{"id":38321,"date":"2009-04-20T10:02:18","date_gmt":"2009-04-20T10:02:18","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/04\/20\/alocucao-de-d-manuel-clemente-sobre-o-4o-aniversario-do-pontificado-de-bento-xvi\/"},"modified":"2009-04-20T10:02:18","modified_gmt":"2009-04-20T10:02:18","slug":"alocucao-de-d-manuel-clemente-sobre-o-4o-aniversario-do-pontificado-de-bento-xvi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/alocucao-de-d-manuel-clemente-sobre-o-4o-aniversario-do-pontificado-de-bento-xvi\/","title":{"rendered":"Alocu\u00e7\u00e3o de D. Manuel Clemente sobre o 4\u00ba anivers\u00e1rio do pontificado de Bento XVI"},"content":{"rendered":"<p>Como sabemos, amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, a miss\u00e3o de Pedro, agora exercida por Bento XVI, nasce duma dupla afirma\u00e7\u00e3o. Da afirma\u00e7\u00e3o do Ap\u00f3stolo de que Jesus \u00e9 o Messias, o Filho de Deus vivo, definindo assim a f\u00e9 crist\u00e3 no que tem de essencial. E da subsequente afirma\u00e7\u00e3o de Jesus: \u201cTu \u00e9s Pedro e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja\u201d. Quer isto dizer, entre muitas outras e importantes coisas, que o sucessor de Pedro sustenta e alarga a comunidade a partir da confiss\u00e3o de Jesus como Messias (= Cristo).  E na verdade assim \u00e9. Sobretudo o papado contempor\u00e2neo tem-se desdobrado em iniciativas de unidade e de paz entre os povos da terra, alargando o minist\u00e9rio para al\u00e9m das pr\u00f3prias fronteiras eclesiais estritas. E tem-no feito exactamente por reconhecer e indicar em Jesus Cristo a presen\u00e7a divina entre os homens e a assun\u00e7\u00e3o da humanidade por Deus. Nesta base se pode estabelecer uma unidade que a f\u00e9 promove, como reconhecimento da dignidade absoluta de cada pessoa, tanto em humanismo forte, porque divinamente garantido, como isento de press\u00e3o confessional, porque \u00e9 de servi\u00e7o que se trata, a \u201ctodos os homens de boa vontade\u201d.  \u00c9 a esta luz que relembro alguns trechos de Bento XVI na Mensagem para o Dia Mundial da Paz, que celebr\u00e1mos a 1 de Janeiro passado. Na verdade, o tempo que se seguiu veio dar ainda mais oportunidade \u00e0s reflex\u00f5es do Papa, cujo 4\u00ba anivers\u00e1rio de minist\u00e9rio agradecemos a Deus nesta celebra\u00e7\u00e3o. Vivemos em tempo de conjuga\u00e7\u00e3o universal de problemas e expectativas; e o que antes poderia ser idealismo de alguns torna-se agora em dimens\u00e3o indispens\u00e1vel de an\u00e1lise e projec\u00e7\u00e3o, como o vimos e ouvimos a prop\u00f3sito da recente cimeira de l\u00edderes mundiais. A globaliza\u00e7\u00e3o que se tomava, com maior aceita\u00e7\u00e3o ou cr\u00edtica, como dinamismo econ\u00f3mico e medi\u00e1tico, apresenta-se hoje qual quadro inelut\u00e1vel de actua\u00e7\u00e3o, para superar as graves dificuldades que se enfrentam no campo da economia e do trabalho, fluxos migrat\u00f3rios inclu\u00eddos. E \u00e9 precisamente neste contexto que Bento XVI se posiciona, ao lembrar a necess\u00e1ria refer\u00eancia humanista da globaliza\u00e7\u00e3o: \u201cUma das estradas mestras para construir a paz \u00e9 uma globaliza\u00e7\u00e3o que tenha em vista os interesses da grande fam\u00edlia humana\u201d (Mensagem, n\u00ba 8). Mas o Papa n\u00e3o tem d\u00favidas \u2013 para n\u00e3o dizer ilus\u00f5es \u2013 acerca deste objectivo inquestion\u00e1vel. A globaliza\u00e7\u00e3o s\u00f3 abarcar\u00e1 positivamente a humanidade inteira se orientada por \u201cuma forte solidariedade global entre pa\u00edses ricos e pa\u00edses pobres, como tamb\u00e9m no \u00e2mbito interno de cada uma das na\u00e7\u00f5es, incluindo ricas\u201d (ibidem). N\u00e3o estranhemos esta inflex\u00e3o interna da globaliza\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 absolutamente requerida pelos sentimentos e pelos factos. Quer isto dizer que dificilmente se projectar\u00e1 no mundo quem n\u00e3o se exercitar em solidariedade concreta com os seus pr\u00f3prios concidad\u00e3os e vizinhos. H\u00e1 alguma circularidade entre estas duas dimens\u00f5es, mas, normalmente, \u00e9 assim que caminhamos.  Na sociedade portuguesa sentimos fortemente os efeitos duma crise global da economia, com graves repercuss\u00f5es sociais. Mas, com todo o concurso que possa e deva advir das inst\u00e2ncias europeias e internacionais, devemos olhar para o que podemos e devemos realmente fazer n\u00f3s mesmos para minorar e resolver os problemas que temos por perto e havemos de sentir como nossos. Oi\u00e7amos ainda Bento XVI no mesmo passo: \u201c \u2013 Porventura n\u00e3o sente cada um de n\u00f3s, no \u00edntimo da consci\u00eancia, o apelo a dar a pr\u00f3pria contribui\u00e7\u00e3o para o bem comum e a paz social?\u201d (Ibidem). Ou seja: que as obriga\u00e7\u00f5es dos outros, em rela\u00e7\u00e3o ao mundo ou ao pa\u00eds, sejam secundadas pela nossa responsabilidade pessoal.  Ali\u00e1s, n\u00e3o h\u00e1 pol\u00edticos nacionais ou internacionais capazes de prosseguir na senda da globaliza\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria, se n\u00e3o forem sustentados por cidad\u00e3os possu\u00eddos de igual motiva\u00e7\u00e3o. O Papa sabe-o e por isso insiste neste ponto. Como sabe tamb\u00e9m que as comunidades crist\u00e3s, vivendo do Evangelho, devem ser permanentemente educadas nesse sentido. Perto ou longe, \u201ca marginaliza\u00e7\u00e3o dos pobres da terra s\u00f3 pode encontrar v\u00e1lidos instrumentos de resgate na globaliza\u00e7\u00e3o, se cada homem se sentir pessoalmente atingido pelas injusti\u00e7as existentes no mundo e pelas viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos ligados com elas\u201d (ibidem). O Ap\u00f3stolo descobriu Jesus como Messias para todos e nessa mesma altura foi feito Pedro universal; assim Bento XVI, assim cada um de n\u00f3s com ele, em solidariedade de aqu\u00e9m e al\u00e9m-fronteiras.  Falo da solidariedade no sentido em que a toma a Doutrina Social da Igreja e precisamente como um dos seus princ\u00edpios basilares, pois \u00e9 \u201ca determina\u00e7\u00e3o firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos n\u00f3s somos verdadeiramente respons\u00e1veis por todos\u201d (Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, n\u00ba 193). Falo ainda da solidariedade repassada dos sentimentos do \u201cFilho de Deus vivo\u201d, que Pedro, Bento XVI e cada um de n\u00f3s reconhece: \u201cJesus de Nazar\u00e9 faz resplandecer aos olhos de todos os homens o nexo entre solidariedade e caridade, iluminando todo o seu significado: \u00c0 luz da f\u00e9, a solidariedade tende a superar-se a si pr\u00f3pria, a revestir as dimens\u00f5es especificamente crist\u00e3s da gratuidade total, do perd\u00e3o e da reconcilia\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3ximo [\u2026] deve ser amado, ainda que seja inimigo, com o mesmo amor com que o ama o Senhor; e \u00e9 preciso estarmos dispostos ao servi\u00e7o por ele, mesmo ao sacrif\u00edcio supremo: \u2018dar a vida pelos pr\u00f3prios irm\u00e3os\u2019\u201d (Comp\u00eandio, n\u00ba 196).    Infelizmente, repara Bento XVI na sua Mensagem, como o faremos decerto n\u00f3s mesmos, nem a caridade, como virtude teologal por excel\u00eancia, nem a solidariedade, como virtude moral indispens\u00e1vel, s\u00e3o universalmente verificadas, tanto nas pr\u00e1ticas como nos desejos. Como refer\u00eancia central de milh\u00f5es de crentes, a S\u00e9 Apost\u00f3lica, na sucess\u00e3o dos seus pont\u00edfices, tem-nos alertado para a necess\u00e1ria motiva\u00e7\u00e3o pessoal em tudo o que se refira \u00e0 vida social e pol\u00edtica. Nenhuma proposta nacional ou internacional ultrapassar\u00e1 positivamente o actual contexto, sem uma aut\u00eantica convers\u00e3o. Todos aceitaremos a seguinte an\u00e1lise de Bento XVI: \u201cA pr\u00f3pria crise recente demonstra como a actividade financeira seja \u00e0s vezes guiada por l\u00f3gicas puramente auto-referenciais e desprovidas de considera\u00e7\u00e3o pelo bem comum a longo prazo. [\u2026] Uma actividade financeira confinada no breve e brev\u00edssimo prazo torna-se perigosa para todos, inclusivamente para quem consegue beneficiar dela durante as fases de euforia financeira\u201d (Mensagem, n\u00ba 10).  De motiva\u00e7\u00e3o pessoal nos fala Bento XVI e todos concordaremos que esta crise lhe d\u00e1 particular oportunidade e urg\u00eancia. Mas, assim sendo, quer nacional quer globalmente, \u00e9 essa mesma motiva\u00e7\u00e3o que deve ser estimulada e apoiada para efectivar as necess\u00e1rias respostas. Face \u00e0 actual crise, como sempre ali\u00e1s, a motiva\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria e caritativa de cada um tem de ser correspondida pela pr\u00e1tica, especialmente por parte do Estado ou das inst\u00e2ncias internacionais, de outro princ\u00edpio basilar da Doutrina Social da Igreja que d\u00e1 pelo nome de subsidiariedade. \u201cCom base neste princ\u00edpio, todas as sociedades de ordem superior devem p\u00f4r-se em atitude de ajuda (subsidium) \u2013 e portanto de apoio, promo\u00e7\u00e3o e incremento \u2013 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s menores\u201d (Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, n\u00ba 186). Quer isto dizer que n\u00e3o \u00e9 papel do Estado ou dos Estados reduzirem o lugar e o protagonismo que pessoas, fam\u00edlias e iniciativas particulares devem ocupar, respons\u00e1vel e criativamente, rumo a uma sociedade mais conseguida. Muito pelo contr\u00e1rio, a experi\u00eancia a\u00ed est\u00e1 a indicar o rumo justo e certo. A l\u00facida longevidade de Bento XVI n\u00e3o lhe deixa d\u00favidas: \u201cA hist\u00f3ria do progresso econ\u00f3mico do s\u00e9culo XX ensina que boas pol\u00edticas de desenvolvimento s\u00e3o confiadas \u00e0 responsabilidade dos homens e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de positivas sinergias entre mercados, sociedade civil e Estados. Particularmente a sociedade civil assume um papel crucial em todo o processo de desenvolvimento, j\u00e1 que este \u00e9 essencialmente um fen\u00f3meno cultural e a cultura nasce e se desenvolve nos diversos \u00e2mbitos da vida civil\u201d (Mensagem, n\u00ba 12). Entre muitas outras qualidades pessoais, Bento XVI oferece-nos o contributo da sua capacidade de analisar em profundidade tanto o ser como a raz\u00e3o de ser das \u201ccoisas novas e velhas\u201d com que nos deparamos, na vida pessoal e na vida do mundo. Por isso requer, para ultrapassarmos a actual crise, tamb\u00e9m esta globalizada, uma atitude \u201ccultural\u201d, que impregne a mentalidade de cada um e a conduta dos Estados. A sua Mensagem de Janeiro passado trouxe-nos assim, em torno de princ\u00edpios maiores da doutrina Social da Igreja, como sejam o da solidariedade e o da subsidiariedade, indica\u00e7\u00f5es de grande justeza e oportunidade. Indica\u00e7\u00f5es \u201cculturais\u201d ou de mentalidade, que podermos traduzir por convers\u00e3o.   Agrade\u00e7amos tudo isto a Deus, que recompense e cumule de sa\u00fade e paz o actual Sucessor de Pedro, a quem o nome de Bento t\u00e3o bem consagra e oferece \u00e0 Igreja e ao mundo.  S\u00e9 do Porto, 19 de Abril de 2009  <i>+ Manuel Clemente <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como sabemos, amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, a miss\u00e3o de Pedro, agora exercida por Bento XVI, nasce duma dupla afirma\u00e7\u00e3o. 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