{"id":382643,"date":"2025-07-06T09:31:30","date_gmt":"2025-07-06T08:31:30","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=382643"},"modified":"2025-07-04T12:12:54","modified_gmt":"2025-07-04T11:12:54","slug":"portugal-nao-podemos-ir-para-respostas-que-alimentam-lucros-privados-sem-criar-as-casas-para-quem-precisa-delas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/portugal-nao-podemos-ir-para-respostas-que-alimentam-lucros-privados-sem-criar-as-casas-para-quem-precisa-delas\/","title":{"rendered":"Portugal: \u00abN\u00e3o podemos ir para respostas que alimentam lucros privados, sem criar as casas para quem precisa delas\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>Num momento em que cresce o descontentamento sobre a crise da habita\u00e7\u00e3o, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia o arquiteto Daniel Lobo, membro da Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz e Ecologia, dos Institutos Religiosos de Portugal, uma das entidades promotoras da Carta da Habita\u00e7\u00e3o<\/em><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/daniel_lobo-2.jpeg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-382644 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/daniel_lobo-2.jpeg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1364\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/daniel_lobo-2.jpeg 2048w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/daniel_lobo-2-390x260.jpeg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/daniel_lobo-2-1024x682.jpeg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/daniel_lobo-2-768x512.jpeg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/daniel_lobo-2-391x260.jpeg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/daniel_lobo-2-1536x1023.jpeg 1536w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Vamos come\u00e7ar por dar a conhecer melhor esta iniciativa da Carta da Habita\u00e7\u00e3o. Quais s\u00e3o os seus objetivos?<\/em><\/p>\n<p>Os objetivos da Carta da Habita\u00e7\u00e3o s\u00e3o, essencialmente, retomar aquilo que era tamb\u00e9m uma pr\u00e1tica antiga dos religiosos e religiosas que est\u00e3o inseridos em comunidades nas periferias humanas e geogr\u00e1ficas, criando encontros alargados para ativistas, acad\u00e9micos, etc., que se interessam neste tema, e criar uma reflex\u00e3o, perceber o que est\u00e1 a acontecer. Temos assistido a alguma retirada destas comunidades inseridas e, portanto, o retomar destes encontros vinha nesse sentido; da\u00ed chegou-se \u00e0 conclus\u00e3o de que o tema da habita\u00e7\u00e3o seria o priorit\u00e1rio e decidiu-se redigir uma carta aberta para tamb\u00e9m nos fazermos ouvir e, no fundo, abrir a reflex\u00e3o que est\u00e1vamos a fazer a todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Queria lembrar que o Papa Francisco falou v\u00e1rias vezes naquilo que ele chamava os tr\u00eas \u2018T\u2019, terra, teto e trabalho. Interven\u00e7\u00f5es que nem sempre foram bem acolhidas\u2026 o direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, especificamente, deveria estar mais no centro das preocupa\u00e7\u00f5es dos respons\u00e1veis cat\u00f3licos?<\/em><\/p>\n<p>Gostaria de ter essa no\u00e7\u00e3o, se est\u00e3o ou se n\u00e3o est\u00e3o, se deveria estar ou n\u00e3o estar\u2026<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>No caso, chegou-se \u00e0 ideia de que era preciso debater o tema\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, sim. \u00c9 mais essa a quest\u00e3o, ao estarmos em contacto com outros que t\u00eam estas preocupa\u00e7\u00f5es, que gostariam de trabalhar sobre o tema e que talvez se estivessem a sentir mais sozinhos, ou um bocado, digamos, sem saber o que fazer, etc. Unir as m\u00e3os pareceu-nos bastante importante, precisamente no momento em que est\u00e1vamos a viver e que continuamos a viver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas j\u00e1 est\u00e3o a despertar consci\u00eancias, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Sim, uma das fun\u00e7\u00f5es era essa, despertar consci\u00eancias, trazer a quest\u00e3o das falhas estruturais do modelo econ\u00f3mico e social, que nos parece mais importante tamb\u00e9m refletir, perceber que a crise da habita\u00e7\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um sintoma desse modelo maior. Se os religiosos pudessem estar mais atentos, pudessem intervir mais, se n\u00f3s pud\u00e9ssemos estar mais juntos em rela\u00e7\u00e3o a este aspeto estrutural, certamente poder\u00edamos tamb\u00e9m dar o nosso contributo. Isso podia vir a ter resultados na crise da habita\u00e7\u00e3o, como noutros aspetos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Provavelmente n\u00e3o seria necess\u00e1rio, mas a pr\u00f3pria Comiss\u00e3o Europeia diz que os governos portugueses n\u00e3o est\u00e3o a ser eficazes na resposta \u00e0 crise no setor da habita\u00e7\u00e3o e recomenda medidas concretas, nomeadamente o controlo de rendas ou a imposi\u00e7\u00e3o de limites ao alojamento local. As vossas preocupa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m passam por aqui?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida, ali\u00e1s, o que a Comiss\u00e3o Europeia vem dizer n\u00e3o \u00e9 nada de novo, j\u00e1 os movimentos ativistas, acad\u00e9micos, a pr\u00f3pria Igreja tem vindo a refletir sobre isso. A nossa preocupa\u00e7\u00e3o e a nossa posi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m passa por a\u00ed, reflete esses aspetos: \u00a0atrav\u00e9s da nossa experi\u00eancia mais concreta, percebemos que h\u00e1 muito que as pol\u00edticas p\u00fablicas da habita\u00e7\u00e3o falham e isso, obviamente, tem repercuss\u00f5es graves, tem vindo a ter repercuss\u00f5es cada vez mais graves. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o ver o que est\u00e1 a acontecer, n\u00e3o sentir o que est\u00e1 a acontecer nas nossas comunidades, em todo o lado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Um dos problemas que podemos identificar \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 concerta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sobre o tema: h\u00e1 propostas, como fal\u00e1vamos ainda pouco, no sentido do controlo de rendas, e h\u00e1 quem afirme o contr\u00e1rio; um governo avan\u00e7a com o plano da habita\u00e7\u00e3o, quando vem o governo seguinte muda. O Grupo Habita\u00e7\u00e3o e Habitat pode ajudar tamb\u00e9m a trazer luz para este debate, apontar caminhos?<\/em><\/p>\n<p>Penso que sim, j\u00e1 temos tido algumas ideias tamb\u00e9m, o objetivo deste grupo \u00e9 colaborar tamb\u00e9m na supera\u00e7\u00e3o da crise habitacional, sem substituir o Estado. \u00c9 sempre a nossa preocupa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 que substituir, h\u00e1 que refor\u00e7ar, h\u00e1 que colaborar, ser uma for\u00e7a positiva. Neste grupo, a miss\u00e3o, obviamente, para al\u00e9m de refor\u00e7ar essa entreajuda, essa responsabilidade, \u00e9 tamb\u00e9m, atrav\u00e9s de gestos concretos, fazer o nosso trabalho de casa, fazer o trabalho a partir do interior da Igreja. A nossa prioridade, a primeira a\u00e7\u00e3o foi um question\u00e1rio para mapear a oferta de alojamento social na Igreja, algo a ser elaborado, pensou-se que seria um levantamento nacional, mas percebemos que n\u00e3o haveria essa capacidade ainda\u2026<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o vai ser poss\u00edvel fazer esse levantamento?<\/em><\/p>\n<p>Eu penso que ser\u00e1 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tem prazos para o apresentar?<\/em><\/p>\n<p>O nosso prazo \u00e9 o mais breve poss\u00edvel. Fazem parte deste grupo t\u00e9cnicos de a\u00e7\u00e3o social, diretores de servi\u00e7os de apoio a migrantes, acad\u00e9micos, \u00e9 gente que j\u00e1 est\u00e1 muito envolvida em dar a resposta diariamente \u00e0s necessidades mais prementes do pa\u00eds, ligados \u00e0 habita\u00e7\u00e3o e n\u00e3o s\u00f3. H\u00e1 pouco tempo para o que for, mas \u00e9 gente que est\u00e1 comprometida, que quer fazer alguma coisa, que quer levar para a frente esta iniciativa, portanto, apesar de n\u00e3o termos a capacidade para fazermos n\u00f3s o levantamento a n\u00edvel nacional, um levantamento, que seria algo muito mais exaustivo, achamos melhor come\u00e7ar com um question\u00e1rio para saber se h\u00e1 interesse e h\u00e1 capacidade tamb\u00e9m da parte dos Institutos. Nesse question\u00e1rio j\u00e1 fazemos alguma recolha de dados, j\u00e1 acabamos por fazer um primeiro levantamento e n\u00e3o s\u00f3 nessa \u00e1rea, tamb\u00e9m na pastoral social e nos servi\u00e7os de apoio a migrantes.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E h\u00e1 muitas solu\u00e7\u00f5es de alojamento social que os Institutos religiosos possam oferecer?<\/em><\/p>\n<p>Sim, h\u00e1 v\u00e1rias solu\u00e7\u00f5es. Eles j\u00e1 as oferecem, isso acontece h\u00e1 muitos anos em v\u00e1rias comunidades religiosas, em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia ou mesmo situa\u00e7\u00f5es de longa dura\u00e7\u00e3o, alojamento de longa dura\u00e7\u00e3o, h\u00e1 essa capacidade. N\u00f3s conhecemos situa\u00e7\u00e3o de uma boa parte das comunidades religiosas e sabemos que h\u00e1 um decr\u00e9scimo de voca\u00e7\u00f5es, h\u00e1 um envelhecimento, h\u00e1 toda uma s\u00e9rie de constrangimentos que podem ser tamb\u00e9m vistos como uma oportunidade, porque os espa\u00e7os tamb\u00e9m ficam vazios. H\u00e1 necessidade de revitalizar as comunidades, h\u00e1 necessidade at\u00e9 de apoio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 vi\u00e1vel pensar fazer de mosteiros, conventos que estejam agora menos ocupados, espa\u00e7os de habita\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Sim, sim, n\u00f3s acreditamos que \u00e9 vi\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mediante uma grande transforma\u00e7\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p>Teria de se ver caso a caso, n\u00e3o \u00e9? Do ponto de vista da adapta\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos espa\u00e7os, eu acho que at\u00e9 a maior dificuldade poder\u00e1 ser a adapta\u00e7\u00e3o institucional. Uma decis\u00e3o pastoral e institucional que se adapte a esse novo uso dos edif\u00edcios, mas de todos os pontos de vista \u00e9 poss\u00edvel serem adaptados esses espa\u00e7os. Temos exemplos disso, por exemplo, no Convento de Balsam\u00e3o, emMacedo de Cavaleiros, j\u00e1 acolheu mais de 140 refugiados. Temos projetos de comodato com a JRS e dois Institutos religiosos em Vila Nova Gaia e em Vendas Novas. Temos o tal alojamento de longa dura\u00e7\u00e3o de Institutos em v\u00e1rias cidades do pa\u00eds, Braga, Lisboa, Louros, Odivelas. Portanto, de facto, j\u00e1 h\u00e1 exemplos e h\u00e1 boas pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E h\u00e1 boa recetividade?<\/em><\/p>\n<p>A recetividade ainda n\u00e3o foi testada, digamos assim. Os resultados t do question\u00e1rio est\u00e3o a ser analisados e, a partir da\u00ed, o pr\u00f3prio question\u00e1rio j\u00e1 coloca essas quest\u00f5es, se est\u00e3o interessados em boas pr\u00e1ticas, em conhecer boas pr\u00e1ticas ou se t\u00eam patrim\u00f3nio devoluto ou desocupado que possam utilizar para combater esta crise. Por a\u00ed j\u00e1 vamos obter alguns resultados, mas penso que sim, em geral. Eu fiz alguns telefonemas, algumas pessoas, alguns Institutos tinham dificuldade em aceder ao formul\u00e1rio, que era online, portanto, acabei por falar com algumas provinciais e percebi que, claro que h\u00e1 li\u00e7\u00f5es a aprender do passado, pode haver m\u00e1s experi\u00eancias tamb\u00e9m que possam estar a influenciar, mas, em geral, acho que h\u00e1 espa\u00e7o para esperan\u00e7a e abertura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Alargando o olhar para a sociedade tamb\u00e9m no seu todo, pergunto-me se h\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o com os despejos e as amea\u00e7as de despejo?<\/em><\/p>\n<p>Sim, sem qualquer d\u00favida, aqueles de n\u00f3s que acompanham mais de perto situa\u00e7\u00f5es de despejo est\u00e3o profundamente preocupados, principalmente aqueles despejos que vemos que s\u00e3o for\u00e7ados e sem alternativa.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E isso est\u00e1 a aumentar?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s vemos aumentar, obviamente, n\u00e3o conseguimos, se calhar, nem chegar a 10% de tudo o que est\u00e1 a acontecer, da\u00ed o trabalho que a Comunica\u00e7\u00e3o Social faz ser t\u00e3o importante em trazer estes casos a p\u00fablico, mas sabemos que h\u00e1 muitos casos que n\u00e3o t\u00eam voz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que olha, por exemplo, para uma situa\u00e7\u00e3o em que uma entidade p\u00fablica, uma C\u00e2mara Municipal, como \u00e9 o caso de Loures, se prepara para promover despejos?<\/em><\/p>\n<p>Ficamos um pouco ou bastante perplexos no meio destas situa\u00e7\u00f5es. Sabemos que h\u00e1 raz\u00f5es pol\u00edticas por tr\u00e1s desta quest\u00e3o, n\u00e3o vemos que haja tanto quest\u00f5es de justi\u00e7a, apesar disso ser apresentado como o justificativo desses despejos. Se olharmos para todo este contexto que estamos a viver, se olharmos para o que tem sido feito tamb\u00e9m pelos anteriores executivos, \u00e9 de facto injusto colocar \u00f3nus todo, neste caso, especificamente no caso dos arrendat\u00e1rios da C\u00e2mara Municipal, que t\u00eam d\u00edvidas. Acho que \u00e9 demasiado, digamos, abusivo, colocar todo o \u00f3nus sobre estas pessoas quando n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos respons\u00e1veis pelo que lhe est\u00e1 a acontecer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Receia que haja aqui uma ced\u00eancia a um determinado tipo de pol\u00edtica, de populismo?<\/em><\/p>\n<p>Essa poder\u00e1 ser uma explica\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 a acontecer. Claro que os pol\u00edticos querem mostrar resultados, isso tamb\u00e9m lhes d\u00e1 ch\u00e3o, d\u00e1-lhes subst\u00e2ncia e valor, mas esses resultados n\u00e3o podem ser resultados for\u00e7ados e imediatistas, pouco sens\u00edveis \u00e0s necessidades das pessoas, acabam por ser resultados negativos. O que n\u00f3s temos vindo a assistir aqui \u00e9, digamos, em vez de olharem para o contexto e procurar medidas mais preventivas, encontrarem programas sociais como o \u2018Housing First\u2019, que possam dirimir as consequ\u00eancias, ou em vez de procurarem chegar mais pr\u00f3ximo das pessoas\u2026 porque a quest\u00e3o que o presidente da C\u00e2mara Municipal de Loures referiu que n\u00e3o t\u00eam tido respostas de cerca de 400 fam\u00edlias. Ora, isso \u00e9 uma falha de comunica\u00e7\u00e3o grave, n\u00e3o haver uma resposta, quando h\u00e1 a possibilidade de um despejo, quem \u00e9 que est\u00e1 interessado em ser despejado?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O autarca alega que j\u00e1 foram feitas tr\u00eas notifica\u00e7\u00f5es e que nunca responderam\u2026<\/em><\/p>\n<p>Quem est\u00e1 pr\u00f3ximo destas pessoas, quem as acompanha, sabe que a realidade destas pessoas \u00e9 muito diferente do cidad\u00e3o comum: h\u00e1 pessoas que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a t\u00e3o acamados, h\u00e1 pessoas que t\u00eam problemas de aprendizagem, at\u00e9 n\u00e3o conseguem ler. A maior parte das pessoas que eu acompanhei n\u00e3o conseguia ler uma carta, n\u00e3o percebiam o conte\u00fado das cartas, por muito simples que fossem, portanto, veem-se numa situa\u00e7\u00e3o em que podem ter alguma d\u00edvida avultada, num contexto de crise em que h\u00e1 fome, de facto, podem ser m\u00e3es sozinhas, h\u00e1 uma s\u00e9rie de vulnerabilidades que t\u00eam de ser acauteladas, n\u00e3o pode ser uma medida igual para todos. N\u00e3o havendo comunica\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o h\u00e1 essa comunica\u00e7\u00e3o, se a justifica\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o haver resposta, perante todas estas evid\u00eancias, eu penso que n\u00e3o \u00e9 justifica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel, nem aceit\u00e1vel. O primeiro passo devia ser aproximarem-se, conhecer caso a caso, e ent\u00e3o vir at\u00e9, de prefer\u00eancia, explicar a p\u00fablico as raz\u00f5es pelas quais o despejo aconteceu, se \u00e9 assim t\u00e3o justific\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falava h\u00e1 pouco das pessoas que s\u00e3o despejadas sem alternativa. Est\u00e1 aqui em causa o conceito do direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o, a Lei de Bases da Habita\u00e7\u00e3o, os acordos internacionais que Portugal estabeleceu nesta mat\u00e9ria, est\u00e3o a ser desrespeitados. Quer dizer, se estas leis fundamentais est\u00e3o a ser desrespeitadas, o que ser\u00e1 das outras? N\u00f3s temos, por exemplo, o caso de fam\u00edlias que s\u00e3o benefici\u00e1rias do RSI e que lhes \u00e9 cortado esse rendimento de subsist\u00eancia, por incumprimento no pagamento das rendas. Est\u00e3o a ver no que \u00e9 que isto pode dar? Ent\u00e3o uma fam\u00edlia que sobrevive &#8211; n\u00e3o digo que sejam todas, e pode haver casos de incumprimento, obviamente -, mas pessoas para as quais o RSI nem sequer \u00e9 suficiente para medicamentos, para alimenta\u00e7\u00e3o, eu acompanho pessoas assim. Uma situa\u00e7\u00e3o de incumprimento no pagamento de uma renda camar\u00e1ria, neste caso, implica um incumprimento em sede de RSI: isso \u00e9 justo, \u00e9 leg\u00edtimo, isso vai levar a um maior cumprimento? H\u00e1 outras regras ligadas ao RSI que levam, de facto, as fam\u00edlias ao desespero, isto afeta-nos a todos, as pessoas podem n\u00e3o saber, mas h\u00e1 que dar a conhecer isto. Os t\u00e9cnicos que acompanham estas fam\u00edlias depois s\u00e3o colocados em causa, a sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a, face a injusti\u00e7as deste n\u00edvel. H\u00e1 t\u00e9cnicos, claro, que se resignam, \u00e9 um trabalho, eles t\u00eam de manter o seu trabalho, a sua fam\u00edlia, etc., resignam-se a estas decis\u00f5es pol\u00edticas, mas outros que n\u00e3o conseguem, justificadamente, porque a sua vida tamb\u00e9m fica em risco.<\/p>\n<p>Portanto, isto \u00e9 bastante preocupante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Continuamos a n\u00e3o dar a aten\u00e7\u00e3o devida \u00e0 press\u00e3o que os fluxos migrat\u00f3rios causam na habita\u00e7\u00e3o? Acha que a prolifera\u00e7\u00e3o do alojamento local, as facilidades relacionadas, por exemplo, com os vistos gold, entre outras, tamb\u00e9m prejudicam a constru\u00e7\u00e3o de boas solu\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>Acho que estamos todos de acordo: somos um pa\u00eds pobre, um pa\u00eds que precisa de aumentar a sua riqueza econ\u00f3mica, etc., mas tamb\u00e9m sabemos que essas medidas s\u00e3o nefastas para o aumento dos pre\u00e7os da habita\u00e7\u00e3o, principalmente em zonas de maior press\u00e3o urban\u00edstica, de maior valoriza\u00e7\u00e3o. O problema n\u00e3o est\u00e1 nos migrantes, mas isso vai aumentar as barreiras ao acesso, a oferta j\u00e1 \u00e9 pouca, ou est\u00e1 quase estagnada. O facto de darmos incentivos, incentivos p\u00fablicos, incentivos at\u00e9 com o er\u00e1rio p\u00fablico, que vai para as m\u00e3os das pessoas que t\u00eam mais dinheiro, n\u00e3o faz sentido. Um Estado social n\u00e3o devia ter este tipo de medidas, tem de ter muita cautela com o impacto das medidas que promove, e isto aplica-se tamb\u00e9m \u00e0 turistifica\u00e7\u00e3o, a todas as altera\u00e7\u00f5es que fazem acontecer nas cidades.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Corremos o risco de ver uma crise anunciada h\u00e1 muito tempo, mas sem solu\u00e7\u00e3o \u00e0 vista?<\/em><\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 vista, porque exige f\u00e9, e tudo bem. N\u00e3o quer dizer que quem tem a f\u00e9 agora consiga ver a solu\u00e7\u00e3o, mas a f\u00e9 \u00e9 um aspeto importante, a coragem \u00e9 um aspeto importante, a mudan\u00e7a estrutural e o tempo. N\u00f3s sabemos que as respostas t\u00eam de ser imediatas, algumas respostas t\u00eam de ser r\u00e1pidas, mas n\u00e3o podemos ir para respostas que alimentam lucros privados, sem criar as casas para quem precisa delas para viver. Sabemos que \u00e9 um processo que ter\u00e1 de ser gradual, focado na justi\u00e7a social e no bem comum, n\u00e3o podemos esperar agora que se apaguem d\u00e9cadas de pol\u00edticas erradas, com especula\u00e7\u00e3o e desregula\u00e7\u00e3o, demora o seu tempo. Focando nas medidas imediatas: controlo de rendas, impedir os despejos, mobilizar os devolutos ou vazios, mas tamb\u00e9m alojamento de emerg\u00eancia. Queria focar bastante neste aspeto, alojamento de emerg\u00eancia: as pessoas est\u00e3o a ficar na rua, est\u00e3o a ficar desesperadas, entram em situa\u00e7\u00e3o de loucura, e este alojamento de emerg\u00eancia existe noutros pa\u00edses, existe at\u00e9 em pa\u00edses menos desenvolvidos, junto de refugiados. N\u00e3o precisamos de ir t\u00e3o longe, olhar para esse tipo de solu\u00e7\u00e3o, h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es bem melhores que somos capazes de implementar, que podem ser evolutivas, podem ser j\u00e1 o come\u00e7o de uma solu\u00e7\u00e3o, ou de transi\u00e7\u00e3o, pode ser participada, pode ser, se poss\u00edvel, autoconstru\u00edda ou socialmente produzida. Podemos estar, assim, a resolver o problema humanit\u00e1rio e a investir nas pessoas, na sua forma\u00e7\u00e3o, na sua capacita\u00e7\u00e3o, no seu envolvimento c\u00edvico, em vez de focar o investimento no aumento dos lucros de quem faz especula\u00e7\u00e3o. Uma solu\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia evitaria que as pessoas ficassem na rua, mas aqui o importante \u00e9 que se crie um bom processo. Podem dizer, \u201cmas como \u00e9 que vamos criar de repente um processo de sele\u00e7\u00e3o?\u201d, h\u00e1 pessoas que veem isto como um oportunismo, \u201cv\u00e3o-se aproveitar\u201d. Se n\u00e3o h\u00e1 tempo, n\u00e3o se consegue criar um bom processo, tudo bem, utilizem o processo de sele\u00e7\u00e3o que j\u00e1 existe, que j\u00e1 est\u00e1 a ser utilizado para o arrendamento apoiado. H\u00e1 pessoas que j\u00e1 t\u00eam a sua candidatura aprovada, que est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o de maior vulnerabilidade, em situa\u00e7\u00e3o de maior urg\u00eancia: que comecem por essas, enquanto n\u00e3o encontram um processo mais eficaz, mais justo.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que h\u00e1 quest\u00f5es de longo prazo, do planeamento urbano, da convers\u00e3o do edificado, da quest\u00e3o ambiental tamb\u00e9m, n\u00f3s estamos a ver as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Sabemos que enquanto este tipo de solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o for uma realidade, a ferida social da habita\u00e7\u00e3o continuar\u00e1, e continuar\u00e1 a abrir as tais fendas que n\u00f3s vemos de exclus\u00e3o, de injusti\u00e7a, de desumaniza\u00e7\u00e3o, e isto tira for\u00e7a \u00e0s pessoas, para o dia-a-dia, tira-nos for\u00e7a a todos. O risco \u00e9 recusar iniciar um bom processo, n\u00e3o h\u00e1 falta de solu\u00e7\u00f5es, h\u00e1 falta de vontade pol\u00edtica, h\u00e1 falta de vontade c\u00edvica, at\u00e9 vontade pastoral, se calhar. \u00c9 essencial ouvir as comunidades afetadas, obviamente evitar estes realojamentos, muitas vezes desumanos, e pol\u00edticas mais tecnocr\u00e1ticas. Como diz o Papa Francisco, n\u00e3o basta pintar a casa, \u00e9 preciso mudar a estrutura, n\u00f3s temos de ter coragem, temos de ter essa consci\u00eancia, que \u00e9 preciso mudar a estrutura, isso exige valores, exige a preserva\u00e7\u00e3o, exige uma espiritualidade comprometida por quem olha nessa perspetiva.<\/p>\n<p>Como n\u00f3s dizemos na \u2018Carta da Habita\u00e7\u00e3o\u2019, a habita\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais do que um produto, pode ser um bom processo, todos n\u00f3s somos chamados a participar nesse processo. Queremos obviamente sonhar juntos, e \u00e9 muitas vezes nestes momentos de maior tens\u00e3o, de maior dificuldade que n\u00f3s desligamos das dificuldades e pensamos numa dimens\u00e3o mais livre e mais alta, e a partir da\u00ed eu penso que podemos, de facto, fazer a diferen\u00e7a, podemos fazer renascer a esperan\u00e7a. Aproveito para dizer que o pr\u00f3prio Jesus nos lembra, \u2018Eu vim para que tenham vida e a tenham em abund\u00e2ncia\u2019, e por isso, \u2018felizes os que acreditam sem terem visto\u2019. \u00c9 com essa f\u00e9 e com esse compromisso que se v\u00e3o construir, n\u00f3s acreditamos, os caminhos de justi\u00e7a, de esperan\u00e7a e de vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num momento em que cresce o descontentamento sobre a crise da habita\u00e7\u00e3o, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia o arquiteto Daniel Lobo, membro da Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz e Ecologia, dos Institutos Religiosos de Portugal, uma das entidades promotoras da Carta da 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