{"id":393709,"date":"2025-10-03T19:13:18","date_gmt":"2025-10-03T18:13:18","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=393709"},"modified":"2025-10-03T19:13:18","modified_gmt":"2025-10-03T18:13:18","slug":"as-nossas-pequenas-fake-news","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/as-nossas-pequenas-fake-news\/","title":{"rendered":"As nossas pequenas \u201cfake news\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Jorge Pires Ferreira, Diocese de Aveiro<!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-270080 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>As \u201cfake news\u201d s\u00e3o uma praga que corr\u00f3i a democracia, a cultura e at\u00e9 o conv\u00edvio popular, como quando algu\u00e9m mostra no telem\u00f3vel um v\u00eddeo e logo se gera uma discuss\u00e3o sobre o que \u00e9 real ou n\u00e3o, o que \u00e9 gerado por IA para iludir, o que, de facto, corresponde a factos. Frequentemente, o virtual, o gerado e o inventado s\u00e3o melhores do que a coisa real. E passam por reais.<\/p>\n<p>As \u201cfake news\u201d sempre existiram. Mas hoje propagam-se com mais facilidade num contexto de eros\u00e3o da verdade. A verdade \u2013 ou a convic\u00e7\u00e3o de que a verdade importa \u2013 come\u00e7ou a esboroar-se nos ambientes universit\u00e1rios estruturalistas e p\u00f3s-estruturalistas, onde pontificavam as ideias Foucault e Deleuze, em contextos mais \u00e0 esquerda, digamos. Mas quem retira mais dividendos do p\u00f3s-verdade e das fake news, por estes dias, s\u00e3o as correntes mais \u00e0 direita.<\/p>\n<p>O cristianismo tem origem numa \u201cgood new\u201d que, desde o in\u00edcio outros classificavam como \u201cfake\u201d. A Ressurrei\u00e7\u00e3o, claro. E ainda por cima a Ressurrei\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que se classificou a si pr\u00f3prio como Verdade. Por esta ou outras raz\u00f5es, o cristianismo \u00e9 a grande corrente hist\u00f3rica da defesa da verdade. As heresias, os conc\u00edlios, as divis\u00f5es e mesmo as guerras religiosas n\u00e3o s\u00e3o mais do que a busca da verdade, mesmo que por caminhos equivocados e com consequ\u00eancias tr\u00e1gicas \u2013 uma delas, pensar que n\u00e3o h\u00e1 verdade a alcan\u00e7ar. E n\u00e3o \u00e9 por acaso que a ci\u00eancia moderna, positiva, nasce na mundivid\u00eancia crist\u00e3.<\/p>\n<p>Foi e \u00e9 a busca da verdade que levou, por exemplo, a ler e reler os textos b\u00edblicos, distinguindo os g\u00e9neros liter\u00e1rios. Nem tudo \u00e9 facto. Nem tudo pode ser levado ao p\u00e9 da letra. Se quisermos ser anacr\u00f3nicos, podemos dizer que a B\u00edblia est\u00e1 cheia de \u201cfake news\u201d, quando dizemos que Jesus nasceu em Bel\u00e9m, foi visitado por Magos, foi levado para o Egito, para ficarmos nos Evangelhos. S\u00e3o coisas que nenhum exegeta s\u00e9rio pode dizer que aconteceram mesmo, mas que t\u00eam um sentido simb\u00f3lico, transmitem uma mensagem. S\u00e3o \u201cfake news\u201d? N\u00e3o s\u00e3o porque no tempo em que foram escritas o conceito de verdade n\u00e3o era a correspond\u00eancia com os factos, mas o sentido mais profundo das coisas e a liga\u00e7\u00e3o ao passado e ao futuro. Mas continuamos a fazer desses epis\u00f3dios um uso estranho. Dizemos que os Magos visitaram Jesus, mas depois dev\u00edamos acrescentar que n\u00e3o foi bem assim (ou n\u00e3o foi nada assim), s\u00f3 que, provavelmente, n\u00e3o admitimos perante um alem\u00e3o que o relic\u00e1rio que est\u00e1 em Col\u00f3nia n\u00e3o tem nada a ver com os Magos. Tal como n\u00e3o dizemos a um compostelano que o t\u00famulo n\u00e3o \u00e9 de certeza de S\u00e3o Tiago. Ali\u00e1s, a nossa hist\u00f3ria crist\u00e3 est\u00e1 cheia de rel\u00edquias falsas. Precisar\u00edamos de um ex\u00e9rcito de bolandistas se quis\u00e9ssemos distinguir o que \u00e9 verdadeiro e falso. Que com a canoniza\u00e7\u00e3o de Carlo Acutis tanto se tenha falado tanto de rel\u00edquias (cabelo, uma parte do cora\u00e7\u00e3o, o casaco azul\u2026 &#8211; s\u00e3o mais de duas mil distribu\u00eddas pelo mundo), n\u00e3o sei se \u00e9 um bom sinal. Parece ser um realce do acess\u00f3rio. E que que por estes dias se tenha voltado a falar da liquefa\u00e7\u00e3o do sangue de S\u00e3o Gennaro, em N\u00e1poles (festa a 19 de setembro), como um milagre, quando pode ser simplesmente o bem conhecido processo de tixotropia, \u00e9 mais um ind\u00edcio de que preferimos as \u201cfake news\u201d \u00e0 verdade. Pela minha parte, gostaria que um grupo de cientistas cred\u00edveis estudasse o fen\u00f3meno e dissesse se \u00e9 realmente sangue ou se \u00e9 uma subst\u00e2ncia qu\u00edmica (que dizem ser comum na zona do Ves\u00favio) que quando se agita deixa o estado s\u00f3lido e passa a l\u00edquido. Em rela\u00e7\u00e3o a este e a tantos outros \u201cmilagres\u201d.<\/p>\n<p>E temos depois as nossas pequenas \u201cfake news\u201d eclesiais.<\/p>\n<p>Dizemos que o cristianismo \u00e9 essencialmente uma ades\u00e3o pessoal a Jesus Cristo, um encontro. Mas batizam-se crian\u00e7as, naturalmente (ainda) incapazes de uma rela\u00e7\u00e3o de f\u00e9.<\/p>\n<p>Dizemos que h\u00e1 uma igualdade fundamental dos crist\u00e3os, mas depois h\u00e1 sete sacramentos para uns e seis para outras. Dev\u00edamos mudar o n\u00famero dos sacramentos e dizer que s\u00e3o 13, sete para homens e seis para mulheres. Ou ent\u00e3o, rever o que impede as mulheres de receberem o sacramento da Ordem.<\/p>\n<p>E continuamos a falar do diabo (no rito do Batismo, por exemplo), como se esse mito que entrou na B\u00edblia vindo do oriente correspondesse a um ente sobrenatural que de vez em quando interfere no natural. O diabo \u00e9 t\u00e3o \u201cfake\u201d que a maior ast\u00facia do diabo n\u00e3o \u00e9, como dizia Beaudelaire, crermos que ele n\u00e3o existe, mas acreditarmos que ele existe. Os ateus n\u00e3o sofrem possess\u00f5es. A prop\u00f3sito do diabo, veja-se o excelente artigo do P.e V\u00edtor Pereira, nesta sec\u00e7\u00e3o da Ecclesia, \u201cE se deix\u00e1ssemos o diabo em paz?\u201d, no dia 20 de fevereiro de 2025).<\/p>\n<p>E quando vamos \u00e0 Missa, come\u00e7amos por confessar os pecados. Mas \u00e9 uma confiss\u00e3o \u201cfake\u201d. S\u00f3 a outra, perante um padre \u00e9 que vale. A linguagem lit\u00fargica tem muitas incongru\u00eancias e arca\u00edsmos, a come\u00e7ar pelo uso da segunda pessoa do plural, que embora ainda se ou\u00e7a em algumas regi\u00f5es do norte, soa a antigamente de Aveiro para o sul. \u00c9 curioso que h\u00e1 temos eliminou-se o \u201ceis\u201d[o Mist\u00e9rio da F\u00e9] por ser arcaico e agora introduziu-se o \u201cpelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos\u201d\u2026 Nem tudo se pode ou deve mudar, mas talvez a sinodalidade se possa usar nas decis\u00f5es de liturgia, em vez de ficar s\u00f3 pelos conselhos pastorais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Pires Ferreira, Diocese de Aveiro<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":270080,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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