{"id":385,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/sugestoes-para-um-exame-de-consciencia\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"sugestoes-para-um-exame-de-consciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sugestoes-para-um-exame-de-consciencia\/","title":{"rendered":"Sugest\u00f5es para um exame de consci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>P. Jo\u00e3o Aguiar Campos, Director do Di\u00e1rio do Minho <!--more--> 1. Leio no \u201cP\u00fablico\u201d de 17 de Maio de 2003: \u00abPortugueses mudam de opini\u00e3o sobre a guerra no Iraque\u00bb. Atra\u00eddo pelo t\u00edtulo e pelo prest\u00edgio de quem faz a sondagem \u2013 a Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa \u2013 interno-me no texto e dele recolho a constata\u00e7\u00e3o: no espa\u00e7o de um m\u00eas, a percep\u00e7\u00e3o dos portugueses sobre a interven\u00e7\u00e3o norte-americana e inglesa no Iraque \u00abalterou-se significativamente\u00bb. E de tal modo que, hoje, 56% consideram que \u00abperante os pr\u00f3s e os contras, a guerra acabou por valer a pena\u00bb. Isto, quatro semanas depois de 46% afirmarem a recusa liminar do conflito, mesmo que autorizado pela ONU&#8230; O texto sugere algumas explica\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o sei se suportam toda esta volatilidade. Ali\u00e1s, pareceria l\u00f3gico que, agora, o encarni\u00e7amento anti-b\u00e9lico pudesse ser maior, tendo em conta que n\u00e3o foram encontradas as tais armas qu\u00edmicas e quejandas, que serviram de pretexto para a ac\u00e7\u00e3o militar!\u2026 Ter\u00e3o sido as valas comuns a justificar a mudan\u00e7a? O desprezo do luxo de Saddam pela mis\u00e9ria do seu povo? O facto de se saber que a simples posse de uma antena parab\u00f3lica dava, no Iraque, direito a seis meses de cadeia? O consumo l\u00fadico de uma guerra servida ao sof\u00e1 pelos jornalistas \u201cembebded\u201d, qual jogo de consola?  \u00c9 natural que tudo isto tenha ajudado. Mas n\u00e3o nos esque\u00e7amos do tempo, essa terr\u00edvel arma de destrui\u00e7\u00e3o massiva das mem\u00f3rias, j\u00e1 de si t\u00e3o curtas&#8230; N\u00e3o sei quantos se lembrar\u00e3o de que o Iraque continua sem paz e o caos no trono, a ponto de o novo administrador civil, Paul Bremer III, ter anunciado, logo que pisou Bagdade, que os militares est\u00e3o autorizados a \u00abatirar a matar\u00bb.  Mas isso agora at\u00e9 nem parece interessar muito&#8230; Basta registar como, pouco a pouco, o Iraque come\u00e7ou a ser secundarizado nos alinhamentos dos notici\u00e1rios, para acabar quase num rodap\u00e9 diversivo; o que \u00e9 mais de meio caminho andado para entrar no rol nutrido das guerras esquecidas&#8230;  Os pol\u00edticos e os meios de comunica\u00e7\u00e3o social t\u00eam, ali\u00e1s, este dom: tiram e d\u00e3o \u201cestatuto\u201d aos acontecimentos, com enorme facilidade. Alguns parece sentirem, at\u00e9, uma extraordin\u00e1ria vaidade em \u201cmarcar a agenda\u201d. Mas, fazem-no, as mais das vezes, \u00e0 custa de dramas reais, esquecidos logo que deixam de servir a sua imagem ou interesses econ\u00f3micos. Arquivam o \u201cassunto\u201d, sem porventura se aperceberem que arrumam&#8230; pessoas. Ser\u00e1 que os meios de comunica\u00e7\u00e3o social cat\u00f3licos sabem resistir a esta voragem?&#8230;  Fica a pergunta. Com a certeza de que se a resposta for negativa significa que deixaram (deixamos) de ser diferentes exactamente onde a sua diferen\u00e7a \u00e9 obrigat\u00f3ria: na dimens\u00e3o \u00e9tica.  2. \u00c0 medida que outros \u201cfactos\u201d emergem nos media, mais clara se torna, entretanto, a hipocrisia que envolveu e envolve este conflito: a hipocrisia dos que ressuscitaram apressadamente a guerra preventiva, aqui e ali com argumentos messi\u00e2nicos; assim como a hipocrisia daquilo a que algu\u00e9m chamou o \u201cpacifismo hemipl\u00e9gico\u201d, cuidadosamente selectivo &#8211; que n\u00e3o pode confundir-se com o genu\u00edno e integral, \u00abque combate as causas da guerra e n\u00e3o as suas consequ\u00eancias e que, al\u00e9m disso, diagnostica correctamente a quem cabem as principais responsabilidades\u00bb. Concordo que o ataque \u201caliado\u201d ao Iraque n\u00e3o foi verdadeiramente motivado pelo facto de Bagdade constituir um perigo grave e iminente para a seguran\u00e7a internacional. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o acredito que Berlim e Paris estavam seguros da efic\u00e1cia das inspec\u00e7\u00f5es; ou que n\u00e3o tinham interesses econ\u00f3micos junto de Saddam. Al\u00e9m disso, n\u00e3o sei se algu\u00e9m ser\u00e1 capaz de afirmar, em boa consci\u00eancia, que n\u00e3o houve pol\u00edticos-manifestantes movidos apenas pelo aproveitamento de mais um pretexto, apodando os outros de alinhados e seguidistas sem escr\u00fapulos, ou at\u00e9 de prosaicos gangsters do direito internacional&#8230; A verdade que a comunica\u00e7\u00e3o social tem obriga\u00e7\u00e3o de procurar atinge-se mediante percursos em campo minado pela propaganda e desinforma\u00e7\u00e3o, cujos mestres se ultrapassaram. O pref\u00e1cio da guerra e o seu desenvolvimento foi notoriamente maniqueu, revelando que os construtores da paz t\u00eam uma dur\u00edssima tarefa: trabalhar para que sejam esbatidos os ego\u00edsmos nacionais, de modo que ganhem forma as solidariedades regionais e, depois, mundiais. N\u00e3o h\u00e1 guerra nenhuma que se combata com manifesta\u00e7\u00f5es e sentimentos. Para al\u00e9m das emo\u00e7\u00f5es, urge construir uma cultura de paz, sobre os quatro pilares que, h\u00e1 40 anos, a \u201cPacem in terris\u201d t\u00e3o bem enumerava: a verdade, a justi\u00e7a, a caridade e a liberdade. A Mensagem do Papa Jo\u00e3o Paulo II para o pr\u00f3ximo Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais \u00e9 elucidativa e muito pedag\u00f3gica a este respeito.  3. Passado o escasso tempo que passou, pode agora afirmar-se que fi\u00e9is a si mesmos e ao povo iraquiano (e aos povos v\u00edtimas de todas as guerras) continuam apenas os verdadeiros construtores da paz: os que n\u00e3o se op\u00f5em \u00e0s guerras por meros motivos pol\u00edticos ou econ\u00f3micos, mas por raz\u00f5es morais. Como o Papa Jo\u00e3o Paulo II, para citar apenas o exemplo mais not\u00f3rio e tamb\u00e9m mais mal compreendido&#8230; Explico-me: tenho para mim que o Santo Padre n\u00e3o foi correctamente interpretado por muitos dos que se agarraram \u00e0s suas palavras e ac\u00e7\u00f5es, numa esp\u00e9cie de concord\u00e2ncia excepcional, fazendo do seu nome um prefixo de credibilidade. Mas n\u00e3o o foi tamb\u00e9m por muitos cat\u00f3licos que o ouviram distra\u00eddos e, por isso, repetem, um pouco desgostosos, o que n\u00e3o disse e situam-no onde n\u00e3o est\u00e1. Penso que os media cat\u00f3licos de maior expans\u00e3o t\u00eam alguma culpa nestas distor\u00e7\u00f5es, que lhes competia evitar ou, ao menos corrigir. S\u00f3 que nem sempre \u00e9 f\u00e1cil resistir a cavalgar tamb\u00e9m a onda e preferir ter tempo e espa\u00e7o para interpretar, explicar, contextualizar\u2026 A este prop\u00f3sito n\u00e3o posso omitir a recomenda\u00e7\u00e3o tr\u00eas textos suficientemente breves que pude ler (www.arvo.net): um de Vicente Huerta, resumindo as raz\u00f5es da Igreja para dizer \u00abn\u00e3o\u00bb \u00e0 guerra; outro de Antonio Orozco, que fez uma s\u00e9ria tentativa para \u00abler e escutar sossegadamente o Papa\u00bb, deixando ao mesmo tempo vir ao de cima as d\u00favidas de quem, sentindo-se absolutamente vinculado a princ\u00edpios, vive a tens\u00e3o \u00edntima das decis\u00f5es pr\u00e1ticas; e, sobretudo, as considera\u00e7\u00f5es de D. Rafaele Renato Martino sobre \u201co Papa e a paz\u201d. Estas considera\u00e7\u00f5es resumem as tr\u00eas linhas de interven\u00e7\u00e3o da Santa S\u00e9 perante o conflito: actividade diplom\u00e1tica, ora\u00e7\u00e3o e jejum. E explicam, claramente, como Jo\u00e3o Paulo II foi capaz de libertar a paz das ideologias e de toda a eventual instrumentaliza\u00e7\u00e3o, tornando-a indispon\u00edvel \u00e0s manipula\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias e revelando-a como voca\u00e7\u00e3o. Ao fim e ao cabo, a voca\u00e7\u00e3o de cada um e de cada \u201cmeio\u201d que assume a comunh\u00e3o como meta da comunica\u00e7\u00e3o. Braga, 18 de Maio de 2003 <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P. 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