{"id":38359,"date":"2009-04-21T11:03:11","date_gmt":"2009-04-21T11:03:11","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/04\/21\/a-estrada-de-damasco-no-ano-paulino\/"},"modified":"2009-04-21T11:03:11","modified_gmt":"2009-04-21T11:03:11","slug":"a-estrada-de-damasco-no-ano-paulino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-estrada-de-damasco-no-ano-paulino\/","title":{"rendered":"A estrada de Damasco no ano paulino"},"content":{"rendered":"<p>Muito se tem escrito e falado sobre a convers\u00e3o de S. Paulo a prop\u00f3sito deste ano paulino, mas pode acontecer que nos fiquemos a considerar o caminho de Damasco numa perspectiva alheia a cada um de n\u00f3s e como se a sua convers\u00e3o n\u00e3o tivesse nada a ver connosco. Neste momento do ano dedicado a S. Paulo, j\u00e1 sobra falar de quest\u00f5es como as relacionadas com a topografia paulina, a data e o n\u00famero das Cartas e tantas outras coisas. Mas nunca ser\u00e1 demais acentuar a natureza daquela convers\u00e3o que veio a revolucionar n\u00e3o apenas a alma ardente dessa extraordin\u00e1ria figura de ap\u00f3stolo, um aut\u00eantico \u00abgigante, n\u00e3o s\u00f3 pelo seu apostolado concreto, mas tamb\u00e9m pela sua doutrina teol\u00f3gica, extraordinariamente profunda e estimulante\u00bb (Bento XVI, 15-XI-2006). A sua convers\u00e3o veio a revolucionar tamb\u00e9m o mundo numa guerra de paz, que procede de fazer morrer o homem velho que h\u00e1 dentro de cada um, para se deixar transformar na imagem do Senhor (cfr 2 Cor 3, 18), segundo o plano eterno de Deus, que nos criou \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a (cfr Gn 1, 26-27).  Para Saulo, por\u00e9m, a convers\u00e3o n\u00e3o foi um \u00abvoltar \u00e0 resposta\u00bb, como ainda hoje os judeus designam a convers\u00e3o (hazar vethexuv\u00e1h). N\u00e3o foi um voltar para tr\u00e1s, mas sim um avan\u00e7ar em frente, na direc\u00e7\u00e3o do futuro do Povo da Alian\u00e7a anunciado pelos Profetas. Ele n\u00e3o precisou de abandonar a f\u00e9 de Israel, de que era um zeloso observante. Quando Paulo vier a lutar pela liberdade em face da Lei Antiga, ele n\u00e3o a rejeita, apenas n\u00e3o tolera que esta se imponha aos crist\u00e3os vindos dos gentios, como um meio de salva\u00e7\u00e3o.   O que n\u00f3s hoje chamamos a convers\u00e3o de Saulo foi preferentemente uma ilumina\u00e7\u00e3o (cfr 1 Cor 4, 6) e revela\u00e7\u00e3o (cfr Gal 1, 16) \u2013 t\u00e3o rica como intensa \u2013, que lhe fez ver n\u00e3o apenas que Jesus estava vivo, mas sobretudo quem era Jesus, o que representava para ele e para toda a humanidade. Por outro lado, esta convers\u00e3o foi a investidura numa nova miss\u00e3o, que j\u00e1 n\u00e3o era a de perder o tempo a esquadrinhar preceitos sobre preceitos, mas a de anunciar Cristo e a sua salva\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o provinha sen\u00e3o de Deus: non volentis neque currentis, sed miserentis Dei (Rom 9,16 \u2013 \u00abN\u00e3o depende de querer nem de correr, mas de que Deus tenha miseric\u00f3rdia\u00bb). A sua voca\u00e7\u00e3o de Ap\u00f3stolo era indiscut\u00edvel e n\u00e3o a recebia de mais ningu\u00e9m, s\u00f3 de Cristo. Assim diz aos G\u00e1latas: \u00abMas, quando aprouve a Deus \u2013 que me segregou desde o seio de minha m\u00e3e e me chamou pela sua gra\u00e7a \u2013 revelar o seu Filho em mim, para que eu O anuncie como Evangelho entre os gentios, j\u00e1 n\u00e3o fui logo consultar criatura humana alguma, nem subi a Jerusal\u00e9m para ir ter com os que se haviam tornado Ap\u00f3stolos antes de mim\u00bb. A convers\u00e3o  \u00e9 para ele a descoberta da sua voca\u00e7\u00e3o de ap\u00f3stolo. \u00abA sua convers\u00e3o n\u00e3o foi o resultado de pensamentos ou reflex\u00f5es, mas fruto de uma interven\u00e7\u00e3o divina, de uma gra\u00e7a divina imprevis\u00edvel\u00bb (Bento XVI, 25.10.2006). Ele mesmo chamar-se-\u00e1 explicitamente a si \u00abap\u00f3stolo por voca\u00e7\u00e3o\u00bb (Rm 1, 1; 1 Cor 1, 1) e \u00abap\u00f3stolo por vontade de Deus\u00bb (2 Cor 1, 1; Ef 1, 1; Col 1, 1). E a sua resposta \u00e0 voca\u00e7\u00e3o foi duma generosidade sem limites. Nada nem ningu\u00e9m podia reter o seu ardor. Paulo n\u00e3o se converteu simplesmente num f\u00e3 de Cristo; ele tornou-se um apaixonado de Cristo; ele n\u00e3o foi um mero entusiasta ao sabor de emo\u00e7\u00f5es. A emo\u00e7\u00e3o do caminho de Damasco n\u00e3o podia ter sido mais forte e n\u00e3o a poderia jamais esquecer. Mas esta nunca se reduziu a uma feliz recorda\u00e7\u00e3o. Paulo est\u00e1 enamorado de Cristo! Ele n\u00e3o percebeu somente que Jesus estava vivo. Ele captou que Jesus o amava pessoalmente, ao ponto de se ter entregado por ele a uma morte inconceb\u00edvel, a morte de cruz: \u00abdilexit me et tradidit semetipsum pro me\u00bb (Gal 2, 20 \u2013 \u00abamou-me e entregou-se por mim\u00bb). A sua vis\u00e3o de Cristo n\u00e3o ficou a ser um facto do passado, mas manteve-se viva no seu esp\u00edrito, iluminando toda a sua vida. Quando diz que viu Jesus, alude a uma situa\u00e7\u00e3o permanente, por isso usa o verbo grego no perfeito, &#61541;&#61559;&#61554;&#61537;&#61547;&#61537;&#61472;(1 Cor 9, 1 \u2013 \u00abfiquei a ver\u00bb).  Ao ler o relato da convers\u00e3o de Saulo em Actos dos Ap\u00f3stolos (cfr 9, 1-19; 22, 3-21; 26, 4-23), \u00abo leitor m\u00e9dio \u00e9 talvez tentado a deter-se demasiado nalguns pormenores, como a luz do c\u00e9u, a queda por terra, a voz que chama, a nova condi\u00e7\u00e3o de cegueira, a cura e a perda da vista e o jejum. Mas todos estes pormenores referem-se ao centro do acontecimento: Cristo ressuscitado mostra-se como uma luz maravilhosa e fala a Saulo, transforma o seu pensamento e a sua pr\u00f3pria vida. O esplendor do Ressuscitado torna-o cego: assim v\u00ea-se tamb\u00e9m exteriormente o que era a sua realidade interior, a sua cegueira em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade, \u00e0 luz que \u00e9 Cristo. E depois o seu &#8220;sim&#8221; definitivo a Cristo no baptismo volta a abrir os seus olhos\u00bb (Bemto XVI, 03.09.2008). A prop\u00f3sito da convers\u00e3o do Ap\u00f3stolo, o santo Padre observa tamb\u00e9m que Paulo encontrou a Igreja antes de encontrar Jesus, e isto foi um contacto contraproducente, n\u00e3o suscitando ades\u00e3o, mas uma violenta rejei\u00e7\u00e3o. A ades\u00e3o de Paulo \u00e0 Igreja realizou-se por meio duma interven\u00e7\u00e3o directa de Cristo, que, ao revelar-se-lhe no caminho de Damasco, se identificou com a Igreja e lhe fez compreender que perseguir a Igreja era persegui-lo a Ele, o Senhor.  Termino como afirmava no in\u00edcio: a convers\u00e3o de Paulo tem que ver com cada um de n\u00f3s; ela constitui um forte apelo a que n\u00e3o adiemos a  nossa pr\u00f3pria convers\u00e3o. Vejamos como S. Josemaria actualiza para n\u00f3s hoje aquelas palavras de Ananias a Saulo de Tarso em Act 10, 22, 14-16: \u00abE agora, por que esperas? (Quid moraris?) Levanta-te, recebe o baptismo e purifica-te dos teus pecados, invocando o Seu nome\u00bb. \u00abQuid moraris? Que esperas para fazeres o que Deus quer de ti? Sempre me impressionaram estas palavras de Ananias a Paulo, animando-o a come\u00e7ar imediatamente a sua miss\u00e3o. O Senhor dirige-as tamb\u00e9m a n\u00f3s: que esperas para te lan\u00e7ares em cheio \u00e0 tarefa que te confiei? Porque a f\u00e9 e a voca\u00e7\u00e3o de crist\u00e3os afectam toda a nossa exist\u00eancia e n\u00e3o s\u00f3 uma parte dela. As rela\u00e7\u00f5es com Deus s\u00e3o necessariamente rela\u00e7\u00f5es de entrega e assumem um sentido de totalidade. A atitude do homem de f\u00e9 \u00e9 olhar para a vida, em todas as suas dimens\u00f5es, com uma perspectiva nova: a que nos \u00e9 dada por Deus\u00bb (Cristo que passa, n\u00ba 46). Assim \u00e9 hoje para n\u00f3s o caminho de Damasco.  <i>Geraldo Moruj\u00e3o, Doutor em Teologia B\u00edblica<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito se tem escrito e falado sobre a convers\u00e3o de S. 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