{"id":38936,"date":"2009-05-17T17:13:13","date_gmt":"2009-05-17T17:13:13","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/05\/17\/homilia-do-cardeal-saraiva-martins-na-celebracao-aniversario-do-cinquentenario-do-cristo-rei\/"},"modified":"2009-05-17T17:13:13","modified_gmt":"2009-05-17T17:13:13","slug":"homilia-do-cardeal-saraiva-martins-na-celebracao-aniversario-do-cinquentenario-do-cristo-rei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-saraiva-martins-na-celebracao-aniversario-do-cinquentenario-do-cristo-rei\/","title":{"rendered":"Homilia do Cardeal Saraiva Martins na celebra\u00e7\u00e3o anivers\u00e1rio do cinquenten\u00e1rio do Cristo Rei"},"content":{"rendered":"<p>1. A ideia de erigir sobre Lisboa um monumento \u00e0 semelhan\u00e7a do Cristo Redentor do Rio de Janeiro, tornou-se projecto nacional com o voto dos Bispos portugueses em F\u00e1tima, a 20 de Abril de 1940, segundo o qual se comprometiam, caso Portugal n\u00e3o entrasse na guerra, a mandar erguer sobre a capital \u201cum monumento ao Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus\u201d. Tendo o nosso pa\u00eds sido poupado \u00e0 maior, \u00e0 mais sangrenta e monstruosa guerra da hist\u00f3ria da humanidade, o voto foi cumprido. Este monumento \u00e9, pois, um ex-voto tornado santu\u00e1rio nacional, em preito de gratid\u00e3o a Deus pelo dom da paz. Constru\u00eddo com a colabora\u00e7\u00e3o de muitos \u2014 e tamb\u00e9m gra\u00e7as \u00e0 ren\u00fancia e partilha de milhares de crian\u00e7as \u2014 \u00e9 um gesto colectivo da Igreja de Portugal, que exprime a comunh\u00e3o entre todos os seus filhos, pastores e leigos.  A este gesto nos associamos tamb\u00e9m n\u00f3s hoje, aqui reunidos para celebrar o primeiro cinquenten\u00e1rio da sua inaugura\u00e7\u00e3o, a 17 de Maio de 1959, ent\u00e3o Domingo de Pentecostes. Fazemo-lo numa express\u00e3o de reiterada gratid\u00e3o nacional, mas tamb\u00e9m de renovado empenho pessoal, comunit\u00e1rio e eclesial, cujo significado nos \u00e9 indicado pela Palavra de Deus, em especial, pelos textos da presente liturgia eucar\u00edstica. 2. As leituras que acab\u00e1mos de escutar situam-nos desde logo no centro da nossa f\u00e9: \u201cCar\u00edssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Porque Deus \u00e9 amor\u201d (iJo 4, 7-8). \u201cDeus \u00e9 amor\u201d. Como \u00e9 verdadeira, densa de significado esta defini\u00e7\u00e3o lapidar de Deus!  \u201cAmar\u201d \u201c\u00e9 querer bem ao outro, como o seu maior bem, e querer o bem do outro, como se do pr\u00f3prio bem se tratasse\u201d. \u201cAmar \u00e9 tudo dar e dar-se a si mesmo\u201d, como dizia  Santa Teresa de Lisieux (Poesia 54,22).  \u00c9 assim que Deus ama. Ele tomou a iniciativa de nos fazer participar da Sua vida. Para isso enviou o Seu Filho, a fim de nos comunicar o seu amor, esse amor que Jesus testemunhou at\u00e9 ao fim da sua vida, dando-se por n\u00f3s na Cruz. Um dom que passa a ser realidade pessoal, \u00edntima e vivificante, do crente no dom do Esp\u00edrito Santo, tal como afirma S\u00e3o Pedro na primeira leitura (cf Act 10,47). Mas para que o amor seja completo, ele deve ser rec\u00edproco. O amor requer uma resposta. Dela nos fala o Evangelho. 3. \u201cAssim como o Pai me amou, tamb\u00e9m eu vos amei\u2019 Permanecei no meu amor\u201d (Jo 15,9). Jesus come\u00e7a por apontar o amor do Pai como sendo a fonte, o modelo e horizonte do seu amor. Ora \u00e9 pr\u00f3prio do amor oferecer comunh\u00e3o, partilhando a pr\u00f3pria vida e intimidade. Jesus chama-nos \u201camigos\u201d, porque nos faz participantes da sua intimidade com o Pai. E urge connosco para que dela fa\u00e7amos a refer\u00eancia constante da nossa vida. \u201cPermanecei no meu amor\u201d. Tal \u00e9 o primeiro desejo expresso por Jesus, porque tal \u00e9 tamb\u00e9m o primeiro imperativo do amor, do verdadeiro amor, do amor de Cristo, do amor do Evangelho. N\u00e3o \u00e9 esta a base da espiritualidade do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus: permanecer n\u2019Ele, fazendo da ora\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, entendida como uni\u00e3o perene a Cristo, o alicerce da vida crist\u00e3? Assim o compreendeu e fez a grande difusora desta devo\u00e7\u00e3o, Santa MargaridaAlacoque, cujas rel\u00edquias peregrinas no nosso pa\u00eds se encontram hoje aqui presentes nesta celebra\u00e7\u00e3o. Deste imperioso dever \u00e9 s\u00edmbolo eloquente o monumento a Cristo Rei. Dedicado ao Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, a quem, juntamente com o Imaculado Cora\u00e7\u00e3o de Maria, o Episcopado portugu\u00eas consagrou h\u00e1 cinquenta anos a na\u00e7\u00e3o portuguesa, ele foi erguido como \u201csinal vis\u00edvel de como Deus, atrav\u00e9s do amor, deseja conquistar para Si toda a humanidade\u201d, segundo o voto expresso pelos mesmos prelados em F\u00e1tima, os quais o dedicaram a \u201cCristo Rei\u201d, designa\u00e7\u00e3o pela qual \u00e9 hoje conhecido por todos.  E com raz\u00e3o, queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s! Porque Cristo \u00e9 deveras Rei! N\u00e3o em sentido pol\u00edtico ou triunfalista (cf Jo 18,36), mas no sentido b\u00edblico do termo. Na realidade, na Sagrada Escritura, \u201cRei\u201d designa o chefe que guiava o povo, o acompanhava nos seus projectos, participando das suas dificuldades, expondo por ele a sua vida, governando-o com amor, justi\u00e7a e equidade. \u00c9 neste sentido que Cristo \u00e9 Rei: porque Ele nos amou, dando a sua vida por n\u00f3s, nos acompanha e se interessa por n\u00f3s com real afecto e amor, unindo-se a n\u00f3s numa \u00edntima comunh\u00e3o pessoal que, neste caso, nem a morte pode destruir. 4. O s\u00edmbolo b\u00edblico mais significativo da figura de Cristo Rei \u00e9, sem d\u00favida, o seu Cora\u00e7\u00e3o. Nos Evangelhos, o Cora\u00e7\u00e3o de Jesus aparece em dois contextos. \u00c9, por um lado, o Cora\u00e7\u00e3o manso e humilde de Cristo Redentor, trespassado depois de Ele ter consumado na cruz a obra que o Pai lhe confiara, abrindo-se como manancial perene de vida nova para a humanidade; e \u00e9, por outro, o Cora\u00e7\u00e3o de Cristo ressuscitado presente no meio dos seus, mostrando-se aos disc\u00edpulos como fonte de paz, e comunicando-lhes a sua mesma miss\u00e3o reconciliadora: \u201cIde e anunciai a Boa Nova a todas as criaturas\u201d. O Cora\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 pois a express\u00e3o do amor divino-humano de Cristo; sin\u00f3nimo da sua Pessoa e miss\u00e3o; s\u00edntese da sua paix\u00e3o e ressurrei\u00e7\u00e3o; imagem da vida nova que flui do mist\u00e9rio salv\u00edfico de Cristo e nos \u00e9 comunicada pelo Esp\u00edrito Santo, sujeito primordial da miss\u00e3o reconciliadora da Igreja, que, no tempo, se prolonga at\u00e9 aos confins da terra. A devo\u00e7\u00e3o ao Cora\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9, portanto, a devo\u00e7\u00e3o ao Amor, a Deus que \u00e9 Amor. Que grande espiritualidade tem este Santu\u00e1rio! Que dom e que gra\u00e7a Deus e a Igreja lhe concederam: ser sinal vis\u00edvel do amor e dar a conhecer o Cora\u00e7\u00e3o que ama com amor infinito a todos os que o visitam, colocando-os no Seu Cora\u00e7\u00e3o e incendiando-os no seu amor, tornando cada peregrino ap\u00f3stolo da esperan\u00e7a.  5. Tal simbologia est\u00e1 bem patente neste monumento. Elevado \u00e0s portas de Lisboa, o Cristo Rei sa\u00fada diariamente milh\u00f5es de pessoas que entram e saem da capital, oferecendo a todos, n\u00e3o s\u00f3 a mais bela vista sobre a capital, mas tamb\u00e9m a mais bela vis\u00e3o a partir da capital e dos concelhos lim\u00edtrofes! Nele est\u00e1 representado o Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, rasgado, aberto em direc\u00e7\u00e3o aos quatro pontos cardeais da terra, para assim abarcar toda a humanidade. \u00c9 um Cora\u00e7\u00e3o exposto, propositadamente centrado no peito, para dizer que o amor a Cristo, centro da sua vida e mensagem, s\u00f3 ser\u00e1 verdadeiro se, partindo do nosso \u00edntimo, se manifestar ao nosso pr\u00f3ximo, levando-nos a sair e a esquecer-nos de n\u00f3s mesmos para ir ao seu encontro de bra\u00e7os abertos, para o acolher e aceitar incondicionalmente, com amizade, respeito e confian\u00e7a. 6. \u00c9 isto mesmo que veio recordar Nossa Senhora ao mundo em 1917. A mensagem de F\u00e1tima \u00e9, com efeito, essencialmente, uma mensagem eucar\u00edstica, de amor e de paz. \u00c9 esta mensagem que a Senhora \u201cmais brilhante do que o sol\u201d nos lembra hoje atrav\u00e9s da sua imagem, a da Capelinha das Apari\u00e7\u00f5es, presente agora aqui como o esteve h\u00e1 50 anos, quando foi inaugurado este monumento. Maria, de facto, foi a mulher nova, a primeira disc\u00edpula de Jesus, que ousou viver o mandamento novo do amor, em toda a sua radicalidade, aceitando expor a pr\u00f3pria vida pela salva\u00e7\u00e3o da humanidade, ao aceitar ser M\u00e3e de Deus, na anuncia\u00e7\u00e3o do Senhor. Renovemos a nossa f\u00e9 em Cristo Rei, no seu Sagrado Cora\u00e7\u00e3o e no da Sua e nossa M\u00e3e. Confiemos-lhes, de novo, o nosso Pa\u00eds e toda a humanidade, para que o seu amor reine e o mundo tenha paz: a paz dos cora\u00e7\u00f5es enfim reconciliados; a paz nas nossas fam\u00edlias e locais de trabalho; a paz nas nossas comunidades eclesiais e em toda a Igreja; a paz no nosso Pa\u00eds e no mundo inteiro. Este \u00e9 o monumento da paz e lembra-nos que a paz \u00e9 uma das exig\u00eancias maiores do tempo actual, deve lembrar-nos que a paz tem de ser constru\u00edda n\u00e3o pelos canh\u00f5es, n\u00e3o pelas armas, mas pelo amor, pelo respeito do homem e da sua dignidade, dos seus direitos fundamentais, das suas aspira\u00e7\u00f5es. S\u00f3 assim contribuiremos para construir realmente a paz, fundada na justi\u00e7a, na verdade, n\u00e3o no \u00f3dio, n\u00e3o na desigualdade, n\u00e3o na desconfian\u00e7a. Esta \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o que nos d\u00e1 hoje o monumento ao Cristo Rei. Pe\u00e7amos a Cristo Rei que nos fortale\u00e7a o cora\u00e7\u00e3o, para, impelidos pelo seu amor, lutar sempre, com coragem e entusiasmo, para libertar a sociedade do nosso tempo, como se exprimem os bispos portugueses, da escravid\u00e3o e da injusti\u00e7a, para ser defensores da vida em todas as circunst\u00e2ncias, desde o seu in\u00edcio at\u00e9 ao seu fim natural, ser capazes de perd\u00e3o, estar atentos \u00e0 salvaguarda da cria\u00e7\u00e3o, ser construtores da paz e arautos de esperan\u00e7a. Pe\u00e7amos ao Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus e ao Imaculado Cora\u00e7\u00e3o de Maria, em especial, pelos jovens de hoje, para que fortes e generosos na f\u00e9, sejam sempre, como recordava Jo\u00e3o Paulo II, as \u201csentinelas da manh\u00e3\u201d e se comprometam com o Evangelho, aguardando, fortes na esperan\u00e7a, o alvorecer da nova civiliza\u00e7\u00e3o do amor (cf NMI, n.9), aguardando o alvorecer de um mundo novo, mais justo, mais humano e, por isso mesmo, mais crist\u00e3o. Assim seja! Almada, 17 de Maio de 2009 <i>Cardeal Jos\u00e9 Saraiva Martins<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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