{"id":38211,"date":"2009-04-14T11:25:10","date_gmt":"2009-04-14T11:25:10","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/04\/14\/o-simbolo-de-nuno-alvares\/"},"modified":"2009-04-14T11:25:10","modified_gmt":"2009-04-14T11:25:10","slug":"o-simbolo-de-nuno-alvares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-simbolo-de-nuno-alvares\/","title":{"rendered":"O s\u00edmbolo de Nuno \u00c1lvares"},"content":{"rendered":"<p>Guilherme d&#8217;Oliveira Martins diz que \u00e9 \u00abtempo de olhar a figura, em si, para al\u00e9m de equ\u00edvocos e de aproveitamentos\u00bb em volta da canoniza\u00e7\u00e3o <!--more--> \u00c0 primeira vista h\u00e1 quem manifeste perplexidade. Porqu\u00ea falar de Nuno \u00c1lvares Pereira em pleno s\u00e9culo XXI, e ainda por cima como refer\u00eancia religiosa? Porqu\u00ea homenage\u00e1-lo como refer\u00eancia crist\u00e3?  A d\u00favida tem, no entanto, muito menos a ver com a personagem hist\u00f3rica e com o seu significado, do que com a sua escolha em diversos momentos (cuja recorda\u00e7\u00e3o est\u00e1 viva) em nome de uma rela\u00e7\u00e3o equ\u00edvoca entre o Estado e a Igreja ou de uma rela\u00e7\u00e3o na qual havia quem desejasse que as fronteiras n\u00e3o fossem n\u00edtidas \u2013 como em tempos da pr\u00e9-hist\u00f3ria da liberdade religiosa, distantes de uma laicidade serena e criadora.  \u00c9, pois, tempo de olhar a figura, em si, para al\u00e9m de equ\u00edvocos e de aproveitamentos. N\u00e3o h\u00e1, assim, raz\u00e3o para associ\u00e1-la a um nacionalismo desajustado dos sinais dos tempos de hoje, nem para a ligar a um patriotismo fechado e retr\u00f3grado, que Nuno \u00c1lvares Pereira nunca assumiu. \u00c9 que aquilo que muitas vezes vem \u00e0 mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 a mem\u00f3ria aut\u00eantica do her\u00f3i e do santo, mas s\u00e3o as refer\u00eancias mais recentes de um tempo em que o Condest\u00e1vel foi usado como bandeira de causas de isolamento e de auto-comprazimento nacional\u2026  Basta a leitura atenta da biografia de Nuno \u00c1lvares Pereira para se perceber que a figura \u00e9 das mais ricas da hist\u00f3ria portuguesa. Leia-se Fern\u00e3o Lopes, o cronista an\u00f3nimo do Condestabre, Cam\u00f5es, Garrett, Oliveira Martins, Jaime Cortes\u00e3o e Fernando Pessoa \u2013 a\u00ed encontramos o gentil homem de horizontes abertos e sentido de futuro, o homem das alvoradas, Nuno Madruga, como ficou conhecido. Numa atitude de grande coragem moral e c\u00edvica, defendeu a causa do Mestre de Aviz, contra a sua pr\u00f3pria fam\u00edlia, em nome de uma legitimidade nova. Foi um homem que viu adiante do seu tempo, moderno na nossa acep\u00e7\u00e3o. Foi um dos protagonistas decisivos no acelerar do fim do tempo medievo em Portugal. Leitor e entusiasta dos textos do ciclo bret\u00e3o, admirador de Camelot, a corte do rei Artur, e seguidor do mais puro dos cavaleiros dessa T\u00e1vola Redonda, Galaaz, D. Nuno tornou-se s\u00edmbolo da liberdade e independ\u00eancia de esp\u00edrito. Na crise de 1383-85 esteve ao lado da causa que faria vencimento nas Cortes Gerais de Coimbra. E, saindo do movimento que implantaria a dinastia joanina, como o mais influente da nova nobreza, logo definiu para si um estatuto de pobreza e de total entrega religiosa, tornando-se fundador do Convento do Carmo, Frei Nuno de Santa Maria, e desejando ser um entre os muitos pobres de Lisboa, empenhado na sua defesa. O her\u00f3i de ontem, no dom\u00ednio militar (onde foi o mais brilhante executor dos mais avan\u00e7ados m\u00e9todos de ac\u00e7\u00e3o do momento), tornar-se-ia her\u00f3i de outro tipo no final da vida, ocupado na causa de ajudar os mais pobres e desprotegidos.  Na Hist\u00f3ria portuguesa, t\u00e3o cheia de refer\u00eancias hist\u00f3ricas, Nuno \u00c1lvares Pereira \u00e9 um s\u00edmbolo singular. Representa a vontade de ser aut\u00f3nomo, independente e emancipado. E quando seguiu um caminho diferente dos seus pares da velha nobreza f\u00ea-lo com sentido pr\u00e1tico e prof\u00e9tico, a olhar para diante. Significa a exig\u00eancia de ser justo e compreensivo dos outros, numa marca em que a santidade \u00e9 tamb\u00e9m cidadania e liga-se ao humanismo universalista, que Jaime Cortes\u00e3o encontrou como caracter\u00edstica perene da presen\u00e7a dos portugueses no mundo. Afirma a perspectiva moderna da legitimidade dos povos com o culto dos valores de uma espiritualidade aberta e desempoeirada, que a leitura da sua biografia bem demonstra, ao inv\u00e9s de certos anacronismos cultivados serodiamente.  Cortes\u00e3o diz-nos que \u201ca Na\u00e7\u00e3o s\u00f3 atingiu a maioridade pol\u00edtica e a plena express\u00e3o nacional com a \u2018revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u2019 do s\u00e9culo XIV, conforme lhe chamou Oliveira Martins, e o triunfo da encorpora\u00e7\u00e3o das classes populares na vida pol\u00edtica\u201d. Ora, esta ordem, para ser implantada, precisou de legistas e de militares, de aristocratas e de burgueses, de leigos e religiosos, do Estado e dos concelhos \u2013 e Nuno \u00c1lvares Pereira esteve no cora\u00e7\u00e3o dessa passagem e dessa constru\u00e7\u00e3o. E o certo \u00e9 que teve a sabedoria para ser, a um tempo, um dos decisivos criadores da nova sociedade, mantendo intacto o territ\u00f3rio que D. Dinis fizera definir em Alcanizes, concedendo \u00e0s diversas ordens do reino, como era timbre da melhor legitimidade desse tempo, as condi\u00e7\u00f5es para que a Na\u00e7\u00e3o continuasse independente, em nome da liberdade e da emancipa\u00e7\u00e3o, sendo ainda um mestre espiritual a ensinar que o amor e a justi\u00e7a t\u00eam de se viver em estreita liga\u00e7\u00e3o. Compreende-se, pois, que, pouco depois da beatifica\u00e7\u00e3o, na homenagem que a Primeira Rep\u00fablica fez aos her\u00f3is desconhecidos da guerra mundial, o Presidente Ant\u00f3nio Jos\u00e9 de Almeida tenha qualificado Nuno \u00c1lvares como \u201ccompanheiro de Portugal\u201d.         <i>Guilherme d\u2019Oliveira Martins<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme d&#8217;Oliveira Martins diz que \u00e9 \u00abtempo de olhar a figura, em si, para al\u00e9m de equ\u00edvocos e de aproveitamentos\u00bb em volta da canoniza\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[174,199,206],"class_list":["post-38211","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-diocese-de-coimbra","tag-espiritualidade","tag-familia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38211","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38211"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38211\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38211"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38211"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38211"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}