{"id":38966,"date":"2009-05-19T09:49:22","date_gmt":"2009-05-19T09:49:22","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/05\/19\/viagem-pastoral-e-politica\/"},"modified":"2009-05-19T09:49:22","modified_gmt":"2009-05-19T09:49:22","slug":"viagem-pastoral-e-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/viagem-pastoral-e-politica\/","title":{"rendered":"Viagem pastoral e pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 o n\u00f3 g\u00f3rdio da conflitualidade internacional. H\u00e1 muito tempo. H\u00e1 tempo demais. O choque dos irredentismos cavalga sobre o choque dos negacionismos, de parte a parte. A shoah e a nakhba s\u00e3o palavras proibidas de parte a parte \u2013 e com isso se pro\u00edbe o reconhecimento da dor profunda do outro. Bento XVI foi a esse s\u00edtio de todos os fantasmas, seguindo as pisadas de Paulo VI (1964) e de Jo\u00e3o Paulo II (2000), e assumindo que o pastoral e o pol\u00edtico t\u00eam quase sempre fronteiras fluidas. E foi claro \u2013 e, por isso, inconveniente \u2013 em ambos os terrenos. O que fica para a Hist\u00f3ria s\u00e3o palavras fortes: \u201cN\u00e3o mais banhos de sangue. N\u00e3o mais confrontos. N\u00e3o mais terrorismo. N\u00e3o mais guerra. Vamos quebrar o c\u00edrculo vicioso da viol\u00eancia. Construa-se uma paz duradoura. Que seja genu\u00edna a reconcilia\u00e7\u00e3o. Reconhe\u00e7a-se o direito de Israel a existir. Reconhe\u00e7a-se que o povo palestiniano tem direito a uma p\u00e1tria independente. Que a solu\u00e7\u00e3o \u2018dois Estados\u2019 seja uma realidade. Deixemos que a paz se estenda a estes territ\u00f3rios, trazendo a esperan\u00e7a para as muitas outras regi\u00f5es afectadas pelo conflito.\u201d Na sua for\u00e7a, s\u00e3o evidentemente palavras inc\u00f3modas para as din\u00e2micas de domina\u00e7\u00e3o colonial e de potencial exterm\u00ednio que abundam naquela terra. O Papa n\u00e3o advogou uma reconcilia\u00e7\u00e3o et\u00e9rea, mas um programa de reconcilia\u00e7\u00e3o, que sendo fundado na convers\u00e3o individual, imp\u00f5e um programa pol\u00edtico concreto. Para o melhor e para o pior, reflectir sobre a morte e a ressurrei\u00e7\u00e3o naqueles lugares s\u00f3 pode ser s\u00e9rio se n\u00e3o contornar a hist\u00f3ria de sofrimento dos povos que os habitam e dos que foram impedidos de os habitar. A defesa do reconhecimento do direito dos palestinianos a um Estado \u00e9, desse ponto de vista, um posicionamento que deixa o governo de Israel \u2013 cuja actual orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 rigidamente contr\u00e1ria a quaisquer ced\u00eancias territoriais aos palestinianos \u2013 numa posi\u00e7\u00e3o de crescente isolamento, que a crescente press\u00e3o da adminstra\u00e7\u00e3o Obama poder\u00e1 acentuar nos pr\u00f3ximos tempos. Caminhando na \u201cthin red line\u201d da coer\u00eancia consigo mesmo, o Papa negou o negacionismo. A sua refer\u00eancia ao holocausto foi inequ\u00edvoca: recordou Auschwitz, onde \u201ctantos judeus\u201d foram \u201cbrutalmente exterminados\u201d por um \u201cregime sem Deus que propagou uma ideologia de anti-semitismo e de \u00f3dio.\u201d E selou a mem\u00f3ria com um \u2018nunca mais\u2019: \u201cEste terr\u00edvel cap\u00edtulo da Hist\u00f3ria n\u00e3o deve ser esquecido ou negado. Nunca.\u201d O epis\u00f3dio, triste e cr\u00edtico, da nomea\u00e7\u00e3o do bispo Williamson torna-se agora ainda mais insuport\u00e1vel. E depois, Bento XVI proferiu duas vezes a palavra \u201cvergonha\u201d. Disse-a para falar da divis\u00e3o entre os crist\u00e3os, diante do patriarca greco-ortodoxo de Jerusal\u00e9m. E fica assim lan\u00e7ado o desafio da unidade essencial, em que Bento XVI inclui todos \u2013 seguramente a come\u00e7ar por si pr\u00f3prio e pelos seus mais directos colaboradores em Roma. Porque n\u00e3o faz sentido chamar vergonha a algo que n\u00e3o se repudie quer por palavras quer por actos. E disse-a outra vez para se referir ao muro que Israel constr\u00f3i para separar colonatos ilegais de aldeias palestinianas: \u201c\u00e0 medida que passava por ele, rezava por um futuro em que os povos da Terra Santa possam viver juntos em paz e harmonia, sem necessidade de recorrer \u00e0 seguran\u00e7a e \u00e0 separa\u00e7\u00e3o, respeitando e confiando uns nos outros\u201d. Bento XVI n\u00e3o contornou os problemas, afrontou-os e tomou posi\u00e7\u00e3o perante eles. A obsess\u00e3o da mem\u00f3ria enviesada, a nega\u00e7\u00e3o do outro ou a sua representa\u00e7\u00e3o como amea\u00e7a, a condena\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es inteiras e viverem em campos de refugiados (como em Aida, em Bel\u00e9m, que o Papa visitou) \u2013 tudo foi trazido por Bento XVI para o centro da sua peregrina\u00e7\u00e3o. O Papa quis falar ao cora\u00e7\u00e3o de cada um e apelar \u00e0 convers\u00e3o de todos. Mas o Papa mostrou que sabe que a pol\u00edtica ser\u00e1 o rosto concreto dessa convers\u00e3o. \u00c9 na transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que se avaliar\u00e1 se as palavas fortes semeadas pelo Papa criaram raiz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 o n\u00f3 g\u00f3rdio da conflitualidade internacional. H\u00e1 muito tempo. H\u00e1 tempo demais. O choque dos irredentismos cavalga sobre o choque dos negacionismos, de parte a parte. A shoah e a nakhba s\u00e3o palavras proibidas de parte a parte \u2013 e com isso se pro\u00edbe o reconhecimento da dor profunda do outro. 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