{"id":392131,"date":"2025-09-21T09:31:25","date_gmt":"2025-09-21T08:31:25","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=392131"},"modified":"2025-09-18T16:25:16","modified_gmt":"2025-09-18T15:25:16","slug":"migracoes-nao-devemos-ter-pressa-no-afastamento-devemos-ter-pressa-sim-nas-politicas-de-integracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/migracoes-nao-devemos-ter-pressa-no-afastamento-devemos-ter-pressa-sim-nas-politicas-de-integracao\/","title":{"rendered":"Migra\u00e7\u00f5es: \u00abN\u00e3o devemos ter pressa no afastamento; devemos ter pressa, sim, nas pol\u00edticas de integra\u00e7\u00e3o\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>Na semana em que a Assembleia da Rep\u00fablica retomou a atividade plena, depois de f\u00e9rias, em que regressa tamb\u00e9m a discuss\u00e3o do diploma relativo \u00e0 lei de estrangeiros, e dias ap\u00f3s uma manifesta\u00e7\u00e3o de imigrantes \u00e0 porta do Parlamento, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia ECCLESIA Andr\u00e9 Costa Jorge, diretor-geral do Servi\u00e7o Jesu\u00edta aos Refugiados (JRS) em Portugal<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_392134\" aria-describedby=\"caption-attachment-392134\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-392134 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/anfre_costa_jorge_AE-3.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1279\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/anfre_costa_jorge_AE-3.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/anfre_costa_jorge_AE-3-400x266.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/anfre_costa_jorge_AE-3-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/anfre_costa_jorge_AE-3-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/anfre_costa_jorge_AE-3-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/anfre_costa_jorge_AE-3-1536x1023.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-392134\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/OC<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/p>\n<p><em>O Servi\u00e7o Jesu\u00edta aos Refugiados alertou para s\u00e9rios riscos constitucionais e impactos negativos na prote\u00e7\u00e3o de direitos fundamentais das pessoas migrantes, no parecer ao presidente da Rep\u00fablica. Por aquilo que os partidos proponentes das mudan\u00e7as legislativas j\u00e1 disseram, na sequ\u00eancia do veto presidencial, receia que esses riscos possam permanecer?<\/em><\/p>\n<p>Sim, de facto, uma das dimens\u00f5es do trabalho do Servi\u00e7o Jesu\u00edta aos Refugiados \u00e9 aquilo que n\u00f3s chamamos de defender, a tradu\u00e7\u00e3o para portugu\u00eas de \u201cadvocate\u201d, o que fazemos \u00e9 <em>advocacy<\/em>: procuramos defender os direitos das pessoas migrantes e refugiadas, onde quer que elas se encontrem, e no caso concreto em Portugal tamb\u00e9m. E o que fizemos foi analisar a proposta de altera\u00e7\u00e3o \u00e0 lei de estrangeiros e tamb\u00e9m mais recentemente \u00e0 lei de nacionalidade. Na nossa an\u00e1lise, de forma resumida, a proposta tinha uma s\u00e9rie de viola\u00e7\u00f5es constitucionais, que foram ali\u00e1s confirmadas pelo Tribunal Constitucional, e portanto apelamos para que os governos, sejam eles quais forem, possam tamb\u00e9m entender esse sentido do Tribunal Constitucional: se uma proposta \u00e9 inconstitucional n\u00e3o pode avan\u00e7ar, \u00e9 simples, deve ser alterada para estar em linha com aquilo que s\u00e3o os valores, com aquilo que est\u00e1 expresso na Constitui\u00e7\u00e3o. Na verdade, s\u00e3o os valores civilizacionais que queremos defender para todos, tamb\u00e9m para aqueles que chegam ao nosso pa\u00eds e querem viver e trabalhar de acordo com a sua condi\u00e7\u00e3o legal. \u00c9 isso que procuramos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Por exemplo, quem perder a nacionalidade por ter praticado crime arrisca-se n\u00e3o poder reav\u00ea-la. De acordo com uma not\u00edcia publicada na semana passada pelo P\u00fablico, a aquisi\u00e7\u00e3o de nacionalidade portuguesa por parte de estrangeiros residentes est\u00e1 abaixo da m\u00e9dia europeia, dizem-nos os n\u00fameros. Em entrevista \u00e0 Renascen\u00e7a e ao P\u00fablico, o ministro Leit\u00e3o Amaro reiterou que \u00e9 necess\u00e1rio acelerar os processos da expuls\u00e3o porque, no seu entendimento, os prazos s\u00e3o demasiado longos. Da parte do Governo, h\u00e1 alguma relut\u00e2ncia relativamente \u00e0 quest\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o, ou trata-se, como tem vindo a dizer o Governo, de disciplinar a imigra\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Parece-me que este Governo herdou, de facto, uma situa\u00e7\u00e3o complexa, pesada. Claro que, no nosso entender tamb\u00e9m se arrisca, tem mostrado sinais de querer ter uma posi\u00e7\u00e3o severa em rela\u00e7\u00e3o aos migrantes.<\/p>\n<p>Relativamente \u00e0 nacionalidade, entendemos que qualquer proposta, qualquer medida que v\u00e1 no sentido da retirada da nacionalidade deve ser proporcional, excecional e sempre verificada a sua necessidade. A proposta que est\u00e1 em cima da mesa, por exemplo, associa automaticamente crimes comuns, delitos comuns \u00e0 perda de nacionalidade. Parece-nos que \u00e9 um excesso punitivo e, portanto, \u00e9 importante n\u00e3o perdermos de vista que aquilo que a lei deve apontar n\u00e3o \u00e9 apenas a puni\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m a recupera\u00e7\u00e3o da pessoa e a sua integra\u00e7\u00e3o, mas para todos, n\u00e3o apenas para estrangeiros.<\/p>\n<p>Aquilo que nos preocupa aqui \u00e9 o que \u00e9 que se pretende fazer com a retirada da nacionalidade, isto n\u00e3o recupera ningu\u00e9m e, sobretudo, quando aquilo que est\u00e1 em cima da mesa s\u00e3o pequenos delitos, delitos comuns. Parece-nos que \u00e9 uma dimens\u00e3o excessiva do ponto de vista da puni\u00e7\u00e3o. A perspectiva crist\u00e3, e \u00e9 aquela com que n\u00f3s procuramos tamb\u00e9m olhar para estas mat\u00e9rias, aponta sempre para a recupera\u00e7\u00e3o da pessoa, a reintegra\u00e7\u00e3o da pessoa. N\u00e3o se trata apenas de castigar ou de punir e, sobretudo, punir retirando a nacionalidade, podendo haver at\u00e9 dimens\u00f5es em que a pessoa, para ter a nacionalidade portuguesa, pode ter de deixar de ter a sua nacionalidade de origem. Isso pode criar situa\u00e7\u00f5es de apatridia. Mas n\u00e3o queria ir por a\u00ed, queria apenas sublinhar esta dimens\u00e3o da excecionalidade, da proporcionalidade e da necessidade que a retirada da nacionalidade deve conter, quando se procura inserir estas dimens\u00f5es na lei da nacionalidade, concretamente.<\/p>\n<p>Um outro aspeto que nos preocupa tamb\u00e9m tem a ver com a dimens\u00e3o que esta medida pode criar uma discrimina\u00e7\u00e3o, vamos dizer assim, entre portugueses origin\u00e1rios e portugueses naturalizados, isto \u00e9, aqueles que adquirem nacionalidade por resid\u00eancia. Ser\u00e3o sempre portugueses n\u00e3o iguais aos outros portugueses, de alguma forma, e, portanto, h\u00e1 aqui uma viola\u00e7\u00e3o, na nossa perspetiva, do princ\u00edpio da igualdade. Aquilo que se quer com a nacionalidade, no fundo, \u00e9 reconhecer que algu\u00e9m aderiu \u00e0 comunidade, pelo viver, por estar integrado, por se inserir na comunidade. O que deve ser promovido \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o das pessoas, \u00e9 isso que n\u00f3s podemos defender. E tamb\u00e9m, sempre que houver lugar a processos em que as pessoas ter\u00e3o de pagar pelos crimes que cometem, se for essa ocasi\u00e3o, o foco deve ser a reintegra\u00e7\u00e3o da pessoa o mais r\u00e1pido poss\u00edvel e n\u00e3o propriamente a exclus\u00e3o ou a retirada dessa pessoa da comunidade. Porque isso \u00e9 excessivo e, mais uma vez, aponta muito para a dimens\u00e3o punitiva.<\/p>\n<p>Lembro tamb\u00e9m que a proposta prev\u00ea que os que s\u00e3o naturalizados h\u00e1 menos de 10 anos e cometam um crime podem perder a nacionalidade. Insistimos que a perspectiva e as medidas devem ser introduzidas, quer na lei de estrangeiros, quer na lei da nacionalidade, devem ser medidas no sentido de refor\u00e7ar e de promover a integra\u00e7\u00e3o das pessoas e de criar, n\u00e3o apenas nas pessoas migrantes, mas na sociedade no seu conjunto, maior coes\u00e3o e maior integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A outra parte da minha quest\u00e3o tinha a ver com a expuls\u00e3o de imigrantes. Concorda com o ministro quando diz que os prazos para a expuls\u00e3o s\u00e3o longos?<\/em><\/p>\n<p>Em concreto, n\u00e3o me parece que os prazos de expuls\u00e3o sejam longos. No fundo, parece-me que o processo de afastamento tem de respeitar um conjunto de etapas que devem, sobretudo, garantir os direitos das pessoas migrantes. E, portanto, n\u00e3o devemos ter pressa no afastamento; devemos ter pressa, sim, nas pol\u00edticas de integra\u00e7\u00e3o. Parece-me que essas \u00e9 que est\u00e3o a faltar.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma vontade que, na narrativa pol\u00edtica vigente, aquela que neste momento na Europa e em Portugal tamb\u00e9m foi criando ra\u00edzes e est\u00e1 a ganhar espa\u00e7o, mas que \u00e9 necess\u00e1rio combater: \u00e9 uma narrativa que, no fundo, visa criar um clima de hostilidade em rela\u00e7\u00e3o aos migrantes e de desconfian\u00e7a. E a hostilidade e a desconfian\u00e7a s\u00f3 se combatem com a rela\u00e7\u00e3o e com a cria\u00e7\u00e3o de um clima de confian\u00e7a e abertura, de contacto entre todas as partes, entre todos os cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nesses mecanismos de integra\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um instrumento estrutural que \u00e9 o reagrupamento familiar. O Governo j\u00e1 deixou claro que n\u00e3o concorda com o Tribunal Constitucional e o ministro Leit\u00e3o Amaro tamb\u00e9m deixou claro que n\u00e3o abdica do prazo dos dois anos. Da sua perspectiva, isto \u00e9 uma atitude leg\u00edtima?<\/em><\/p>\n<p>O que nos parece \u00e9 que o reagrupamento familiar n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a, \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma solu\u00e7\u00e3o para qu\u00ea? \u00c9 uma solu\u00e7\u00e3o para a estabilidade e integra\u00e7\u00e3o das pessoas migrantes. N\u00e3o bloqueia a que as fam\u00edlias se estabele\u00e7am. \u00c9 muito pior termos migrantes sozinhos, isolados, afastados das suas fam\u00edlias, em sofrimento, em sofrimento c\u00e1 e em sofrimento l\u00e1, do que ter as pessoas estabilizadas e agrupadas aqui.<\/p>\n<p>Claro que queremos criar as condi\u00e7\u00f5es na educa\u00e7\u00e3o, na sa\u00fade tamb\u00e9m, para que estes cidad\u00e3os, estes novos cidad\u00e3os, eventualmente novos portugueses, possam tamb\u00e9m aceder e possam tamb\u00e9m integrar-se nessas dimens\u00f5es, mas o reagrupamento familiar tem este princ\u00edpio, o princ\u00edpio da prote\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. N\u00e3o consigo perceber esta quest\u00e3o dos dois anos de espera, que nunca tiveram efeito pr\u00e1tico na preven\u00e7\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o irregular, e s\u00f3 faz sentido aquilo que o Tribunal Constitucional fez: chumbar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 uma ced\u00eancia ao tal populismo?<\/em><\/p>\n<p>Eu creio que, no fundo, h\u00e1 uma necessidade pol\u00edtica de narrativa, de dizer \u201cestamos a ser exigentes\u201d e \u201cestamos a querer mostrar algum m\u00fasculo para com a imigra\u00e7\u00e3o\u201d. A mim parece-me que, no sentido da decis\u00e3o do Tribunal Constitucional, devemos voltar ao regime anterior, isto \u00e9, o titular de uma altera\u00e7\u00e3o da resid\u00eancia pode pedir o reagrupamento com o seu c\u00f4njuge, cumprindo os requisitos legais. E, portanto, a quest\u00e3o, na nossa perspectiva, \u00e9 que o limite temporal deve apenas medir a estabilidade e a integra\u00e7\u00e3o e n\u00e3o bloquear o acesso ao reagrupamento familiar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ao insistir nestes dois anos, o Governo pode voltar a ir contra aquilo que \u00e9 a constitucionalidade da lei?<\/em><\/p>\n<p>Bem, deixo isso para quem tem essa tarefa e a fun\u00e7\u00e3o muito importante no contexto da sociedade portuguesa e no contexto pol\u00edtico, mas para n\u00f3s eu prefiro sublinhar isto: o reagrupamento familiar fortalece a integra\u00e7\u00e3o, fortalece a coes\u00e3o social. Se tivermos pol\u00edticas de integra\u00e7\u00e3o que promovam a coes\u00e3o social, o contacto entre as pessoas\u2026 sabemos, por exemplo, que \u00e9 no meio escolar que existe maior probabilidade de haver coes\u00e3o social, cria\u00e7\u00e3o de la\u00e7os entre as pessoas diferentes e haver at\u00e9 mobilidade social atrav\u00e9s do contexto escolar.<\/p>\n<p>Portanto, o reagrupamento familiar n\u00e3o \u00e9 um problema, \u00e9 parte da solu\u00e7\u00e3o e o que os governos devem trabalhar \u00e9, no sentido, de criar condi\u00e7\u00f5es para uma sociedade de diferentes, mas coesa do ponto de vista social e do ponto de vista tamb\u00e9m daquilo que s\u00e3o os valores e os princ\u00edpios de uma sociedade que queremos, para hoje e para amanh\u00e3 e para o futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A montante subsistem alguns problemas ao n\u00edvel, por exemplo, do processo de legaliza\u00e7\u00e3o. A JRS continua atenta a estas dificuldades, continua a verific\u00e1-las no terreno?<\/em><\/p>\n<p>Continuamos e temos sentido tamb\u00e9m, por parte de muitos migrantes, um certo p\u00e2nico, um certo medo em contactar at\u00e9 e vir aos nossos servi\u00e7os, ao nosso centro de atendimento. T\u00eam medo de serem denunciados, t\u00eam medo de serem detidos, t\u00eam medo de serem afastados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas esse \u00e9 um clima que j\u00e1 se generalizou?<\/em><\/p>\n<p>Eu creio que aquilo que n\u00f3s vamos sentindo, n\u00e3o sendo n\u00f3s imigrantes, mas vamos sentindo de uma maneira geral, tamb\u00e9m passa para estas pessoas, muitas vezes com informa\u00e7\u00f5es truncadas, com informa\u00e7\u00f5es erradas, contradit\u00f3rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ou seja, preferem manter-se ilegais a ter de ser repatriados, \u00e9 isso?<\/em><\/p>\n<p>Eu creio que se criou um clima generalizado, com as imagens que vemos nos Estados Unidos e noutros pa\u00edses, em que h\u00e1 uma narrativa constante de que a deten\u00e7\u00e3o e a expuls\u00e3o s\u00e3o a palavra de ordem. As pessoas que n\u00e3o veem viabilidade para as suas vidas, sentem-se naturalmente amea\u00e7adas. Portanto, isto \u00e9 uma dimens\u00e3o que \u00e9 muito nova em Portugal, em bom rigor. Esta sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a, at\u00e9 na rela\u00e7\u00e3o com os organismos do Estado, isso pode ser muito grave e muito prejudicial para a vida dos imigrantes e sobretudo daquelas mais vulner\u00e1veis, das crian\u00e7as, das mulheres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Aquilo que este fen\u00f3meno, que \u00e9 mundial, nos ensina \u00e9 que quando h\u00e1 dificuldades nas redes de legaliza\u00e7\u00e3o, proliferam as redes ilegais. Temos v\u00e1rios casos de situa\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o de imigrantes em Portugal. \u00c9 uma das consequ\u00eancias desse problema?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 muito s\u00e9ria esta dimens\u00e3o, isto \u00e9, os governos devem ver esta dimens\u00e3o de inseguran\u00e7a que as pessoas sentem na rela\u00e7\u00e3o que t\u00eam com as autoridades, com o Estado, que as pessoas migrantes t\u00eam. Eu creio que tudo aquilo que v\u00e1 no sentido de provocar sentimentos de inseguran\u00e7a, sentimentos de sofrimento e de solid\u00e3o, pessoas que t\u00eam medo de sair \u00e0 rua, isto para n\u00f3s \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o muito grave e parece-nos que \u00e9 um clima e um sentimento que se est\u00e1 a generalizar e que nos preocupa muito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que avalia, por exemplo, o discurso mais duro da Igreja em Portugal, com cr\u00edticas em particular alguma da legisla\u00e7\u00e3o produzida e tamb\u00e9m alguns discursos mais radicais?<\/em><\/p>\n<p>Eu creio que a Igreja em Portugal tem estado em linha com aquilo que tem dito o Papa Francisco e diz agora o Le\u00e3o XIV. E, portanto, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma novidade nessa mat\u00e9ria. Eu creio que a novidade tem sido um crescendo de hostilidade de discurso por parte de muitos pol\u00edticos. H\u00e1 um crescimento tamb\u00e9m por parte de setores que hostilizam de forma cada vez mais aberta as pessoas migrantes e eu creio que a Igreja tamb\u00e9m tem de tomar a palavra e tem feito isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Eu n\u00e3o resisto a perguntar: quem toma essas posi\u00e7\u00f5es alega muitas vezes fundamenta\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, patrim\u00f3nio crist\u00e3o e a amea\u00e7a que os migrantes representam a esse patrim\u00f3nio\u2026<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que o que \u00e9 patrim\u00f3nio crist\u00e3o \u00e9 ir ao encontro do mundo. A cristandade \u00e9 que iniciou a evangeliza\u00e7\u00e3o e sa\u00edda do mundo. Porque se a cristandade fosse para ficarmos fechados no nosso ret\u00e2ngulo, no nosso quadrado, a cristandade n\u00e3o teria sa\u00eddo da Europa.<\/p>\n<p>A cristandade, se quisermos, nasce no mundo antigo, no M\u00e9dio Oriente, hoje, como dizemos, expande-se para a Europa, vai ao encontro de culturas. Mas \u00e9 ela a pr\u00f3pria fruto desse encontro de civiliza\u00e7\u00f5es e de culturas e de pensamento, desenvolvendo-se, aprofundando-se e depois parte para o mundo. E, portanto, n\u00f3s n\u00e3o devemos ter nenhum receio que o mundo tamb\u00e9m venha ao nosso encontro.<\/p>\n<p>O encontro de culturas, o encontro de religi\u00f5es, o di\u00e1logo entre culturas e religi\u00f5es \u00e9, desde sempre, marca identit\u00e1ria da cristandade, se quisermos dizer assim, de matriz ocidental e da qual n\u00f3s fazemos parte. E, portanto, na nossa perspetiva, a vinda de migrantes n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a, \u00e9 uma excelente oportunidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E n\u00e3o dizer, por exemplo, que no acesso a uma creche deve ter prioridade quem \u00e9 aut\u00f3ctone?<\/p>\n<p>Eu creio que o que tem a ver \u00e9 mais a oferta de lugares para todas as crian\u00e7as. N\u00f3s n\u00e3o podemos entrar nesse crit\u00e9rio de&#8230; primeiro, ele n\u00e3o faz sentido. O que faz sentido \u00e9 que todas as crian\u00e7as tenham acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e ao pr\u00e9-escolar, no caso concreto, e ao apoio. Todas as fam\u00edlias possam ter esse apoio e \u00e9 para isso que n\u00f3s votamos, para governos que tragam solu\u00e7\u00f5es de resposta \u00e0s necessidades, concretamente \u00e0s capacidades, quer na educa\u00e7\u00e3o, quer na sa\u00fade. N\u00e3o nos parece que o crit\u00e9rio seja segregar ou afastar por origem ou cor da pele das pessoas, ou origem nacional, etc.<\/p>\n<p>N\u00f3s devemos criar respostas para a sociedade e, se h\u00e1 falta de resposta, n\u00f3s temos de ser mais exigentes com a cria\u00e7\u00e3o de novas respostas ou de aumento de respostas, e n\u00e3o de segregar as respostas a partir de crit\u00e9rios que t\u00eam tudo para dar mal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na primeira mensagem do Papa Le\u00e3o XIV para o Dia Mundial do Migrante e Refugiado, que este ano \u00e9 celebrado em contexto jubileu, a 5 de outubro, alerta-se para as guerras, viol\u00eancia, injusti\u00e7a e fen\u00f3menos meteorol\u00f3gicos extremos que obrigam milh\u00f5es de pessoas a deixar a sua terra natal. Situa\u00e7\u00f5es como, por exemplo, o Sud\u00e3o, que mediaticamente n\u00e3o tem tanta aten\u00e7\u00e3o como outras, mostram que h\u00e1 falta de aten\u00e7\u00e3o da comunidade internacional para estes alertas?<\/em><\/p>\n<p>Sim, eu creio que aquilo que o Papa Le\u00e3o XIV nos diz \u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o, concretamente relativamente ao Sud\u00e3o, \u00e9 a evid\u00eancia de que a comunidade internacional reage tarde, reage de forma insuficiente e desarticulada. E, portanto, n\u00f3s vivemos um pouco numa dimens\u00e3o das chamadas not\u00edcias do dia, do imediato, e esquecemos, temos uma tend\u00eancia para ignorar o que aconteceu ontem em fun\u00e7\u00e3o da novidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Estas crises de refugiados n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1 longe. Elas v\u00e3o atingir-nos mais tarde ou mais cedo\u2026<\/em><\/p>\n<p>Infelizmente, h\u00e1 uma realidade global em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que \u00e9 a mobilidade humana, ou que obriga a mobilidade humana. Na verdade, a mobilidade humana involunt\u00e1ria \u00e9 aquela que ocorre por for\u00e7a de guerras, de conflitos, de m\u00e1s decis\u00f5es pol\u00edticas, de interesses obscuros focados no lucro material, que empurram e que matam popula\u00e7\u00f5es e as empurram para fora dos seus locais de origem. S\u00e3o, infelizmente, transversais e n\u00e3o dizem apenas respeito \u00e0 nossa Europa e ao nosso contexto.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m temos isso. Infelizmente, j\u00e1 acontece h\u00e1 muitos anos aqui. Lembrando aqui o conflito na Ucr\u00e2nia, que j\u00e1 tem tanto tempo que, infelizmente, j\u00e1 nos estamos a acomodar \u00e0 sua exist\u00eancia. Temos estes conflitos e a hist\u00f3ria tamb\u00e9m, muito triste hist\u00f3ria, do conflito israelo-palestiniano. E temos muitos conflitos em \u00c1frica e noutras zonas do globo e na \u00c1sia que t\u00eam feito in\u00fameras v\u00edtimas. Aquilo que o Papa nos lembra \u00e9 que estas pessoas, migrantes e refugiados, s\u00e3o mensageiros de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>A Igreja est\u00e1, naturalmente e desde sempre, ao lado e faz parte desta peregrina\u00e7\u00e3o, destes homens e mulheres e crian\u00e7as que personificam tamb\u00e9m o rosto e o corpo e a vida do pr\u00f3prio Cristo, daquilo com que nos identificamos todos. O Papa, felizmente os \u00faltimos Papas, n\u00e3o apenas o \u00faltimo e este, t\u00eam sido uma voz clara, clarividente, sobre o lugar onde devemos estar. Para retomar a outra pergunta que me fez sobre a Igreja portuguesa, eu fico naturalmente muito feliz, que a Igreja tenha uma palavra tamb\u00e9m assertiva e clara para com os cat\u00f3licos, mas tamb\u00e9m para com a sociedade toda, isto \u00e9, n\u00e3o podemos embarcar em discursos f\u00e1ceis e facilitistas de hostiliza\u00e7\u00e3o dos migrantes, porque isso \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 mensagem crist\u00e3.<\/p>\n<p>A mensagem crist\u00e3 \u00e9 clara, n\u00f3s somos pela justi\u00e7a social, n\u00f3s somos pelo acolhimento, n\u00f3s somos pela hospitalidade, n\u00f3s somos pelo encontro e por aquele Deus que ama a todos. E, portanto, \u00e9 isso que temos de ser e praticar. Essa \u00e9 a nossa identidade. A Igreja portuguesa, a Igreja global, a Igreja Cat\u00f3lica, encabe\u00e7ada pelo Papa Le\u00e3o, mant\u00e9m esta vis\u00e3o muito clara de prote\u00e7\u00e3o dos mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana em que a Assembleia da Rep\u00fablica retomou a atividade plena, depois de f\u00e9rias, em que regressa tamb\u00e9m a discuss\u00e3o do diploma relativo \u00e0 lei de estrangeiros, e dias ap\u00f3s uma manifesta\u00e7\u00e3o de imigrantes \u00e0 porta do Parlamento, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia ECCLESIA Andr\u00e9 Costa Jorge, diretor-geral do Servi\u00e7o Jesu\u00edta aos 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