{"id":39379,"date":"2009-06-11T12:58:32","date_gmt":"2009-06-11T12:58:32","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/06\/11\/homilia-do-corpo-de-deus-do-bispo-do-porto\/"},"modified":"2009-06-11T12:58:32","modified_gmt":"2009-06-11T12:58:32","slug":"homilia-do-corpo-de-deus-do-bispo-do-porto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-corpo-de-deus-do-bispo-do-porto\/","title":{"rendered":"Homilia do Corpo de Deus do Bispo do Porto"},"content":{"rendered":"<p><u>Sobretudo &agrave; luz de Cristo, a nossa corporeidade &eacute; o nosso ser para os outros<\/u><\/p>\n<p>&Agrave; solenidade do Sant&iacute;ssimo Corpo e Sangue de Cristo chamou-se em Portugal &quot;Corpo de Deus&quot;, resumindo-lhe logo o significado mais alto.<\/p>\n<p>Na verdade, de Deus se trata, como Ele a si mesmo se tratou em Cristo, com t&atilde;o absoluto auto-desprendimento em nosso favor, com t&atilde;o grande entrega por n&oacute;s e a n&oacute;s, em d&aacute;diva total.<\/p>\n<p>Precisamente assim, como O guardamos na Sant&iacute;ssima Eucaristia. Nela recebemos a Deus e O acolhemos na sua humildade espantosa, em t&atilde;o inaudito dom de si.<\/p>\n<p>E a esta luz imensa poderemos compreender melhor o que seja um corpo &#8211; o Corpo de Deus &#8211; e o que havemos de ser n&oacute;s tamb&eacute;m, na nossa dimens&atilde;o corporal. Detenhamo-nos hoje neste ponto, t&atilde;o grande se revela a oportunidade do tema e da li&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A frase chave &eacute; a que ouvimos no Evangelho: &quot;Enquanto comiam, Jesus tomou o p&atilde;o, recitou a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o e partiu-o, deu-o aos disc&iacute;pulos e disse: &lsquo;Tomai: isto &eacute; o meu corpo&#39;&quot;.<\/p>\n<p>Assim o disse Cristo, como o repetimos em cada Eucaristia, mem&oacute;ria viva do que ent&atilde;o nos foi oferecido. E sabemos pela f&eacute; &#8211; que &eacute; a maneira mais certeira de saber alguma coisa &#8211; que, no seu corpo, &eacute; Jesus mesmo quem se oferece. N&atilde;o &eacute; algo seu, mesmo que excelso: &eacute; Ele pr&oacute;prio, inteiramente assim.<\/p>\n<p>Nunca havemos de imaginar Deus, o que seria imposs&iacute;vel, pois est&aacute; antes, depois e acima de qualquer pensamento limitado. E porque sabemos que Ele pr&oacute;prio se auto-manifestou em Cristo, Palavra em que se comunica e figura em que se apresenta. Manifestou-se em Cristo, corpo vivo nascido da Virgem Maria: menino, adolescente, jovem e adulto, p&aacute;gina a p&aacute;gina dos Evangelhos, em cada choro ou sorriso, em cada frase ou sil&ecirc;ncio, em cada ora&ccedil;&atilde;o ou brado, em cada baga de suor ou sangue. Assim &eacute; Deus, no corpo vivo de Jesus Cristo.<\/p>\n<p>H&aacute; muito tempo, como ouvimos de Mois&eacute;s, o sangue aspergido dos novilhos, lembrava a alian&ccedil;a entre Deus e o seu povo. Agora &eacute; o pr&oacute;prio sangue de Cristo, &quot;derramado pela multid&atilde;o dos homens&quot;, que sela a alian&ccedil;a em que vivemos. No tempo antigo, recordava-nos a Ep&iacute;stola aos Hebreus, derramou-se o sangue de cabritos e novilhos, para purificar o povo, legal e exteriormente ainda. Agora &eacute; o sangue de Cristo que &quot;purifica a nossa consci&ecirc;ncia das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!&quot;.<\/p>\n<p>Compreendamos ent&atilde;o a &quot;l&oacute;gica&quot; do verdadeiro amor, pois &eacute; dela que se trata. Quem ama aproxima-se do objecto do seu amor, em dom total de si mesmo e vincula&ccedil;&atilde;o perp&eacute;tua ao outro. Por isso &quot;incarna&quot; na carne de quem ama; por isso se &quot;corporiza&quot; em atitudes concretas de dedica&ccedil;&atilde;o provada. Assim fez Deus em Cristo, relacionando-se totalmente com a nossa humanidade, que tomou como sua; assim se abeirou de n&oacute;s, num corpo em que se ofereceu e nos fez seus. Para sempre, como &quot;heran&ccedil;a eterna prometida&quot;, na express&atilde;o da mesma Ep&iacute;stola.&nbsp;&nbsp; <\/p>\n<p>&#8211; Excessos de amor aut&ecirc;ntico e divino, que nos &quot;definem&quot; Deus como nunca O conseguir&iacute;amos imaginar! Definem realmente, porque, estando al&eacute;m de qualquer tamanho, se fez pequen&iacute;ssimo e limitado para vir ao encontro das nossas in&uacute;meras limita&ccedil;&otilde;es e as alargar por dentro, na &uacute;nica amplid&atilde;o do seu infinito e t&atilde;o comprovado amor, pessoa a pessoa, caso a caso. Poderemos reflectir a partir daqui; nunca o poder&iacute;amos calcular, sem a revela&ccedil;&atilde;o divina que Jesus &eacute; e nos patenteia.<\/p>\n<p>Continuemos a espantar-nos com a realidade, car&iacute;ssimos irm&atilde;os e irm&atilde;s; n&atilde;o nos habituemos a ela, pois &eacute; ela mesma que nos vai habituando a si: a h&oacute;stia consagrada que adoramos, &eacute; Deus, &eacute; o Corpo de Deus. Concluiu em sacramento e sinal vivo do seu amor a longa caminhada em que nos procurou e procura, revelando que a sua ess&ecirc;ncia &eacute; miseric&oacute;rdia.<\/p>\n<p>Do ventre pur&iacute;ssimo da Virgem Santa Maria, o corpo de Cristo nasceu e cresceu, como os Evangelhos o noticiam: desdobrou-se em palavras e gestos de salva&ccedil;&atilde;o de corpos e almas, em tr&ecirc;s anos de incans&aacute;vel miss&atilde;o. Foi embalado por sua M&atilde;e e chegou a ser ungido e perfumado depois; mas sofreu todas as vergastadas do &oacute;dio, todos os espinhos da coroa e todos os cravos da cruz, sendo sepultado por fim&#8230; <\/p>\n<p>Por fim, ou antes por come&ccedil;o. No come&ccedil;o nov&iacute;ssimo em que apareceu ao terceiro dia, na corporiza&ccedil;&atilde;o ressuscitada que O faz continuar connosco agora, aqui e em todas as igrejas do mundo; tamb&eacute;m em todos os corpos que riem ou choram, para nos esperar nos outros e ser estimado e servido em cada um. Tamb&eacute;m para ser p&atilde;o e alimento nosso no Sant&iacute;ssimo Sacramento da Eucaristia, cumprindo principalmente deste modo a promessa feita: &quot;Eu estou sempre convosco at&eacute; ao fim dos tempos&quot;.<\/p>\n<p>&Eacute; assim, irm&atilde;os e irm&atilde;s, e muito mais do que assim, o Corpo de Cristo, Corpo de Deus connosco: proximidade total, coexist&ecirc;ncia completa e companhia eterna. Todo o percurso foi seu, pelo &aacute;spero caminho que lhe abrimos; n&atilde;o &eacute; demais que O acolhamos agora, em ac&ccedil;&atilde;o de gra&ccedil;as que tamb&eacute;m nos comprometa a n&oacute;s, para que, feitos um com Ele, O deixemos chegar por n&oacute;s aos outros, a todos e a cada um dos outros.<\/p>\n<p>Na verdade &eacute; isto mesmo o nosso corpo: sobretudo &agrave; luz de Cristo, a nossa corporeidade &eacute; o nosso ser para os outros. E nada menos do que isto, para n&atilde;o definharmos, nem gastarmos sem ganho pr&oacute;prio e alheio a imensa possibilidade der ser e conviver que transportamos em n&oacute;s. Como toda a realidade, a dimens&atilde;o corporal de cada um ou se torna dom ou enquista e morre.<\/p>\n<p>H&aacute; muito que nos atrai sobre todas a magn&iacute;fica beleza do Crucificado. &Eacute; o Crucificado que ressuscita, mantendo as marcas da crucifix&atilde;o, pois todo o esplendor lhe real&ccedil;a o amor com que se entregou a n&oacute;s e por n&oacute;s, por cada espinho, por cada cravo, pelo cora&ccedil;&atilde;o aberto. &#8211; Como refulgem tamb&eacute;m as rugas dos que envelheceram na caridade de Cristo, &uacute;nica beleza que perdura! &#8211; Como irradia a serenidade de quem espera na dor e para al&eacute;m da dor, dando mais esperan&ccedil;a aos outros do que auto-comisera&ccedil;&atilde;o a si mesmo! &#8211; Como rebrilham os mil cansa&ccedil;os generosos, as m&atilde;os gastas de tanto darem, os trajes comuns dos que se resumiram na t&uacute;nica incons&uacute;til que Cristo nos deixou no G&oacute;lgota!<\/p>\n<p>Tudo sinais do corpo ressuscitado de Cristo, que os associa a si, na caridade que o seu Esp&iacute;rito derrama. Esses verdadeiramente O comungam no Sant&iacute;ssimo Sacramento do seu Corpo e Sangue; esses realmente O levam na prociss&atilde;o dos seus corpos e gestos generosos, sacramentos vivos dum eterno amor.<\/p>\n<p>Pelo contr&aacute;rio, amados irm&atilde;os e irm&atilde;s, muito pelo contr&aacute;rio, que tristeza prevista em tantos corpos que se gastam antecipadamente em belezas exteriores e ego&iacute;stas; que se esbanjam em apar&ecirc;ncias fugazes de mil est&eacute;ticas vazias, t&atilde;o repetitivas e mon&oacute;tonas&#8230; <\/p>\n<p>Tudo, absolutamente tudo, definha e seca, ainda antes de tempo, quando n&atilde;o corporiza a caridade. A caridade oferece-se em alimento de todas as circunst&acirc;ncias e urg&ecirc;ncias; d&aacute;-se na generosidade duma s&oacute; Cruz, esplende no fulgor dos que corporizam os sentimentos de Cristo. Inversamente, o ego&iacute;smo, latente ou induzido em superficial&iacute;ssimas feiras de vaidades, reduz os corpos a apar&ecirc;ncias fugazes, esvazia-os do seu significado relacional e adianta-lhes as cinzas garantidas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&quot;Corpo de Deus&quot;, irm&atilde;os e irm&atilde;s, &eacute; o que temos hoje, realmente oferecido na d&aacute;diva total de Cristo. Comungando-o devotamente, com Cristo o havemos de ser, para as mil indig&ecirc;ncias do corpo e da alma do mundo. Deste nosso mundo nas suas actuais circunst&acirc;ncias, de que nos abeiraremos na prociss&atilde;o permanente dos gestos partilhados e oferecidos.<\/p>\n<p>Porto, Igreja da Sant&iacute;ssima Trindade, 11 de Junho de 2009<\/p>\n<p>+ Manuel Clemente, Bispo do Porto&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobretudo &agrave; luz de Cristo, a nossa corporeidade &eacute; o nosso ser para os outros &Agrave; solenidade do Sant&iacute;ssimo Corpo e Sangue de Cristo chamou-se em Portugal &quot;Corpo de Deus&quot;, resumindo-lhe logo o significado mais alto. 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