{"id":394805,"date":"2025-10-12T09:31:38","date_gmt":"2025-10-12T08:31:38","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=394805"},"modified":"2025-10-11T15:27:04","modified_gmt":"2025-10-11T14:27:04","slug":"igreja-portugal-fatima-criou-uma-nova-forma-de-representar-a-virgem-maria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-portugal-fatima-criou-uma-nova-forma-de-representar-a-virgem-maria\/","title":{"rendered":"Igreja\/Portugal: F\u00e1tima criou \u00abuma nova forma de representar a Virgem Maria\u00bb"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Pela quarta-vez na hist\u00f3ria, a imagem de Nossa Senhora de F\u00e1tima foi at\u00e9 Roma, desta vez para o Jubileu da Espiritualidade Mariana. A escolha, feita ainda pelo Papa Francisco, comprova \u00a0a import\u00e2ncia que o Vaticano lhe atribui, diz Marco Daniel Duarte. <\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>O diretor do Departamento de Estudos e do Museu do Santu\u00e1rio diz que com F\u00e1tima surgiu uma nova forma de representar Maria, a \u2018Senhora de Branco\u2019, e n\u00e3o tem d\u00favidas de que essa imagem inspirada nas apari\u00e7\u00f5es aos pastorinhos \u00e9 atualmente a mais universal de todas as que existem. Em entrevista \u00e0 Renascen\u00e7a e \u00e0 Ag\u00eancia Ecclesia lembra que foi sobretudo desde Jo\u00e3o Paulo II que se estreitou a liga\u00e7\u00e3o dos papas a F\u00e1tima, numa uni\u00e3o que hoje todos associam \u00e0 defesa da paz mundial. Mas defende que \u201ch\u00e1 mais a estudar\u201d a partir de F\u00e1tima, e gostaria que Portugal fizesse essa aposta. A imagem de Nossa Senhora regressa este domingo de Roma, a tempo da peregrina\u00e7\u00e3o anivers\u00e1ria de 12 e 13 de outubro.<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_394626\" aria-describedby=\"caption-attachment-394626\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-394626 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Marco-Daniel-Duarte_diretor-do-Museu-do-Santuario-de-Fatima.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Marco-Daniel-Duarte_diretor-do-Museu-do-Santuario-de-Fatima.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Marco-Daniel-Duarte_diretor-do-Museu-do-Santuario-de-Fatima-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Marco-Daniel-Duarte_diretor-do-Museu-do-Santuario-de-Fatima-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Marco-Daniel-Duarte_diretor-do-Museu-do-Santuario-de-Fatima-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Marco-Daniel-Duarte_diretor-do-Museu-do-Santuario-de-Fatima-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Marco-Daniel-Duarte_diretor-do-Museu-do-Santuario-de-Fatima-1536x1024.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-394626\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>A imagem que todos conhecemos de Nossa Senhora de F\u00e1tima\u00a0\u00e9 hoje uma refer\u00eancia de Portugal no mundo.\u00a0Como se explica que esta imagem,\u00a0vinda de um espa\u00e7o t\u00e3o espec\u00edfico e marcado pelas apari\u00e7\u00f5es de 1917,\u00a0tenha alcan\u00e7ado esta dimens\u00e3o universal na Igreja?<\/em><\/p>\n<p>Na verdade, quando olhamos para a hist\u00f3ria de um pa\u00eds,\u00a0e\u00a0para a hist\u00f3ria da Igreja nesse pa\u00eds,\u00a0e quando percebemos que, em 1917,\u00a0Portugal era o s\u00edtio mais afastado dos governos mundiais,\u00a0n\u00e3o existia em qualquer cartografia ou mapa, n\u00e3o tinha aquele pontinho a assinalar F\u00e1tima.\u00a0E a partir daquele fen\u00f3meno religioso que se desenvolve desde a Cova da Iria,\u00a0e que, em menos de uma d\u00e9cada, j\u00e1 tinha extravasado, de facto,\u00a0os muros do pa\u00eds,\u00a0percebemos que h\u00e1 uma s\u00e9rie de dimens\u00f5es que fazem acontecer F\u00e1tima\u00a0a partir daquele lugar, mas que\u00a0o fazem transbordar para outras latitudes.<\/p>\n<p>A imagem de Nossa Senhora de F\u00e1tima n\u00e3o \u00e9, obviamente, estranha a este fen\u00f3meno.\u00a0Ali\u00e1s, a partir do momento em que os peregrinos sentem necessidade de tornar corpo,\u00a0a partir de uma imagem, de um \u00edcone,\u00a0a entidade que os pastorinhos diziam ter visto &#8211;\u00a0e para os pastorinhos e para os crentes essa entidade tem um nome muito concreto,\u00a0\u00e9 a M\u00e3e de Deus, Maria, M\u00e3e de Jesus,\u00a0figura important\u00edssima do cristianismo,\u00a0figurada de maneira muito pr\u00f3xima\u00a0daquelas que s\u00e3o as descri\u00e7\u00f5es dos pastorinhos &#8211; , a\u00a0partir desse\u00a0momento, em F\u00e1tima, aparece um bin\u00f3mio muito espec\u00edfico\u00a0que \u00e9 a capelinha, por um lado, que marca o lugar da apari\u00e7\u00e3o,\u00a0e a imagem, que passa a ser a vera ef\u00edgie da Senhora de F\u00e1tima.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>Mas\u00a0qual \u00e9 o segredo para que F\u00e1tima seja t\u00e3o facilmente reconhec\u00edvel em todo o mundo?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 precisamente a partir, quer da geografia do lugar,\u00a0quer depois a partir da imagem que chega a todos os lugares,\u00a0que transborda daquele lugar. Qual \u00e9 o segredo?\u00a0O segredo \u00e9 precisamente aquele \u00edcone espec\u00edfico,\u00a0aquela materializa\u00e7\u00e3o da apari\u00e7\u00e3o\u00a0numa representa\u00e7\u00e3o escult\u00f3rica,\u00a0tamb\u00e9m, misteriosamente, com uma fortuna cr\u00edtica incr\u00edvel.<\/p>\n<p>Mesmo ao n\u00edvel dos historiadores da arte\u00a0foi sempre muito dif\u00edcil de explicar como \u00e9 que uma escultura,\u00a0\u00e0 partida t\u00e3o simples e at\u00e9 desvalorizada do ponto de vista art\u00edstico&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vamos falar disso tamb\u00e9m&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Como\u00a0\u00e9 que sendo desvalorizada &#8211; mas sem sentido, obviamente,\u00a0porque se ela tem aquela for\u00e7a\u00a0\u00e9 porque plasticamente tamb\u00e9m tem o que se lhe diga -, a\u00a0partir daquele momento,\u00a0do dia 13 de maio de 1920 e de\u00a0 13 de junho de 1920,\u00a0porque \u00e9 nessa data concreta que ela chega \u00e0 Capelinha das Apari\u00e7\u00f5es,\u00a0os peregrinos ganharam a materializa\u00e7\u00e3o da Virgem aparecida em F\u00e1tima.\u00a0E foi de tal maneira forte aquela dimens\u00e3o posta em escultura,\u00a0que ela ganha um lugar at\u00e9 na pr\u00f3pria narrativa\u00a0das representa\u00e7\u00f5es marianas ao longo da hist\u00f3ria da arte.<\/p>\n<p>Na verdade, \u00e9 a primeira vez que na hist\u00f3ria da arte\u00a0se representa a figura de Maria daquela maneira, toda vestida de branco, as m\u00e3os postas \u00e0 altura do peito\u00a0j\u00e1 existia, obviamente, j\u00e1 havia modelos que mostravam isso,\u00a0mas essa ideia da mulher toda vestida de branco,\u00a0que j\u00e1 se tinha experimentado em Lourdes,\u00a0mas aquela faixa azul, que \u00e9 t\u00edpica tamb\u00e9m da cor mariana,\u00a0coloca-a muito pr\u00f3xima deste \u00edcone,\u00a0mas, na verdade, h\u00e1 ali uma nova forma de representar a Virgem Maria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A presen\u00e7a neste Jubileu da Espiritualidade Mariana\u00a0representa a quarta vez que a imagem da Capelinha se desloca ao Vaticano.\u00a0Que continuidade hist\u00f3rica \u00e9 que podemos reconhecer nestes gestos\u00a0e o que \u00e9 que distingue este momento particular dos outros anteriores?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que h\u00e1, de facto, distin\u00e7\u00f5es.\u00a0Enquanto o Papa Jo\u00e3o Paulo II, em 1984, chama a imagem\u00a0por causa das quest\u00f5es relativas a F\u00e1tima,\u00a0e \u00e0 sua biografia em concreto &#8211; a biografia do pr\u00f3prio Papa,\u00a0que se cruza, por causa do atentado, com a cronologia de F\u00e1tima, obviamente -, mas\u00a0o Papa chama a imagem para consagrar o mundo ao Imaculado Cora\u00e7\u00e3o de Maria,\u00a0para se fazer mission\u00e1rio da pr\u00f3pria mensagem de F\u00e1tima,\u00a0que ele assume de uma forma fulgurante e que quer dizer ao mundo que \u00e9 importante. Portanto, essa primeira viagem tem esta quest\u00e3o\u00a0&#8211; eu\u00a0chamo a imagem para cumprir um mandado da Virgem em F\u00e1tima.\u00a0Mas depois, as outras vezes que a imagem vai,\u00a0ela j\u00e1 aparece como a representar a identidade mariana ao n\u00edvel universal.\u00a0 Porque\u00a0n\u00f3s conseguimos perceber que h\u00e1 imagens de Nossa Senhora\u00a0que representam partes do mundo, por exemplo, a Imperatriz das Am\u00e9ricas, \u00e9\u00a0a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. Mas,\u00a0para os outros continentes, a Virgem de Guadalupe n\u00e3o tem um culto\u00a0reconhecido por todos ao n\u00edvel universal.<\/p>\n<p>A Senhora da Aparecida, o Brasil \u00e9 um continente\u00a0e para os brasileiros, obviamente, \u00e9 a sua m\u00e3e, a Virgem da Aparecida.\u00a0E\u00a0aquele \u00edcone da Virgem Negra com o manto \u00e9 reconhec\u00edvel pelos brasileiros.<\/p>\n<p>Em Espanha h\u00e1 tamb\u00e9m alguns modelos.\u00a0A pr\u00f3pria Virgem de Lourdes teve um culto muito globalizado, mas no tempo contempor\u00e2neo parece que o Vaticano reconhece\u00a0que \u00e9 a imagem de Nossa Senhora de F\u00e1tima o modelo mariano mais globalizado,\u00a0mais absorvido em todas as geografias, em todos os continentes.<\/p>\n<p>N\u00f3s, em Portugal, n\u00e3o temos esta dimens\u00e3o.\u00a0Parece que n\u00e3o nos lembramos disso.\u00a0N\u00e3o temos essa no\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vendo os peregrinos que passam sistematicamente,\u00a0d\u00e1 para perceber a variedade de pa\u00edses.<\/em><\/p>\n<p>Claro.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>Falou j\u00e1 da liga\u00e7\u00e3o que, neste momento, \u00e9 absolutamente umbilical\u00a0entre a mensagem de F\u00e1tima e os papados contempor\u00e2neos.\u00a0Essa liga\u00e7\u00e3o foi moldando tamb\u00e9m a rece\u00e7\u00e3o e a universalidade da mensagem de F\u00e1tima?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m um fen\u00f3meno muito interessante do ponto de vista hist\u00f3rico.\u00a0Quer o pr\u00f3prio papado, que ao longo de todo o s\u00e9culo XIX e XX\u00a0tem uma fulgurante imagem social, medi\u00e1tica, daquele bispo vestido de branco.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>A globaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m chegou a\u00ed\u2026<\/em><\/p>\n<p>Essa parte n\u00e3o pode ser tirada desta equa\u00e7\u00e3o. E\u00a0depois h\u00e1 o fen\u00f3meno da globaliza\u00e7\u00e3o de F\u00e1tima,\u00a0que tem aqui uma sem\u00e2ntica muito parecida com a do Papa,\u00a0que \u00e9 a mulher vestida de branco.\u00a0Quando estas duas figuras se juntam\u00a0h\u00e1 aqui um potencial simb\u00f3lico,\u00a0que tem como elemento agregador, obviamente, o Evangelho,\u00a0mas do ponto de vista at\u00e9 da comunica\u00e7\u00e3o para fora da igreja,\u00a0tem a quest\u00e3o do tema important\u00edssimo,\u00a0que est\u00e1 sempre por conquistar, que \u00e9 o tema da paz.<\/p>\n<p>A\u00a0grande voz que \u00e9 ouvida sempre com o distanciamento e\u00a0a autoridade necess\u00e1rios para a paz no mundo,\u00a0ao n\u00edvel pol\u00edtico, \u00e9 de facto a voz do Papa, tem sido assim,\u00a0isso \u00e9 reconhecido por todos.\u00a0E depois, dentro da quest\u00e3o mariana,\u00a0o \u00edcone de F\u00e1tima \u00e9 um \u00edcone completamente associado \u00e0 mensagem de paz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00e3o resisto a fazer-lhe uma\u00a0pequena provoca\u00e7\u00e3o. Falou de\u00a0Jo\u00e3o Paulo II e da sua liga\u00e7\u00e3o umbilical a F\u00e1tima e \u00e0 sua mensagem.\u00a0Bento XVI foi o int\u00e9rprete do segredo de F\u00e1tima, e\u00a0Francisco j\u00e1 n\u00e3o tinha uma liga\u00e7\u00e3o t\u00e3o direta \u00e0 F\u00e1tima,\u00a0mas foi conquistado por F\u00e1tima.\u00a0O que\u00a0pergunto \u00e9: j\u00e1 ouvimos o secret\u00e1rio de Estado (do Vaticano) a dizer\u00a0que espera que\u00a0Le\u00e3o XIV esteja em F\u00e1tima tamb\u00e9m.\u00a0Esta desloca\u00e7\u00e3o da imagem da Capelinha ao Vaticano\u00a0pode refor\u00e7ar esta liga\u00e7\u00e3o com o novo Papa?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Eu estou claramente convencido disso. Sabemos que este\u00a0Papa tamb\u00e9m \u00e9 mariano,\u00a0tem inscrito no seu ADN, na sua forma\u00e7\u00e3o\u00a0enquanto religioso agostinho,\u00a0tem tamb\u00e9m essa matriz claramente mariana.\u00a0E \u00e9 muito interessante, porque\u00a0as duas \u00faltimas vezes que a imagem vai\u00a0a Roma,\u00a0ela \u00e9 pedida por um Papa, esse Papa, depois, deixa de estar na cadeira de Pedro,\u00a0como acontece com o Papa Bento XVI,\u00a0e \u00e9 Francisco que renova o pedido e recebe a imagem.\u00a0E\u00a0agora torna a acontecer uma situa\u00e7\u00e3o muito parecida. \u00e9\u00a0o Papa Francisco que pede a imagem\u00a0quando proclama o Jubileu,\u00a0diz logo que h\u00e1 aqui uma dimens\u00e3o mariana\u00a0que \u00e9 preciso celebrar,\u00a0e n\u00e3o \u00e9 Francisco que vai receber a imagem,\u00a0\u00e9 agora um outro Papa que vai receber a imagem.<\/p>\n<p>Esta <em>traditio\u00a0<\/em>tamb\u00e9m me parece muito interessante,\u00a0tamb\u00e9m n\u00e3o se explica por raz\u00f5es intelectuais,\u00a0obviamente, explica-se pela emotividade\u00a0de uma cronologia de afetos\u00a0que perpassa todo o mist\u00e9rio\u00a0de F\u00e1tima e do Papado.<\/p>\n<p><em>E o\u00a0que \u00e9 que pode representa, ou representa para os fi\u00e9is,\u00a0verem a imagem de F\u00e1tima sair do espa\u00e7o da Cova da Iria\u00a0para ir at\u00e9 a Roma? Acreditamos que seja tamb\u00e9m\u00a0um momento especial para quem trabalha no Santu\u00e1rio&#8230;<\/em><\/p>\n<p>\u00c9, sem d\u00favida.\u00a0E causa at\u00e9 uma reflex\u00e3o,\u00a0por vezes at\u00e9 com alguma ambiguidade. Porque, na verdade, n\u00f3s sabemos que os peregrinos\u00a0v\u00e3o ao santu\u00e1rio para estarem diante daquela imagem.\u00a0Sabemos que \u00e9 uma imagem de madeira,\u00a0que tem\u00a0dimens\u00f5es,\u00a0tem um n\u00famero de invent\u00e1rio,\u00a0pode ser descrita pela hist\u00f3ria da arte,\u00a0mas ela \u00e9 muito mais do que isso, aquela madeira transformou-se verdadeiramente num \u00edcone,\u00a0e para os peregrinos ela \u00e9 uma presen\u00e7a\u00a0quase at\u00e9 ao n\u00edvel de um sacramental,\u00a0para usarmos assim uma express\u00e3o mais t\u00e9cnica\u00a0da linguagem da Igreja.<\/p>\n<p>Quando os peregrinos est\u00e3o diante daquela imagem,\u00a0ela \u00e9 verdadeiramente uma media\u00e7\u00e3o clara.\u00a0O Papa Pio XII chegou a dizer\u00a0que era uma imagem taumaturga, isto \u00e9,\u00a0se lhe toc\u00e1ssemos fic\u00e1vamos tamb\u00e9m tocados pela gra\u00e7a. H\u00e1 uma\u00a0dimens\u00e3o de sacralidade naquela imagem,\u00a0que quando ela tem de sair do santu\u00e1rio,\u00a0nos deixa tamb\u00e9m com alguma perplexidade,\u00a0e por isso \u00e9 que s\u00f3 sai\u00a0em situa\u00e7\u00f5es muit\u00edssimo especiais.<\/p>\n<p>Mas os peregrinos sabem que o ser Igreja\u00a0n\u00e3o depende inclusivamente disto,\u00a0depende de uma imagem maior\u00a0que \u00e9 o pr\u00f3prio corpo de Cristo,\u00a0quando os crist\u00e3os se juntam.\u00a0E eu costumo dizer que, de facto,\u00a0at\u00e9 mesmo quando a imagem de Nossa Senhora de F\u00e1tima\u00a0n\u00e3o est\u00e1 na Cova da Iria, ela\u00a0\u00e9 respons\u00e1vel por atrair os peregrinos\u00a0\u00e0quele rega\u00e7o,\u00a0e os peregrinos celebram, obviamente, a mesma f\u00e9,\u00a0porque aquilo que os leva l\u00e1\u00a0\u00e9 sentirem-se Igreja,\u00a0aquela Igreja de vela na m\u00e3o,\u00a0que espera a \u00faltima vinda de Cristo\u00a0no fim dos tempos.<\/p>\n<p>Para quem trabalha no Santu\u00e1rio e\u00a0lida com esta imagem&#8230;\u00a0\u00e9 de uma\u00a0responsabilidade incr\u00edvel, obviamente.\u00a0\u00c9 de uma grande responsabilidade.\u00a0Que n\u00e3o \u00e9 diferente da responsabilidade quotidiana.<\/p>\n<p>A\u00a0equipa do Museu\u00a0do Santu\u00e1rio,\u00a0com a equipa de conserva\u00e7\u00e3o e restauro,\u00a0\u00a0\u00e9 para l\u00e1 que temos os nossos olhos\u00a0todos os dias,\u00a0porque sabemos que \u00e9 para l\u00e1\u00a0que est\u00e3o os olhos de todos os peregrinos\u00a0todos os dias.<\/p>\n<p>Aquela imagem \u00e9 muito monitorizada,\u00a0temos\u00a0todos os cuidados com aquela escultura\u00a0e tamb\u00e9m todas as apreens\u00f5es,\u00a0porque o que n\u00f3s exigimos,\u00a0do ponto de vista material, \u00e0quela escultura,\u00a0n\u00e3o se est\u00e1 a exigir a nenhuma imagem\u00a0que eu conhe\u00e7a.\u00a0Porque, na verdade, aquela escultura est\u00e1\u00a0permanentemente exposta\u00a0\u00e0 venera\u00e7\u00e3o,\u00a0em condi\u00e7\u00f5es climat\u00e9ricas que n\u00e3o s\u00e3o as melhores,\u00a0ainda que estejam atenuadas,\u00a0n\u00e3o s\u00e3o as melhores. \u00c9\u00a0uma escultura de madeira, com\u00a0todas as quest\u00f5es\u00a0associadas ao mexer\u00a0dos materiais org\u00e2nicos.\u00a0\u00c9 uma escultura que tem uma hist\u00f3ria tamb\u00e9m\u00a0de policromias,\u00a0repolicromias, que n\u00f3s estud\u00e1mos\u00a0muito afincadamente,\u00a0e \u00e9 uma imagem que \u00e9\u00a0muito exposta tamb\u00e9m nas prociss\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>Com chuva, com sol&#8230;<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o\u00a0damos conta disso, mas a\u00a0padroeira\u00a0de uma par\u00f3quia\u00a0sai uma vez por ano, aquela\u00a0imagem sai entre\u00a0maio e outubro, nos dias 12\u00a0e nos dias 13.<\/p>\n<p><em>Isso tem um peso espec\u00edfico muito grande, por exemplo,\u00a0nos cuidados de\u00a0 preserva\u00e7\u00e3o e restauro?<\/em><\/p>\n<p>Sim, claro, temos de\u00a0estar muito atentos a isso. E tamb\u00e9m\u00a0h\u00e1 uma dimens\u00e3o que me preocupa\u00a0muito e que\u00a0nos leva\u00a0a termos\u00a0de mostrar aos peregrinos\u00a0que ao olharmos para aquela imagem\u00a0temos de a tratar do ponto de vista cient\u00edfico,\u00a0porque de outra maneira\u00a0estamos a ser irrespons\u00e1veis.\u00a0E esse ponto de vista cient\u00edfico leva-nos tamb\u00e9m a olhar\u00a0para uma imagem que vai envelhecendo\u00a0e que nos temos que habituar\u00a0a gostar dela\u00a0com a idade que ela tem.<\/p>\n<p><em><br \/>\nN\u00e3o se pode andar sempre a pintar&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Ali\u00e1s,\u00a0a grande valia daquela imagem \u00e9\u00a0ser testemunha de tudo isto.\u00a0Quando os Papas lhe tocam &#8211;\u00a0e, de facto, s\u00f3 eles \u00e9 que lhe tocam habitualmente &#8211;\u00a0n\u00f3s n\u00e3o vamos tirar aquele toque\u00a0do Papa, porque aquele toque faz parte\u00a0da imagem de Nossa Senhora de F\u00e1tima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Uma \u00faltima quest\u00e3o, participou\u00a0no recente Congresso Mariol\u00f3gico\u00a0Internacional, em Roma,\u00a0onde sublinhou que Portugal tem\u00a0particulares responsabilidades em torno\u00a0do tema mariano. Que impacto\u00a0\u00e9 que pode ter este Jubileu\u00a0para uma maior aposta nos\u00a0estudos mariol\u00f3gicos, al\u00e9m\u00a0da Pastoral Mariana?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Bom, vou dar aqui\u00a0a minha opini\u00e3o e dizer que \u00e9, de facto,\u00a0a minha opini\u00e3o: se\u00a0 Portugal\u00a0n\u00e3o despertar e\u00a0n\u00e3o direcionar o seu olhar\u00a0para os estudos da Mariologia,\u00a0que n\u00e3o s\u00e3o apenas da parte\u00a0teol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m os marianos\u00a0ou da tem\u00e1tica mariana,\u00a0e, portanto, a partir de uma literatura\u00a0de s\u00e9culos que anda \u00e0 volta desta\u00a0tem\u00e1tica, de uma hist\u00f3ria, de uma\u00a0pol\u00edtica. A figura de Maria\u00a0no nosso pa\u00eds, tal como noutros,\u00a0n\u00e3o pode ser desligada\u00a0de conjunturas pol\u00edticas\u00a0e de como ela serviu at\u00e9 de bandeira\u00a0para levar por diante\u00a0determinada forma de ver o\u00a0pa\u00eds, de ver a\u00a0comunidade.\u00a0Se Portugal n\u00e3o fizer isto,\u00a0obviamente est\u00e1 a faltar\u00a0\u00e0 sua responsabilidade. Esta \u00e9 a minha opini\u00e3o, obviamente.<\/p>\n<p>O Santu\u00e1rio de F\u00e1tima,\u00a0no seu Departamento de Estudos, faz\u00a0aquilo que tem de fazer,\u00a0mas sempre a partir da quest\u00e3o de\u00a0F\u00e1tima, porque \u00e9 isso que nos \u00e9 espec\u00edfico,\u00a0mas h\u00e1 muito mais\u00a0a estudar para al\u00e9m de F\u00e1tima.\u00a0N\u00e3o quer dizer que n\u00e3o existam j\u00e1\u00a0estudos, mas era necess\u00e1rio\u00a0em Portugal haver\u00a0um centro, um lugar,\u00a0\u00a0umas linhas de investiga\u00e7\u00e3o\u00a0em perman\u00eancia \u00e0 volta destas tem\u00e1ticas.\u00a0Oxal\u00e1 este Jubileu\u00a0possa levar a que\u00a0Portugal desperte para essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pela quarta-vez na hist\u00f3ria, a imagem de Nossa Senhora de F\u00e1tima foi at\u00e9 Roma, desta vez para o Jubileu da Espiritualidade Mariana. 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