{"id":391949,"date":"2025-09-17T10:32:18","date_gmt":"2025-09-17T09:32:18","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=391949"},"modified":"2025-09-17T10:32:18","modified_gmt":"2025-09-17T09:32:18","slug":"abusos-liturgicos-na-eucaristia-quando-a-celebracao-se-afasta-do-misterio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/abusos-liturgicos-na-eucaristia-quando-a-celebracao-se-afasta-do-misterio\/","title":{"rendered":"Abusos Lit\u00fargicos na Eucaristia: Quando a celebra\u00e7\u00e3o se afasta do Mist\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<p><em>Pe. Hugo Gon\u00e7alves,\u00a0Diocese de Beja<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-266299 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>A Eucaristia \u00e9 a \u201cfonte e \u00e1pice de toda a vida crist\u00e3\u201d, como nos ensina o Conc\u00edlio Vaticano II. \u00c9 nela que a Igreja encontra o cora\u00e7\u00e3o do seu ser, o memorial vivo da Paix\u00e3o, Morte e Ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo. No entanto, infelizmente, nem sempre esta celebra\u00e7\u00e3o \u00e9 conduzida com a rever\u00eancia, fidelidade e sobriedade que o seu mist\u00e9rio exige. Basta, por vezes, sintonizar uma transmiss\u00e3o televisiva de uma Missa dominical para nos depararmos com situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o meramente \u201ccriativas\u201d, mas verdadeiros abusos lit\u00fargicos que desfiguram o sentido da Liturgia.<\/p>\n<p><strong>Liturgia ou Teatro?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 raro encontrar Missas onde a solenidade foi substitu\u00edda por uma esp\u00e9cie de encena\u00e7\u00e3o, com trajes de \u00e9poca, figurantes e gestos que mais pertencem a uma pe\u00e7a teatral do que ao culto divino. A presen\u00e7a recente, em plena celebra\u00e7\u00e3o, de encena\u00e7\u00f5es envolvendo figuras hist\u00f3ricas como o Marqu\u00eas de Pombal \u2014 homem com um historial amb\u00edguo perante a Igreja, sobretudo no que toca \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o dos jesu\u00edtas \u2014 levanta s\u00e9rias quest\u00f5es sobre o discernimento pastoral que orienta tais escolhas.<\/p>\n<p>Ainda mais perturbador \u00e9 quando tudo isto culmina com a distribui\u00e7\u00e3o de vinho do Porto no interior da igreja, como se a assembleia se encontrasse num evento social e n\u00e3o diante do Santo Sacrif\u00edcio do altar. Esta dessacraliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 banaliza o mist\u00e9rio da f\u00e9, como escandaliza os fi\u00e9is e compromete a unidade da Igreja.<\/p>\n<p>Outros exemplos incluem a reprodu\u00e7\u00e3o da \u00daltima Ceia com p\u00e3o e vinho dispostos sobre uma mesa \u201c\u00e0 moda de Jerusal\u00e9m\u201d, com o celebrante e ministros sentados em torno, como se se tratasse de uma pe\u00e7a dramat\u00fargica. H\u00e1 tamb\u00e9m quem tome liberdades graves na sele\u00e7\u00e3o de leituras, ora\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas ou ora\u00e7\u00f5es da coleta, substituindo textos lit\u00fargicos aprovados por composi\u00e7\u00f5es pessoais ou recolhas sem crit\u00e9rio lit\u00fargico, teol\u00f3gico ou eclesial.<\/p>\n<p>Por fim, uma das pr\u00e1ticas mais alarmantes \u00e9 a chamada \u201ccomunh\u00e3o self-service\u201d, onde os fi\u00e9is se servem diretamente da Eucaristia sem a devida distribui\u00e7\u00e3o por parte do ministro ordenado ou ministro extraordin\u00e1rio devidamente institu\u00eddo. Tal pr\u00e1tica fere profundamente a disciplina lit\u00fargica e a f\u00e9 na Presen\u00e7a Real de Cristo na H\u00f3stia Consagrada.<\/p>\n<p><strong>O que nos diz a Igreja?<\/strong><\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o Sacrosanctum Concilium, do Conc\u00edlio Vaticano II, estabelece com clareza que:<\/p>\n<p>\u201cNingu\u00e9m, mesmo que seja sacerdote, acrescente, tire ou mude por sua iniciativa qualquer coisa na Liturgia.\u201d (SC, 22)<\/p>\n<p>Este princ\u00edpio n\u00e3o \u00e9 uma rigidez institucional, mas uma defesa da unidade eclesial e da fidelidade ao Mist\u00e9rio. A Liturgia n\u00e3o \u00e9 propriedade de nenhum padre, comunidade ou grupo. Ela \u00e9 a\u00e7\u00e3o de Cristo e da Igreja, e como tal, deve ser celebrada segundo as normas estabelecidas pela autoridade competente.<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o Dominus Iesus (2000), da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, sublinha a centralidade de Cristo e a singularidade da Igreja na economia da salva\u00e7\u00e3o. Mesmo sendo um documento de \u00edndole doutrinal mais ampla, tem implica\u00e7\u00f5es claras para a Liturgia, ao recordar que:<\/p>\n<p>\u201cA Igreja n\u00e3o tem origem humana, mas \u00e9 fundada por Jesus Cristo como sacramento universal de salva\u00e7\u00e3o.\u201d (DI, 1)<\/p>\n<p>Logo, deturpar a Liturgia \u00e9 deturpar a express\u00e3o sacramental da pr\u00f3pria f\u00e9. Introduzir elementos arbitr\u00e1rios, inventar ora\u00e7\u00f5es ou teatralizar a Missa n\u00e3o s\u00e3o gestos inofensivos, mas formas de obscurecer a centralidade de Cristo e a natureza sobrenatural do que est\u00e1 a acontecer no altar.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem justifique estas inova\u00e7\u00f5es como express\u00e3o de criatividade pastoral ou de incultura\u00e7\u00e3o. No entanto, como lembra a Instru\u00e7\u00e3o Redemptionis Sacramentum (2004), da Congrega\u00e7\u00e3o para o Culto Divino:<\/p>\n<p>\u201cOs abusos lit\u00fargicos n\u00e3o s\u00e3o uma express\u00e3o aut\u00eantica de liberdade, mas uma infra\u00e7\u00e3o contra a natureza da Liturgia.\u201d (RS, 7)<\/p>\n<p>A verdadeira incultura\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o lit\u00fargica s\u00f3 pode ser feita dentro das balizas tra\u00e7adas pela Igreja e sempre com aprova\u00e7\u00e3o da Santa S\u00e9, quando necess\u00e1rio. A criatividade n\u00e3o pode ser um \u00e1libi para a desobedi\u00eancia.<\/p>\n<p>A Eucaristia n\u00e3o \u00e9 um palco, nem um pretexto para o exibicionismo espiritual ou cultural. \u00c9 o memorial vivo do Sacrif\u00edcio de Cristo, a presen\u00e7a real do seu Corpo e Sangue, a comunh\u00e3o do C\u00e9u com a Terra. Os abusos lit\u00fargicos \u2014 sejam eles fruto de ignor\u00e2ncia, vaidade ou ideologia \u2014 n\u00e3o s\u00f3 desfiguram este mist\u00e9rio, como p\u00f5em em risco a f\u00e9 dos fi\u00e9is.<\/p>\n<p>Recuperar o sentido do sagrado, da obedi\u00eancia e da dignidade lit\u00fargica n\u00e3o \u00e9 voltar ao passado, mas reencontrar o centro. Como nos recorda Bento XVI, \u201ca Liturgia n\u00e3o vive de inven\u00e7\u00f5es, mas de fidelidade \u00e0 Igreja e \u00e0 sua Tradi\u00e7\u00e3o viva\u201d.<\/p>\n<p>Que os nossos altares deixem de ser palcos, e que, em cada Missa, brilhe apenas a luz de Cristo.<\/p>\n<p><em>Pe. Hugo Gon\u00e7alves<\/em><br \/>\n<em>Diocese de Beja<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. 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