{"id":38800,"date":"2009-05-12T11:19:51","date_gmt":"2009-05-12T11:19:51","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/05\/12\/uma-era-da-conectividade\/"},"modified":"2009-05-12T11:19:51","modified_gmt":"2009-05-12T11:19:51","slug":"uma-era-da-conectividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/uma-era-da-conectividade\/","title":{"rendered":"Uma era da conectividade?"},"content":{"rendered":"<p>Em 1992, a \u00abInstru\u00e7\u00e3o Pastoral Aetatis novae sobre as comunica\u00e7\u00f5es sociais no vig\u00e9simo anivers\u00e1rio de Communio et progressio\u00bb, apresentava o terreno das comunica\u00e7\u00f5es sociais como lugar de uma ampla revolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Na perspectiva da Instru\u00e7\u00e3o, tal mudan\u00e7a n\u00e3o se esgotava na produ\u00e7\u00e3o de novos meios, traduzia-se na forma como a humanidade se compreende a si pr\u00f3pria. Tratava-se, por tanto, de uma revolu\u00e7\u00e3o cultural. Poucos anos antes, em 1989, o fil\u00f3sofo italiano Gianni Vattimo publicava um pequeno ensaio acerca da \u00absociedade transparente\u00bb. Vattimo interrogava-se sobre se o extraordin\u00e1rio desenvolvimento das compet\u00eancias comunicativas da sociedade contempor\u00e2nea teria tornado a sociedade mais transparente \u2013 \u00abtranspar\u00eancia\u00bb no sentido Iluminista de sociedade mais consciente de si pr\u00f3pria, mais capaz de envolver todos numa hist\u00f3ria unit\u00e1ria, num sentido progressivo de emancipa\u00e7\u00e3o. O fil\u00f3sofo italiano conclu\u00eda que o extraordin\u00e1rio desenvolvimento dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa tinha, pelo contr\u00e1rio, tornado a nossa experi\u00eancia social mais complexa. Isto porque favoreceu a multiplica\u00e7\u00e3o das vis\u00f5es do mundo, abriu a cena \u00e0s minorias de todo o g\u00e9nero e permitiu a visibilidade plural de todas as subculturas. As transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas posteriores, vieram dar mais densidade a estas observa\u00e7\u00f5es. Os dois textos a que fiz refer\u00eancia tiveram o m\u00e9rito de sinalizar estes importantes dinamismos de transforma\u00e7\u00e3o, mesmo se a realidade os ultrapassou na escala. As inova\u00e7\u00f5es posteriores, no dom\u00ednio das chamadas tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e da comunica\u00e7\u00e3o, aprofundaram a evid\u00eancia de que as transforma\u00e7\u00f5es em causa t\u00eam uma particular incid\u00eancia na recomposi\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os sociais. \u00c9 necess\u00e1rio ter em conta o desenvolvimento das formas de comunica\u00e7\u00e3o em rede, acentradas, desterritorializadas, em tempo real, comunica\u00e7\u00e3o que permite n\u00e3o s\u00f3 chegar \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, por via da l\u00f3gica do hipertexto, mas tamb\u00e9m recri\u00e1-la sem as media\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas que antes conhec\u00edamos. O World Wide Web \u00e9 o exemplo mais conhecido deste novo mundo. Mas, tamb\u00e9m neste caso, a leitura destas formas de comunica\u00e7\u00e3o em rede n\u00e3o pode resumir-se, sem resto, na ideia de uma globaliza\u00e7\u00e3o homogeneizadora da cultura. De facto, estes meios facilitaram a liberta\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as, a cria\u00e7\u00e3o de um mundo em que cada vez mais indiv\u00edduos querem tomar a palavra \u2013 mesmo se se distanciam das formas pol\u00edticas institucionais que conhec\u00edamos. As mais recentes plataformas de comunica\u00e7\u00e3o, a que acedemos, pela Internet mostraram-nos um pluriverso de pequenas narrativas, onde, paradoxalmente, os meios que promovem um certo desenraizamento cultural s\u00e3o os mesmos que d\u00e3o novas oportunidades aos \u00abdialectos\u00bb locais. As tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e da comunica\u00e7\u00e3o beneficiam das tend\u00eancias persistentes de miniaturiza\u00e7\u00e3o dos meios. Cada vez mais pequenos e sempre mais capazes, os meios favorecem a portabilidade e a individualiza\u00e7\u00e3o. Respondendo a uma cultura da mobilidade \u2013 os indiv\u00edduos n\u00e3o se definem pelas suas posi\u00e7\u00f5es, mas pelos seus itiner\u00e1rios \u2013 as novas tecnologias quotidianizadas permitem a reconstru\u00e7\u00e3o de novas redes sociais que n\u00e3o se deixam explicar pelos contratos sociais que alimentaram a modernidade social \u2013 por isso, algumas institui\u00e7\u00f5es de tipo associativo, como os partidos pol\u00edticos ou os sindicatos, v\u00eaem dissolver-se o terreno que sempre pisaram. O soci\u00f3logo Michel Maffesoli teve a necessidade de forjar um termo, \u00absocialidade\u00bb, para identificar as novas formas de cria\u00e7\u00e3o de comunidade, distinguindo-as dos regimes de sociabilidade que edificaram as sociedades modernas \u2013 classes sociais, profiss\u00f5es, associa\u00e7\u00f5es, etc. A socialidade descreve, nesta \u00f3ptica, os la\u00e7os sociais que se estabelecem de forma l\u00fadica, privilegiando as dimens\u00f5es afectivas, a comunh\u00e3o de interesses, as formas de certifica\u00e7\u00e3o m\u00fatua. Trata-se de comunidades \u00absem vizinhan\u00e7a\u00bb. Mas a inviabilidade do territ\u00f3rio f\u00edsico \u00e9 acompanhada pela oportunidade de constru\u00e7\u00e3o de novas redes criadoras de territ\u00f3rios simb\u00f3licos. Pode assim falar-se de uma era da conectividade, uma vez que, neste novo cen\u00e1rio, \u00abestar-se ligado\u00bb \u00e9 o imperativo maior. O indiv\u00edduo redefine-se socialmente num fluxo cont\u00ednuo de informa\u00e7\u00e3o. Penso mesmo que esta experi\u00eancia do \u00abcont\u00ednuo\u00bb ser\u00e1, provavelmente, uma das caracter\u00edsticas mais determinantes desta socialidade. O incremento da comunica\u00e7\u00e3o, neste dom\u00ednio, pode dar \u00e0s rela\u00e7\u00f5es uma intensidade afectiva inesperada. H\u00e1 alguns anos atr\u00e1s vivi uma experi\u00eancia significativa. Desenvolvia a minha actividade de docente em duas situa\u00e7\u00f5es bem distintas. Trabalhava com alunos, na Universidade, num regime cl\u00e1ssico de interac\u00e7\u00e3o em sala de aula, como \u00e9 pr\u00f3prio do ensino presencial, e com alunos que participavam um curso em regime de e-Learning, cuja a interac\u00e7\u00e3o se desenvolvia, em boa parte, numa plataforma a que se acedia atrav\u00e9s da Internet. Aconteceu que nesse ano lancei um livro, numa iniciativa p\u00fablica, para a qual convidei todos os alunos. N\u00e3o esteve presente, no acontecimento, nenhum dos alunos que eu acompanhava presencialmente, face a face. Pelo contr\u00e1rio, contei com a presen\u00e7a de um grupo significativo de alunos do curso em regime de e-Learning, incluindo uma aluna que fez mais de 300 km para estar presente. \u00c9 verdade que as compet\u00eancias cognitivas e as vis\u00f5es de mundo que neste contexto se desenvolvem promovem com facilidade uma certa deshistoriciza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia. Encontramos sinais disto nas culturas juvenis. Debray descreveu o fen\u00f3meno como uma cultura da extens\u00e3o: prioridade ao espa\u00e7o em detrimento do tempo, do imediato em detrimento da dura\u00e7\u00e3o (sampling e zapping). Na sua \u00f3ptica, vivemos um alargamento vertiginoso dos horizontes e uma retrac\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica das cronologias, facilitando o fen\u00f3meno de deshistoriciza\u00e7\u00e3o. No meu contacto com os jovens que est\u00e3o na Universidade, dou-me conta de que, falando de Arist\u00f3teles, Tom\u00e1s de Aquino ou de Marx, para discutir um qualquer tema, rapidamente os imaginar\u00e3o num debate s\u00edncrono (uma esp\u00e9cie de \u00abpr\u00f3s e contras\u00bb), com uma percep\u00e7\u00e3o muito prec\u00e1ria da profundidade hist\u00f3rica. Esta dificuldade afecta particularmente as identidades religiosas que sempre viveram de dois recursos fundamentais: a narrativa e a genealogia. Religi\u00e3o, arte ou ideologia, todos os sistemas simb\u00f3licos que visam ultrapassar o ef\u00e9mero se alimentam de processos transmiss\u00e3o cujo efeito mais vis\u00edvel se resume na ac\u00e7\u00e3o de prolongar, fazer perdurar, salvaguardar. Em muitas situa\u00e7\u00f5es, os principais problemas das Igrejas colocam-se mais na esfera da transmiss\u00e3o (vencer o tempo) do que na esfera da comunica\u00e7\u00e3o (vencer o espa\u00e7o). S\u00e3o muitos os sinais de uma inscri\u00e7\u00e3o criativa, por parte das Igrejas, na sociedade da comunica\u00e7\u00e3o. A sua inscri\u00e7\u00e3o no processo de transmiss\u00e3o cultural apresenta mais dificuldades, porque estas dizem respeito ao problema mais amplo da organiza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria nas nossas sociedades. No entanto, parece inevit\u00e1vel reconhecer que as Igrejas, neste contexto, se podem tornar p\u00f3los de identifica\u00e7\u00e3o para estes indiv\u00edduos \u00e0 procura de \u00abliga\u00e7\u00f5es\u00bb, elas que t\u00eam no seu patrim\u00f3nio uma singular experi\u00eancia do que \u00e9 construir la\u00e7os comunit\u00e1rios. <i>Alfredo Teixeira, Centro de Estudos de Religi\u00f5es e Culturas (UCP) <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1992, a \u00abInstru\u00e7\u00e3o Pastoral Aetatis novae sobre as comunica\u00e7\u00f5es sociais no vig\u00e9simo anivers\u00e1rio de Communio et progressio\u00bb, apresentava o terreno das comunica\u00e7\u00f5es sociais como lugar de uma ampla revolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. 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