &eacute; poss&iacute;vel que tenha sido poss&iacute;vel ao Francisco. Deus n&atilde;o depende da condi&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica humana para se manifestar. Deus pode agarrar o homem por dentro. Mas surgiu uma outra quest&atilde;o: n&atilde;o existir&atilde;o condi&ccedil;&otilde;es? Foi conclu&iacute;do que de facto existir&atilde;o condicionalismos.<\/p>\n<p>Finalmente, foram apresentadas algumas li&ccedil;&otilde;es a tirar para a pr&oacute;pria espiritualidade crist&atilde; no seu todo: a espiritualidade da inf&acirc;ncia ajuda a avaliar da seriedade de uma revela&ccedil;&atilde;o particular, mostra como Deus prefere aqueles cora&ccedil;&otilde;es que vivem as virtudes da humildade, facultam a espontaneidade da viv&ecirc;ncia da f&eacute;, e mostram aos adultos que os seus dons ser&atilde;o comunicados &agrave; Igreja de maneira p&uacute;blica e universal, ao contr&aacute;rio de muito mundo adulto gn&oacute;stico que por vezes tende a esconder ou a assenhorar-se da gra&ccedil;a de Deus.<\/p>\n<p>Com este exemplo e est&iacute;mulo de espiritualidade, o Congresso investigou a educa&ccedil;&atilde;o da f&eacute; ao tempo das Apari&ccedil;&otilde;es para melhor perceber a linguagem e a mundivid&ecirc;ncia religiosa do beato Francisco. Foi evidenciada a influ&ecirc;ncia do magist&eacute;rio de S. Pio X e do c&oacute;digo de direito can&oacute;nico de 1917 num forte impulso ao movimento catequ&eacute;tico. Conclui-se no debate com os historiadores presentes que o catecismo usado pelos Pastorinhos foi o do Abade de Salamonde, que &agrave; boa maneira do catecismo de S.Pio X apresentava uma imagem formalista e long&iacute;nqua de Deus, abstracta mesmo. Ora, o Deus do Francisco j&aacute; est&aacute; longe, &eacute; j&aacute; um Deus que &eacute; conhecido a partir de uma experi&ecirc;ncia pessoal e concreta. Neste sentido, superou a imagem de Deus que os seus catecismos lhe transmitiram. Ficou, no entanto, por abordar a tem&aacute;tica da consola&ccedil;&atilde;o e o conceito teol&oacute;gico de repara&ccedil;&atilde;o (t&atilde;o presentes na sensibilidade e na experi&ecirc;ncia de Deus que faz o Francisco, bem como o timbre apocal&iacute;ptico que ainda sobreviveu nessa experi&ecirc;ncia e na respectiva linguagem).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jos&eacute; Carlos Carvalho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco Marto: Crescer para o dom<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[187,199,207,251],"class_list":["post-39547","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-diocese-do-porto","tag-espiritualidade","tag-fatima","tag-marianos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39547","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39547"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39547\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39547"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39547"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39547"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}