{"id":390854,"date":"2025-09-11T09:26:41","date_gmt":"2025-09-11T08:26:41","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=390854"},"modified":"2025-09-08T16:44:33","modified_gmt":"2025-09-08T15:44:33","slug":"todos-somos-topiarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/todos-somos-topiarios\/","title":{"rendered":"Todos somos topi\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-271042 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>A medi\u00e7\u00e3o do tempo humano tem destas coisas. Nem todos os anos possuem o mesmo peso. O tempo psicol\u00f3gico e existencial vai-se sobrepondo ao tempo cronol\u00f3gico marcado pelos rel\u00f3gios sintonizados com as posi\u00e7\u00f5es e movimentos &#8211; reais ou aparentes &#8211; dos astros que nos iluminam e aquecem. Vamos vivendo os nossos anos, mas festejamos mais uns que outros. L\u00e1 aparecem as d\u00e9cadas, os s\u00e9culos e os mil\u00e9nios. E a mem\u00f3ria agu\u00e7a-se ent\u00e3o para evocar. Celebrando e rindo ou lamentando e lacrimando.<\/p>\n<p>Foi h\u00e1 uma d\u00e9cada. Naquele dia de Pentecostes o Papa Francisco oferecia \u00e0 Humanidade a Enc\u00edclica \u201cLaudato si\u201d. Foram passando os anos, mas fomos dormindo no escuro das noites. Passou uma d\u00e9cada e, por esse mundo, vai-se evocando a efem\u00e9ride, nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, em encontros mais ou menos acad\u00e9micos ou em gestos simb\u00f3licos &#8211; rid\u00edculos e contradit\u00f3rios tantas vezes &#8211; de boa vontade deste ou daquele movimento ou grupo social. Mas faltar\u00e1 a coragem ou a Fortaleza que \u00e9 fruto do Pentecostes do Esp\u00edrito para alterar h\u00e1bitos para cada um tratar a sua casa, o seu pa\u00eds, como um peda\u00e7o do jardim que \u00e9 o Planeta, casa comum de todos.<\/p>\n<p>Desde que me lembre de mim, sempre apreciei a natureza e as transforma\u00e7\u00f5es dos campos no decorrer do ano, mesmo sem ter eu a plena consci\u00eancia das suas esta\u00e7\u00f5es. Melhor dito: j\u00e1 as vivia sem conhecer os seus nomes. Sempre me atra\u00edram as flores e delas saboreava, crian\u00e7a ainda, o colorido, as formas e os odores, como me despertava curiosidade a grande variedade delas que enfeitava os campos. Agora sinto a tenta\u00e7\u00e3o de lamentar as crian\u00e7as de hoje que parecem nascer a olhar para as tecnologias de trazer nas m\u00e3os, mas n\u00e3o sabem olhar para aquela pequena flor colorida e oferecida por uma planta sem nome que encaixou o caule fr\u00e1gil num espa\u00e7o min\u00fasculo entre as pedras do caminho. Mas ela l\u00e1 est\u00e1 a saudar o Sol. E a cumprimentar quem passa. Creio que ela vai dizendo \u00abol\u00e1!\u00bb quando sente os passos de gente, mas s\u00e3o poucos os que d\u00e3o por ela.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas pequenas sebes no jardim da nossa casa que, como todas as outras sebes do mundo, de vez em quando t\u00eam necessidade de ser aparadas. S\u00e3o uns muros verdes a separar espa\u00e7os. Sebes t\u00e3o pequen\u00edssimas que s\u00f3 por abuso de linguagem lhes chamo sebes. \u00c9 verdade que s\u00e3o umas sebezinhas, mas, por pequenas, exigem tanta ou mais aten\u00e7\u00e3o que as sebes grandes, at\u00e9 porque, se as deixarmos, v\u00e3o crescendo tanto em altura que dificultam o trabalho futuro do topi\u00e1rio. E \u2013 Necessidade pode muito &#8211; o topi\u00e1rio geralmente sou eu, pese embora tamanha presun\u00e7\u00e3o de quem se limita a aparar aqueles ramos entran\u00e7ados de uma planta de que at\u00e9 ignora o nome.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de utiliza\u00e7\u00e3o frequente a palavra \u201ctopi\u00e1ria\u201d. Lembrei-me dela h\u00e1 dias quando fui saudado por um vizinho que passava na rua precisamente quando aparava as tran\u00e7as de uma das pequen\u00edssimas sebes do jardim da casa. Naturalmente, convers\u00e1mos um pouco. O vizinho, de fora, encostado ao muro, ia louvando o meu trabalho e eu, no jardim, ia-o apoucando enquanto apontava para as linhas tortas que deixara na pequena sebe. E foi assim que, no desenrolar da conversa, elogiei os topi\u00e1rios cl\u00e1ssicos de mundos idos. N\u00e3o me admirei que o vizinho n\u00e3o conhecesse a palavra. Claramente \u201cjardineiro\u201d e \u201cjardinagem\u201d s\u00e3o o suficiente.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei onde terei eu ouvido ou lido que, na Roma antiga, os jardineiros pretendiam imitar os escultores da pedra. E n\u00e3o sem raz\u00e3o. Verdade \u00e9 que elas s\u00e3o esculturas vivas, essas formas decorativas de animais \u00e0 mistura com figuras geom\u00e9tricas que animam jardins desde os tempos remotos.<\/p>\n<p>A topi\u00e1ria \u00e9 uma arte, e uma arte exigente que, al\u00e9m de sentido est\u00e9tico e t\u00e9cnicas adequadas, pressup\u00f5e conhecimentos variados do artista e jardineiro. \u00c9 isso a topi\u00e1ria: arte de dar configura\u00e7\u00f5es diversas \u00e0s \u00e1rvores e arbustos de um jardim. Uma arte de criar beleza com o vi\u00e7o e a docilidade vegetal. Nela se conjuga o verbo \u00abpodar\u00bb em simultaneidade com o conhecimento, imagina\u00e7\u00e3o e criatividade do topi\u00e1rio. E muita paci\u00eancia e rigor, gosto e sentido est\u00e9tico e amor pela natureza.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1rio grande esfor\u00e7o mental para imaginarmos os conhecimentos que se encontram materializados nas esculturas verdes, e tantas vezes coloridas de flores, da estatu\u00e1ria de jardim: conhecimentos de bot\u00e2nica, como ser\u00e1 \u00f3bvio, mas tamb\u00e9m de zoologia, de engenharia e matem\u00e1tica. E outros. A topi\u00e1ria \u00e9, certamente, uma jardinagem art\u00edstica interdisciplinar onde a beleza das cria\u00e7\u00f5es humanas se conjuga com a beleza da cria\u00e7\u00e3o divina.<\/p>\n<p>E regressamos ao princ\u00edpio, \u00e0 contagem do tempo. Evocamos os 10 anos da \u201cLaudato si\u201d, a enc\u00edclica que o Papa Francisco ofereceu \u00e0 Humanidade sobre o cuidado da Terra, nossa \u00abcasa comum\u00bb no ano em que celebramos tamb\u00e9m os 800 anos do \u00abC\u00e2ntico das Criaturas\u00bb de S\u00e3o Francisco de Assis.<\/p>\n<p>O dia 1 de Setembro, o \u201cDia Mundial de Ora\u00e7\u00e3o pelo Cuidado da Cria\u00e7\u00e3o\u201d institu\u00eddo pela Igreja Ortodoxa em 1989 e a que a Igreja Cat\u00f3lica aderiu em 2015, ano da publica\u00e7\u00e3o da \u201cLaudato si\u201d, marcou o in\u00edcio do \u201cTempo da Cria\u00e7\u00e3o\u201d que se vai prolongar at\u00e9 ao dia 4 de Outubro, dia de S\u00e3o Francisco de Assis. Num ano em que o pa\u00eds se tornou mais negro com a trag\u00e9dia dos inc\u00eandios que foram consumindo um pouco de tudo \u2013 florestas, culturas, casas e vidas \u2013 e que deixaram exaustos os nossos bombeiros, seria de esperar que se assumisse com maior vigor este \u201cTempo da Cria\u00e7\u00e3o\u201d. Mas, se n\u00e3o ando muito distra\u00eddo, vejo que o tempo vai passando e a cria\u00e7\u00e3o vai esperando. Ser\u00e1 que tomamos a s\u00e9rio os clamores da Terra?<\/p>\n<p>\u00ab<em>O cuidado da cria\u00e7\u00e3o representa uma verdadeira voca\u00e7\u00e3o para cada ser humano, um compromisso a ser cumprido dentro da pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o<\/em>\u00bb, assim disse Le\u00e3o XIV na inaugura\u00e7\u00e3o do \u201cBorgo Laudato si\u201d na resid\u00eancia pontif\u00edcia de Castel Gandolfo. Uma \u00ab<em>verdadeira voca\u00e7\u00e3o<\/em>\u00bb e um \u00ab<em>compromisso a ser cumprido<\/em>.\u00bb Todos somos chamados a ser topi\u00e1rios da Terra. E a topi\u00e1ria come\u00e7a em casa, na rua, bairro e vila ou cidade. Prolonga-se pela extens\u00e3o de um pa\u00eds e espalha-se por todo o Planeta. Passa por cada um e por cada governo e inst\u00e2ncias internacionais. Mas sempre, com mau ou bom desempenho, somos topi\u00e1rios do jardim onde vivemos: a Terra que gratuitamente nos foi ofertada para dela cuidarmos com zelo. Como a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Guarda, 7 de Setembro de 2025<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado<\/p>\n<p><a href=\"mailto:morgado.salvado@gmail.com\">morgado.salvado@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":271042,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-390854","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/390854","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=390854"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/390854\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/271042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=390854"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=390854"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=390854"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}