{"id":39520,"date":"2009-06-19T11:42:17","date_gmt":"2009-06-19T11:42:17","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/06\/19\/implicacoes-religiosas-e-humanas-do-beato-francisco\/"},"modified":"2009-06-19T11:42:17","modified_gmt":"2009-06-19T11:42:17","slug":"implicacoes-religiosas-e-humanas-do-beato-francisco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/implicacoes-religiosas-e-humanas-do-beato-francisco\/","title":{"rendered":"Implica\u00e7\u00f5es religiosas e humanas do Beato Francisco"},"content":{"rendered":"<p>Congresso \u00abFrancisco Marto Crescer para o Dom\u00bb &#8211;  18 a 20 de Junho de 2009 <!--more--> Este Congresso assinala o centen&aacute;rio do nascimento do pequeno vidente e beato Francisco Marto. Para tal, o Santu&aacute;rio quis apresentar diversos olhares sobre a figura singular e t&atilde;o simp&aacute;tica desta crian&ccedil;a. O congresso pretendeu olhar para o(s) Pastorinho(s)e para o respectivo contexto nas suas implica&ccedil;&otilde;es religiosas e humanas. Isto colocou como um dos m&eacute;todos principais do congresso o da interdisciplinaridade, ainda que tal exerc&iacute;cio n&atilde;o tenha de modo nenhum sido exaustivo. Mas em &uacute;ltima an&aacute;lise, o que levou a realizar este encontro interdisciplinar foi o pr&oacute;prio estatuto paradoxal de uma crian&ccedil;a na condi&ccedil;&atilde;o de destinat&aacute;ria de uma revela&ccedil;&atilde;o particular, da qual sucede o acolhimento desse dom. Isto mesmo foi recordado no lan&ccedil;amento do congresso, na medida em que as autoridades eclesi&aacute;sticas tiveram uma primeira reac&ccedil;&atilde;o negativa aquando da entrega do pedido do processo em Roma, &agrave; semelhan&ccedil;a da reac&ccedil;&atilde;o dos disc&iacute;pulos que recusam as crian&ccedil;as a Jesus. Tendo as apari&ccedil;&otilde;es como protagonistas crian&ccedil;as, o que &eacute; que faz a revela&ccedil;&atilde;o a estas crian&ccedil;as (em particular ao Francisco) ao ponto de ser(em) considerado(s) digno(s) dos altares? E quais os ensinamentos hoje que nos deixa o Francisco acerca de Deus e acerca da humanidade, sendo que logo &agrave; partida Francisco apresenta uma f&eacute; muito aguda e centrada no mist&eacute;rio de Deus, com uma profunda consci&ecirc;ncia da hierarquia das verdades da f&eacute;? <\/p>\n<p>Para responder a estas quest&otilde;es, o Congresso partiu &quot;de baixo&quot;, da realidade do dom e da pr&oacute;pria vida do Francisco para repropor uma &quot;nova ingenuidade&quot;, conceito com particular incid&ecirc;ncia na linguagem da f&eacute; e na experi&ecirc;ncia m&iacute;stica e espiritual do Francisco. Ficou vincada suficientemente a imagem do Francisco como algu&eacute;m seduzido a partir de um dom &agrave; boa maneira dos m&iacute;sticos encantados e surpreendidos pelo excesso de Deus, como tamb&eacute;m ficou suficientemente vincada a cr&iacute;tica desta experi&ecirc;ncia a muitas pseudo-experi&ecirc;ncias da sociedade contempor&acirc;nea da gratifica&ccedil;&atilde;o imediata onde muitas vezes n&atilde;o &eacute; deixado espa&ccedil;o &agrave;s experi&ecirc;ncias verdadeiramente construtoras do Eu, da ipseidade (sociedade na qual o homem &eacute; constru&iacute;do hoje sobretudo a partir de fora mas n&atilde;o a partir de dentro). As concep&ccedil;&otilde;es do dom e da alteridade permitem (re)pensar toda a linguagem da experi&ecirc;ncia do Francisco de um modo supra-racionalista, verificacionista ou confirmat&oacute;rio, na medida em que uma sadia fenomenologia do dom e da alteridade (precisamente porque parte do real e n&atilde;o da ideologia ou dos esquemas que a interpretam) l&ecirc; a realidade na sua manifesta&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o segundo esquemas que lhe sejam impostos. A vida d(o)ada do Francisco, vivida em doa&ccedil;&atilde;o precisamente porque lhe foi dado o Dom, foi assim lida a partir da fenomenologia de Jean-Luc Marion, L&eacute;vinas e de Michel Henry (sobretudo) enquanto int&eacute;rpretes do nosso tempo e daquilo que constitui a pessoa &#8211; a experi&ecirc;ncia origin&aacute;ria da separa&ccedil;&atilde;o que permite ao Eu a dist&acirc;ncia necess&aacute;ria que o liberta e lhe d&aacute; espa&ccedil;o para crescer, para ser pessoa. Este distanciamento que o Francisco viveu instaurou uma circularidade afectiva que lhe permitiu ganhar interioridade. O Francisco cresceu porque se separou, porque contemplou. A separa&ccedil;&atilde;o por excel&ecirc;ncia &eacute; ent&atilde;o o distanciamento (que n&atilde;o &eacute; sin&oacute;nimo de afastamento). Francisco &eacute; de poucas palavras porque se deixou seduzir pela luz tal como os m&iacute;sticos, separou-se para contemplar essa luz que &eacute; Deus, e assim ganhou interioridade. Esta figura m&iacute;stica foi por isto lida franciscanamente como algu&eacute;m que ajuda a descobrir a paternidade de Deus numa rela&ccedil;&atilde;o de conaturalidade e de gra&ccedil;a &agrave; maneira de Jesus, e n&atilde;o segundo uma l&oacute;gica abstracta do dever representada em Jo&atilde;o Baptista. Daqui foram apresentados alguns desafios para a reflex&atilde;o da f&eacute; crist&atilde; e para a pastoral: a redescoberta da imagem de Deus como Pai no seio de uma rela&ccedil;&atilde;o de afectividade, a reintegra&ccedil;&atilde;o da inf&acirc;ncia na linguagem da f&eacute; e na linguagem espiritual como espa&ccedil;o de acesso &agrave; alteridade e &agrave; transcend&ecirc;ncia (logo lugar teol&oacute;gico), a necessidade de insistir no crescimento para o dom como grande tarefa da educa&ccedil;&atilde;o da f&eacute;, e a reformula&ccedil;&atilde;o da linguagem sacrificial como doa&ccedil;&atilde;o e liberta&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o apenas do lado do esfor&ccedil;o (&agrave; maneira moralista rab&iacute;nica).<\/p>\n<p>A reproposi&ccedil;&atilde;o desta nova linguagem continua na apresenta&ccedil;&atilde;o do reino como inf&acirc;ncia espiritual e n&atilde;o como territ&oacute;rio nem exclusividade &eacute;tnica de um povo. Aqui a inf&acirc;ncia foi equiparada evangelicamente ao reino, o mesmo &eacute; dizer, a um progresso para Deus. Se o reino &eacute; para as crian&ccedil;as, ent&atilde;o a inf&acirc;ncia torna-se numa &eacute;tica transfigurada, e neste sentido assume cabalmente o desenho de uma voca&ccedil;&atilde;o a ser filho de Deus, um chamamento a viver esta rela&ccedil;&atilde;o de depend&ecirc;ncia ao Pai (rela&ccedil;&atilde;o t&atilde;o dif&iacute;cil na cultura contempor&acirc;nea).<\/p>\n<p>De seguida foi visitada a experi&ecirc;ncia antropol&oacute;gica que est&aacute; na base desta voca&ccedil;&atilde;o e que lhe d&aacute; encarna&ccedil;&atilde;o. A voca&ccedil;&atilde;o a esta inf&acirc;ncia espiritual foi pensada a partir da abertura proporcionada pelo som j&aacute; no per&iacute;odo intra-uterino. Assim, o som foi apresentado como a experi&ecirc;ncia humana e musical &#8211; aquela primeira porta de entrada no mundo e garante de sobreviv&ecirc;ncia. O som permitiu ao Francisco a supera&ccedil;&atilde;o da condi&ccedil;&atilde;o material nossa de viventes, e a imers&atilde;o no som da cria&ccedil;&atilde;o, no som da alegria ecoado no seu p&iacute;faro, e nos sons do Esp&iacute;rito. O Francisco foi lido a partir da experi&ecirc;ncia absolutamente humano do crescimento musical atrav&eacute;s de diferentes sons, sil&ecirc;ncio inclu&iacute;do, o que faz das experi&ecirc;ncias dos sons que o Francisco ouvia experi&ecirc;ncias espirituais, experi&ecirc;ncias de acesso &agrave; imaterialidade.<\/p>\n<p>Mas um outro espa&ccedil;o que a crian&ccedil;a escuta outras sonoridades &eacute; o espa&ccedil;o da fam&iacute;lia, tema que n&atilde;o deixou de ser focado. A fam&iacute;lia foi tamb&eacute;m para o Francisco ber&ccedil;o de espiritualidade, porque j&aacute; na ordem da cria&ccedil;&atilde;o a fam&iacute;lia &eacute; algo que cria algo novo fazendo dela um local novo que cria algo novo, mesmo proporcionando securiza&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es (seguran&ccedil;a e estabilidade para as significa&ccedil;&otilde;es das coisas). Esta cria&ccedil;&atilde;o de algo novo foi recordada como acontecendo no seio das actividades mais ma&ccedil;adoras dos primeiros anos de vida, mas sendo a&iacute; que ganhamos as mais importantes significa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Jos&eacute; Carlos Carvalho, Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Congresso \u00abFrancisco Marto Crescer para o Dom\u00bb &#8211; 18 a 20 de Junho de 2009<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[199],"class_list":["post-39520","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39520","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39520"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39520\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39520"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39520"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39520"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}