{"id":387519,"date":"2025-08-11T09:03:56","date_gmt":"2025-08-11T08:03:56","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=387519"},"modified":"2025-08-21T15:27:42","modified_gmt":"2025-08-21T14:27:42","slug":"387519-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/387519-2\/","title":{"rendered":"Medita\u00e7\u00e3o prepositiva"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-271042 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Sou do tempo \u2013 \u00ab<em>o tempora<\/em>! o mores!\u00bb [que tempos! que costumes!] &#8211; em que na escola prim\u00e1ria se aprendia a gram\u00e1tica de cor, e as formas gramaticais eram ditas com a entoa\u00e7\u00e3o de quem possu\u00eda um saber de gente crescida: pronomes de todas as categorias, formas verbais de tempos e modos, adv\u00e9rbios de todas as esp\u00e9cies, conjun\u00e7\u00f5es coordenativas e subordinativas, substantivos pr\u00f3prios, comuns e colectivos, concretos e abstractos, designa\u00e7\u00e3o que sempre muito me intrigou. Achava eu que a bondade das pessoas era uma realidade bem concreta tal como bem concreta era a beleza das rosas vermelhas da roseira que medrava vi\u00e7osa num canto do quintal. Mas os mestres e os livros ensinavam que a bondade e a beleza eram substantivos abstractos. E eu, contrariando o meu sentir, tinha de assentir. E fui assentindo at\u00e9 me familiarizar com a alegoria plat\u00f3nica da caverna. Ent\u00e3o fui obrigado a pensar.<\/p>\n<p>Entre outras melodias do fazer pedag\u00f3gico, ficou a cantiga das preposi\u00e7\u00f5es simples que ainda hoje enumero com a melhor maleabilidade da l\u00edngua que n\u00e3o perdi: \u00aba, ante, ap\u00f3s, at\u00e9, com, contra, de, desde, em, entre, para, perante, por, sem, sob, sobre, tr\u00e1s.\u00bb Tudo dito, sem qualquer gaguejo, por ordem alfab\u00e9tica de \u00aba\u00bb ao \u00abt\u00bb de \u00abtr\u00e1s\u00bb, como mandava a did\u00e1ctica em uso, apesar de se n\u00e3o ver \u2013 e eu n\u00e3o via, confesso &#8211; o alcance sem\u00e2ntico destas pequenas palavras monossil\u00e1bicas e dissil\u00e1bicas guardadas no meio pelo triss\u00edlabo \u00abperante\u00bb, como tamb\u00e9m passava incompreendido o seu car\u00e1cter transitivo a solicitar um complemento de significa\u00e7\u00e3o. Mas n\u00f3s, pequenos de palmo e meio, conformados com a situa\u00e7\u00e3o e preocupados com os resultados da aprendizagem l\u00e1 nos \u00edamos empenhando em dedicarmo-nos a esta gram\u00e1tica prepositiva cuja cantilena terminava com aquele \u00abtr\u00e1s\u00bb carregado sempre com toda a energia poss\u00edvel como um corredor de maratona a celebrar a vit\u00f3ria ap\u00f3s a \u00faltima passada.<\/p>\n<p>Dever\u00e1 haver uma qualquer raz\u00e3o escondida nas profundezas da minha consci\u00eancia, mas s\u00e3o as preposi\u00e7\u00f5es que me v\u00eam \u00e0 mem\u00f3ria quando se v\u00e3o erguendo as bandeiras para as elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas e quando tanto se fala \u2013 com raz\u00e3o ou sem ela &#8211; de crise da democracia. Mas a palavra \u201cdemocracia\u201d a\u00ed est\u00e1 embandeirada a anunciar o seu significado primig\u00e9nio e a denunciar a sua dem\u00eancia que importar\u00e1 superar. Sim, porque se anda por a\u00ed a escrever que a democracia se encontra doente e a precisar de um rejuvenescimento. Ir \u00e0 raiz, ainda que seja t\u00e3o s\u00f3 da palavra, poder\u00e1 ser uma via saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>Todos o sabemos, mas nunca ser\u00e1 demais record\u00e1-lo. A palavra \u201cdemocracia\u201d fala a l\u00edngua das terras onde a democracia nasceu. Derivando de &#8220;<em>demos<\/em>&#8221; [povo] e &#8220;<em>kratos<\/em>&#8221; [poder], significa, literalmente, \u00abpoder de[o] povo\u00bb ou \u00abgoverno de[o] povo\u00bb, express\u00f5es virtualmente t\u00e3o ricas nas formas de governo sugeridas que tamb\u00e9m facilmente potenciam desvirtuamentos.<\/p>\n<p>Qualquer preposi\u00e7\u00e3o se integra numa rela\u00e7\u00e3o entre termos. Um determina precisamente a presen\u00e7a da preposi\u00e7\u00e3o que, por seu turno, determina a presen\u00e7a do outro. N\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1rio proceder a um grande esfor\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise de um qualquer texto para se concluir que a preposi\u00e7\u00e3o \u00abde\u00bb ser\u00e1 uma das mais ricas semanticamente falando e, consequentemente, uma das mais utilizadas nos nossos dizeres. Ele encontra-se ligado a mais de uma dezena de significa\u00e7\u00f5es como \u00aborigem\u00bb, \u00abcausa\u00bb, \u00abposse\u00bb, \u00abmeio\u00bb, \u00abtempo\u00bb, \u00ablugar\u00bb, \u00abmodo\u00bb, \u00abinstrumento\u00bb, \u00abmat\u00e9ria\u00bb, \u00abfinalidade\u00bb, \u00abperten\u00e7a\u00bb, \u00abvalor\u00bb, \u00abpreced\u00eancia\u00bb, \u00abcomposi\u00e7\u00e3o\u00bb, e outras mais.<\/p>\n<p>Assim sendo, de que falamos quando dizemos que a democracia \u00e9 o \u00abpoder de[o] povo\u00bb ou \u00abgoverno do povo\u00bb em que \u201cpovo\u201d aparece como complemento da preposi\u00e7\u00e3o \u00abde\u00bb determinada pelo termo \u201cpoder\u201d ou \u201cgoverno\u201d? Sinto-me tentado em ler a democracia eleitoral que a\u00ed vem \u00e0 luz das significa\u00e7\u00f5es da preposi\u00e7\u00e3o \u00abde\u00bb e estou em crer que muito longe nos levaria tal caminho. Mas vamos permanecer muito aqu\u00e9m desta lonjura evocando, para o efeito, outras preposi\u00e7\u00f5es vulgares: \u00abpara\u00bb e \u00abcom\u00bb.<\/p>\n<p>O \u00abde\u00bb, como creio poder concluir-se do que acima foi dito, significa tamb\u00e9m \u00abpara\u00bb e \u00abcom\u00bb, preposi\u00e7\u00f5es que v\u00e3o ficando perdidas no exerc\u00edcio di\u00e1rio de um \u00abde\u00bb em que facilmente se muda de direc\u00e7\u00e3o. Diga-se, ent\u00e3o, com for\u00e7a e convic\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica aquilo que, todos sabendo, se vai esquecendo: \u00abA Democracia \u00e9 o governo do povo, para o bem do povo e com a participa\u00e7\u00e3o do povo\u00bb. \u00abGoverno do povo\u00bb, \u00abgoverno para o povo\u00bb e \u00abgoverno com o povo\u00bb.<\/p>\n<p>\u00abDe\u00bb, \u00abpara\u00bb e \u00abcom\u00bb, tr\u00eas preposi\u00e7\u00f5es que fazem a diferen\u00e7a e que transportam no bojo toda a gram\u00e1tica da vida social e pol\u00edtica. Mais: de algum modo elas recobrem a ess\u00eancia da vida humana. Pensando bem, vivemos sempre \u00abde\u00bb, \u00abpara\u00bb e \u00abcom\u00bb, mesmo quando desencantamos a preposi\u00e7\u00e3o \u00abcontra\u00bb e nos colocamos numa posi\u00e7\u00e3o t\u00e3o oposicionista e negativa que chegamos a perder de vista aquilo que apregoamos, seja a democracia, seja a liberdade, seja a pr\u00f3pria comunidade, a unidade partilhada de um m\u00fanus, de uma miss\u00e3o comum, seja at\u00e9 o planeta que nos foi dado para dele cuidarmos e nele vivermos como se fosse a nossa casa. Que \u00e9, de facto.<\/p>\n<p>\u00c9 bom que as preposi\u00e7\u00f5es mantenham no uso corrente da realidade pol\u00edtica a essencialidade que lhe atribui a gram\u00e1tica e n\u00e3o se transformem em preposi\u00e7\u00f5es acidentais e de ocasi\u00e3o para enfeitar o discurso em tempo eleitoral.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)\u00a0<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":271042,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-387519","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/387519","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=387519"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/387519\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/271042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=387519"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=387519"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=387519"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}