{"id":384270,"date":"2025-07-24T09:07:06","date_gmt":"2025-07-24T08:07:06","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=384270"},"modified":"2025-08-19T11:38:38","modified_gmt":"2025-08-19T10:38:38","slug":"missao-desaprender-para-aprender","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/missao-desaprender-para-aprender\/","title":{"rendered":"Miss\u00e3o: Desaprender para aprender"},"content":{"rendered":"<p><em>P. Jos\u00e9 Vieira,\u00a0Mission\u00e1rio Comboniano, na Eti\u00f3pia<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/jose-vieira-comboniano4.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-384272 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/jose-vieira-comboniano4-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/jose-vieira-comboniano4-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/jose-vieira-comboniano4-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/jose-vieira-comboniano4-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/jose-vieira-comboniano4-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/jose-vieira-comboniano4.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O servi\u00e7o mission\u00e1rio, especialmente num contexto lingu\u00edstico-cultural novo, come\u00e7a com um processo de (des)aprendizagem para abrir caminho para o mundo novo da cultura hospedeira onde o enviado deve inserir-se.<\/p>\n<p>Neste processo inicial de desconstru\u00e7\u00e3o, Cristo Jesus, o mission\u00e1rio do Pai, \u00e9 o paradigma. Um hino cristol\u00f3gico da Igreja nascente proclama que \u00abEle, que e\u0301 de condi\u00e7\u00e3o divina, n\u00e3o Se valeu da Sua igualdade com Deus, mas despojou-Se a Si pr\u00f3prio, assumindo a condi\u00e7\u00e3o de servo, tornando-se id\u00eantico aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se a Si mesmo, obedecendo at\u00e9 \u00e0 morte, e morte de cruz\u00bb (<em>Filipenses<\/em> 2, 6-8).<\/p>\n<p>No in\u00edcio de cada envio mission\u00e1rio est\u00e1 este processo de despojamento humilde da experi\u00eancia humana e crist\u00e3, referentes para acolher uma nova maneira de ser pessoa e de crer, atrav\u00e9s da l\u00edngua e da cultura, do viver.<\/p>\n<p>Confesso que \u00e9 desafiante para um adulto aceitar voltar a ser crian\u00e7a e reaprender a vida quase do zero. Por\u00e9m, sem esse \u201csalto\u201d n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer uma miss\u00e3o inculturada e aceitar o povo hospedeiro como p\u00e1tria nova e sua.<\/p>\n<p>Tinha quase 33 anos quando cheguei pela primeira vez \u00e0 Eti\u00f3pia, a 9 de Janeiro de 1993. Robe, um professor da escola prim\u00e1ria da miss\u00e3o de Qillenso, deu-me as primeiras li\u00e7\u00f5es de guji. Depois de entender os mecanismos da l\u00edngua, troquei as suas li\u00e7\u00f5es pelo conv\u00edvio com os mais novos, que n\u00e3o tinham problema \u2013 ao contr\u00e1rio dos adultos \u2013 em corrigir e galhofar com os meus pontap\u00e9s na gram\u00e1tica.<\/p>\n<p>Era complicado tentar balbuciar \u201cbom dia\u201d em guji \u2013 que literalmente se diz \u00abPassaste bem a noite?\u00bb \u2013 com as palavras a brincarem \u00e0s escondidas nas dobras da mem\u00f3ria&#8230; Uma vez, ia de viagem para Adis Abeba (a capital et\u00edope), quase 450 quil\u00f3metros, num misto de picada e asfalto. A meio do caminho, cheio de sede, parei numa loja na berma da estrada. Queria pedir um refrigerante (<em>lasselasse<\/em>) e saiu-me uma Trindade (<em>Selassie<\/em>). Dei-me conta da troca quando notei o olhar espantado do vendedor.<\/p>\n<p>Para aprender a l\u00edngua \u00e9 preciso perder o medo de errar e tentar pensar na l\u00edngua local em vez de fazer tradu\u00e7\u00e3o mental simult\u00e2nea. O processo exige tempo e o corte radical com a l\u00edngua-m\u00e3e. O que dificulta aos \u2018nativos do digital\u2019 \u2013 que passam muito do seu tempo ligados \u00e0 net na pr\u00f3pria l\u00edngua \u2013 a aprendizagem do idioma hospedeiro.<\/p>\n<p>Uma evangeliza\u00e7\u00e3o inculturada requer conhecimento da cultura local. Ajuda muito ilustrar a mensagem evang\u00e9lica com um prov\u00e9rbio ou uma hist\u00f3ria. Um anci\u00e3o, vizinho da miss\u00e3o de Haro Wato, a minha segunda casa na Eti\u00f3pia, foi um apoio fundamental. Na prepara\u00e7\u00e3o da homilia de Domingo, ia visit\u00e1-lo, l\u00edamos o Evangelho juntos e depois perguntava se havia algum ditado parecido com a mensagem de Jesus. Ainda hoje o fa\u00e7o, auxiliado pela cozinheira \u2013 que, quando, n\u00e3o sabe, vai perguntar ao pai \u2013 e por uma pequena colect\u00e2nea de prov\u00e9rbios publicada por um colega mexicano.<\/p>\n<p>Outra experi\u00eancia estimulante \u00e9 aprender como as pessoas dizem Deus na pr\u00f3pria cultura. Os gujis iniciam as ora\u00e7\u00f5es tradicionais evocando Deus como \u00abnosso pai e m\u00e3e, nosso av\u00f4 e av\u00f3, nosso bisav\u00f4, aquele que nos deu \u00e0 luz\u00bb. E t\u00eam muitas hist\u00f3rias e prov\u00e9rbios sobre Deus. Usar essa linguagem localiza a mensagem evang\u00e9lica diluindo a marca de estrangeira.<\/p>\n<p>O processo de aprendizagem \u00e9 tamb\u00e9m f\u00edsico. Sou de Cinf\u00e3es, uma vila a meio da Serra do Montemuro. Pensei que era muito alta. Qillenso, a minha casa na Eti\u00f3pia, est\u00e1 a 2.300 metros de altitude e o meu corpo levou quase um ano a acostumar-se ao ar rarefeito e h\u00famido da floresta onde vivemos. Depois de uma d\u00fazia de anos por estas paragens, ainda sinto alguma vertigem quando celebro na capela de Gosa que est\u00e1 a 2.800 metros.<\/p>\n<p>H\u00e1 outras aprendizagens a fazer: o ritmo de vida (quando n\u00e3o havia luz, deit\u00e1vamo-nos com as galinhas e levant\u00e1vamo-nos com os galos); dar tempo aos encontros com as pessoas mais do que \u00e0 agenda (na \u00c1frica, o tempo n\u00e3o se conta, mas faz-se); descobrir novos conceitos de justi\u00e7a e justeza (num processo de reconcilia\u00e7\u00e3o tradicional, ningu\u00e9m \u00e9 inteiramente culpado nem ningu\u00e9m \u00e9 completamente v\u00edtima); desacelerar o quotidiano; as comidas locais (que \u00e0s vezes provocam alguns desarranjos intestinais).<\/p>\n<p>Diz-se que a paci\u00eancia \u00e9 o grande escudo do mission\u00e1rio. \u00c9 verdade: a paci\u00eancia aprende-se e exerce-se nos diferentes processos em que estamos envolvidos. Um ditado africano ensina que sozinhos vamos mais depressa, mas juntos vamos mais longe! Os gujis dizem que \u00abo ovo devagarinho foi a p\u00e9\u00bb para explicar que o processo de crescimento (do ovo ao pinto) precisa de tempo.<\/p>\n<p>A gram\u00e1tica da (des)aprendizagem pode parecer feita de perdas, lutas e sacrif\u00edcios. Contudo, \u00e9 o que faz da vida mission\u00e1ria a aventura mais privilegiada de viver, uma experi\u00eancia de humaniza\u00e7\u00e3o que leva o mission\u00e1rio a vestir novos modos de ser humano e de viver Deus. Depois, o que nos faz falta \u00e9 o que temos!<\/p>\n<p><em>P. Jos\u00e9 Vieira<\/em><br \/>\n<em>Mission\u00e1rio Comboniano, na Eti\u00f3pia<\/em><\/p>\n<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-384270 gallery-columns-3 gallery-size-medium'><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/jose-vieira-comboniano4.jpg'><img decoding=\"async\" width=\"400\" height=\"267\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/jose-vieira-comboniano4-400x267.jpg\" class=\"attachment-medium size-medium\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/jose-vieira-comboniano4-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/jose-vieira-comboniano4-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/jose-vieira-comboniano4-768x512.jpg 768w, 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