{"id":39229,"date":"2009-06-02T10:54:26","date_gmt":"2009-06-02T10:54:26","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/06\/02\/a-igreja-no-futuro-da-europa\/"},"modified":"2009-06-02T10:54:26","modified_gmt":"2009-06-02T10:54:26","slug":"a-igreja-no-futuro-da-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-igreja-no-futuro-da-europa\/","title":{"rendered":"A Igreja no futuro da Europa"},"content":{"rendered":"<p>A constru&ccedil;&atilde;o do futuro da Europa &eacute; uma tarefa que requer a colabora&ccedil;&atilde;o de todos; come&ccedil;a no debate, necess&aacute;rio (cada vez mais necess&aacute;rio), sobre o modelo de constru&ccedil;&atilde;o europeia que queremos, se queremos. <\/p>\n<p>Continua, e completa-se, na discuss&atilde;o sobre dois elementos axiais da Uni&atilde;o Europeia: os valores e as pol&iacute;ticas. E &eacute; neste plano, da intersec&ccedil;&atilde;o entre o Ser e o Fazer, que a tarefa de constru&ccedil;&atilde;o da Europa (da Uni&atilde;o Europeia, para os que resistem &agrave; assimila&ccedil;&atilde;o entre as duas realidades) &eacute; devolvida &agrave; sociedade civil, aos actores presentes &#8211; h&aacute; s&eacute;culos! &#8211; no terreno, tra&ccedil;o de uni&atilde;o entre as dimens&otilde;es da governa&ccedil;&atilde;o, da representa&ccedil;&atilde;o, da base social, das pessoas. <\/p>\n<p>H&aacute; uma esp&eacute;cie de refer&ecirc;ncia circular entre a constru&ccedil;&atilde;o europeia, &quot;velha&quot; de cinquenta anos, e a Igreja Cat&oacute;lica, Apost&oacute;lica, Romana, com os seus muitos s&eacute;culos. Ao assinar a Constitui&ccedil;&atilde;o Europeia em 2004, depois rejeitada no processo de adop&ccedil;&atilde;o nacional por dois pa&iacute;ses fundadores, Fran&ccedil;a e Pa&iacute;ses Baixos, e por isso abandonada, os Estados-membros da Uni&atilde;o referiam, no pre&acirc;mbulo, o patrim&oacute;nio cultural, religioso e humanista. Durante anos falou-se, nos corredores das institui&ccedil;&otilde;es e na vulgata da informa&ccedil;&atilde;o sobre a Comunidade Europeia, na heran&ccedil;a greco-romana-judaico-crist&atilde;o. <\/p>\n<p>Um cadinho religioso &#8211; e cultural &#8211; cada vez mais caldeado nas contempor&acirc;neas multiculturidades, a Europa actual, e o seu processo sempre em crescimento de uni&atilde;o de povos, Estados e vontades, cresce em dois sentidos: na integra&ccedil;&atilde;o, supranacional, de supera&ccedil;&atilde;o dos &oacute;bices e limita&ccedil;&otilde;es nacionais, e no &quot;localmente&quot;, a dimens&atilde;o t&atilde;o pr&oacute;xima das pessoas quanto poss&iacute;vel a que, tecnicamente, se passou a chamar subsidiariedade. <\/p>\n<p>Ora a subsidiariedade, a ideia de que os poderes devem ser exercidos por quem o melhor fa&ccedil;a, tem uma matriz crist&atilde;, que remete para a enc&iacute;clica novecentista &quot;rerum novarum&quot;. Presente nas realidades (estatais) dos Estados federais, a Uni&atilde;o foi a primeira organiza&ccedil;&atilde;o mundial a formalmente invocar o princ&iacute;pio para organizar os seus objectivos e o seu modo de funcionamento; a partir do Acto &Uacute;nico Europeu, que entra em vigor em 1987, mas sobretudo com o Tratado de Maastricht, de 1993, as pol&iacute;ticas europeias passam a s&oacute; poder constituir-se enquanto respeitem o princ&iacute;pio da subsidiariedade. O Tratado de Lisboa eleva este princ&iacute;pio &agrave; categoria de crit&eacute;rio decisivo e fundador de cada pol&iacute;tica e norma europeia. <\/p>\n<p>No fundo tudo se resume a uma ideia simples: a de que a Uni&atilde;o Europeia s&oacute; dever&aacute; legislar quando a sua ac&ccedil;&atilde;o represente um benef&iacute;cio, uma mais valia, para o conjunto da comunidade. Em todos os outros casos, quando a decis&atilde;o puder ser tomada t&atilde;o ou mais eficazmente a um n&iacute;vel inferior (de hierarquia decis&oacute;ria) ela competir&aacute; aos Estados, &agrave;s regi&otilde;es, &agrave;s autarquia ou &agrave;s entidades locais (por esta ordem). <\/p>\n<p>O que se pede &agrave; Igreja que fa&ccedil;a, na realidade s&eacute;culo XXI do processo europeu de unifica&ccedil;&atilde;o, &eacute; que seja parte informada (e informante) do debate e da discuss&atilde;o, e que promova a busca por um novo paradigma enriquecedor; que aja em pol&iacute;ticas concretas da &quot;unidade alargada&quot; (a Europa em busca da sua verdadeira dimens&atilde;o pol&iacute;tica, que come&ccedil;a por ser cidad&atilde;, participativa, moral), com destaque para os casos em que j&aacute; existe e &eacute; fecundo um pensamento pr&oacute;prio &#8211; como acontece com o ambiente e a &quot;voca&ccedil;&atilde;o ecol&oacute;gica&quot; dos crist&atilde;os &#8211; e pelas quest&otilde;es relacionadas com a vida em sociedade, nomeadamente com estilos de vida sustent&aacute;veis (moralmente, ainda que tudo comece alhures, como na dimens&atilde;o econ&oacute;mica, na da sa&uacute;de, etc.) que a Igreja deve ajudar a equacionar e (porque n&atilde;o?) a decidir, entre muitas outras. <\/p>\n<p>Um estilo ecum&eacute;nico que alastra a todos os dom&iacute;nios e mat&eacute;rias da vida humana em sociedade; um conjunto vigoroso de (aproximadamente) mil milh&otilde;es de seres que comungam dos ensinamentos e da pr&aacute;tica da Igreja e dos mandamentos de Cristo; uma longa experi&ecirc;ncia de trabalho no terreno, em dom&iacute;nios cruciais para a constru&ccedil;&atilde;o europeia como o social ou o c&iacute;vico: a Igreja Cat&oacute;lica tem indiscutivelmente um papel a desempenhar nas pol&iacute;ticas relacionadas com os fluxos migrat&oacute;rios; na resposta a dar aos mais desfavorecidos, aos pobres, aos exclu&iacute;dos do repasto ocidental; e tem pros&eacute;litos, todos os muitos que a acarinham e que em torno dela se refugiam, quando isso &eacute; poss&iacute;vel e lhes parece necess&aacute;rio. Na dimens&atilde;o social da Uni&atilde;o Europeia, a Igreja &eacute; indiscutivelmente um dos mais &uacute;teis parceiros. <\/p>\n<p>Mas nem tudo pode ser pintado em cores de rosa: a Europa como estaleiro em progresso (&quot;under construction&quot;) &eacute; um conceito descrito por observadores colocados numa perspectiva religiosa que assinala de forma clara algum desencanto com os sucessos institucionais e os cruzamentos que os assinalam: &eacute; o &oacute;bvio caso da vilipendiada Constitui&ccedil;&atilde;o Europeia mas s&atilde;o tamb&eacute;m as d&uacute;vidas crescentes sobre o Tratado de Lisboa.<\/p>\n<p>Um documento da Confer&ecirc;ncia de Bispos da Uni&atilde;o de 2005 salienta a import&acirc;ncia da tarefa de dar (ou devolver?) uma &quot;alma &agrave; Europa&quot;, a par do di&aacute;logo ecum&eacute;nico com outras religi&otilde;es; esse &#8211; o do ecumenismo europeu &#8211; &eacute; um caminho a percorrer, e a exigir uma aten&ccedil;&atilde;o redobrada por parte dos europeus e dos religiosos.<\/p>\n<p>A Igreja Cat&oacute;lica &eacute; um parceiro requestado da Uni&atilde;o Europeia. A sua ac&ccedil;&atilde;o pode marcar a diferen&ccedil;a entre um processo equilibrado, de sucesso, inclusivo, cidad&atilde;o e solid&aacute;rio, e o naufr&aacute;gio nos rochedos negros do debate institucional ou das discuss&otilde;es de lana-caprina viradas ao umbigo nacional. Pode ser que o consiga, merece consegui-lo mas, acima de tudo, assim queira prosseguir essa via, mais pedregosa do que parece&#8230;<\/p>\n<p><em>Paulo de Almeida Sande, <br \/>Coordenador do Gabinete do Parlamento Europeu em Portugal<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A constru&ccedil;&atilde;o do futuro da Europa &eacute; uma tarefa que requer a colabora&ccedil;&atilde;o de todos; come&ccedil;a no debate, necess&aacute;rio (cada vez mais necess&aacute;rio), sobre o modelo de constru&ccedil;&atilde;o europeia que queremos, se queremos. Continua, e completa-se, na discuss&atilde;o sobre dois elementos axiais da Uni&atilde;o Europeia: os valores e as pol&iacute;ticas. 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