{"id":3914,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/mensagem-do-patriarca-de-lisboa-na-noite-de-natal\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"mensagem-do-patriarca-de-lisboa-na-noite-de-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mensagem-do-patriarca-de-lisboa-na-noite-de-natal\/","title":{"rendered":"Mensagem do Patriarca de Lisboa na Noite de Natal"},"content":{"rendered":"<p>A mensagem aprofunda a rela\u00e7\u00e3o do Cristianismo com a Europa, definindo os termos em que se deve estabelecer a quest\u00e3o sobre a refer\u00eancia ao Cristianismo no pre\u00e2mbulo da Constitui\u00e7\u00e3o Europeia em prepara\u00e7\u00e3o  <!--more--> MENSAGEM DE NATAL 2003 DE D. JOS\u00c9 DA CRUZ POLICARPO CARDEAL-PATRIARCA DE LISBOA  Car\u00edssimos telespectadores e r\u00e1dio-ouvintes,  \t1. \u00c9 com muita alegria que vos sa\u00fado, em nome da Igreja, nesta noite de Natal. Festa crist\u00e3 que celebra o nascimento de Jesus Cristo, \u00e9 a Sua mensagem de amor e de paz que d\u00e1 sentido e enche de beleza e de ternura esta noite, t\u00e3o enriquecida pela cultura e pela tradi\u00e7\u00e3o. Para que isso aconte\u00e7a, \u00e9 preciso que abramos o nosso cora\u00e7\u00e3o \u00e0 luz que vem do alto, que nele semear\u00e1 a paz. Jesus Cristo ser\u00e1 sempre, para todos os tempos e para todos os homens, uma mensagem de Deus. \tVai j\u00e1 sendo h\u00e1bito que, neste dia e nesta circunst\u00e2ncia, vos fale de alguma dimens\u00e3o da nossa vida comunit\u00e1ria particularmente actual, para a olharmos \u00e0 luz da mensagem de Jesus. Este ano escolhi a dimens\u00e3o europeia da nossa vida como povo e como Na\u00e7\u00e3o, devido \u00e0 sua import\u00e2ncia e actualidade. A Europa tem sido tema e not\u00edcia nos \u00faltimos meses e n\u00e3o me refiro apenas \u00e0 festa do futebol europeu que se celebrar\u00e1, entre n\u00f3s, no pr\u00f3ximo m\u00eas de Junho. No pr\u00f3ximo ano dez novos pa\u00edses v\u00e3o integrar a Uni\u00e3o Europeia, que se prepara para se dotar de um Tratado Constitucional, passo em frente, porventura irrevers\u00edvel, na solidifica\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o europeia para a maior parte dos pa\u00edses do Continente, entre os quais Portugal. \u00c9 preciso que tomemos consci\u00eancia desse facto: a nossa vida como comunidade nacional ser\u00e1 cada vez mais influenciada pelas leis e pelos dinamismos da Uni\u00e3o Europeia. A sublinhar a import\u00e2ncia e a actualidade do tema est\u00e1 a Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica sobre a Igreja na Europa, publicada pelo Santo Padre Jo\u00e3o Paulo II, na sequ\u00eancia do 2\u00ba S\u00ednodo dos Bispos sobre a Europa. Nela o Papa manifesta a solicitude da Igreja pela Europa e pelos processos de constru\u00e7\u00e3o do Continente, oferecendo a sua perspectiva e contributo espec\u00edficos.  \t2. Verificamos, com alegria, que o futuro da Europa \u00e9 olhado sob o signo da esperan\u00e7a, que n\u00e3o exclui, antes integra, problemas e preocupa\u00e7\u00f5es. Recentemente desloquei-me a Vilnius, capital da Litu\u00e2nia, um dos pa\u00edses que proximamente far\u00e3o parte da Uni\u00e3o Europeia, constituindo com os outros pa\u00edses b\u00e1lticos a sua fronteira mais a norte. Impressionaram-me as expectativas, mesmo euforia, com que encaram esse momento hist\u00f3rico. Com ele esperam exorcizar, de uma vez por todas, o perigo de anexa\u00e7\u00e3o pelos blocos e pelos imp\u00e9rios, confirmando a sua independ\u00eancia democr\u00e1tica, a express\u00e3o da sua identidade cultural e o desenvolvimento consolidado da economia. Mas sobre esse cen\u00e1rio de entusiasmo pairam algumas preocupa\u00e7\u00f5es. Pa\u00eds de maioria cat\u00f3lica, agora a saborear o dom da liberdade, se por um lado tenta vencer as marcas da sociedade ateia que lhes foi imposta, por outro temem a relativiza\u00e7\u00e3o de valores espirituais e morais que o ate\u00edsmo pr\u00e1tico de uma sociedade de consumo acarreta. Perante o seu entusiasmo e o fundado das suas preocupa\u00e7\u00f5es, senti-me, como cidad\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia, correspons\u00e1vel pelo destino daquele povo long\u00ednquo, do qual, at\u00e9 agora, t\u00e3o pouco conhec\u00edamos. \u00c9 preciso, para a constru\u00e7\u00e3o desta \u201cP\u00e1tria Europeia\u201d, objectivar a esperan\u00e7a. \tO t\u00e3o discutido pre\u00e2mbulo da futura Constitui\u00e7\u00e3o Europeia \u2013 n\u00e3o sei se no momento em que ouvis esta mensagem, este texto ainda prevalece \u2013 afirma: \u201cUnida na sua diversidade, a Europa deve ser um espa\u00e7o privilegiado da esperan\u00e7a humana\u201d. E Jo\u00e3o Paulo II intitula a sua Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica sobre a Europa, \u201cJesus Cristo, vivo na Sua Igreja, fonte de esperan\u00e7a para a Europa\u201d. S\u00e3o dois an\u00fancios complementares da esperan\u00e7a. Um vindo dos respons\u00e1veis pol\u00edticos sobre a Europa, que afirmam acreditar que \u00e9 poss\u00edvel construir a unidade, apesar da diversidade de l\u00ednguas e de culturas. E constru\u00e7\u00e3o da unidade significa o empenho na supera\u00e7\u00e3o das divis\u00f5es, e compromisso em prosseguir em conjunto os grandes objectivos da paz e da justi\u00e7a. A outra, vinda do Santo Padre, \u00e9 uma confiss\u00e3o de f\u00e9, que \u00e9 bom recordar na noite de Natal: Jesus Cristo \u00e9 a fonte e o fundamento da verdadeira esperan\u00e7a. \tEsta Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica significa um compromisso da Igreja com a constru\u00e7\u00e3o da Europa. A Igreja, na Europa, porque acredita que \u00e9 nela que Jesus Cristo est\u00e1 vivo, compromete-se a ser profeta da esperan\u00e7a, anunciando \u00e0 Europa o Evangelho da esperan\u00e7a. Num olhar atento sobre a realidade do Continente, verificamos que, se sobressaem as indiscut\u00edveis conquistas no progresso das nossas sociedades e na consolida\u00e7\u00e3o da paz, pairam sombras que n\u00e3o podemos disfar\u00e7ar: o materialismo de uma sociedade de consumo, a relativiza\u00e7\u00e3o \u00e9tica dos crit\u00e9rios da vida e da conviv\u00eancia, a perman\u00eancia de injusti\u00e7as sociais e de situa\u00e7\u00f5es que geram incerteza, as dificuldades do acolhimento aos imigrantes etc. \u00c9 urgente consolidar a esperan\u00e7a, que dar\u00e1 sentido \u00e0 vida e \u00e0 hist\u00f3ria de povos que decidiram partilhar o seu destino e caminhar de m\u00e3os dadas. \tNesta solidifica\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a h\u00e1 dimens\u00f5es que, pela sua import\u00e2ncia decisiva, t\u00eam de ser, claramente, postas em relevo: uma compreens\u00e3o do progresso que integre a economia no quadro de outras dimens\u00f5es essenciais \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do homem; politicas sociais que sejam a express\u00e3o da justi\u00e7a, da solidariedade e da generosidade; uma op\u00e7\u00e3o clara pelos caminhos objectivos de constru\u00e7\u00e3o da paz; uma atitude de acolhimento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que, vindos de outros povos e culturas, procuram a Europa, porque procuram a vida. Todos estes elementos devem integrar uma atitude cultural envolvente, que se possa definir como a especificidade de uma cultura europeia. A objectividade cultural \u00e9 importante para a consolida\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a.  \t3. Ora \u00e9 precisamente sobre a identidade cultural da Europa que se t\u00eam centrado as discuss\u00f5es a prop\u00f3sito do pre\u00e2mbulo do projecto de Constitui\u00e7\u00e3o Europeia. Poder-se-\u00e1 falar da especificidade de uma cultura europeia? Ser\u00e1 isso importante na actual fase da vida do Continente? A mim parece-me, n\u00e3o apenas importante, mas porventura, decisivo. Antes de mais porque a cultura \u00e9 o quadro envolvente, de natureza espiritual, inspirador de todos os processos de desenvolvimento e da busca de solu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas para problemas concretos. A cultura \u00e9 a fonte do sentido da hist\u00f3ria. Ora acresce que a Europa, sobretudo no espa\u00e7o da Uni\u00e3o, \u00e9 cada vez mais, uma p\u00e1tria de acolhimento de milh\u00f5es de pessoas vindas de outros universos culturais. A Europa s\u00f3 os poder\u00e1 acolher, sem se negar a si mesma, se estiver segura da sua identidade cultural. \tMas em que consiste essa especificidade da cultura europeia? Todos sabemos que a riqueza cultural da Europa se fundamenta na imensa variedade de elementos que, ao longo dos s\u00e9culos, modelaram uma identidade europeia: a heran\u00e7a cl\u00e1ssica greco-latina; o contributo espec\u00edfico dos diversos povos que, ao longo de mil\u00e9nios, aportaram a estas paragens; a influ\u00eancia das grandes religi\u00f5es, tais como o juda\u00edsmo, o cristianismo, mesmo o islamismo, na defini\u00e7\u00e3o do sentido do homem e da hist\u00f3ria; a imensa riqueza das filosofias e da constru\u00e7\u00e3o de uma racionalidade, que desabrochou na defini\u00e7\u00e3o de uma secularidade e da autonomia do profano frente ao sagrado; os contactos dos povos europeus com outros povos e outras culturas, atrav\u00e9s das chamadas descobertas; a pluralidade \u00e9tnica e lingu\u00edstica dos seus habitantes. Uma cultura europeia n\u00e3o pode renunciar a toda esta variada riqueza da sua g\u00e9nese. N\u00e3o se trata de uma cultura monol\u00edtica, definida a partir de um \u00fanico factor hegem\u00f3nico, na certeza de que, quanto mais monol\u00edticas forem as culturas, menos promovem a liberdade. Mas podemos, isso sim, perguntar se, nesta riqueza de elementos, h\u00e1 um que pela sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica, exerceu o papel de elemento unificador. \u00c9 que uma cultura, independentemente dos elementos que entraram no caldear da sua defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma experi\u00eancia de unidade, fazedora de harmonia.  \t4. \u00c9 aqui que se situa a discuss\u00e3o, t\u00e3o viva nos \u00faltimos meses, se sim ou n\u00e3o o pre\u00e2mbulo da Constitui\u00e7\u00e3o Europeia, ao tentar definir a g\u00e9nese da especificidade da cultura europeia, deve referir explicitamente a import\u00e2ncia do cristianismo nesse longo burilar da identidade cultural europeia. Uma prova da import\u00e2ncia desta discuss\u00e3o, \u00e9 que ela se transformou, por vezes, em pol\u00e9mica apaixonada. E quando se atinge esse n\u00edvel de paix\u00e3o, perde-se facilmente a objectividade, necess\u00e1ria para centrar as quest\u00f5es no seu rigor hist\u00f3rico e na an\u00e1lise estrutural da cultura. \tE de facto t\u00eam-se feito algumas confus\u00f5es. Ao pedir essa refer\u00eancia expl\u00edcita ao cristianismo como elemento unificador da cultura europeia, n\u00e3o se trata de impor o cristianismo a ningu\u00e9m, nem de, \u201cconfessionalizar\u201d a Uni\u00e3o Europeia, em contrapartida \u00e0 vis\u00e3o, hoje pacificamente aceite, da laicidade dos Estados. N\u00e3o se prop\u00f5e que o texto constitucional fa\u00e7a uma confiss\u00e3o de f\u00e9 crist\u00e3, nem que desconhe\u00e7a a variedade de elementos que comp\u00f5em a cultura europeia. Trata-se, apenas, de reconhecer objectivamente, a import\u00e2ncia unificadora do cristianismo no processo cultural europeu, ao longo dos s\u00e9culos. \tQue ningu\u00e9m interprete este desejo da Igreja como uma manifesta\u00e7\u00e3o de poder; que n\u00e3o nos respondam recordando-nos, apenas, os erros hist\u00f3ricos da Igreja. Sejamos capazes de olhar para o futuro, reconhecer a identidade dos grandes valores que hoje definem a Europa, e lan\u00e7ar as bases para um aprofundamento do sentido inspirador de uma Europa que todos queremos mais justa, solid\u00e1ria e fraterna, voz decisiva na constru\u00e7\u00e3o da paz mundial. \u00c9 o amor pela Europa e o empenhamento no seu futuro que nos leva a pedir que os construtores da nova Europa n\u00e3o esque\u00e7am nenhum dos alicerces sobre que assenta esse edif\u00edcio.  \t5. A rela\u00e7\u00e3o do cristianismo com a Europa \u00e9 uma longa hist\u00f3ria de amor e de sofrimento. O cristianismo n\u00e3o se define como uma religi\u00e3o europeia, sendo a sua voca\u00e7\u00e3o universal. Mas ele recebeu muito da Europa. A riqueza da cultura greco-romana ofereceu-lhe o quadro de pensamento e a linguagem para exprimir a sua f\u00e9, nascida no contexto semita, aculturando-a e universalizando-a, fornecendo-lhe o quadro filos\u00f3fico para a express\u00e3o aprofundada dessa mesma f\u00e9. A estrutura organizativa do imp\u00e9rio romano ofereceu-lhe o quadro institucional para a sua expans\u00e3o. \tDevido ao facto de, durante s\u00e9culos, a Europa e o M\u00e9dio Oriente serem a parte do mundo ent\u00e3o conhecida, o cristianismo, sem negar a sua voca\u00e7\u00e3o de universalidade, que reafirma claramente no dinamismo mission\u00e1rio, quando se alarga o horizonte do conhecimento do mundo, percorreu a primeira parte da sua hist\u00f3ria no processo europeu, dando \u00e0 Europa no seu evoluir o melhor da sua inspira\u00e7\u00e3o e da sua dedica\u00e7\u00e3o. A sua arte, o pensamento inspirador, a for\u00e7a de resist\u00eancia e de progresso, foram continuamente insuflados no processo europeu pelo ideal evang\u00e9lico prosseguido pelos grandes construtores da Europa. E isto foi verdade desde a queda do imp\u00e9rio romano at\u00e9 aos fundadores da Uni\u00e3o Europeia. E foi o ardor da f\u00e9 crist\u00e3 que ofereceu \u00e0 Europa o quadro cultural da sua expans\u00e3o no mundo e do di\u00e1logo inter-cultural ent\u00e3o come\u00e7ado. Os principais valores de que hoje se ufana a Europa como espa\u00e7o de liberdade, de defesa dos direitos humanos, de constru\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a, da igualdade e da paz, recebeu-os, em grande parte, desse caminhar de m\u00e3os dadas com o cristianismo. \tSabemos que houve falhas, erros, divis\u00f5es. Esse \u00e9 o repto lan\u00e7ado \u00e0s Igrejas pela Europa do futuro: n\u00e3o haver\u00e1 verdadeira unidade da Europa sem reconstru\u00e7\u00e3o da unidade entre as Igrejas crist\u00e3s e sem um di\u00e1logo l\u00facido e respeitoso com outras culturas e religi\u00f5es, que cada vez mais convivem connosco na mesma casa europeia. Mesmo quando o pensamento europeu se autonomizou, f\u00ea-lo num di\u00e1logo ou confronto dial\u00e9ctico com o cristianismo e com a vis\u00e3o crist\u00e3 do homem e da hist\u00f3ria. \tN\u00f3s os crist\u00e3os, presen\u00e7a significativa na Europa de hoje, amamos demasiadamente a Europa, para n\u00e3o sofrermos se a Europa se esquecer ou sequer silenciar esta longa caminhada de amor e sofrimento. \tNesta noite de Natal, festa do nascimento de Jesus Cristo, assumamo-nos como europeus e cidad\u00e3os do mundo e pe\u00e7amos a Deus que continue a semear no cora\u00e7\u00e3o de cada europeu, a semente evang\u00e9lica do amor, da justi\u00e7a, da fraternidade e da paz.  \tBom Natal!  \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mensagem aprofunda a rela\u00e7\u00e3o do Cristianismo com a Europa, definindo os termos em que se deve estabelecer a quest\u00e3o sobre a refer\u00eancia ao Cristianismo no pre\u00e2mbulo da Constitui\u00e7\u00e3o 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