{"id":38980,"date":"2009-05-19T12:16:06","date_gmt":"2009-05-19T12:16:06","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/05\/19\/revista-communio-dedica-edicao-aos-imaginarios-contemporaneos\/"},"modified":"2009-05-19T12:16:06","modified_gmt":"2009-05-19T12:16:06","slug":"revista-communio-dedica-edicao-aos-imaginarios-contemporaneos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/revista-communio-dedica-edicao-aos-imaginarios-contemporaneos\/","title":{"rendered":"Revista \u00abCommunio\u00bb dedica edi\u00e7\u00e3o aos \u00abimagin\u00e1rios contempor\u00e2neos\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Sucintamente, podemos definir imagin\u00e1rio como a f\u00e1brica de imagens, representa\u00e7\u00f5es e vis\u00f5es, colectivas ou pessoais, que d\u00e1 express\u00e3o \u00e0 maneira de conceber a nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo e com outrem. No plano individual, existe no homem uma dimens\u00e3o intr\u00ednseca da fun\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria: a for\u00e7a do s\u00edmbolo, o peso da imagem, constituem uma esp\u00e9cie de fant\u00e1stico transcendental sem o qual n\u00e3o podemos passar; no plano colectivo, e segundo M. Eliade, a cria\u00e7\u00e3o de mitos fornece aos homens modelos de comportamento, e d\u00e1 \u00e0 exist\u00eancia o seu verdadeiro sentido. Esta penetrante interpreta\u00e7\u00e3o de Eliade, segundo Julien Ries, p\u00f4s em relevo um facto novo na defini\u00e7\u00e3o de mito: &#8220;o comportamento m\u00edtico n\u00e3o \u00e9 um comportamento pueril (&#8230;). \u00c9 um modo de estar\/ser no mundo&#8230; &#8221; Reconhece-se, deste modo, que as quest\u00f5es que o mito traz \u00e0 reflex\u00e3o s\u00e3o sempre actuais. Como o afirmava M. Maffesoli a prop\u00f3sito do enorme \u00eaxito dos livros de Harry Potter: &#8220;O sucesso do aprendiz de feiticeiro est\u00e1 a\u00ed para nos recordar que, a longo prazo, as sociedades t\u00eam necessidade de mitos. Elas criam-nos, recriam-nos, ou anicham-se naqueles que, sob formas diversas, sempre existiram.&#8221; No mundo ocidental, desde a \u00e9poca das Luzes, vivemos um poderoso movimento iconoclasta e de desmitologiza\u00e7\u00e3o: venera-se a &#8220;positividade&#8221;, os factos hist\u00f3ricos, a m\u00e1quina, o racional. Ironicamente, ao querer-se superar o &#8220;obscurantismo&#8221; do mito cria-se um outro mito &#8211; o do positivismo. Deu-se, depois, o movimento contr\u00e1rio: o ressurgimento do imagin\u00e1rio, em geral, e do mito, em particular. Ora, os produtos que emergem da imagina\u00e7\u00e3o humana exercem uma atrac\u00e7\u00e3o bastante disseminada pelas v\u00e1rias formas de express\u00e3o cultural. Este n\u00famero da \u00abCommunio\u00bb pretende contribuir para uma reflex\u00e3o sobre a pertin\u00eancia de uma cultura da vis\u00e3o imaginativa, nomeadamente ao favorecer uma abertura ao Evangelho e ao cristianismo (dizia C.S. Lewis que na vida de Cristo &#8220;o mito se tornou realidade&#8221;). O fasc\u00edculo abre com um artigo de Michael Devaux, Itinerarium imaginationis ad Deum, sobre at\u00e9 onde nos pode levar a imagina\u00e7\u00e3o no caso da literatura e, muito particularmente, da literatura fant\u00e1stica hoje t\u00e3o divulgada gra\u00e7as ao sucesso de livros &#8211; e tamb\u00e9m dos filmes a que deram origem &#8211; como O Senhor dos An\u00e9is (J.R.R. Tolkien), Cr\u00f3nicas de N\u00e1rnia (C.S. Lewis) e a s\u00e9rie de Harry Potter (J.K. Rowling). A B\u00edblia constitui, como nota J. Tolentino Mendon\u00e7a em A B\u00edblia e o Fant\u00e1stico, um laborat\u00f3rio imenso e at\u00e9 desconcertante das possibilidades da linguagem humana, e portanto s\u00f3 seria de admirar que n\u00e3o recorresse \u00e0s diversificadas ferramentas que a linguagem oferece: narrativa hist\u00f3rica ao lado da po\u00e9tica, ou Revela\u00e7\u00e3o e Imagina\u00e7\u00e3o. A abundante presen\u00e7a do fant\u00e1stico no texto b\u00edblico faz emergir o sobrenatural e o seu efeito tumultuoso, for\u00e7ando as portas de um mundo que a mera raz\u00e3o e ordem natural n\u00e3o logram explicar. Ao mesmo tempo, contudo, a B\u00edblia investe num movimento teol\u00f3gico contr\u00e1rio, modificando este g\u00e9nero liter\u00e1rio em vista da coer\u00eancia pr\u00f3pria da Revela\u00e7\u00e3o. Olivier Riaudel, em Prescindir do mito e da desmitologiza\u00e7\u00e3o, observa que o pr\u00f3prio Plat\u00e3o, que fixou e nos legou o conceito de mito criticando-o pelo seu antropomorfismo, n\u00e3o deixou de apelar a v\u00e1rios mitos. No que respeita ao programa de desmitologiza\u00e7\u00e3o de R. Bultmann, \u00e9 evidentemente leg\u00edtimo interrogar o enunciado dos textos mitol\u00f3gicos da Escritura; mas n\u00e3o pode ser adoptada uma defini\u00e7\u00e3o de mito t\u00e3o simplista como a que o identifica com aquilo que o homem moderno, esclarecido e cient\u00edfico, tem por inaceit\u00e1vel ou incompreens\u00edvel. No artigo Da boa utiliza\u00e7\u00e3o da literatura fant\u00e1stica, Suzanne Bray funda-se na sua experi\u00eancia de docente universit\u00e1ria e sobretudo de &#8220;pregadora leiga&#8221; (anglicana) para explicar, com base em tr\u00eas exemplos concretos, que a actual literatura fant\u00e1stica, assim como os filmes nela inspirados, se adequam \u00e0 transmiss\u00e3o da mensagem crist\u00e3. Obras como as de C.S. Lewis, J.R Tolkien e J.K. Rowling, envolvendo ou n\u00e3o, explicitamente, a imag\u00e9tica crist\u00e3, socorrem-se da mitologia cl\u00e1ssica e at\u00e9 da alquimia e est\u00e3o impregnadas de simbolismo, po\u00e9tica e met\u00e1fora, o que lhes permite dizer o que de outro modo seria porventura inexprim\u00edvel. At\u00e9 aqui, consider\u00e1mos o imagin\u00e1rio enquanto incide no campo da literatura. Mas tamb\u00e9m no mundo f\u00edsico, muitas vezes, imagens utilizadas para descrever os fen\u00f3menos s\u00e3o do dom\u00ednio da fantasia e da imagina\u00e7\u00e3o, apoiando o dom\u00ednio da experi\u00eancia, m\u00e9todo fundamental de verifica\u00e7\u00e3o. Na F\u00edsica qu\u00e2ntica vamos encontrar uma experi\u00eancia, descrita e explicada por Carlos Salema em O gato de Schr\u00f6dinger, que procura entender o comportamento dos objectos qu\u00e2nticos, imaginando um gato dentro de uma caixa fechada. Segundo o postulado da sobreposi\u00e7\u00e3o, dentro da caixa e enquanto n\u00e3o \u00e9 observado, o gato est\u00e1 simultaneamente vivo e morto. Como observa o Autor do artigo, um outro gato conhecido com propriedades qu\u00e2nticas \u00e9 o gato Cheshire de Alice no Pa\u00eds das Maravilhas, que aparece e desaparece quando e como quer. Daqui podemos inferir que h\u00e1 experi\u00eancias imagin\u00e1rias importantes para fazer progredir a ci\u00eancia. Seria no m\u00ednimo question\u00e1vel n\u00e3o nos referirmos, no \u00e2mbito desta tem\u00e1tica, tamb\u00e9m o mundo virtual. Ant\u00f3nio Spadaro SJ, em Second Life: o desejo de uma &#8220;outra vida&#8221;, introduz-nos num mundo onde, de maneira simulada, temos a possibilidade de viver uma esp\u00e9cie de &#8220;segunda vida&#8221; digital. O artigo descreve pormenorizadamente este fen\u00f3meno que tem conquistado milhares de adeptos, avaliando os seus riscos e as suas oportunidades. A terra digital \u00e9 igualmente, a seu modo, &#8220;terra de miss\u00e3o&#8221;; por isso, devemos estar atentos a um mundo no qual o homem pretende tamb\u00e9m encontrar-se a si mesmo. A terminar a sec\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica, apresentamos o testemunho de uma jovem, M. Leonor Fraz\u00e3o, que nos fala da import\u00e2ncia que t\u00eam para si as Hist\u00f3rias fant\u00e1sticas. Na sec\u00e7\u00e3o Perspectivas, publica-se a conclus\u00e3o do ensaio antropol\u00f3gico de F. Micael Pereira sobre Sexualidade. N\u00e3o esquecendo que estamos a comemorar o Ano Paulino, apresenta-se ainda o artigo de Thomas S\u00f6ding sobre a teologia paulina da liberdade. A fechar o n\u00famero, Ant\u00f3nio Rego deixa-nos uma medita\u00e7\u00e3o sobre os tempos livres, a prop\u00f3sito da publica\u00e7\u00e3o do caderno &#8220;Do tempo livre \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o do tempo&#8221;, da responsabilidade do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, e cuja leitura se recomenda vivamente. Em 2009 a Revista \u00abCommunio\u00bb apresentar\u00e1 os seguintes temas: Entrada de Jesus em Jerusal\u00e9m; A\u00e7\u00e3o Social da Igreja; Um mundo que Nasce; Paternidade e Maternidade. <i>Maria C. Branco, Rui Madeira, Jos\u00e9 Patr\u00edcio, in Revista Communio (Apresenta\u00e7\u00e3o)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sucintamente, podemos definir imagin\u00e1rio como a f\u00e1brica de imagens, representa\u00e7\u00f5es e vis\u00f5es, colectivas ou pessoais, que d\u00e1 express\u00e3o \u00e0 maneira de conceber a nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo e com outrem. 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