{"id":392230,"date":"2025-09-20T09:23:00","date_gmt":"2025-09-20T08:23:00","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=392230"},"modified":"2025-09-19T16:25:29","modified_gmt":"2025-09-19T15:25:29","slug":"temos-de-voltar-a-literatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/temos-de-voltar-a-literatura\/","title":{"rendered":"Temos de voltar \u00e0 literatura"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<p><em>Pe. V\u00edtor Pereira, <span style=\"font-size: 16px;\">Diocese de Vila Real<\/span><\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_268285\" aria-describedby=\"caption-attachment-268285\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-268285\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-268285\" class=\"wp-caption-text\">Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real<\/figcaption><\/figure>\n<p>O escritor turco, Orhan Pamuk, disse em tempos, numa entrevista ao Expresso, que os bons livros podem salvar o mundo. Infelizmente, possivelmente, muitas pessoas trocaram as boas horas da literatura pela intera\u00e7\u00e3o nas redes sociais, e penso que fic\u00e1mos todos a perder. N\u00e3o diabolizo as redes sociais, tamb\u00e9m as frequento, tamb\u00e9m as uso, bem usadas s\u00e3o uma boa ferramenta, tamb\u00e9m se leem bons textos e reflex\u00f5es nas redes sociais, mas n\u00e3o podemos deixar que elas substituam a leitura de bons livros e de fazermos uma reflex\u00e3o mais atenta, paciente e profunda da vida, das suas quest\u00f5es e dramas, sem pressa de comentar ou polarizar. O Papa Francisco recomendou v\u00e1rias vezes a leitura de bons livros. Para ele, a literatura \u00e9 fundamental na vida, conduz \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o: \u201cpoetas contemplativos e prof\u00e9ticos ajudam a libertar-nos do paradigma tecnocr\u00e1tico e consumista que sufoca a natureza e nos deixa sem uma exist\u00eancia verdadeiramente digna\u201d. Leitor ass\u00edduo desde a juventude, um dos seus autores preferidos era Fi\u00f3dor Dostoievski, autor russo, escritor incontorn\u00e1vel no universo crist\u00e3o, cujos livros, como sabemos, s\u00e3o muito conhecidos pela dimens\u00e3o psicol\u00f3gica dos seus personagens, a f\u00e9 e a ess\u00eancia do sofrimento humano. Um dos seus livros de elei\u00e7\u00e3o deste grande romancista e pensador do imp\u00e9rio russo \u00e9 \u201cOs Irm\u00e3os Karamazov\u201d.<\/p>\n<p>Se querem um livro para os tempos livres ou para as f\u00e9rias, ficar\u00e3o bem servidos ou servidas com a leitura deste romance monumental da literatura mundial, mais atual do que nunca, diante da realidade humana e social que enfrentamos. Os temas ali abordados est\u00e3o mais atuais do que nunca. Os Irm\u00e3os Karamazov foi o \u00faltimo romance escrito por Fi\u00f3dor Dostoievski, sendo considerado o \u00e1pice da carreira liter\u00e1ria e da reflex\u00e3o filos\u00f3fica de Fi\u00f3dor Dostoievski, que procurou investigar a alma humana e tra\u00e7ar uma radiografia da natureza humana, perceber os seus mist\u00e9rios, a sua paradoxalidade e complexidade. Alguns afirmam mesmo que esta grandiosa e colossal obra liter\u00e1ria \u00e9 uma s\u00edntese de tudo o que o autor explorou nas suas obras anteriores. Todos os temas ali se encontram e ampliam. Todas as quest\u00f5es morais, filos\u00f3ficas, religiosas e espirituais das suas obras s\u00e3o aprofundadas e reunidas numa s\u00famula.<\/p>\n<p>H\u00e1 um dado relevante na vida de Fi\u00f3dor Dostoievski, que \u00e9 preciso reter. Em 1849 ele foi acusado de subvers\u00e3o e conspira\u00e7\u00e3o contra o regime czarista do imp\u00e9rio russo. Foi condenado \u00e0 morte por fuzilamento, mas, na \u00faltima da hora, a senten\u00e7a \u00e9 suspensa e teve uma comuta\u00e7\u00e3o da pena: foi condenado a 4 anos de degredo e trabalhos for\u00e7ados na pris\u00e3o-fortaleza de Omsk, na Sib\u00e9ria. Nesta conviv\u00eancia com d\u00edscolos e criminosos de toda a esp\u00e9cie, Fi\u00f3dor Dostoievski ter\u00e1 uma veemente e exaustiva aprendizagem exclusiva e singular da condi\u00e7\u00e3o humana. A b\u00edblia ser\u00e1 a sua grande companheira.<\/p>\n<p>Os Irm\u00e3os Karamazov n\u00e3o \u00e9 apenas um grande romance, \u00e9 tamb\u00e9m um livro de um grande pensador, que se confrontava e procurava respostas para grandes quest\u00f5es e dilemas no campo da moralidade, da f\u00e9, da liberdade, da raz\u00e3o, do ceticismo. \u00c9 um livro com grande tonalidade filos\u00f3fica. A trama central gira em torno de um pai e da sua rela\u00e7\u00e3o tumultuosa com seus tr\u00eas filhos, que culmina no assassinato do pai pelo filho mais velho, um parric\u00eddio. O pai, Fi\u00f3dor, \u00e9 ego\u00edsta, depravado, bo\u00e9mio e devasso, irrespons\u00e1vel. O filho mais velho, Dimitri, que vai matar o pai, \u00e9 impetuoso e vive para as suas paix\u00f5es. Ivan \u00e9 o filho do meio, \u00e9 o intelectual niilista e c\u00e9tico, que questiona o sentido de Deus e da vida. Aliocha \u00e9 o mais jovem, \u00e9 bondoso e o mais espiritual, procura viver de acordo com os ensinamentos crist\u00e3os.\u00a0 Os tr\u00eas irm\u00e3os refletem diferentes facetas da alma humana, representando a complexidade da natureza humana. \u00c9 not\u00f3rio ao longo do livro o grande confronto entre f\u00e9 e raz\u00e3o, e uma constata\u00e7\u00e3o est\u00e1 sempre presente como pano de fundo, convic\u00e7\u00e3o do filho Ivan: \u201cSe Deus n\u00e3o existe, ent\u00e3o tudo \u00e9 permitido\u201d. Ser\u00e1 que \u00e9 mesmo assim?<\/p>\n<p>A quest\u00e3o vai sendo explorada ao longo do livro e chega ao momento alto no cap\u00edtulo do Grande Inquisidor, um cap\u00edtulo profundamente reflexivo e denso, central na obra. Num di\u00e1logo com o seu irm\u00e3o Aliocha, Ivan, racionalista, exp\u00f5e a sua vis\u00e3o atrav\u00e9s de um poema fict\u00edcio, que anda a escrever. O que diz o poema? Conta uma hist\u00f3ria na Espanha da Inquisi\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XVI. Cristo retorna \u00e0 terra, n\u00e3o para fazer o ju\u00edzo final, mas volta silenciosamente para realizar milagres e relacionar-se com as pessoas. Ao testemunhar os milagres de Cristo, o grande inquisidor, um velho empedernido pelo poder, n\u00e3o o v\u00ea como um grande Salvador, mas uma amea\u00e7a. Cristo perturba a ordem que a Igreja afincadamente construiu. Manda prender Cristo e \u00e0 noite, na pris\u00e3o, confronta-o com a sua a\u00e7\u00e3o e a sua mensagem, onde o grande inquisidor profere um mon\u00f3logo, expondo as suas acusa\u00e7\u00f5es a Cristo, segundo o relato das tenta\u00e7\u00f5es no Evangelho.<\/p>\n<p>A grande acusa\u00e7\u00e3o que ele dirige a Cristo \u00e9 que Ele ofereceu \u00e0 humanidade um presente que ela n\u00e3o consegue suportar, o livre arb\u00edtrio, a capacidade que o ser humano tem de ser livre, de decidir e escolher por si mesmo. A acusa\u00e7\u00e3o est\u00e1 dividida em tr\u00eas partes, segundo as tenta\u00e7\u00f5es: o p\u00e3o, o milagre e o poder. Jesus na primeira disse que nem s\u00f3 de p\u00e3o vive o homem, mas o grande inquisidor discorda. As pessoas preferem p\u00e3o \u00e0 liberdade, as pessoas abdicam dos seus valores e da sua liberdade em troca de seguran\u00e7a material. Na segunda, Jesus respondeu que n\u00e3o deseja convencer a humanidade com demonstra\u00e7\u00f5es espetaculares de poder divino. O grande inquisidor diverge, as pessoas precisam de milagres e querem milagres para acreditar. Na terceira, Jesus recusou o poder, afirmando que o seu Reino n\u00e3o \u00e9 deste mundo. Mais uma vez o grande inquisidor discorda e acusa Cristo de cometer um grande erro, porque as pessoas desejam l\u00edderes fortes que possam decidir por elas, as pessoas preferem entregar a sua consci\u00eancia a l\u00edderes poderosos do que carregar o peso das suas pr\u00f3prias decis\u00f5es, a unidade e a paz s\u00f3 podem ser alcan\u00e7adas por uma autoridade absoluta. Que grande cr\u00edtica ao ideal de liberdade e at\u00e9 \u00e0 nossa natureza humana! A liberdade de escolha \u00e9 um fardo insuport\u00e1vel para a maioria das pessoas, a verdadeira felicidade s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada pela submiss\u00e3o a uma autoridade superior. Para o grande inquisidor, a Igreja corrigiu o erro de Cristo, tomando o controle do livre arb\u00edtrio humano, oferecendo conforto e seguran\u00e7a em troca da obedi\u00eancia das pessoas. Perante estas acusa\u00e7\u00f5es, Jesus fica em sil\u00eancio e d\u00e1 um beijo nos l\u00e1bios do grande inquisidor, que o deixa profundamente desconcertado.<\/p>\n<p>Quem tem raz\u00e3o? Fi\u00f3dor Dostoievski n\u00e3o deixa uma resposta simples e definitiva. Sente-se fervilhar os paradoxos da liberdade. A liberdade \u00e9 um presente maravilhoso, mas \u00e9 perigoso. A maioria das pessoas n\u00e3o sabe usar a liberdade com responsabilidade ou deixam que outros decidam por elas o que fazer da liberdade e com a liberdade. Isso resulta, muitas vezes, em erro e sofrimento. Aliocha, que \u00e9 o filho mais novo, que representa a f\u00e9, responde com amor e esperan\u00e7a. Por ele, o autor russo procura-nos dizer que a liberdade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um fardo, mas tamb\u00e9m uma oportunidade de escolher o bem, de buscar reden\u00e7\u00e3o, mesmo que o mundo seja confuso e ca\u00f3tico. N\u00e3o nos diz quem tem raz\u00e3o. Deixa-nos um paradoxo: a liberdade \u00e9 o maior presente, mas tamb\u00e9m o nosso maior desafio, que implica aud\u00e1cia e uma grande responsabilidade. Boa leitura.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. 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