{"id":388633,"date":"2025-08-20T17:20:27","date_gmt":"2025-08-20T16:20:27","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=388633"},"modified":"2025-08-21T15:27:16","modified_gmt":"2025-08-21T14:27:16","slug":"estarei-a-viver-como-devia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/estarei-a-viver-como-devia\/","title":{"rendered":"Estarei a viver como devia?"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_268285\" aria-describedby=\"caption-attachment-268285\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-268285\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-268285\" class=\"wp-caption-text\">Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil constatar que hoje vivemos a vida de forma vertiginosa e veloz, em contrarrel\u00f3gio, num ativismo febril, com agendas muito preenchidas, e demasiado voltados para o elevado rendimento, para a produ\u00e7\u00e3o e a a\u00e7\u00e3o, para a resposta a todo o tipo de est\u00edmulos e solicita\u00e7\u00f5es, o querer tudo r\u00e1pido e depressa, num automatismo inconsciente e doentio. \u00c9 o culto atual da velocidade. Toda a gente anda cheia de pressa e tem muito que fazer. Transform\u00e1mos a vida numa correria louca.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Uma sociedade que n\u00e3o tem tempo \u00e9 uma sociedade que pensa pouco, reflete pouco, vive mal, \u00e9 uma sociedade sem densidade humana, cultural, social e espiritual. Deix\u00e1mos de ter tempo para aquilo que mais nos estrutura e humaniza, a vida familiar serena, a rela\u00e7\u00e3o com os outros, o cuidar paciente dos outros, a amizade frutuosa e desinteressada, o conv\u00edvio tranquilo, o prazer da conversa e do di\u00e1logo, o sil\u00eancio, o estudo curioso e paciente, a criatividade deleitosa, o fruir alegre da vida. Estamos a tornar-nos pessoas mais desumanas, mais superficiais, menos s\u00e1bias, mais turbulentas e inconsistentes emocionalmente, desidratadas afetivamente, consumidas, mais fr\u00e1geis e s\u00f3s. Disse em tempos o Papa Francisco: \u201cO excesso de velocidade coloca-nos numa centrifugadora que nos varre como confetes. A velocidade excessiva pulveriza a vida, n\u00e3o a torna mais intensa. E a sabedoria requer \u201cperda de tempo\u201d. \u00c9 necess\u00e1rio dedicar tempo \u2013 um tempo que n\u00e3o \u00e9 rent\u00e1vel \u2013 com as crian\u00e7as e com os idosos, pois eles d\u00e3o-nos outra capacidade de ver a vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Vivemos numa vertigem que nos est\u00e1 a consumir e a devorar a vida. Qual o caminho para sairmos desta vertigem desumanizadora? Dizia o Papa Francisco: \u201c\u00c9 preciso uma reforma. A prepot\u00eancia do tempo do rel\u00f3gio deve ser convertida \u00e0 beleza dos ritmos da vida. Numa sociedade onde os idosos n\u00e3o falam com os jovens, os jovens n\u00e3o falam com os idosos, os adultos n\u00e3o falam com os idosos nem com os jovens, \u00e9 uma sociedade est\u00e9ril, sem futuro, uma sociedade que n\u00e3o olha para o horizonte, mas para si mesma. E torna-se sozinha.\u201d<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Preocupado com a pobreza existencial destes tempos de culto da velocidade, o romancista Ernesto S\u00e1bato diz assim no seu livro Resistir: \u201cO homem n\u00e3o pode manter-se humano a esta velocidade, se viver como um aut\u00f3mato ser\u00e1 aniquilado. A serenidade, uma certa lentid\u00e3o, \u00e9 t\u00e3o insepar\u00e1vel da vida do homem como a sucess\u00e3o das esta\u00e7\u00f5es \u00e9 insepar\u00e1vel das plantas, ou do nascimento das crian\u00e7as. Estamos no caminho, mas n\u00e3o a caminhar, estamos num ve\u00edculo sobre o qual nos movemos incessantemente, como uma grande jangada ou como essas cidades sat\u00e9lites que dizem que haver\u00e1. E ningu\u00e9m anda a passo de homem, por acaso algum de n\u00f3s caminha devagar? Mas a vertigem n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 no exterior, assimil\u00e1-mo-la na nossa mente que n\u00e3o p\u00e1ra de emitir imagens, como se tamb\u00e9m fizesse zapping; talvez a acelera\u00e7\u00e3o tenha chegado ao cora\u00e7\u00e3o que j\u00e1 lateja num compasso de urg\u00eancia para que tudo passe rapidamente e n\u00e3o permane\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 uma pergunta que todos temos de fazer urgentemente: tu corres, ser\u00e1s que andas a viver como devias? Estar\u00e1s a ocupar o tempo com as coisas certas e a viver uma vida com sentido? Um bom livro que podemos levar para as f\u00e9rias ou ler nos tempos livres \u00e9 o livro \u201cA Morte de Ivan Ilitch\u201d do escritor russo Liev Tolst\u00f3i, publicado em 1886. \u00c9 um livro curto, f\u00e1cil de ler, \u00e9 uma novela, para alguns tamb\u00e9m um conto de educa\u00e7\u00e3o. Como o pr\u00f3prio t\u00edtulo o sugere, o livro conta-nos a morte de um homem chamado Ivan Ilitch, mas sobretudo apresenta-nos a reflex\u00e3o que este homem faz sobre a vida e sobre a morte desde o momento em que \u00e9 confrontado com uma doen\u00e7a mortal, que o vai levar a ter dores lancinantes e desesperantes nos \u00faltimos meses e dias da sua vida. Mas mais do que as dores f\u00edsicas, o que o vai consumir e angustiar s\u00e3o sobretudo as dores morais e espirituais ao constatar que n\u00e3o viveu a vida que devia ter vivido. Um bom livro para tamb\u00e9m n\u00f3s refletirmos sobre o sentido que estamos a dar \u00e0 nossa vida.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ivan Ilitch era um funcion\u00e1rio p\u00fablico, mais concretamente um juiz de instru\u00e7\u00e3o, que vai chegar a um lugar de topo na sua carreira, um lugar que sempre almejou para a sua vida. S\u00f3 lhe interessava viver uma vida c\u00f3moda, ter um bom ordenado, ser cumpridor do seu of\u00edcio, ter uma vida arrumadinha, sem grandes problemas, sem grandes ondas ou emo\u00e7\u00f5es, sem grandes vontades ou aspira\u00e7\u00f5es, uma vida dentro dos conformes, sem grandes expectativas, uma vida agrad\u00e1vel e confort\u00e1vel, sem grande sofrimento e sacrif\u00edcio. Gosta, sobretudo, de receber e conviver com pessoas da alta sociedade, talvez pelo estatuto e prest\u00edgio que lhe trazem e pela vaidade que lhe permitem ter diante da sociedade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Do casamento, nasceram alguns filhos, alguns morreram. Com a esposa, depois da paix\u00e3o inicial, entrou num resfriamento amoroso, com discuss\u00f5es di\u00e1rias entre marido e mulher. Uma pesada frieza reinava em casa entre ele, a esposa e os filhos. \u00c9 um pai distante e ins\u00edpido que n\u00e3o tem la\u00e7os profundos e afetivos com os filhos. Para evitar enfrentar a penosa e arreliante realidade familiar, passa muito tempo no trabalho ou vai jogar \u00e0s cartas com os amigos. Na verdade, tinha-se casado mais pelo conforto e estabilidade que isso lhe trazia do que por amor pela mulher e pelos filhos. A esposa retribui: no vel\u00f3rio s\u00f3 quer saber como ter uma reforma mais abonada.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">No campo das amizades, tem uns amigos da sua reparti\u00e7\u00e3o com quem joga \u00e0s cartas e s\u00e3o os \u00fanicos amigos que tem. S\u00e3o, acima de tudo, \u00fateis para momentos de distra\u00e7\u00e3o, evas\u00e3o e para passar o tempo. Tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es muito profundas, nem s\u00e3o grandes amizades. E a prova disso \u00e9 que quando estes seus amigos recebem a not\u00edcia do seu falecimento n\u00e3o se d\u00e1 um grande estremecimento e uma grande consterna\u00e7\u00e3o na reparti\u00e7\u00e3o. Come\u00e7am logo a pensar quem \u00e9 que vai ocupar o seu lugar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Um dia, enquanto est\u00e1 a decorar a nova casa para onde ia viver, tem um pequeno acidente, bateu com um dos lados do corpo. Algo banal, parecia n\u00e3o ter acontecido nada, mas, na verdade, aconteceu. Com o tempo come\u00e7ou a vir uma dor cada vez mais intensa, que se tornou cruciante e insuport\u00e1vel. Recorre a v\u00e1rios m\u00e9dicos e especialistas, sem grandes resultados, percebendo que n\u00e3o tinha cura. At\u00e9 as drogas duras que tomava deixavam de fazer efeito, s\u00f3 quando um jovem servo l\u00e1 de casa lhe levanta as pernas \u00e9 que ele sentia algum al\u00edvio. A morte est\u00e1 pr\u00f3xima.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Perante a consci\u00eancia do seu fim terreno, Ivan Ilitch \u00e9 sobressaltado por uma pergunta fulminante: ser\u00e1 que vivi como devia? O que \u00e9 que valeu a minha vida? Pelo seu pensamento, faz uma retrospetiva da sua vida e come\u00e7a a constatar amarga e dolorosamente que se esquivou a viver a vida como ela devia ter sido vivida, s\u00f3 que agora j\u00e1 n\u00e3o tinha tempo para mudar nada, j\u00e1 nada havia a fazer. Uma profunda e tremenda dor moral e espiritual toma conta da sua alma destro\u00e7ada. A sua vida foi uma vida deslavada, uma sucess\u00e3o de acontecimentos insossos, viveu uma vida med\u00edocre, desinteressante, foi uma vida pobre e vazia, uma vida sem sentido, uma vida sem qualquer valor, simplesmente para n\u00e3o enfrentar os compromissos, os desconfortos e os desafios que fazem parte da vida. A sua vida foi um desperd\u00edcio, n\u00e3o a viveu como realmente a devia ter vivido.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Tolst\u00f3i deixa-nos, assim, um alerta e convida-nos a uma paciente introspe\u00e7\u00e3o sobre a forma como andamos a viver. Ilitch j\u00e1 n\u00e3o teve a oportunidade de mudar nada, mas n\u00f3s ainda temos e podemos corrigir muita coisa, para n\u00e3o nos arrependermos no final da vida. Como \u00e9 que ando a viver a minha vida? Tem valido a pena viver a vida que tenho vivido? Estarei a viver uma vida com sentido e com valor, sem me esquivar a enfrent\u00e1-la com entrega e dedica\u00e7\u00e3o, com os seus deveres, obriga\u00e7\u00f5es, compromissos, sacrif\u00edcios, lutas e aspira\u00e7\u00f5es que ela exige? Ou tenho cedido \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de viver a vida desenxabida, leve, confort\u00e1vel, pobre e vazia como a viveu Ivan Ilitch?<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)\u00a0<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":268285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-388633","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/388633","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=388633"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/388633\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=388633"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=388633"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=388633"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}