{"id":393367,"date":"2025-10-01T10:49:20","date_gmt":"2025-10-01T09:49:20","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=393367"},"modified":"2025-10-01T16:47:11","modified_gmt":"2025-10-01T15:47:11","slug":"a-liberdade-religiosa-os-imigrantes-e-o-papel-da-igreja-uma-licao-de-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-liberdade-religiosa-os-imigrantes-e-o-papel-da-igreja-uma-licao-de-humanidade\/","title":{"rendered":"A liberdade religiosa, os imigrantes e o papel da Igreja: uma li\u00e7\u00e3o de humanidade"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Miguel Lopes Neto, Diocese do Algarve, membro RedAlfamed e Universidade de Huelva<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_329388\" aria-describedby=\"caption-attachment-329388\" style=\"width: 382px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-329388\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-382x260.jpg\" alt=\"\" width=\"382\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-382x260.jpg 382w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-1024x698.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-768x523.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-474x324.jpg 474w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 382px) 100vw, 382px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-329388\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nos \u00faltimos tempos, assistimos, na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, a epis\u00f3dios que, mais do que pol\u00edticos, s\u00e3o profundamente humanos. Em Espanha, a Confer\u00eancia Episcopal levantou a voz contra uma decis\u00e3o que impede a comunidade mu\u00e7ulmana de Jumilla (munic\u00edpio de M\u00farcia) de celebrar as suas festas religiosas. Em Portugal, D. Jos\u00e9 Ornelas, presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, afirmou com clareza que n\u00e3o reconhece como cat\u00f3licos aqueles que promovem discursos anti-imigra\u00e7\u00e3o e xen\u00f3fobos. Estas declara\u00e7\u00f5es dos presidentes das confer\u00eancias episcopais ib\u00e9ricas levaram-me a refletir no que penso ser algo essencial nos dias de hoje: \u00e9 imprescind\u00edvel defender o respeito pela dignidade da pessoa, independentemente da sua f\u00e9, cor ou origem.<\/p>\n<p>Em Jumilla, uma pequena cidade, cerca de 1.500 mu\u00e7ulmanos foram privados do direito de celebrar o fim do Ramad\u00e3o e a Festa do Cordeiro, por via de um acordo pol\u00edtico que fala de &#8220;identidade cultural espanhola&#8221;. Mas que identidade \u00e9 esta que nega espa\u00e7o \u00e0s express\u00f5es religiosas de quem tamb\u00e9m \u00e9 vizinho, trabalhador, colega de escola ou de f\u00e1brica? A Confer\u00eancia Episcopal Espanhola foi clara: trata-se de uma discrimina\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel com a democracia e contr\u00e1ria ao esp\u00edrito da Constitui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. N\u00e3o se trata, apenas, de uma quest\u00e3o administrativa ou de uso de equipamentos p\u00fablicos. Trata-se de um sinal: dizer a uma comunidade inteira que a sua f\u00e9 n\u00e3o tem lugar. Isso fere a conviv\u00eancia, gera ressentimento e quebra os la\u00e7os de confian\u00e7a que qualquer cidade precisa cultivar entre os seus habitantes.<\/p>\n<p>Em Portugal, D. Jos\u00e9 Ornelas recordou uma verdade desconfort\u00e1vel para alguns: n\u00e3o h\u00e1 catolicismo poss\u00edvel na exclus\u00e3o ou no \u00f3dio. Quem se afirma cat\u00f3lico e promove discursos contra imigrantes ou minorias culturais esquece o Evangelho que proclama. N\u00e3o \u00e9 somente uma quest\u00e3o de doutrina \u2014 \u00e9 a raiz do cristianismo. Jesus reconheceu sempre o estrangeiro, o marginalizado, o diferente, n\u00e3o como amea\u00e7a, mas como irm\u00e3o. A xenofobia, tantas vezes mascarada de defesa da \u201cidentidade cultural\u201d ou da \u201cordem\u201d, n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com a f\u00e9 cat\u00f3lica, nem com qualquer \u00e9tica humanista fundamental. \u00c9, no fundo, a nega\u00e7\u00e3o da fraternidade.<\/p>\n<p>O papel da comunica\u00e7\u00e3o social neste debate \u00e9 decisivo. Enquanto as palavras que semeiam medo e divis\u00e3o encontram facilmente microfones e c\u00e2maras, as vozes que apelam \u00e0 integra\u00e7\u00e3o, ao acolhimento e ao respeito raramente recebem o mesmo espa\u00e7o. Por estes dias, ouvimos o jornalista Miguel Carvalho falar sobre o atual estado a que o jornalismo chegou, vergado \u00e0s guerras de audi\u00eancias e ao facilitismo do que vende mais rapidamente. N\u00e3o deixa de ser perturbador que declara\u00e7\u00f5es t\u00e3o relevantes como as do presidente da CEP tenham passado quase em sil\u00eancio na comunica\u00e7\u00e3o social. Se a Igreja recorda ao mundo que a dignidade humana \u00e9 inegoci\u00e1vel, tamb\u00e9m o jornalismo tem a responsabilidade de lhe dar visibilidade, iluminando o que constr\u00f3i uma sociedade mais justa, coesa e imune \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es do populismo e do medo.<\/p>\n<p>Vivemos tempos de medo: medo do que \u00e9 diferente, medo do que \u00e9 novo, medo do que parece amea\u00e7ar uma suposta \u201cnormalidade\u201d. Mas o medo nunca construiu nada de duradouro. O que constr\u00f3i \u00e9 o encontro, a empatia, a hospitalidade. E h\u00e1 exemplos concretos que nos mostram que a conviv\u00eancia multicultural n\u00e3o \u00e9 apenas poss\u00edvel, mas enriquecedora:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Em Lisboa, Arroios \u00e9 um caso paradigm\u00e1tico.<\/strong> A freguesia mais multicultural da capital tem residentes de mais de 70 nacionalidades. No dia a dia, esta diversidade traduz-se numa vida de bairro vibrante: restaurantes de v\u00e1rias cozinhas do mundo, associa\u00e7\u00f5es culturais que promovem encontros e festivais multiculturais, escolas onde crian\u00e7as de diferentes origens aprendem lado a lado. Tudo isto contribui para uma comunidade viva e resiliente.<\/li>\n<li><strong>Em Sintra, o trabalho das escolas com turmas de acolhimento<\/strong> tem permitido integrar jovens vindos de pa\u00edses t\u00e3o diversos como Nepal, Bangladesh ou Brasil. Muitos destes alunos chegam sem falar portugu\u00eas, mas com programas de apoio ao n\u00edvel lingu\u00edstico e cultural, acabam por se integrar no sistema educativo e, mais importante, na comunidade.<\/li>\n<li><strong>Em Madrid e Barcelona<\/strong>, as mesquitas locais organizam periodicamente \u201cdias de portas abertas\u201d para que vizinhos n\u00e3o mu\u00e7ulmanos conhe\u00e7am as tradi\u00e7\u00f5es isl\u00e2micas. Essa partilha quebra preconceitos e abre espa\u00e7o para rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a.<\/li>\n<li><strong>Na Galiza, comunidades cabo-verdianas<\/strong> t\u00eam contribu\u00eddo para revitalizar vilas envelhecidas, trazendo, n\u00e3o s\u00f3 m\u00e3o de obra, mas tamb\u00e9m dinamismo cultural atrav\u00e9s da m\u00fasica e da gastronomia.<\/li>\n<li><strong>Por todos os pa\u00edses onde est\u00e3o, <\/strong>a comunidade Sikh organiza din\u00e2micas que permitam fazer algo pelo bem comum, da comunidade que os acolhe, como plantar \u00e1rvores, desenvolver projetos sociais.<\/li>\n<\/ul>\n<p>A estes exemplos soma-se, ainda, o papel do turismo. N\u00e3o apenas como motor econ\u00f3mico, mas como verdadeira ind\u00fastria da paz. Um pa\u00eds que acolhe turistas, acolhe inevitavelmente culturas, l\u00ednguas, costumes. Cada visitante que chega traz consigo uma oportunidade de encontro. O turismo cultural, religioso ou gastron\u00f3mico tem mostrado que a diversidade pode ser ponte e n\u00e3o barreira, ao mesmo tempo que incentiva as comunidades locais a valorizarem o pluralismo e a hospitalidade como marcas de identidade. Integrar imigrantes tamb\u00e9m \u00e9, neste sentido, fortalecer o futuro de um turismo sustent\u00e1vel, inclusivo e promotor da paz. O turismo, sobretudo o religioso\/espiritual, nesse caminho, pode ser uma das linguagens universais de encontro e paz.<\/p>\n<p>Estes exemplos mostram que a integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um risco, mas uma oportunidade. O contacto pr\u00f3ximo faz cair medos abstratos e revela o que partilhamos de mais essencial: o desejo de seguran\u00e7a, de dignidade e de futuro em paz.<\/p>\n<p>Hoje, em Espanha, s\u00e3o os mu\u00e7ulmanos de Jumilla. Amanh\u00e3, poder\u00e1 ser outro grupo, outra f\u00e9, outro modo de viver. E se fosse connosco? Se um dia nos dissessem que j\u00e1 n\u00e3o poder\u00edamos celebrar o Natal nas nossas pra\u00e7as ou reunir para rezar na nossa comunidade? Sei que alguns, dos mais radicais, v\u00e3o dizer: mas \u00e9 contra isso que estamos a lutar\u2026 E eu deixo uma pergunta simples e direta: queremos sociedades guiadas pelo medo ou pela confian\u00e7a? Pela exclus\u00e3o ou pelo encontro? Pelo respeito ou pelo desd\u00e9m?<\/p>\n<p>A Igreja, ao levantar a sua voz nestes contextos, oferece-nos uma pista clara: s\u00f3 atrav\u00e9s da empatia, do acolhimento sincero e do apre\u00e7o pela diversidade conseguiremos honrar aquilo que de mais digno e humano nos define. Somos convocados a honrar esta que, sim, \u00e9 a nossa verdadeira identidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Miguel Lopes Neto, Diocese do Algarve, membro RedAlfamed e Universidade de Huelva<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":329388,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-393367","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/393367","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=393367"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/393367\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/329388"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=393367"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=393367"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=393367"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}