{"id":39095,"date":"2009-06-05T09:06:35","date_gmt":"2009-06-05T09:06:35","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/06\/05\/adriano-moreira-premio-de-cultura-pe-manuel-antunes\/"},"modified":"2009-06-05T09:06:35","modified_gmt":"2009-06-05T09:06:35","slug":"adriano-moreira-premio-de-cultura-pe-manuel-antunes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/adriano-moreira-premio-de-cultura-pe-manuel-antunes\/","title":{"rendered":"Adriano Moreira, pr\u00e9mio de Cultura Pe. Manuel Antunes"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 um actor principal da Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea de Portugal. Recebe esta sexta-feira o Pr\u00e9mio de Cultura \u00c1rvore da Vida Pe. Manuel Antunes, por um percurso de cidadania e contributo pol\u00edtico e acad\u00e9mico que recorda em entrevista \u00e0 Ecclesia. <!--more--> <\/p>\n<p><strong>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA (AE)<\/strong> &#8211; No seu livro &laquo;Espuma do Tempo&raquo; afirma: &quot;A arte de esquecer a inutilidade em que se traduz a maior parte das inquieta&ccedil;&otilde;es que consomem o nosso tempo, reduz as recorda&ccedil;&otilde;es a t&atilde;o pouco que, muitas vezes, se contam num gesto, e sem palavra&quot;. Que gesto recordaria o seu contributo para a sociedade portuguesa ao longo destes anos?<br \/><strong>Adriano Moreira (AM)<\/strong> &#8211; N&atilde;o me considero um exemplo dessa capacidade de resumir tudo num gesto. No entanto, tenho a convic&ccedil;&atilde;o de que &#8211; isso corresponde &agrave; verdade &#8211; aquilo que sempre sublinhou a minha interven&ccedil;&atilde;o foi a convic&ccedil;&atilde;o do papel da Universidade na vida portuguesa. Para que tal acontecesse tive de praticar alguns gestos e, certamente, n&atilde;o foram todos agrad&aacute;veis. Tivemos dificuldades grandes no percurso, mas acho que est&aacute; suficientemente recompensado.<\/p>\n<p><strong>AE &#8211; Investiu muito dos seus recursos e esfor&ccedil;os nesse projecto.<\/strong> (<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/imgs\/icons\/mp3.gif\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" align=\"middle\" \/> <font face=\"geneva, verdana\" size=\"1\" color=\"#ff6600\"><a href=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/auds\/bo\/adrianom1.mp3\" target=\"_blank\">SOM<\/a><\/font>)<br \/><strong>AM &#8211;<\/strong> A Universidade &eacute; um compromisso de vida. A Escola Superior Colonial &#8211; onde comecei a minha vida &#8211; estava organizada como escola de quadros. Depois de ter ganho alguma experi&ecirc;ncia nesta &aacute;rea e no panorama universit&aacute;rio portugu&ecirc;s pareceu-me que t&iacute;nhamos chegado a um momento em que j&aacute; n&atilde;o era uma escola de quadros que poderia corresponder &agrave;s exig&ecirc;ncias da conjuntura que t&iacute;nhamos entrado. Era necess&aacute;rio transform&aacute;-la, realmente, numa institui&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria que obedecesse aos princ&iacute;pios, &agrave; &eacute;tica, aos objectivos e &agrave; rela&ccedil;&atilde;o da Universidade com a comunidade. Os factos, infelizmente, confirmaram que a conjuntura se agravaria. Naquele tempo, se averiguarmos a rela&ccedil;&atilde;o do Ensino Superior com problema fundamental que era o Ultramar, verificamos que o ensino era muito limitado: as Faculdades de Direito tinham uma cadeira &#8211; em geral era de um semestre &#8211; sobre administra&ccedil;&atilde;o colonial; a Agronomia tinha tamb&eacute;m uma cadeira sobre a agricultura tropical e nas escolas de Economia n&atilde;o era muito vasto o leque de mat&eacute;rias sobre esta &aacute;rea.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Essa paix&atilde;o pela transforma&ccedil;&atilde;o da escola teve consequ&ecirc;ncias negativas aos olhos daquele tempo?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; N&atilde;o digo que foram negativas, mas foram dif&iacute;ceis. Naturalmente que outras pessoas mantinham outra concep&ccedil;&atilde;o e estavam envolvidas no passado feito com devo&ccedil;&atilde;o naquele sentido. Aqui tratava-se &#8211; com maior ou menor acerto &#8211; entender que a conjuntura era completamente diferente e que a altera&ccedil;&atilde;o tinha que ser feita. A Escola passou por dificuldades muito grandes &#8211; designadamente suspens&atilde;o de cursos -, mas foram vencidas. Hoje, acho que ela desempenha um papel suficiente dentro da Universidade T&eacute;cnica.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Para al&eacute;m da educa&ccedil;&atilde;o, a quest&atilde;o colonial foi tamb&eacute;m uma das suas paix&otilde;es. A sua tese foi sobre as quest&otilde;es prisionais no Ultramar.<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; H&aacute; uma esp&eacute;cie de queda no mundo, que suponho se traduziu em duas quedas. Em primeiro lugar, a minha forma&ccedil;&atilde;o foi na Faculdade de Direito de Lisboa. Era uma ocupa&ccedil;&atilde;o muito relacionada com o Direito Positivo. A certa altura, o Almirante Sarmento Rodrigues &#8211; era Ministro do Ultramar &#8211; que tinha como subsecret&aacute;rio o Raul Ventura &#8211; uma das intelig&ecirc;ncias mais brilhantes da sua gera&ccedil;&atilde;o &#8211; pediu-me para estudar uma reforma do sistema prisional do Ultramar. Algo que n&atilde;o conhecia, ou melhor s&oacute; conhecia de livros. Fiz uma visita a todos os territ&oacute;rios de &Aacute;frica que mudou completamente a minha atitude. Verifiquei que o plano normativo portugu&ecirc;s, incluindo os grandes princ&iacute;pios constitucionais, n&atilde;o tinham uma aplica&ccedil;&atilde;o muito rigorosa nesses territ&oacute;rios.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Nessa altura &Aacute;frica entrou-lhe no sangue.<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Comecei a derivar para o estudo das quest&otilde;es sociais e menos para a capacidade da legisla&ccedil;&atilde;o ser o instrumento orientador. Indispens&aacute;vel sim, mas na vig&ecirc;ncia da &eacute;poca bastante afastado dos factos. Da&iacute; resulta todo o trajecto de reforma da Escola, modifica&ccedil;&atilde;o de curr&iacute;culos e o chamamento de jovens para o professorado &#8211; muitos deles enviados para o estrangeiro para obterem os t&iacute;tulos acad&eacute;micos &#8211; para combater um pouco o sistema arquipel&aacute;gico em que se vivia.<br \/>Depois tenho outra queda no mundo que foi a ida na delega&ccedil;&atilde;o de Portugal &agrave;s Na&ccedil;&otilde;es Unidas. A&iacute;, acentuou-se a ideia que a mudan&ccedil;a da Ordem Internacional n&atilde;o podia deixar de afectar o pa&iacute;s severamente. Foi preciso acrescentar, &agrave;s inquieta&ccedil;&otilde;es anteriores, o estudo dos desafios internacionais que n&atilde;o t&ecirc;m deixado de crescer em rela&ccedil;&atilde;o ao estatuto real do pa&iacute;s na Ordem Internacional. Neste momento &#8211; como todos sabem &#8211; est&aacute; numa crise enorme. Estas duas quedas implicaram uma mudan&ccedil;a na minha vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>MINISTRO DE SALAZAR<\/strong><\/p>\n<p><strong><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"width: 260px; height: 205px\" src=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/imgs\/bo\/adriano_m2.jpg\" alt=\"\" hspace=\"5\" width=\"260\" height=\"205\" align=\"left\" \/>AE<\/strong> &#8211; Mudan&ccedil;as radicais at&eacute; ao convite, em 1960, para Subsecret&aacute;rio de Estado do Ultramar e, posteriormente, para Ministro do Ultramar.<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Este chamamento foi um pouco surpreendente. Tinha estado nas Na&ccedil;&otilde;es Unidas e escrito relat&oacute;rios [para o Minist&eacute;rio do Ultramar] sobre o que l&aacute; se passava porque a Escola &#8211; durante bastante tempo &#8211; dependia, administrativamente, do Minist&eacute;rio do Ultramar por causa dos or&ccedil;amentos. Fui chamado porque num dos relat&oacute;rios tinha escrito que Portugal tinha evitado a condena&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas porque tinha conseguido manter o ter&ccedil;o de seguran&ccedil;a que impede a condena&ccedil;&atilde;o, mas que entre 1960\/61 a quest&atilde;o passaria para o terreno. Tudo indicava que deixaria de ser um debate puramente parlamentar. E isso aconteceu&#8230; Fui chamado para me questionarem como tinha previsto isso. Dei uma explica&ccedil;&atilde;o simples. N&atilde;o foi uma grande ci&ecirc;ncia porque vi o programa de entrada de novos pa&iacute;ses e, nessa data e com a entrada desses pa&iacute;ses, perder&iacute;amos o ter&ccedil;o. Portanto, a condena&ccedil;&atilde;o viria a&iacute;. E com esta, a legitimidade da reac&ccedil;&atilde;o poderia ser armada de acordo com a experi&ecirc;ncia que j&aacute; t&iacute;nhamos do mundo.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Entra no &laquo;mundo do poder&raquo; sem pertencer &agrave; Mocidade Portuguesa nem &agrave; Uni&atilde;o Nacional? (<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/imgs\/icons\/mp3.gif\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" align=\"middle\" \/> <font face=\"geneva, verdana\" size=\"1\" color=\"#ff6600\"><a href=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/auds\/bo\/adrianom2.mp3\" target=\"_blank\">SOM<\/a><\/font>)<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Nunca. A explica&ccedil;&atilde;o que me deram foi surpreendente. Quem me disse que o Presidente do Conselho queria falar comigo foi o pr&oacute;prio Ministro do Ultramar, Almirante Lopes Alves, uma pessoa de alta categoria intelectual e moral. Era meu amigo porque dependia dele no ponto de vista administrativo na escola. Ele estava seriamente doente e com um problema pr&oacute;prio de um oficial. Entendia que, apesar do seu estado de sa&uacute;de, tinha que ir a Angola. Tinha sido governador e n&atilde;o queria dar a impress&atilde;o que era o facto de aparecer aquela crise que o estava a afastar. Toda a gente compreendeu isso. No fundo, fui ajud&aacute;-lo nesse per&iacute;odo de transi&ccedil;&atilde;o que ele fez com grande galhardia. Saiu passados poucos meses. Fui nomeado ministro pelas informa&ccedil;&otilde;es &#8211; o fundamento &eacute; curioso &#8211; que o Presidente do Conselho tinha sobre as minhas criticas muito severas ao processo administrativo e pol&iacute;tico que estava em vigor para o Ultramar. Como tive sempre o h&aacute;bito de escrever as li&ccedil;&otilde;es, as cr&iacute;ticas n&atilde;o eram secretas. Convidou-me para executar &laquo;essas coisas que anda a dizer&raquo;.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Estava em sintonia com o Estado Novo?<br \/><strong>AM <\/strong>&#8211; O que houve foi um julgamento sobre a crise que, subitamente, desafiou toda a estrutura. Aquilo que me pediam para fazer era uma ruptura que foi feita, em muitos aspectos, sem grande continuidade. N&atilde;o existia, nas inst&acirc;ncias dessa altura, a no&ccedil;&atilde;o de que o racismo estava a ser o dinamizador &#8211; mais importante talvez &#8211; da revolta contra os poderes coloniais. Na primeira defini&ccedil;&atilde;o do Estatuto dos Ind&iacute;genas havia a debilidade de come&ccedil;ar a identific&aacute;-los por serem da ra&ccedil;a negra. Revogar o Estatuto dos Ind&iacute;genas era fundamental&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REFORMAS QUE ABALARAM O PODER<\/strong><\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; &laquo;Revogar o Estatuto dos Ind&iacute;genas&raquo; e a &laquo;aboli&ccedil;&atilde;o das culturas obrigat&oacute;rias&raquo; foram medidas tomadas enquanto foi Ministro do Ultramar.<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Sim, mas n&atilde;o foi f&aacute;cil. Se revogamos o estatuto dos ind&iacute;genas estamos a dizer que todas as etnias e culturas subordinadas ao Estado Portugu&ecirc;s t&ecirc;m um tra&ccedil;o que &eacute; este: a cidadania &eacute; igual para todos. Se &eacute; igual para todos, n&atilde;o &eacute; compat&iacute;vel com culturas obrigat&oacute;rias. Destas, a do algod&atilde;o era a mais importante. Por outro lado, foi necess&aacute;rio fazer um C&oacute;digo de Trabalho. Foi das interven&ccedil;&otilde;es que achei mais gratificantes porque as inst&acirc;ncias internacionais duvidaram disso. Nesse tempo, o BIT era uma inst&acirc;ncia de alta autoridade e organizou uma comiss&atilde;o para verificar se essa lei estava a ser aplicada com autenticidade. H&aacute; um relat&oacute;rio dos membros do BIT onde se afirma que estava a ser feita com autenticidade.<br \/>Outra coisa fundamental passava pela salvaguarda das terras. H&aacute; um regime relativo &agrave;s terras para salvaguard&aacute;-las dessas comunidades. Ter uma cidadania igual com um complexo de culturas diferenciadas &eacute; um trabalho que exige muita autenticidade. Mas a revolta e as circunst&acirc;ncias agravaram-se. H&aacute; uma quest&atilde;o nas reformas que &eacute; muito s&eacute;ria, sobretudo em regimes de autoridade: a defesa da sede do poder &eacute; um trav&atilde;o, muitas vezes, &agrave; evolu&ccedil;&atilde;o. Realmente, essas reformas coincidiram &#8211; n&atilde;o digo que fossem a causa directa &#8211; num abalo muito s&eacute;rio da sede do poder. <\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Estas reformas levaram &agrave; sua demiss&atilde;o em 1963. Sentia oposi&ccedil;&atilde;o de alguns sectores na aplica&ccedil;&atilde;o dessas remodela&ccedil;&otilde;es?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Isso &eacute; natural. N&atilde;o era isso que me afligia por desagrad&aacute;vel que tenha sido (risos&#8230;). Tenho a impress&atilde;o que em Portugal a &uacute;nica institui&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica duradoura que atravessou todos os regimes &eacute; o parlamento dos murm&uacute;rios. Nesse parlamento quem se mete em reformas tem de estar pronto para os murm&uacute;rios. Quando as reformas abalam a sede do poder, a sede reage e esse foi o caso. O Presidente do Conselho disse-me &laquo;que nunca colocou qualquer objec&ccedil;&atilde;o &agrave;s reformas &#8211; foi para isso que o convidei -, mas, neste momento, tenho que reconhecer que est&aacute; a abalar a minha capacidade de continuar a controlar o governo. Portanto, temos que mudar de pol&iacute;tica&raquo;. E respondi-lhe: &laquo;acaba de mudar de ministro&raquo;. Eu n&atilde;o poderia mudar de atitude e desconhecer o entendimento que tinha da evolu&ccedil;&atilde;o que estava em curso.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; At&eacute; esse momento ia sentindo que o progressivo envolvimento das suas propostas poderiam dar-lhe, a curto prazo, outras responsabilidades, como ser o sucessor de Ant&oacute;nio de Oliveira Salazar?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; N&atilde;o. Aquilo que verificava &eacute; que o exerc&iacute;cio n&atilde;o ia durar muito tempo.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Nunca se considerou &laquo;delfim&raquo; do Presidente do Conselho?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; N&atilde;o. Sempre fui protegido pela lucidez.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Mas foi apontado&#8230;.<br \/><strong>AM <\/strong>&#8211; Isso &eacute; a opini&atilde;o p&uacute;blica, mas n&atilde;o posso ignorar.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Foram estas reformas que levaram a isso&#8230;.<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Sobretudo nos territ&oacute;rios ultramarinos. N&atilde;o posso ignorar esses coment&aacute;rios, alguns foram escritos. No entanto digo que nunca me considerei com experi&ecirc;ncia e habilita&ccedil;&atilde;o para tomar essa responsabilidade.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Mas sentia que tinha experi&ecirc;ncia para mudar o estado das coisas na altura?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Aproxim&aacute;vamo-nos daquilo que se chama o pensamento complexo, mas neste momento &eacute; muito mais evidente.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Mesmo para a mudan&ccedil;a de regime como aconteceu em 1974?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Julgo que poderia ser diferente, mas sempre com a tal reserva. Julgo que h&aacute; uma interpreta&ccedil;&atilde;o um pouco exagerada de supor que as tropas foram para &Aacute;frica convencidas que iam ganhar a guerra. N&oacute;s t&iacute;nhamos e continuamos a ter uma intelig&ecirc;ncia nas For&ccedil;as Armadas que &eacute; s&oacute;lida. T&iacute;nhamos oficiais que sabiam perfeitamente o que se estava a passar no mundo. Eles sabiam que essas guerras n&atilde;o se ganham&#8230; O compromisso foi de que eles iam ganhar o tempo necess&aacute;rio para que uma solu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica pudesse ser estruturada e eficaz. Eles deram o tempo, mas a situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica tornou-se invi&aacute;vel e cada vez mais dif&iacute;cil &agrave; medida que a conjuntura internacional se agravava e modificava. (<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/imgs\/icons\/mp3.gif\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" align=\"middle\" \/> <font face=\"geneva, verdana\" size=\"1\" color=\"#ff6600\"><a href=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/auds\/bo\/adrianom3.mp3\" target=\"_blank\">SOM<\/a><\/font>)<br \/>Em 1974, o que aconteceu foi &#8211; em primeiro lugar &#8211; decidir acabar a guerra. O plano de descoloniza&ccedil;&atilde;o foi constru&iacute;do depois. Isso &eacute; talvez respons&aacute;vel pelo passivo que teve a descoloniza&ccedil;&atilde;o. Parece n&atilde;o ter ocorrido a ningu&eacute;m que era necess&aacute;rio ter feito intervir as Na&ccedil;&otilde;es Unidas porque o conflito que havia era com as Na&ccedil;&otilde;es Unidas, elas &eacute; que tinham a experi&ecirc;ncia, responsabilidade e a autoridade. Provavelmente &#8211; nunca podemos passar desses ju&iacute;zos &#8211; se isso tivesse sido feito, o passivo do que foi a descoloniza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o teria sido t&atilde;o pesado. Repare-se que a nossa guerra de Angola durou 13 anos e a guerra civil deles durou 18 anos. Aconteceu o mesmo em Mo&ccedil;ambique. Portanto, algu&eacute;m esteve interessado em manter a guerra. Diria que a luta pelas influ&ecirc;ncias e supremacias imediatamente se desenvolveu para al&eacute;m do ponto final posto na guerra. <\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Quem estava interessado em manter essas guerras?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; As grandes pot&ecirc;ncias. Passados poucos meses desembarcaram os soldados que vinham de Cuba. Desembarcaram trazidos por avi&otilde;es da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica. N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil imaginar do que se tratava&#8230; Devemos ter em conta que aquela ordem mundial que tinha o seu assento no conselho de seguran&ccedil;a nunca vigorou. A ordem que vigorou foi a dos pactos militares durante 50 anos. <\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Acredita que se o seu plano de reformas para &Aacute;frica tivesse sido aplicado, actualmente existiria outra estabilidade naquele continente?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; &Eacute; um ju&iacute;zo que n&atilde;o vale muito a pena fazer. Estava nos projectos. &Eacute; imposs&iacute;vel &#8211; n&atilde;o &eacute; &uacute;til sequer &#8211; imaginarmos como a vida seria diferente.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; No entanto sabemos que o que foi feito n&atilde;o resultou? (<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/imgs\/icons\/mp3.gif\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" align=\"middle\" \/> <font face=\"geneva, verdana\" size=\"1\" color=\"#ff6600\"><a href=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/auds\/bo\/adrianom4.mp3\" target=\"_blank\">SOM<\/a><\/font>)<br \/><strong>AM <\/strong>&#8211; &Aacute;frica foi grande sacrificada com tudo isto. Mas n&atilde;o foi somente nos territ&oacute;rios portugueses. Veja-se o caso da Arg&eacute;lia, Sud&atilde;o e corno de &Aacute;frica. Ainda hoje, a inquieta&ccedil;&atilde;o &eacute; muito grande em &Aacute;frica. Est&aacute; a pagar o pre&ccedil;o dur&iacute;ssimo com alguns aspectos inquietantes. N&atilde;o se consegue acabar com o com&eacute;rcio das armas ligeiras. A Comiss&atilde;o Nacional Justi&ccedil;a e Paz insiste nisso todos os anos. Quando se v&ecirc; as fotografias daqueles desastres &#8211; alguns s&atilde;o genoc&iacute;dios -, os soldados t&ecirc;m sempre armas modernas que o pa&iacute;s dele n&atilde;o produz. Essas armas s&atilde;o todas produzidas em sociedades avan&ccedil;adas. <\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AMIZADE COM O BISPO DA BEIRA<\/strong><\/p>\n<p><strong><img decoding=\"async\" style=\"width: 257px; height: 192px\" src=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/imgs\/bo\/adriano_m1.jpg\" alt=\"\" hspace=\"5\" width=\"257\" height=\"192\" align=\"right\" \/>AE<\/strong> &#8211; As suas reformas para &Aacute;frica eram apoiadas por alguns elementos da Igreja, nomeadamente D. Sebasti&atilde;o Soares de Resende, bispo da Beira (Mo&ccedil;ambique).<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Segui muito a vida dele, mesmo antes de o conhecer. As homilias dele mereciam ser lidas e mereciam uma medita&ccedil;&atilde;o. Teve conflitos constantes com o governo e morreu em querela judicial com o governo. <br \/>Algumas coisas que D. Sebasti&atilde;o Soares de Resende desejou e vaticinou durante anos e anos, eu pude faz&ecirc;-las. Uma delas foi a cria&ccedil;&atilde;o do ensino universit&aacute;rio. Ele pedia isso h&aacute; vinte anos e guardei o an&uacute;ncio para a cidade da Beira. Nesta cidade &#8211; numa assembleia convocada pela Associa&ccedil;&atilde;o Comercial &#8211; fiz este an&uacute;ncio que lhe deu uma alegria enorme. <br \/>Nessa altura j&aacute; tinha sido revogado o &laquo;Estatuto dos Ind&iacute;genas&raquo;, mas recordo que ele &#8211; era muito franco e animado no di&aacute;logo &#8211; me disse que a revoga&ccedil;&atilde;o j&aacute; tinha seis meses, mas n&atilde;o tinha tido uma aplica&ccedil;&atilde;o muito r&aacute;pida. Disse-lhe: &laquo;Aquela lei de que o senhor &eacute; respons&aacute;vel diga-me a que velocidade vai a aplica&ccedil;&atilde;o para ver se o acompanho&raquo; (Risos)<\/p>\n<p><strong>AE <\/strong>&#8211; Posteriormente, tornaram-se amigos&#8230;<br \/><strong>AM <\/strong>&#8211; Fic&aacute;mos amigos. A pen&uacute;ltima vez &#8211; isto emociona-me &#8211; que o vi foi em Roma, no II Conc&iacute;lio do Vaticano. Nessa altura, j&aacute; estava muito fr&aacute;gil. Parecia uma vela do altar que d&aacute; luz e vai morrendo. <br \/>D. Sebasti&atilde;o foi &agrave; Su&eacute;cia verificar o seu estado de sa&uacute;de. Veio de l&aacute; com o diagn&oacute;stico irremedi&aacute;vel, com poucos meses de vida. Descansou em Lisboa, no Hospital do Ultramar. Ao visit&aacute;-lo, com o Pe. Silva Rego, notei que ele estava extremamente d&eacute;bil. Nessa visita pediu para que as pessoas sa&iacute;ssem, ficando apenas eu e o Pe. Silva Rego. Deu-me v&aacute;rios conselhos e aconselhou-me algumas leituras: tem de voltar a ler Teillard de Chardin e S. Tom&aacute;s de Aquino.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; &laquo;Leia Teillard de Chardin e n&atilde;o desista&raquo; foi um conselho&#8230;.<br \/><strong>AM <\/strong>&#8211; &Eacute; verdade. Disse-me para n&atilde;o ter pressa porque o tempo faz falta. (Nessa altura est&aacute;vamos extremamente comovidos). Referiu tamb&eacute;m que estava com pressa de regressar &agrave; diocese porque quero ir vivo &#8211; &eacute; mais econ&oacute;mico &#8211; para morrer em Mo&ccedil;ambique. O funeral dele uma manifesta&ccedil;&atilde;o ecum&eacute;nica extraordin&aacute;ria. Estiveram representa&ccedil;&otilde;es de todas as cren&ccedil;as.<br \/>Em 1966 fui a um congresso na Beira e aproveitei para ir ao cemit&eacute;rio. Ele queria ser enterrado no caminho&#8230; N&atilde;o se podia passar por cima porque este estava cheio de flores. D. Sebasti&atilde;o Soares de Resende manteve uma imagem e uma mem&oacute;ria muito viva. Tenho um desgosto enorme porque havia um livro na catedral &#8211; o livro do &laquo;Povo de Deus&raquo; &#8211; onde as pessoas escreviam as suas lamenta&ccedil;&otilde;es e preces. Esse livro desapareceu. Mesmo assim consegui reunir alguns documentos e trabalhos mais importantes dele, com ajuda de outras pessoas, incluindo o sobrinho, e reuniu-os num volume: &laquo;D. Sebasti&atilde;o de Resende &#8211; Profeta em Mo&ccedil;ambique&raquo;. Levei esse livro ao Papa Jo&atilde;o Paulo II que ficou comovido quando ouviu a hist&oacute;ria de vida do bispo e a maneira como morreu. Na altura recebi um convite para ser o orador da inaugura&ccedil;&atilde;o da est&aacute;tua de D. Sebasti&atilde;o Soares de Resende, em Milheiros de Poiares (Santa Maria da Feira).<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Escreveu tamb&eacute;m o &laquo;Tempo de V&eacute;speras&raquo; dedicado a D. Sebasti&atilde;o S. Resende?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Ele tinha um jornal que sustentava com grandes dificuldades. Ap&oacute;s a morte dele, alguns quiseram comprar o jornal, mas a diocese teve a preocupa&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o deixar que o &laquo;esp&iacute;rito&raquo; do jornal fosse alterado. Fui convidado a escrever cr&oacute;nicas para o jornal que est&atilde;o publicadas em &laquo;Tempo de V&eacute;speras&raquo;. Foi um estilo que nunca mais usei&#8230; Gostei de publicar e dedicar-lhe o livro porque deveria fazer alguma coisa pela sua mem&oacute;ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>RUMO &Agrave;S DEMISS&Otilde;ES<\/strong><\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Ap&oacute;s a sua sa&iacute;da de Ministro do Ultramar come&ccedil;am a surgir os problemas?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Apareceram problemas na escola. O encerramento desta afectou a vida de centenas de estudantes, mas tivemos manifesta&ccedil;&otilde;es de apoio das fam&iacute;lias e das institui&ccedil;&otilde;es universit&aacute;rias. Mais uma vez tive que ser demitido&#8230; Fiz um pequeno discurso &#8211; foi gravado e distribu&iacute;do &#8211; onde terminava da seguinte forma: as autoridades acad&eacute;micas neste pa&iacute;s s&atilde;o da confian&ccedil;a do governo. Eu sou autoridade acad&eacute;mica, mas a confian&ccedil;a tem de ser rec&iacute;proca. Quando cheguei a casa j&aacute; estava demitido.<\/p>\n<p><strong>AE <\/strong>&#8211; Foi o maior desgosto da sua vida<br \/><strong>AM <\/strong>&#8211; Nessa altura foi. Senti que ficava em perigo o projecto, mas este j&aacute; tinha corpo e alma e funcionou at&eacute; 1974, onde atravessou uma nova crise. Era natural que atravessasse porque todo o sistema educativo atravessou.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Passou de &quot;poss&iacute;vel sucessor&quot; de Salazar a &laquo;persona non grata&raquo; do Estado Novo? (<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/imgs\/icons\/mp3.gif\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" align=\"middle\" \/> <font face=\"geneva, verdana\" size=\"1\" color=\"#ff6600\"><a href=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/auds\/bo\/adrianom5.mp3\" target=\"_blank\">SOM<\/a><\/font>)<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Nunca me ocorreu isso. Nunca ningu&eacute;m me contactou para isso. Nunca tive nenhum movimento pol&iacute;tico. Quando foi o &laquo;desastre da queda da cadeira&raquo; estava numa miss&atilde;o no Brasil. L&aacute; fiquei&#8230; N&atilde;o achei que era comigo. No entanto, n&atilde;o ignoro os coment&aacute;rios e &laquo;as coisas&raquo; ditas, mesmo depois da revolu&ccedil;&atilde;o de 1974. N&atilde;o ignoro, mas n&atilde;o posso assumir isso.<\/p>\n<p><strong>AE <\/strong>&#8211; A &laquo;Primavera Marcelista&raquo; tamb&eacute;m lhe causou alguns dissabores?<br \/><strong>AM &#8211; <\/strong>N&atilde;o foi t&atilde;o grave assim.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Chegou a ir para o Brasil.<br \/><strong>AM <\/strong>&#8211; Ia muito ao Brasil porque tinha grande intimidade com esse pa&iacute;s. Corri o Brasil de Norte a Sul, mas n&atilde;o est&aacute; relacionado com a &laquo;crise marcelista&raquo;.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Essa paix&atilde;o pela educa&ccedil;&atilde;o gerou alguns problemas de relacionamento com Marcelo Caetano e Jos&eacute; Hermano Saraiva. &laquo;&Oacute;dios&raquo; existentes ou j&aacute; est&atilde;o esquecidos?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; N&atilde;o posso falar por eles (risos&#8230;). Acho que nunca tive sentimentos desses. No incidente com Marcelo Caetano, muita gente sustentava que ele n&atilde;o tinha tido parte nisso que n&atilde;o sabia. Custa-me a aceitar isso&#8230; Ningu&eacute;m se atreveria a praticar um acto daqueles &#8211; provocou uma agita&ccedil;&atilde;o enorme na universidade &#8211; sem o conhecimento do Primeiro-Ministro. Atribuo isso ao estado esp&iacute;rito dele. Toda a gente sabe que ele viveu esse per&iacute;odo cheio de inquieta&ccedil;&otilde;es. Suponho que Marcelo Caetano viveu um drama: ele era um dos respons&aacute;veis por toda a estrutura anterior, visto que era um doutrinador. <br \/>Ele viveu o drama de olhar para os princ&iacute;pios que sempre defendeu &#8211; e os seus valores &#8211; e o que a sua intelig&ecirc;ncia lhe dizia sobre a sua mudan&ccedil;a. Neste conflito que n&atilde;o teve toler&acirc;ncia de muita gente que o acompanhou &#8211; convencida que ele iria fazer altera&ccedil;&otilde;es &#8211; foi grave na vida de um homem. Subitamente, ele v&ecirc;-se na responsabilidade de ser ele a alterar tudo isso. Julgo, que este foi, efectivamente, o drama dele&#8230; No meio desta perplexidade aconteceu isto. No entanto, olho para isto com benevol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>NUNCA FUI MARXISTA<\/strong><\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Permita-me a provoca&ccedil;&atilde;o, mas gostaria de saber se foi marxista quando era jovem?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Nunca.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; H&aacute; um historiador que escreveu&#8230;<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; N&atilde;o leio muito Freire Antunes, mas tenho que dizer o seguinte: quando comecei as reformas, naturalmente foi muito inesperado como aparecia aquele jovem a fazer estas coisas. Devo dizer que quem sofreu mais com isso foi a minha m&atilde;e. Os telefonemas que ela recebia foram extraordin&aacute;rios e passei a ser logo marxista (risos&#8230;). Quem defende o trabalho obrigat&oacute;rio &eacute; logo marxista. Posteriormente, tiveram afirma&ccedil;&otilde;es menos &laquo;vermelha&raquo; e mais brancas (Ma&ccedil;onaria) porque havia pessoas, Sarmento Rodrigues e o Carvalho Santos &#8211; s&oacute; soube isso depois de eles morrerem &#8211; que estavam ligadas &agrave; Ma&ccedil;onaria. Assiste-se, com frequ&ecirc;ncia, ao ataque da credibilidade das pessoas. <\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Consta tamb&eacute;m que era o &uacute;nico membro do governo que n&atilde;o beijava a m&atilde;o do Cardeal Cerejeira. &Eacute; verdade ou lenda?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; N&atilde;o sei se havia algu&eacute;m encarregado de verificar isso. Cada vez que via o Cardeal Cerejeira cumpria o ritual que, hoje, j&aacute; anda bastante morto de beijar o anel nas cerim&oacute;nias. Tive uma excelente rela&ccedil;&atilde;o com o cardeal Cerejeira e at&eacute; foi presidir a confer&ecirc;ncias feitas por mim, nomeadamente em Coimbra sobre as miss&otilde;es. &Eacute; interessante como as pessoas acham que devem observar factos t&atilde;o fundamentais na vida dos povos.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Como acompanhou o processo de D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes e o Pr&oacute;-mem&oacute;ria a Salazar? (<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/imgs\/icons\/mp3.gif\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" align=\"middle\" \/> <font face=\"geneva, verdana\" size=\"1\" color=\"#ff6600\"><a href=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/auds\/bo\/adrianom6.mp3\" target=\"_blank\">SOM<\/a><\/font>)<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Hoje tem uma leitura &agrave; dist&acirc;ncia que &eacute; diferente daquela que foi feita na altura. Foi um problema de rela&ccedil;&atilde;o com Salazar com o clero porque ele tinha um anti-clericalismo do norte. Explico: n&atilde;o devem meter-se nas coisas da pol&iacute;tica, mas quem julgava se a intromiss&atilde;o era na pol&iacute;tica ou n&atilde;o era ele. Podia ter um erro de julgamento. &Eacute; bem prov&aacute;vel que tenha tido esse erro. <br \/>D. Sebasti&atilde;o Soares de Resende era muito pr&oacute;ximo de D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes e, pelas minhas recorda&ccedil;&otilde;es, &#8211; n&atilde;o tinha uma grande interven&ccedil;&atilde;o no Estado &#8211; o problema situava-se no relacionamento que ele achava exig&iacute;vel &agrave; Igreja. A publicidade dada &agrave; entrevista que ele pedia feria os seus crit&eacute;rios&#8230; O que D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes sustentava n&atilde;o era muito diferente do que sustentava D. Sebasti&atilde;o Soares de Resende ou daquilo que defendia D. Eurico Dias Nogueira, na &laquo;Carta Fraterna&raquo;, em Mo&ccedil;ambique.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Que raz&otilde;es substanciais o colocaram, novamente, na pol&iacute;tica activa nas d&eacute;cadas seguintes?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Quando me abordaram n&atilde;o foi f&aacute;cil dizer logo que iria participar. Eram pessoas que ouvia, designadamente o Adelino Amaro da Costa. O pai dele foi meu subsecret&aacute;rio e conhecia-o de muito jovem. N&atilde;o posso esquecer tamb&eacute;m o Freitas do Amaral e o Narana Coissor&oacute; que foi o grande l&iacute;der dos estudantes na crise do Instituto. Pareceu-me que era uma obriga&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica, mas n&atilde;o era f&aacute;cil. Pensei que n&atilde;o era recus&aacute;vel e est&aacute; de acordo com o princ&iacute;pio que tenho: quem reforma o Estado &eacute; a sociedade civil. Esta &eacute; que tem de se manifestar e assumir responsabilidades. A responsabilidade c&iacute;vica tem de ser assumida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>DO ESTADO NOVO A L&Iacute;DER DA DEMOCRACIA CRIST&Atilde;<\/strong><\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Foi o &uacute;nico que fez parte do &laquo;Estado Novo&raquo; e chegou a l&iacute;der partid&aacute;rio.<br \/><strong>AM <\/strong>&#8211; &Eacute; poss&iacute;vel que mais ningu&eacute;m tenha tentado. Se os melhores tivessem tentado talvez isso n&atilde;o tivesse acontecido (risos&#8230;) porque me teriam dispensado desse encargo.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; &Eacute; excesso de humildade ou &eacute; o seu franciscanismo?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; N&atilde;o &eacute; o franciscanismo. Acredito nessa regra: senta-te no fim da mesa e espera que te chamem. A pessoa &#8211; isto &eacute; uma das coisas importantes de Manuel Antunes &#8211; deve ter o eixo da roda firme. <\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Aderiu ao CDS para ter mais uma tribuna para dar voz &agrave; Doutrina Social da Igreja? (<strong><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/imgs\/icons\/mp3.gif\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" align=\"middle\" \/> <font face=\"geneva, verdana\" size=\"1\" color=\"#ff6600\"><a href=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/auds\/bo\/adrianom7.mp3\" target=\"_blank\">SOM<\/a><\/font><\/strong>)<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Sim. Estamos numa &eacute;poca onde o relativismo est&aacute; a abalar toda a sociedade ocidental, mas quem organizou a Europa foi a democracia crist&atilde;. Os tr&ecirc;s grandes l&iacute;deres fundamentais (Fran&ccedil;a, Alemanha e It&aacute;lia) eram democratas crist&atilde;os. Portanto, esse apelo era fundamental. &Eacute; inquietante que a democracia crist&atilde; tenha desaparecido do panorama pol&iacute;tico europeu. Lamento a recusa que foi feita de fazer refer&ecirc;ncia a essa heran&ccedil;a no projecto constitucional europeu, que agora se chama &laquo;Tratado de Lisboa&raquo;.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; A democracia crist&atilde; est&aacute; fora da ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; N&atilde;o pode estar porque n&atilde;o &eacute; o nome que importa. Na discuss&atilde;o que, hoje, &eacute; cada vez maior da reposi&ccedil;&atilde;o da &eacute;tica, continuam os valores que a democracia crist&atilde; tinha assimilado. N&atilde;o s&atilde;o os valores que est&atilde;o em causa. As forma&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas &eacute; que perderam essa defini&ccedil;&atilde;o fundamental.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Acredita que os valores da democracia crist&atilde; est&atilde;o l&aacute;?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; N&atilde;o identificados dessa maneira. Na Europa existem dois humanismos em concorr&ecirc;ncia, mas com alguns pontos que se cruzam: humanismo crist&atilde;o e o humanismo do socialismo democr&aacute;tico. No entanto, n&atilde;o h&aacute; vantagem, n&atilde;o &eacute; &uacute;til e n&atilde;o corresponde aos factos ignorar que est&atilde;o l&aacute; esses valores. Julgo que a reposi&ccedil;&atilde;o desses valores &eacute; necess&aacute;ria. H&aacute; um fen&oacute;meno &#8211; parece-me bem documentado &#8211; que est&aacute; a diminuir a declara&ccedil;&atilde;o de perten&ccedil;a a uma religi&atilde;o institucionalizada, mas o apelo &agrave; transcend&ecirc;ncia est&aacute; a aumentar. As pessoas t&ecirc;m de pensar nisto com seriedade&#8230;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Mesmo com o avan&ccedil;o do Isl&atilde;o?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Temos de ver se a prega&ccedil;&atilde;o de Jo&atilde;o Paulo II nos ajuda a repor aquilo que chamei: &laquo;A Nova Doutrina de Assis&raquo;. A diaboliza&ccedil;&atilde;o do Isl&atilde;o n&atilde;o &eacute; aconselhada pelos factos, nem pelos interesses do desenvolvimento da sociedade ocidental. Actualmente, j&aacute; temos 18 milh&otilde;es de mu&ccedil;ulmanos que vieram para ficar. Tudo o que &eacute; a diaboliza&ccedil;&atilde;o de uma &aacute;rea cultural e de cren&ccedil;a &eacute; extremamente errado.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Falou de Jo&atilde;o Paulo II, mas o seu Papa de refer&ecirc;ncia foi Jo&atilde;o XXIII?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Jo&atilde;o Paulo II tamb&eacute;m. Jo&atilde;o XXIII foi um acontecimento porque ele &laquo;ouviu&raquo; vozes. O II Conc&iacute;lio do Vaticano aconteceu-lhe, como acontece aos poetas. Um voz disse-lhe: &laquo;fa&ccedil;a o Conc&iacute;lio&raquo;. Mas tenho de sublinhar que Jo&atilde;o Paulo II &eacute; insubstitu&iacute;vel: o carisma e a capacidade de mobilizar multid&otilde;es. Foi talvez dos papas que mais escreveu. Sem esquecer a import&acirc;ncia que teve para a reunifica&ccedil;&atilde;o da Europa. <br \/>Tive a felicidade de estar com ele tr&ecirc;s vezes, mas h&aacute; uma imagem que guardo: as cerim&oacute;nias f&uacute;nebres. Os evangelhos em cima do caix&atilde;o e a brisa a folhe&aacute;-los&#8230; Uma imagem que ningu&eacute;m pensou, mas os factos criaram aquela imagem.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Passou cerca de 40 anos no Instituto Naval de Guerra&#8230; Foi a&iacute; que fez as primeiras li&ccedil;&otilde;es de Pol&iacute;tica Internacional?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Foram publicadas no tempo. Depois deram origem &agrave; teoria que est&aacute; ainda em circula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Que espa&ccedil;o dava ao Direito Natural?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; &Eacute; uma matriz que faz falta. Justamente n&atilde;o pode haver valores crist&atilde;os sem assumir o Direito Natural. Faz parte do eixo da roda&#8230;. Insisto sempre nesta quest&atilde;o: na ordem jur&iacute;dica internacional &#8211; hoje est&aacute; numa crise enorme &#8211; o legado fundamental &eacute; de te&oacute;logos juristas. H&aacute; uma s&eacute;rie de te&oacute;logos juristas que est&atilde;o na raiz do Direito Internacional. <\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; V&ecirc; na diplomacia do Vaticano um grande contributo nesta &aacute;rea?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; A diplomacia do Vaticano usa um poder que outras entidades j&aacute; usam: o poder dos sem poder. &Eacute; o poder da raz&atilde;o, da persuas&atilde;o, da razoabilidade&#8230; A razoabilidade &eacute; a arte do estadista e da boa diplomacia. <\/p>\n<p><strong><br \/>UM PR&Eacute;MIO: UMA B&Ecirc;N&Ccedil;&Atilde;O<\/strong><\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Qual a reac&ccedil;&atilde;o inicial ao saber que era o galardoado com o &laquo;Pr&eacute;mio Manuel Antunes&raquo; deste ano?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Quem me comunicou foi o actual bispo do Porto, D. Manuel Clemente. S&oacute; lhe disse uma coisa: obrigado pela b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o. Primeiro comoveu-me e foi absolutamente inesperado este galard&atilde;o. H&aacute; muita generosidade nessa decis&atilde;o. N&atilde;o deixa de ser reconfortante que a pessoa seja distinguida sob a &eacute;gide da lembran&ccedil;a do Pe. Manuel Antunes. <\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Teve contactos directos com o Pe. Manuel Antunes?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; N&atilde;o. Assisti a confer&ecirc;ncias dele, mas n&atilde;o tive nenhuma intimidade com ele. H&aacute; uma coisa fundamental &#8211; entre todas que ele fez &#8211; ocorrida depois de 1974: virou-se para a sociedade civil. Teve a no&ccedil;&atilde;o que a sociedade civil tinha que ser mobilizada e o tecido dos valores culturais tinha de ser refor&ccedil;ado. Nisso, ele foi incans&aacute;vel. Quando vemos os coment&aacute;rios que ele fazia &#8211; quase em cima dos acontecimentos &#8211; verificamos que era preciso ter uma forma&ccedil;&atilde;o e uma aten&ccedil;&atilde;o &agrave; informa&ccedil;&atilde;o para ter aquela capacidade de, quase diariamente, escrever e dar respostas aos desafios que apareciam. <br \/>Por isso, a obra &eacute; t&atilde;o extensa e, felizmente, est&aacute; a ser publicada. <\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Sem esquecer os textos assinados com pseud&oacute;nimos<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; &Eacute; verdade. A Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian faz um grande servi&ccedil;o ao publicar as obras completas deste jesu&iacute;ta. J&aacute; tive a ocasi&atilde;o de recomendar ao Governo para que lesse as obras.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Ao governo actual?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Sim, no Conselho Nacional da Educa&ccedil;&atilde;o (CNE) onde estavam alguns ministros. H&aacute; muita coisa nesta reforma no Ensino Superior que merece algumas reservas. H&aacute; um princ&iacute;pio do Manuel Antunes &#8211; um princ&iacute;pio de crist&atilde;os &#8211; que a vida &eacute; um passado com futuro. &Eacute; erro pensar que &eacute; um futuro sem passado. O ensino tamb&eacute;m &eacute; um passado com futuro. A universidade &eacute; um passado com futuro. Nesse encontro do CNE recomendei as obras do Pe. Manuel Antunes ao governo. <\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Um dia D. Sebasti&atilde;o Soares de Resende disse-lhe: &laquo;Releia Teillard de Chardin e n&atilde;o desista&raquo;. O Pe. Manuel Antunes foi um dos principais divulgadores deste autor em Portugal.<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; O Pe. Manuel Antunes foi o primeiro a levar Teillard de Chardin para a Universidade. No meu Instituto organizaram-se os primeiros debates p&uacute;blicos sobre Teillard de Chardin e um dos organizadores foi o doutor Almerindo Le&ccedil;a. H&aacute; um testemunho grandioso que o Almerindo deixou sobre o Teillard de Chardin: &laquo;N&atilde;o sei quantas pessoas acompanharam a interven&ccedil;&atilde;o do autor, mas n&atilde;o duvido que muitos regressaram ao cristianismo pela voz dele. Eu sou um deles&raquo;. <br \/>H&aacute; uma coisa curiosa, Teillard de Chardin morreu em Nova Iorque e foi acompanhado ao cemit&eacute;rio por 12 amigos. Talvez um n&uacute;mero auspicioso. <\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"width: 279px; height: 202px\" src=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/imgs\/bo\/adriano_m3.jpg\" alt=\"\" hspace=\"5\" width=\"279\" height=\"202\" align=\"left\" \/>AE<\/strong> &#8211; Identifica-se com o Pr&eacute;mio Manuel Antunes?<br \/><strong>AM <\/strong>&#8211; identifico-me com muita mod&eacute;stia porque o Pe. Manuel Antunes foi um professor com prest&iacute;gio, audi&ecirc;ncia e autoridade. Um professor fenomenal. Aquilo que muitos chamam a dispers&atilde;o n&atilde;o &eacute; a dispers&atilde;o do eixo da roda. &Eacute; a necessidade de tentar entender a complexidade que anda &agrave; volta e que o leva &agrave;quela interven&ccedil;&atilde;o quase di&aacute;ria. Isto tem um resultado evidente: ajuda a sustentar a esperan&ccedil;a. <\/p>\n<p><strong>AE <\/strong>&#8211; Ele via para al&eacute;m do tempo?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Sim. Foi um vision&aacute;rio.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Outro parceiro desses valores foi Agostinho da Silva?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Sim. Naturalmente com percep&ccedil;&otilde;es diferentes. O Agostinho da Silva acreditava em Joaquim Fiora e nos tr&ecirc;s est&aacute;dios da evolu&ccedil;&atilde;o: &eacute;poca do Pai, do Filho e do Esp&iacute;rito Santo. Agostinho da Silva tinha uma concep&ccedil;&atilde;o do Quinto Imp&eacute;rio que n&atilde;o tem sido muito bem entendida. O Quinto Imp&eacute;rio era a sobreviv&ecirc;ncia dos valores portugueses que manteriam unidos os povos. Agostinho da Silva queria fazer uma sementeira de Centros de Estudo onde tivesse passado a soberania ou a evangeliza&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>PORTUGAL UM ESTADO EX&Iacute;GUO<\/strong><\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; O Ensino Superior corre o risco de ser submetido &agrave; l&oacute;gica de mercado?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; De alguma maneira j&aacute; est&aacute; remetido. Em Fran&ccedil;a, a popula&ccedil;&atilde;o est&aacute; na rua a manifestar-se porque n&atilde;o querem as universidades transformadas em empresas. Em Portugal, temos v&aacute;rias universidades em situa&ccedil;&atilde;o financeira dif&iacute;cil, mas &eacute; indiscut&iacute;vel que a rede global do ensino superior cresceu sem regula&ccedil;&atilde;o. &Aacute;s vezes digo: o Estado Portugu&ecirc;s entrou de licen&ccedil;a sab&aacute;tica nesta &aacute;rea, em 1974. <br \/>Temos escolas e excel&ecirc;ncia e capacidade intelectual e cient&iacute;fica de grande valia, mas &eacute; preciso o apoio necess&aacute;rio. <\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Se pudesse escrever uma proposta no Programa do Governo qual escolheria?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Tenho a dolorosa previs&atilde;o que o Estado Portugu&ecirc;s est&aacute; amea&ccedil;ado de evolucionar para Estado ex&iacute;guo. &Eacute; um Estado ex&iacute;guo aquele que n&atilde;o tem recursos para satisfazer todos os objectivos para os quais n&oacute;s invent&aacute;mos o Estado. Isto acontece num momento onde a redefini&ccedil;&atilde;o das soberanias &eacute; acelerad&iacute;ssima. Mesmo as grandes pot&ecirc;ncias &#8211; como os Estados Unidos &#8211; j&aacute; apreenderam que o multilateralismo n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel para eles. Estamos a evolucionar para soberanias que chamo de funcionais ou cooperativas. O instrumento mais importante dessa soberania &eacute; a prepara&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica e cient&iacute;fica. Temos de colocar o acento t&oacute;nico na consolida&ccedil;&atilde;o da prepara&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica e cient&iacute;fica portuguesa. O mar volta a ser importante, mas devemos olhar tamb&eacute;m para uma janela de liberdade que &eacute; &Aacute;frica.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &#8211; Se voltasse &agrave; pol&iacute;tica activa qual o partido que poderia integrar?<br \/><strong>AM<\/strong> &#8211; Neste momento n&atilde;o voltaria &agrave; pol&iacute;tica activa. Faltam lideran&ccedil;as com capacidade e autenticidade. Restaurar a confian&ccedil;a em muitas actividades do aparelho pol&iacute;tico &eacute; fundamental. Isto &eacute; a base da esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>LS\/PR<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 um actor principal da Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea de Portugal. Recebe esta sexta-feira o Pr\u00e9mio de Cultura \u00c1rvore da Vida Pe. Manuel Antunes, por um percurso de cidadania e contributo pol\u00edtico e acad\u00e9mico que recorda em entrevista \u00e0 Ecclesia.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[106,122,168,174,187,191,203],"class_list":["post-39095","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-angola","tag-brasil","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-de-coimbra","tag-diocese-do-porto","tag-economia","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39095","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39095"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39095\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39095"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39095"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39095"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}