{"id":38346,"date":"2009-04-20T16:24:01","date_gmt":"2009-04-20T16:24:01","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/04\/20\/discurso-de-d-jorge-ortiga-na-abertura-da-assembleia-plenaria-da-conferencia-episcopal-portuguesa\/"},"modified":"2009-04-20T16:24:01","modified_gmt":"2009-04-20T16:24:01","slug":"discurso-de-d-jorge-ortiga-na-abertura-da-assembleia-plenaria-da-conferencia-episcopal-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/discurso-de-d-jorge-ortiga-na-abertura-da-assembleia-plenaria-da-conferencia-episcopal-portuguesa\/","title":{"rendered":"Discurso de D. Jorge Ortiga na abertura da Assembleia Plen\u00e1ria da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa"},"content":{"rendered":"<p>\u00abDescortinar sementes de esperan\u00e7a, e empenhar-se para que frutifiquem\u00bb <!--more--> \u201cCombati o bom combate, terminei a minha corrida,  guardei a f\u00e9\u201d (2 Tm 4,7)  <br \/> A Assembleia Plen\u00e1ria da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa (CEP) est\u00e1 empenhada numa caminhada eclesial com S. Paulo. Aqui renovamos a nossa comunh\u00e3o, na diversidade de situa\u00e7\u00f5es, testemunhamos uma sintonia de objectivos que afasta qualquer tipo de auto-sufici\u00eancia ou isolamento das nossas Dioceses. Neste ambiente de comunh\u00e3o, entre n\u00f3s e com o Papa Bento XVI, no dia seguinte ao 4.\u00ba Anivers\u00e1rio da sua elei\u00e7\u00e3o e em tempos de incompreens\u00e3o da sua mensagem, sa\u00fado, dum modo particular e pela primeira vez, sua Ex.cia o Senhor N\u00fancio Apost\u00f3lico, D. Rino Passigato, a quem asseguramos o compromisso de ser voz da Igreja Cat\u00f3lica neste pequeno pa\u00eds de grandes responsabilidades na viv\u00eancia da f\u00e9. Recordo, com saudade e compromisso nos habituais sufr\u00e1gios, o Senhor D. Ant\u00f3nio dos Reis Rodrigues que, recentemente, terminou a sua caminhada terrena, e que foi Secret\u00e1rio da Confer\u00eancia Episcopal durante largos anos.  <b>1 &#8211; Prioridades Pastorais numa mudan\u00e7a cultural<\/b> Como introdu\u00e7\u00e3o aos nossos trabalhos, come\u00e7o por sintetizar a vida de S. Paulo na confiss\u00e3o que ele comunga com Tim\u00f3teo: \u201cCombati o bom combate, terminei a minha corrida, guardei a f\u00e9\u201d (2 Tm 4, 7). Sabemos que combate e amor t\u00eam a mesma origem etimol\u00f3gica na l\u00edngua grega e que, por isso, o combate que a Igreja em Portugal deve travar \u00e9 a luta pelo amor permanentemente renovado. A luta n\u00e3o \u00e9 contra ningu\u00e9m, mas sempre a favor. Somos homens dum amor sem tr\u00e9guas nem armist\u00edcios, na preocupa\u00e7\u00e3o pelo bem.  Nesta atitude deveremos \u201cguardar a f\u00e9\u201d, interpretando-a como seguran\u00e7a pessoal em Deus, com uma firmeza que ultrapassa as raz\u00f5es e motiva\u00e7\u00f5es humanas. Se S. Paulo expressava a sua experi\u00eancia, n\u00f3s teremos de o imitar atrav\u00e9s do abandono confiante em Deus que nunca poder\u00e1 ser um tesouro a esconder. Sentimos o dever de \u201cguardar\u201d a f\u00e9 do nosso povo, conservando-a; mas tamb\u00e9m motivando-o para compromissos amorosos com Deus e o com o pr\u00f3ximo, nas perplexidades hodiernas. Trata-se de redescobrir a consist\u00eancia duma f\u00e9 que sabe estar em todos os ambientes, estimulando-a para que ningu\u00e9m tenha medo de a comunicar. Outrora, o ambiente era favor\u00e1vel; mas tamb\u00e9m permitiu que nos instal\u00e1ssemos em rotinas, pessoais e pastorais, ou em posi\u00e7\u00f5es dogm\u00e1ticas. Hoje, o dever de \u201cguardar a f\u00e9\u201d coloca-nos perante a modernidade e os seus desafios. \u00c9 num quadro de mudan\u00e7a cultural que queremos discernir novas propostas pastorais, para que a Igreja possa ser resposta cred\u00edvel.  \u00c9 este o combate que nos est\u00e1 reservado e que nos far\u00e1 empreender caminhos novos, capazes de mudar uma f\u00e9 centrada num moralismo vazio ou num ritualismo sem conte\u00fado e significado. Numa sociedade caracterizada pela fragmenta\u00e7\u00e3o \u00e9tica, n\u00e3o basta fazer apolog\u00e9tica ou defender, aprioristicamente, prerrogativas. \u201cGuardaremos\u201d a f\u00e9, conservando-a e propondo-a, se a vida da Igreja for express\u00e3o duma confian\u00e7a total em Deus e proposta eloquente de um Amor renovado \u00e0 humanidade.  <b>2 &#8211; A verdadeira fam\u00edlia, perene boa not\u00edcia<\/b> A fam\u00edlia est\u00e1, hoje, sujeita a m\u00faltiplos e permanentes ataques. Para n\u00f3s, ela tem relev\u00e2ncia intr\u00ednseca e uma centralidade \u00fanica para o presente e futuro da Igreja e da sociedade. N\u00e3o ignoramos, por\u00e9m, que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil articular o amor \u00e0 verdade de Deus com a compreens\u00e3o da fragilidade humana. Conhecendo \u201co tempo\u201d da fam\u00edlia nas suas coordenadas contrastantes, nunca poderemos apresentar a maravilhosa proposta crist\u00e3 com compromissos ou descontos doutrinais, atenuando a beleza do projecto esponsal. Compreender nunca pode ser sin\u00f3nimo de trair. Com esta aten\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia, onde v\u00e3o desaguar os grandes problemas da actualidade, aponto algumas refer\u00eancias que considero de pertin\u00eancia doutrinal e pastoral, para oferecer as ajudas necess\u00e1rias ao renascimento do tecido familiar.   <i>2.1 \u2013 A centralidade da fam\u00edlia<\/i> \u201cO futuro da Humanidade passa pela fam\u00edlia\u201d \u2013 afirmou, v\u00e1rias vezes, o Papa Jo\u00e3o Paulo II. A fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9, na verdade, uma simples rel\u00edquia do passado; dela dependem o presente e o futuro de qualquer sociedade. \u00c9 a fam\u00edlia que assegura a sua renova\u00e7\u00e3o salutar e harmoniosa. A fam\u00edlia \u2013 j\u00e1 v\u00e1rios observadores e estudiosos o salientaram \u2013 \u00e9 a primeira escola de virtudes sociais. Nela se conjugam liberdade e solidariedade. Nela, a pessoa \u00e9 dignificada como \u201c\u00fanica e irrepet\u00edvel\u201d, longe do anonimato massificante. A\u00ed experimenta o amor, sente&#8211;se amada e, espontaneamente, ama em resposta a esse amor. Apresentar a crise da fam\u00edlia como a mais grave das crises que atravessam sociedades como a nossa n\u00e3o ser\u00e1, certamente, exagerado. Mas importa tamb\u00e9m real\u00e7ar que, na pr\u00f3pria fam\u00edlia, se encontram recursos que permitem encarar o futuro com esperan\u00e7a.  <i>2.2 \u2013 Pol\u00edticas de promo\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia<\/i> A centralidade do papel social da fam\u00edlia justifica que os poderes p\u00fablicos concebam e executem uma pol\u00edtica que a apoie e promova.  Esse apoio e essa promo\u00e7\u00e3o, antes de se traduzir em medidas pontuais, em preceitos legais espec\u00edficos ou na concess\u00e3o de subs\u00eddios, h\u00e1-de traduzir-se numa pol\u00edtica de promo\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o cultural da fam\u00edlia. N\u00e3o por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas ou partid\u00e1rias, mas em virtude do papel social que ela, objectivamente, desempenha. Aproximam-se elei\u00e7\u00f5es legislativas. Seria bom que os candidatos apresentassem propostas reflectidas sobre estas quest\u00f5es, que s\u00e3o mais decisivas para o futuro da sociedade do que muitas outras que ocupam lugares de primazia em agendas partid\u00e1rias e em primeiras p\u00e1ginas de jornais e notici\u00e1rios.  Os cidad\u00e3os t\u00eam o direito de saber qual a concep\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica familiar subjacente aos v\u00e1rios programas. E \u00e9 leg\u00edtimo \u2013 \u00e9 mesmo um dever! \u2013 que os pol\u00edticos atribuam a estas quest\u00f5es o peso que verdadeiramente t\u00eam, de modo que os eleitores possam escolher em consci\u00eancia, ajuizando sobre tais propostas. \u00c9 a autenticidade da democracia que est\u00e1 em jogo.                 <i>2.3 &#8211; A identidade da fam\u00edlia<\/i> O primeiro passo dessa pol\u00edtica \u00e9 o reconhecimento social da identidade pr\u00f3pria da fam\u00edlia, que n\u00e3o pode confundir-se com qualquer outro tipo de conviv\u00eancia. Por isso, \u00e9 grave que se assista, agora, entre n\u00f3s, \u00e0 tentativa de redefini\u00e7\u00e3o legal do casamento (e, desse modo, do conceito de fam\u00edlia), de modo a nele incluir uni\u00f5es entre pessoas do mesmo sexo. H\u00e1 quem afirme que, desta forma, a fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 afectada. Mas n\u00e3o pode deixar de o ser, porque a mensagem cultural subjacente a essa redefini\u00e7\u00e3o \u00e9 a indiferen\u00e7a perante a centralidade do seu papel social. Que pol\u00edtica familiar poder\u00e1 conceber um Estado que come\u00e7a por ignorar o papel social da fam\u00edlia e o seu car\u00e1cter insubstitu\u00edvel e inconfund\u00edvel? O papel social da fam\u00edlia liga-se \u00e0 renova\u00e7\u00e3o da comunidade, atrav\u00e9s da gera\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o dos seus novos membros. Mediante a fam\u00edlia, uma gera\u00e7\u00e3o assegura a exist\u00eancia e a felicidade da gera\u00e7\u00e3o seguinte. A educa\u00e7\u00e3o da pessoa, por seu lado, sup\u00f5e o contributo simult\u00e2neo das dimens\u00f5es masculina e feminina, que s\u00f3 em conjunto comp\u00f5em a riqueza integral do humano. O valor e a riqueza da dualidade sexual, a unidade e complementaridade das diferen\u00e7as entre as dimens\u00f5es masculina e feminina do humano exprimem-se na institui\u00e7\u00e3o do casamento, como uni\u00e3o entre um homem e uma mulher, como sempre foi concebido nas mais variadas \u00e9pocas e culturas.   <i>2.4 &#8211; Uni\u00e3o perene e duradoura<\/i> Para que a fam\u00edlia desempenhe o seu papel social, h\u00e1-de assentar na uni\u00e3o perene e duradoura e num compromisso que v\u00e1 para al\u00e9m do imediato.  A banaliza\u00e7\u00e3o do div\u00f3rcio, extremamente facilitado, compromete gravemente a fun\u00e7\u00e3o social da fam\u00edlia e \u00e9 dos mais claros sintomas da sua crise. A desestrutura\u00e7\u00e3o familiar chega a estar na origem de fen\u00f3menos t\u00e3o graves como a toxicodepend\u00eancia e a delinqu\u00eancia juvenil. Mas mesmo quando n\u00e3o se atingem estes extremos, n\u00e3o pode dizer-se que ser\u00e1 salutar uma sociedade onde a situa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as que n\u00e3o s\u00e3o simultaneamente educadas pelo pai e pela m\u00e3e deixou de ser excep\u00e7\u00e3o e passou a ser regra. Neste contexto, as recentes altera\u00e7\u00f5es legislativas ao regime do div\u00f3rcio, que o facilitam ainda mais e que tornam o casamento civil o mais inst\u00e1vel dos contratos, n\u00e3o podem deixar de ser apontadas como sinal negativo. Sendo verdade que a generaliza\u00e7\u00e3o do div\u00f3rcio n\u00e3o depende s\u00f3, nem fundamentalmente, do quadro legislativo, teremos de reconhecer que a falta de prepara\u00e7\u00e3o para o casamento e um contexto cultural individualista, avesso aos sacrif\u00edcios exigidos pela constru\u00e7\u00e3o de um projecto a dois, s\u00e3o causas que nunca podem ser ignoradas.  <i>2.5 &#8211; Para uma cultura da vida<\/i> A hist\u00f3ria humana conta-nos que as amea\u00e7as \u00e0 vida se situavam, quase exclusivamente, nas condi\u00e7\u00f5es culturais e ambientais; nomeadamente, na guerra e na aus\u00eancia de cuidados de higiene ou ambienta\u00e7\u00e3o. Hoje, a medicina, nascida para tutelar a vida, associa a si conquistas de alcance impressionante, ao lado de amea\u00e7as e atitudes de nega\u00e7\u00e3o do direito a nascer e a viver.  A Carta Enc\u00edclica do Papa Jo\u00e3o Paulo II Evangelium Vitae fala de sintomas que parecem manifestar uma esp\u00e9cie de \u201ceclipse\u201d da vida.  Impressiona que tenha tomado conta do pensamento actual o princ\u00edpio \u201cdeve-se fazer tudo o que se quer, se isso for poss\u00edvel\u201d&#8230; A mentalidade onde o homem aparece dotado de omnipot\u00eancia e liberto de concep\u00e7\u00f5es consideradas ultrapassadas, est\u00e1 a negar a verdade integral da realidade humana. O homem \u00e9 corpo e esp\u00edrito, entidade biol\u00f3gica e pessoa; e o que caracteriza a pessoa nunca pode reduzir-se a algu\u00e9m que tem um corpo, porque est\u00e1 dotado duma qualidade transcendente que a relaciona com Deus e com os outros. Por isso, afirmamos que a vida biol\u00f3gica, desde a concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 morte, possui uma sacralidade intr\u00ednseca, uma dignidade inalien\u00e1vel e origin\u00e1ria que lhe confere um valor \u00fanico e irrepet\u00edvel.  Uma mentalidade deliberadamente anti-natalista est\u00e1 a conduzir ao chamado \u201cInverno demogr\u00e1fico\u201d. Sem ignorar as dificuldades materiais, h\u00e1 que cultivar uma mentalidade de abertura \u00e0 vida. Os poderes p\u00fablicos, se querem combater a crise demogr\u00e1fica, deveriam veicular uma mensagem cultural de valoriza\u00e7\u00e3o da vida. Contradit\u00f3ria com essa mensagem \u00e9, certamente, mais do que tudo, a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto. A experi\u00eancia dos primeiros anos dessa legaliza\u00e7\u00e3o evidencia j\u00e1 o que antes se temia: a banaliza\u00e7\u00e3o crescente dessa pr\u00e1tica. Como se revelam agora enganadoras as declara\u00e7\u00f5es de que a legaliza\u00e7\u00e3o permitira conter o n\u00famero dos abortos, atrav\u00e9s de sistemas de aconselhamento! A crise da fam\u00edlia joga-se no plano das mentalidades e, por isso, n\u00e3o depende s\u00f3 das leis e das pol\u00edticas. Mas isto n\u00e3o significa que se possam ignorar as condi\u00e7\u00f5es concretas da vida das fam\u00edlias, que impedem muitas, objectivamente, de desempenhar cabalmente a sua miss\u00e3o. Inqu\u00e9ritos j\u00e1 realizados revelam mesmo que a maioria dos casais desejaria ter mais filhos. Mas deparam-se com os obst\u00e1culos do desemprego, do emprego prec\u00e1rio, dos baixos sal\u00e1rios, das dificuldades no acesso \u00e0 habita\u00e7\u00e3o ou dos hor\u00e1rios que dificultam a concilia\u00e7\u00e3o entre o trabalho e a vida familiar.  Merecem aplauso medidas recentes de aumento dos abonos de fam\u00edlia ou de alargamento das licen\u00e7as de maternidade e paternidade. Mant\u00e9m-se, por\u00e9m, a injusti\u00e7a de um sistema fiscal que discrimina negativamente as pessoas casadas e que n\u00e3o tem em devida conta os encargos que os filhos representam.  <i>2.6 &#8211; Espa\u00e7o de educa\u00e7\u00e3o e acolhimento dos idosos<\/i> A fam\u00edlia \u00e9 o contexto ideal para a educa\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es e \u00e9 tamb\u00e9m o contexto ideal para viver o envelhecimento. Tamb\u00e9m esta \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. O papel do Estado e das institui\u00e7\u00f5es de solidariedade social dever\u00e1 ser supletivo e de apoio.  A j\u00e1 mencionada crise demogr\u00e1fica acarreta o envelhecimento progressivo das sociedades. Estas s\u00e3o, e ser\u00e3o cada vez mais, tentadas a encarar os idosos como um peso. Neste contexto, nunca \u00e9 demais real\u00e7ar que nas nossas sociedades s\u00e3o as crian\u00e7as e jovens que faltam; n\u00e3o s\u00e3o os idosos que est\u00e3o a mais!.. E que o aumento da longevidade \u00e9 um ineg\u00e1vel bem. Importa, por isso, descobrir formas de valorizar o recurso que os idosos representam, sob os mais variados aspectos,  H\u00e1 que valorizar a vida, mesmo na doen\u00e7a e na sua fase terminal. A doen\u00e7a n\u00e3o retira dignidade \u00e0 vida.  V\u00eam estas considera\u00e7\u00f5es a prop\u00f3sito das anunciadas propostas de legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia, que apresentam a morte como resposta ao sofrimento da doen\u00e7a e da fase terminal da vida. Ora, a verdadeira resposta est\u00e1 no amor fraterno e solid\u00e1rio. A legisla\u00e7\u00e3o, recentemente aprovada, que consagra a obrigatoriedade da disciplina de educa\u00e7\u00e3o sexual, sem atender \u00e0 necessidade de respeitar as convic\u00e7\u00f5es das fam\u00edlias, pode vir a traduzir-se noutro atentado aos seus direitos. N\u00e3o pode, certamente, ignorar-se a import\u00e2ncia de um correcta educa\u00e7\u00e3o sexual, que integre as dimens\u00f5es \u00e9ticas e se situe num quadro de forma\u00e7\u00e3o integral da pessoa. Mas, atendendo a experi\u00eancias j\u00e1 realizadas entre n\u00f3s, s\u00e3o justificados os receios de que os programas dessa disciplina possam chocar com as concep\u00e7\u00f5es \u00e9ticas das fam\u00edlias em mat\u00e9ria t\u00e3o delicada. E tamb\u00e9m neste dom\u00ednio o papel da escola e de Estado dever\u00e1 ser de apoio supletivo (1).  <i>2.7 &#8211; A fam\u00edlia colocada perante desafios novos<\/i> Sabemos que a fam\u00edlia n\u00e3o encerra apenas momentos id\u00edlicos de paz e felicidade. A conviv\u00eancia familiar \u00e9 tamb\u00e9m, por vezes, a ocasi\u00e3o que propicia fen\u00f3menos de viol\u00eancia dom\u00e9stica, que representam a completa pervers\u00e3o dos valores familiares. Sem descurar a ac\u00e7\u00e3o dos sistemas policial e judicial na repress\u00e3o deste fen\u00f3meno, h\u00e1 que salientar a import\u00e2ncia da preven\u00e7\u00e3o, o que tamb\u00e9m depende da educa\u00e7\u00e3o e da prepara\u00e7\u00e3o para o casamento.  O cen\u00e1rio de crise econ\u00f3mica, que j\u00e1 se verifica e que tender\u00e1 a agravar-se nos pr\u00f3ximos tempos, torna particularmente gravoso o futuro de muitas fam\u00edlias.  Para muitas pessoas, a fam\u00edlia \u00e9 o apoio seguro, moral e material, nos momentos mais dram\u00e1ticos. A fam\u00edlia \u00e9 o primeiro sistema de seguran\u00e7a social e este \u00e9 mais um motivo a justificar o apoio do Estado. E \u00e9 assim, antes de mais, porque a fam\u00edlia \u00e9 a primeira escola de solidariedade, onde cada um sente como seus os problemas dos outros.  Esta crise econ\u00f3mica poder\u00e1 servir, precisamente, para descobrir novas formas de organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, mais fraternas e solid\u00e1rias, mais \u00e0 medida da pessoa e da fam\u00edlia. Por outro lado, perante a crescente exclus\u00e3o social, s\u00f3 uma verdadeira integra\u00e7\u00e3o de todos \u2013 pessoas e grupos sociais \u2013 permitir\u00e1 que a pobreza e a discrimina\u00e7\u00e3o n\u00e3o proliferem. Da\u00ed que a l\u00f3gica da solidariedade activa e da subsidiariedade se tornem, em conjunto, o \u00fanico instrumento capaz de garantir dignidade para todos, afastando o espectro da pobreza, tantas vezes envergonhada. A fal\u00eancia do sistema econ\u00f3mico-financeiro exige uma solu\u00e7\u00e3o global, onde a participa\u00e7\u00e3o de cada um fa\u00e7a com que as coisas materiais sejam colocadas ao servi\u00e7o do bem comum. O Papa Bento XVI tem sublinhado que a crise n\u00e3o \u00e9 meramente econ\u00f3mica ou financeira. O que est\u00e1 a acontecer \u00e9 a crise dum modelo de sociedade que, alicer\u00e7ada no lucro f\u00e1cil e r\u00e1pido, propunha um consumismo desenfreado e concretizava uma \u00e9tica relativista, onde cada um percorria os caminhos da satisfa\u00e7\u00e3o de gostos e crit\u00e9rios pessoais, em detrimento da justi\u00e7a, da solidariedade e dos valores \u00e9ticos fundamentais.  Pode acontecer que esta crise nos ensine a conviver na \u201ccasa comum\u201d duma \u00fanica fam\u00edlia, onde a pessoa vale por si, sem descrimina\u00e7\u00f5es de qualquer esp\u00e9cie. Isto sup\u00f5e que nos coloquemos numa perspectiva de verdade. Sabemos que h\u00e1 empres\u00e1rios que, para salvarem as empresas, defrontam situa\u00e7\u00f5es graves. S\u00f3 que, por outro lado, ningu\u00e9m ignora que outros abandonaram o barco com atitudes fraudulentas, n\u00e3o respeitando as m\u00ednimas exig\u00eancias \u00e9ticas&#8230; H\u00e1 trabalhadores que assumiram o momento dif\u00edcil da situa\u00e7\u00e3o para produzir mais e melhor. Mas tamb\u00e9m temos outros que caminham na ilus\u00e3o de acreditar em realidades que n\u00e3o existem. S\u00f3 com maior sobriedade, austeridade e compromisso colectivo ultrapassaremos o que parece inevit\u00e1vel.  Se existem muitos direitos sublinhados pela Doutrina Social da Igreja, o direito ao trabalho \u00e9 prim\u00e1rio e condicionante da dignidade da pessoa humana. Negar ou n\u00e3o proporcionar que todos possam exercer uma actividade que permita o essencial para viver, significa gerar fen\u00f3menos de exclus\u00e3o e marginalidade social, potencialmente causadores de inseguran\u00e7a, viol\u00eancia ou incapacidade de vida em comum no respeito por todos. Mais grave ainda \u2013 embora n\u00e3o seja facilmente vis\u00edvel \u2013 \u00e9 o problema dos desempregados envergonhados, que nunca poderemos ignorar. Se houve um tempo em que a quest\u00e3o do trabalho era apresentada como motivo de confronto duro e tr\u00e1gico entre patr\u00f5es e oper\u00e1rios, hoje a tens\u00e3o torna-se mais profunda pelo facto de as decis\u00f5es se tornarem mais distantes, porque tomadas por potentados financeiros que se tornam, ou podem tornar, \u00e1rbitros absolutos, sem considera\u00e7\u00e3o pela dignidade do trabalhador. A pobreza vai-se acentuando e a Igreja deve ser a voz perene \u201cda boa not\u00edcia para os pobres\u201d.  Sabemos que o pobre n\u00e3o pode ser visto como um fardo, mas como uma \u201cpossibilidade de riqueza maior\u201d, se formos capazes de promover a justi\u00e7a e a caridade, mudando \u201cos estilos de vidas, os modelos de produ\u00e7\u00e3o e de consumo, as estruturas consolidadas de poder que hoje seguem a sociedade\u201d (Jo\u00e3o Paulo II, Carta Enc\u00edclica Centesimus Annus, 58).  O Papa Jo\u00e3o Paulo II j\u00e1 recordava a mundializa\u00e7\u00e3o da economia, como fen\u00f3meno que n\u00e3o pode ser desprezado, pois pode criar condi\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias de maior bem-estar. Desde que se reconhe\u00e7a \u201ca necessidade cada vez maior de que \u00e0 crescente internacionaliza\u00e7\u00e3o da economia correspondam v\u00e1lidos organismos internacionais de controlo e orienta\u00e7\u00e3o que encaminhem a economia para o bem comum, j\u00e1 que nenhum Estado por si s\u00f3, ainda que fosse o mais poderoso da terra, seria capaz de o fazer\u201d (C.A. 58).  <b>3 &#8211; A Igreja profeta da esperan\u00e7a<\/b> Na op\u00e7\u00e3o que fiz de introduzir os nossos trabalhos com uma comunica\u00e7\u00e3o centralizada na fam\u00edlia, situei-me em aspectos que podem parecer transmitir uma vis\u00e3o pessimista, quando a hora deve ser de esperan\u00e7a. No entanto, apenas quis sublinhar a violenta e sistem\u00e1tica agress\u00e3o ao facto crist\u00e3o, que coloca a Igreja numa situa\u00e7\u00e3o de contraste com certas mentalidades. Ao referir este contexto, pretendi suscitar dinamismos de resposta, pois a Igreja n\u00e3o deve ser ing\u00e9nua espectadora inactiva e sorridente.  Quis, s\u00f3 e apenas, recordar o que o Papa Jo\u00e3o Paulo II nos legou na Carta Enc\u00edclica Redemptoris Missio (11): \u201cA Igreja \u2013 e nela os crist\u00e3os \u2013 n\u00e3o podem esconder-se, nem conservar para si a novidade e a riqueza, recebida da bondade divina para ser comunicada a todos os homens\u201d. N\u00e3o comunicamos uma doutrina ou uma explica\u00e7\u00e3o te\u00f3rica do enigma humano e do universo. Anunciamos um acontecimento, como algo que continua e de que nos orgulhamos, conscientes de que os nossos interlocutores j\u00e1 n\u00e3o se encontram nas condi\u00e7\u00f5es que caracterizavam \u00e9pocas precedentes.  Parece que vivemos num tempo de alergia \u00e0s certezas; mas temos um patrim\u00f3nio onde transparece uma verdade total de que devemos ser eco. Cabe-nos mostrar a evid\u00eancia da verdade, sem amputa\u00e7\u00f5es. E cabe-nos faz\u00ea-lo sem f\u00f3rmulas cansadas e repetitivas!&#8230;     <b>4 \u2013 Uma certeza e um apelo<\/b> Para terminar, uma certeza e um apelo. A certeza est\u00e1 na esperan\u00e7a com que devemos viver os momentos actuais. \u201cO homem tem para Deus um valor t\u00e3o grande, que Ele mesmo se fez homem para poder padecer com o homem, de modo muito real, na carne e no sangue, como nos \u00e9 demonstrado na narra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o de Jesus\u201d (Bento XVI, Carta Enc\u00edclica Spe Salvi, 39).  Que Portugal tenha a certeza de que a Igreja acompanha os sofrimentos de todos para fazer alimentar a esperan\u00e7a num amanh\u00e3 menos cansado, porque cheio de serenidade e alegria. O apelo parte da gra\u00e7a que a canoniza\u00e7\u00e3o do Beato Nuno de Santa Maria deve assegurar-nos. O seu exemplo deve ser paradigm\u00e1tico para a Igreja (cf. Nota Pastoral da CEP de 6.3.2009). Tratou-se de algu\u00e9m que defendeu a identidade nacional, com risco da pr\u00f3pria vida; na hora das grandes decis\u00f5es ou iniciativas, uniu a contempla\u00e7\u00e3o e a ac\u00e7\u00e3o; quando lhe eram oferecidas a grandeza da fama e da riqueza, optou por uma vida simples, onde a pobreza lhe proporcionou o melhor que poderia encontrar, vivendo como Irm\u00e3o Carmelita ao servi\u00e7o dos pobres. Com o Santo Condest\u00e1vel, inventemos modos novos de servir a causa do Evangelho para que, a partir da fam\u00edlia, criemos condi\u00e7\u00f5es para uma Igreja com futuro e um Portugal com esperan\u00e7a.   <i>+ Jorge Ortiga, Presidente da CEP<\/i>  NOTA: 1 &#8211; Ser\u00e1 oportuno relembrar, a este respeito, o que consagra o artigo 26\u00ba, n\u00ba 3, da Declara\u00e7\u00e3o Universal do Direitos Humanos: \u00abAos pais pertence a prioridade do direito de escolher o g\u00e9nero de educa\u00e7\u00e3o a dar aos filhos\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abDescortinar sementes de esperan\u00e7a, e empenhar-se para que 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