{"id":38325,"date":"2009-04-20T11:17:27","date_gmt":"2009-04-20T11:17:27","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/04\/20\/homilia-de-d-manuel-clemente-na-missa-de-encerramento-do-congresso-nacional-da-acege\/"},"modified":"2009-04-20T11:17:27","modified_gmt":"2009-04-20T11:17:27","slug":"homilia-de-d-manuel-clemente-na-missa-de-encerramento-do-congresso-nacional-da-acege","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-manuel-clemente-na-missa-de-encerramento-do-congresso-nacional-da-acege\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Manuel Clemente na Missa de encerramento do Congresso Nacional da ACEGE"},"content":{"rendered":"<p>Encerra-se o 4\u00ba Congresso Nacional da Associa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 de Empres\u00e1rios e Gestores com a Santa Missa do 2\u00ba Domingo da P\u00e1scoa. Quer isto dizer que n\u00e3o se \u201cencerra\u201d, antes se prolonga, pois assim \u00e9 toda a Missa, que nos envia a testemunhar a vida ressuscitada que nos oferece. O Congresso teve precisamente como tema \u201cEmpres\u00e1rios e Gestores: Miss\u00e3o e Valores perante os desafios de hoje\u201d. \u00c9 de \u201cmiss\u00e3o\u201d que se trata, outro modo de dizer envio. Daqui partireis decerto mais convictos de que no mundo da empresa e da gest\u00e3o se abre um campo vasto, complexo e inadi\u00e1vel de miss\u00e3o, em tempos dif\u00edceis mas por isso mesmo \u00e0 altura da vossa criatividade e coragem. Como crist\u00e3os sabeis muito bem que essa \u00e9 exactamente a fronteira aberta dos disc\u00edpulos do Ressuscitado, que persistem e recriam, em constante P\u00e1scoa. Lembrava-nos o Evangelho que na tarde daquele dia \u2013 o dia da P\u00e1scoa que eles ainda n\u00e3o sabiam \u2013 os disc\u00edpulos continuavam fechados em casa e com medo que lhes acontecesse porventura o mesmo que a Jesus, condenado e morto. Mas eis que Jesus \u201cse apresenta\u201d no meio deles e lhes d\u00e1 a paz e o Esp\u00edrito, para prosseguiram a sua obra de reconcilia\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, de recome\u00e7o geral das vidas e de todas as coisas.  Car\u00edssimos irm\u00e3os, \u00e9 esta a experi\u00eancia fundamental que fazemos em Igreja, em cada celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, como estamos aqui e agora. N\u00e3o h\u00e1 \u201cportas fechadas\u201d que impe\u00e7am Cristo de continuar connosco, para nos pacificar o cora\u00e7\u00e3o e nos dar for\u00e7a bastante para a miss\u00e3o que temos. For\u00e7a que \u00e9 a do seu pr\u00f3prio Esp\u00edrito, que recebe do Pai e partilha connosco. Esp\u00edrito que criou o mundo e agora o ressuscita e recria em Cristo e nos que s\u00e3o de Cristo, para a felicidade de todos.  \u00c9 esta a miss\u00e3o. E, falando tamb\u00e9m de valores, o que mais \u201cvale\u201d, no sentido de poder e conseguir, \u00e9 o Esp\u00edrito de Cristo em v\u00f3s, que vos d\u00e1 coragem e lucidez para estardes activamente na primeira linha da reconstru\u00e7\u00e3o social, que tem na empresa e na gest\u00e3o, como na economia em geral, um factor determinante. Mas o Evangelho ouvido adianta ainda outro important\u00edssimo ponto. Dizia que Tom\u00e9, um dos disc\u00edpulos, n\u00e3o estava com eles naquela altura, n\u00e3o acreditando depois no que lhe contaram. Oito dias depois \u2013 ou seja neste 2\u00ba Domingo da P\u00e1scoa \u2013 \u201cestavam os disc\u00edpulos outra vez em casa e Tom\u00e9 com eles\u201d. Viu ent\u00e3o Jesus e acreditou. Significa este trecho que a nossa reuni\u00e3o em nome de Cristo e dos valores evang\u00e9licos \u00e9 condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel, para \u201cvermos\u201d Cristo e a vida a partir de Cristo. \u00c9 este o significado da Igreja como comunidade crist\u00e3 onde ouvimos a Palavra de Cristo, experimentamos a sua presen\u00e7a e comungamos da sua vida e miss\u00e3o. \u00c9 por isso que sois \u201cAssocia\u00e7\u00e3o Crist\u00e3\u201d, para que, na partilha m\u00fatua, ganheis o Esp\u00edrito de Cristo, que vos inspirar\u00e1 na empresa e na gest\u00e3o, como nos v\u00e1rios aspectos da vida, da fam\u00edlia \u00e0 sociedade e \u00e0 cultura. Diria assim: t\u00e3o simples como isto, t\u00e3o imprescind\u00edvel sobretudo.  A sociedade portuguesa, atingida pela presente crise s\u00f3cio-laboral, com reflexos t\u00e3o preocupantes na vida das fam\u00edlias e no futuro dos jovens e dos desempregados em geral, olha tamb\u00e9m para a Igreja, \u00e0 espera de sinais concretos de proximidade e ajuda. Pessoalmente falando e estando ao servi\u00e7o duma diocese muito atingida por fal\u00eancias e desempregos, tenho verificado a disponibilidade de muitas pessoas e institui\u00e7\u00f5es da Igreja nesse sentido: par\u00f3quias, institutos religiosos, associa\u00e7\u00f5es, irmandades e grupos informais v\u00e3o somando apoios \u00e0s pessoas necessitadas, o mesmo se dizendo da C\u00e1ritas, da Obra Diocesana de Promo\u00e7\u00e3o Social ou das Confer\u00eancias Vicentinas. Creio, no entanto, que associa\u00e7\u00f5es como a vossa, car\u00edssimos empres\u00e1rios e gestores, t\u00eam aqui um lugar fundamental e insubstitu\u00edvel, dada a especificidade dos problemas que enfrentamos no pa\u00eds, como al\u00e9m dele. Esta \u00e9 uma ocasi\u00e3o irrecus\u00e1vel para a ACEGE, em termos de interven\u00e7\u00e3o na sociedade portuguesa, como presen\u00e7a crist\u00e3, competente e generosa. E como compet\u00eancia \u201ccrist\u00e3\u201d propriamente dita, com os valores que a inspiram, ou seja, o pensamento social crist\u00e3o ou Doutrina Social da Igreja. A reflex\u00e3o somada neste campo, sobretudo desde que a revolu\u00e7\u00e3o industrial se expandiu, a par da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contempor\u00e2nea e at\u00e9 \u00e0 presente globaliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 efectivamente muita e diversificada. Mas o Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja (CDSI), indispens\u00e1vel vade mecum para todo o empres\u00e1rio e gestor crist\u00e3o, proporciona-nos um quadro geral de ideias e m\u00e9todos para a miss\u00e3o que nos compete. Permiti-me que vos deixe uma brev\u00edssima resenha dos pontos essenciais a ter em conta, porque tamb\u00e9m aqui se aplica a senten\u00e7a de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada mais pr\u00e1tico do que ter ideias claras\u201d. Especialmente na actual conjuntura, que, sendo de crise, dever\u00e1 ser oportunidade para nos refazermos doutro modo, na sociedade, na economia e na mentalidade. A Doutrina Social da Igreja assenta em quatro \u201cprinc\u00edpios permanentes\u201d, que devem sustentar tudo quanto se pense e fa\u00e7a neste campo. S\u00e3o eles: a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a subsidiariedade e a solidariedade (cf. CDSI, n\u00ba 160). N\u00e3o podendo referir agora tudo quanto inclui cada um destes princ\u00edpios e valores b\u00e1sicos, que todo o empres\u00e1rio e gestor crist\u00e3o h\u00e1-de ter em conta nas suas iniciativas e decis\u00f5es concretas, adiantarei apenas o seguinte: O respeito pela dignidade da pessoa humana concretiza-se, al\u00e9m do mais, em \u201cconsiderar \u2018o pr\u00f3ximo&#8217;, sem excep\u00e7\u00e3o como \u2018outro eu\u2019, tendo em conta, antes de mais, a sua vida e os meios necess\u00e1rios para a viver dignamente\u201d. Por isso, \u201c\u00e9 necess\u00e1rio que todos os programas sociais, cient\u00edficos e culturais sejam orientados pela consci\u00eancia do primado de cada ser humano\u201d (cf. CDSI, n\u00ba 132).  O bem comum entende-se como \u201co conjunto das condi\u00e7\u00f5es da vida social que permitem, tantos aos grupos como a cada membro, alcan\u00e7ar mais plena e facilmente a pr\u00f3pria perfei\u00e7\u00e3o\u201d (cf. CDSI, n\u00ba 164); daqui derivando, objectivamente, tanto a responsabilidade de todos \u2013 dos Estados aos cidad\u00e3os em geral &#8211; pelo seu alargamento quantitativo e qualitativo, como o destino universal dos bens, que a propriedade privada n\u00e3o deve contrariar antes valorizar, dado \u201co dever dos propriet\u00e1rios de n\u00e3o manterem ociosos os bens possu\u00eddos e de os destinar \u00e0 actividade produtiva, tamb\u00e9m confiando-os a quem tem desejo e capacidade de os levar a produzir\u201d (cf. CDSI, n\u00ba 178). Por seu lado, a subsidiariedade determina que \u201ctodas as sociedades de ordem superior devem p\u00f4r-se em atitude de ajuda (subsidium) \u2013 e portanto de apoio, promo\u00e7\u00e3o e incremento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s menores\u201d (cf. CDSI, n\u00ba 186). Nas actuais circunst\u00e2ncias significar\u00e1 que o papel do Estado, gerindo as contribui\u00e7\u00f5es de todos, com especial aten\u00e7\u00e3o aos mais pobres ou empobrecidos, deve sobretudo estimular e apoiar tudo quanto a vitalidade social manifestar. Finalmente, a solidariedade, sendo um princ\u00edpio social, \u201c\u00e9 tamb\u00e9m uma verdadeira e pr\u00f3pria virtude moral\u201d, qual \u201cdetermina\u00e7\u00e3o firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum; ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos n\u00f3s somos verdadeiramente respons\u00e1veis por todos\u201d, segundo uma incisiva afirma\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Paulo II recolhida no Comp\u00eandio (cf. CDSI, n\u00ba 193).  Car\u00edssimos s\u00f3cios da ACEGE, com estes princ\u00edpios e valores partireis em miss\u00e3o. Retomareis o quadro ideal e tantas vezes procurado que S\u00e3o Lucas desenhou nos Actos dos Ap\u00f3stolos, como ouvimos na 1\u00aa Leitura, unindo os crentes na partilha dos bens: \u201cA multid\u00e3o dos que haviam abra\u00e7ado a f\u00e9 tinha um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e uma s\u00f3 alma; ningu\u00e9m chamava seu ao que lhe pertencia, mas tudo entre eles era comum. [\u2026] Distribu\u00eda-se ent\u00e3o a cada um conforme a sua necessidade\u201d.  Sabemos que este trecho b\u00edblico foi glosado por v\u00e1rios movimentos sociais, nem sempre com a devida compreens\u00e3o dele. Na verdade, n\u00e3o se tratava de imposi\u00e7\u00e3o mas de convers\u00e3o, unindo os \u201ccora\u00e7\u00f5es\u201d e levando \u00e0 partilha. Os aludidos princ\u00edpios da Doutrina Social da Igreja, atendendo a cada um deles e conjugando-os entre si e na pr\u00e1tica, levar-nos-\u00e3o aonde precisamos de nos reencontrar como sociedade portuguesa. Melhor e mais al\u00e9m. Para tal temos felizmente a alt\u00edssima figura de Nun\u2019\u00c1lvares, o Santo Condest\u00e1vel agora canonizado. No tempo que vivemos, \u00e9 muito estimulante aquela figura juvenil e determinada que verdadeiramente defendeu e refundou o pa\u00eds, como terra da nossa cria\u00e7\u00e3o comum. Assim a tomava ele, ultrapassando antigos v\u00ednculos, menos \u201cnacionais\u201d e fundando em tempos de grav\u00edssima crise uma \u201cnova idade\u201d em que Portugal deu ao mundo o melhor e mais surpreendente de si pr\u00f3prio.    Lisboa, Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, 18 de Abril de 2009   <i>+ Manuel Clemente, Bispo do Porto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encerra-se o 4\u00ba Congresso Nacional da Associa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 de Empres\u00e1rios e Gestores com a Santa Missa do 2\u00ba Domingo da P\u00e1scoa. 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