{"id":385327,"date":"2025-07-23T13:11:17","date_gmt":"2025-07-23T12:11:17","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=385327"},"modified":"2025-07-23T13:11:17","modified_gmt":"2025-07-23T12:11:17","slug":"voces-sao-assassinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/voces-sao-assassinos\/","title":{"rendered":"\u201cVoc\u00eas s\u00e3o assassinos\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Josephine, uma crist\u00e3, m\u00e3e de 4 filhos, acusa rebeldes do M23 em Bukavu<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_357874\" aria-describedby=\"caption-attachment-357874\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/ACN-20240418-163287.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-357874 size-large\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/ACN-20240418-163287-1024x682.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"682\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/ACN-20240418-163287-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/ACN-20240418-163287-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/ACN-20240418-163287-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/ACN-20240418-163287-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/ACN-20240418-163287.jpg 1250w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-357874\" class=\"wp-caption-text\">Foto: MONUSCO\/Sylvain Liechti.<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>\u201cN\u00e3o sabemos mais o que fazer. Dormimos e n\u00e3o sabemos se vamos acordar. N\u00e3o comemos, n\u00e3o nos vestimos, n\u00e3o viajamos, n\u00e3o vivemos, morremos!\u201d <\/em><em>Josephine, uma crist\u00e3 e m\u00e3e de quatro filhos que vende sumos de fruta em garrafas de pl\u00e1stico que recolhe nas ruas, est\u00e1 desalentada. Ela vive em Bukavu, a capital da prov\u00edncia do Kivu Sul, no leste da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, ocupada desde Fevereiro pelos rebeldes do grupo M23. O testemunho desta mulher \u00e9 um grito de revolta sobre uma das guerras esquecidas no mundo na actualidade\u2026<\/em><\/p>\n<p>\u201cSou m\u00e3e de quatro filhos que procuro mandar para a escola. Recolho garrafas de pl\u00e1stico vazias e, depois de lav\u00e1-las, encho-as com \u00e1gua ou sumo de fruta feito com uma prepara\u00e7\u00e3o em p\u00f3, coloco-as no congelador e depois vendo-as por 200 francos congoleses (menos de 10 c\u00eantimos de euro).\u201d \u00c9 assim que come\u00e7a o testemunho de Josephine, que vive em Bukavu, a cidade capital da prov\u00edncia do Kivu Sul, ocupada desde Fevereiro deste ano pelas for\u00e7as do movimento rebelde M23, apoiado pelo vizinho Ruanda. As palavras desta mulher, recolhidas pela <em>Ag\u00eancia Fides<\/em>, s\u00e3o um poderoso grito de alerta para a situa\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica no plano humanit\u00e1rio que se vive na regi\u00e3o e que tem sido denunciada tamb\u00e9m pela Funda\u00e7\u00e3o AIS. \u201cEm Bukavu, desde o in\u00edcio da guerra do M23, a vida tornou-se muito dif\u00edcil: muitos perderam os seus empregos, muitos j\u00e1 n\u00e3o fazem com\u00e9rcio devido aos saques sistem\u00e1ticos dos armaz\u00e9ns onde guard\u00e1vamos as nossas mercadorias. Aqueles que nos trouxeram a guerra saquearam \u00e0 sua maneira; alguns moradores, vendo que os soldados fugiram e a pol\u00edcia se foi embora, saquearam os seus concidad\u00e3os; tamb\u00e9m as pessoas que escaparam da pris\u00e3o saqueiam.\u201d<\/p>\n<h4>\u201cViola\u00e7\u00f5es, mesmo no centro da cidade\u2026\u201d<\/h4>\n<p>Josephine descreve como o dia-a-dia das popula\u00e7\u00f5es se alterou com a tomada da cidade e da regi\u00e3o pelas for\u00e7as do grupo rebelde M23. Ela fala mesmo em guerra. \u201cPor causa da guerra, j\u00e1 n\u00e3o podemos viajar para os mercados vizinhos. Aqueles que ainda tentam abastecer-se no mercado de Mudaka t\u00eam de pagar elevados impostos na rua. Por exemplo, se fizermos compras com 30.000 francos (equivalente a 9 euros), somos obrigados a pagar 20 mil francos em impostos\u201d, diz esta mulher que vive angustiada, como as outras m\u00e3es, com a viol\u00eancia que est\u00e1 presente no quotidiano. \u201cSomos bloqueadas, mantidas ref\u00e9ns. Come\u00e7amos a registar viola\u00e7\u00f5es, mesmo no centro da cidade, embora os pais tentem esconder o crime para que a filha n\u00e3o perca o respeito da popula\u00e7\u00e3o\u201d, diz, acrescentando que agora, porque falta o dinheiro, tudo \u00e9 mais dif\u00edcil, at\u00e9 garantir que os filhos v\u00e3o \u00e0 escola. \u201cEles tentam ir \u00e0 escola, mas s\u00e3o expulsos todos os dias. O pai deles era funcion\u00e1rio p\u00fablico e, como outros funcion\u00e1rios p\u00fablicos, n\u00e3o trabalha. N\u00e3o temos escolha a n\u00e3o ser desenvencilhar-nos\u201d, assegura.<\/p>\n<h4>\u201cOs assassinatos s\u00e3o incont\u00e1veis\u2026\u201d<\/h4>\n<p>O testemunho de Josephine \u00e9 poderoso, \u00e9 a confiss\u00e3o do desalento de quem v\u00ea ruir tudo \u00e0 sua volta, de quem est\u00e1 em sofrimento e j\u00e1 quase sem for\u00e7as para resistir. \u201cN\u00f3s, mulheres, estamos mortas, embora ainda estejamos a respirar. Privadas at\u00e9 do pouco que t\u00ednhamos, somos deixadas em sofrimento e j\u00e1 n\u00e3o conseguimos sustentar as nossas fam\u00edlias. No entanto, \u00e9ramos o pilar da fam\u00edlia. J\u00e1 n\u00e3o sabemos o que fazer. Dormimos e n\u00e3o sabemos se vamos acordar. N\u00e3o comemos, n\u00e3o nos vestimos, n\u00e3o viajamos, n\u00e3o vivemos, morremos!\u201d Josephine n\u00e3o se limitou a descrever a situa\u00e7\u00e3o em que se encontra a popula\u00e7\u00e3o nesta regi\u00e3o leste da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, que vive uma das guerras esquecidas no mundo. Ela tamb\u00e9m acusa a comunidade internacional de ser complacente, de ser c\u00famplice das atrocidades que s\u00e3o cometidas nesta regi\u00e3o e cita at\u00e9 o Papa Francisco que pediu o fim do roubo sistem\u00e1tico das riquezas que se escondem no subsolo deste e de tantos e tantos pa\u00edses no continente africano. E acusa directamente tamb\u00e9m os rebeldes do grupo M23, apoiado pelo Ruanda, classificando-os de serem assassinos e saqueadores. \u201cSomos v\u00edtimas de acordos que nem sequer conhecemos\u201d, diz Josephine. \u201cEu pediria ao nosso Governo nacional para nos ajudar, antes de mais, a trazer a paz ao leste do pa\u00eds, comprometendo-nos a todos os n\u00edveis, porque os assassinatos s\u00e3o incont\u00e1veis. Com paz, tudo se torna f\u00e1cil; sem paz, nada \u00e9 poss\u00edvel. Ao M23, eu diria: quem vem libertar uma pessoa, n\u00e3o a mata! O libertador procura a paz as pessoas. Jesus deu a Sua vida, Ele libertou-nos. Voc\u00eas s\u00e3o assassinos, saqueadores e extorsion\u00e1rios. Dizei \u00e0queles que vos enviaram que nos deixem em paz.\u201d<\/p>\n<h4>\u201cCriminosos de colarinho branco\u2026\u201d<\/h4>\n<p>No testemunho, recolhido pela <em>Fides<\/em>, Josephine lan\u00e7a um apelo para o fim do saque das riquezas minerais que h\u00e1 neste pa\u00eds de \u00c1frica e que t\u00eam condenado pela sucess\u00e3o de guerras e de viol\u00eancia, o povo ao maior sofrimento. \u201c\u00c0 comunidade internacional, repito as palavras do Papa Francisco: \u2018Tirem as m\u00e3os de \u00c1frica!\u2019. Voc\u00eas s\u00e3o os inimigos n\u00famero um da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo: n\u00e3o v\u00eam para o nosso bem, mas para roubar os nossos minerais. Voc\u00eas s\u00e3o os que apoiam o M23. Voc\u00eas apresentam-se como ricos, mas n\u00f3s, Congoleses, somos os ricos. Voc\u00eas enganam-nos dizendo que est\u00e3o a ajudar-nos, mas s\u00e3o criminosos de colarinho branco. Voc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o interessados \u200b\u200bna vida dos Congoleses, mas no subsolo do Congo. Deixem-nos em paz: fiquem nas vossas casas e n\u00f3s ficaremos nas nossas. Deus deu-nos a nossa riqueza: se a querem, venham e pe\u00e7am por meios legais\u201d, diz Josephine, uma crist\u00e3, m\u00e3e de quatro filhos, que procura sobreviver todos os dias, recolhendo nas ruas garrafas de pl\u00e1stico vazias. \u201cAgora eu saio com as minhas garrafas; amanh\u00e3 vou vend\u00ea-las por alguns c\u00eantimos&#8230; e a vida continua&#8221;, conclui.<\/p>\n<h4>Den\u00fancias da Funda\u00e7\u00e3o AIS<\/h4>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o descrita por Josephine, que est\u00e1 em Bukavu, ajuda a compreender o que se passa em toda a regi\u00e3o e tamb\u00e9m na prov\u00edncia do Kivu Norte, igualmente nas m\u00e3os do grupo rebelde M23 e de outras organiza\u00e7\u00f5es terroristas. Em Fevereiro deste ano, a Funda\u00e7\u00e3o AIS denunciava o massacre de pelo menos 70 pessoas, cujos corpos foram encontrados numa igreja protestante numa aldeia em Lubero, em resultado de um ataque que ter\u00e1 sido da responsabilidade de militantes do grupo isl\u00e2mico \u2018For\u00e7as Democr\u00e1ticas Aliadas\u2019. Muitos dos corpos, essencialmente de mulheres, crian\u00e7as e idosos, estavam amarrados e alguns decapitados. As not\u00edcias da Funda\u00e7\u00e3o AIS sobre este pa\u00eds tiveram eco e recentemente, em Abril, a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou, por unanimidade, uma resolu\u00e7\u00e3o condenando \u201cos massacres, nomeadamente de crist\u00e3os\u201d, na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, citando para isso as informa\u00e7\u00f5es publicadas pela Ajuda \u00e0 Igreja que Sofre em Portugal. No documento, d\u00e1-se conta do ambiente de \u201cguerra civil prolongada\u201d em vastas regi\u00f5es, muito ricas em min\u00e9rios, nomeadamente ouro, estanho, coltan, cobre e cobalto, situadas no leste do pa\u00eds e que est\u00e3o controladas por grupos armados, nomeadamente as For\u00e7as Democr\u00e1ticas Aliadas [FDA]. A resolu\u00e7\u00e3o aprovada a 18 de Mar\u00e7o pelos deputados municipais de Lisboa refere que as FDA s\u00e3o uma \u201corganiza\u00e7\u00e3o terrorista origin\u00e1ria do Uganda, [que] desenvolve tamb\u00e9m a sua ac\u00e7\u00e3o, combatendo n\u00e3o apenas o M23 e as for\u00e7as armadas congolesas, mas tendo como alvo preferencial os Crist\u00e3os\u201d.<\/p>\n<p><em>Paulo Aido | www.fundacao-ais.pt<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Josephine, uma crist\u00e3, m\u00e3e de 4 filhos, acusa rebeldes do M23 em 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