{"id":38165,"date":"2009-04-10T23:05:56","date_gmt":"2009-04-10T23:05:56","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/04\/10\/homilia-do-cardeal-patriarca-na-celebracao-da-paixao-do-senhor\/"},"modified":"2009-04-10T23:05:56","modified_gmt":"2009-04-10T23:05:56","slug":"homilia-do-cardeal-patriarca-na-celebracao-da-paixao-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-patriarca-na-celebracao-da-paixao-do-senhor\/","title":{"rendered":"Homilia do Cardeal-Patriarca na celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p>\u00abO rosto doloroso de Cristo\u00bb <!--more--> 1. Cristo \u00e9 o rosto da Palavra. A Liturgia de hoje convida-nos a contemplar o rosto doloroso do Senhor. Ele exprime, para n\u00f3s, a mais radical e eficaz Palavra amorosa que Deus nos dirige, a n\u00f3s homens pecadores. S\u00f3 contemplando este rosto de dor, percebemos que s\u00f3 no mist\u00e9rio do Verbo encarnado se percebe o mist\u00e9rio do homem. Est\u00e3o ali espelhados a nossa realidade e o nosso destino. Talvez devido ao significado simb\u00f3lico do rosto humano, permitiu Deus que toda a densidade do sofrimento se exprimisse no rosto do Filho, quando ficou banhado pelas gotas de sangue, quando a coroa de espinhos o tornaram irreconhec\u00edvel, quando foi esbofeteado pelos soldados, cumprindo a profecia de Isa\u00edas: \u201ct\u00e3o desfigurado estava o Seu rosto que tinha perdido toda a apar\u00eancia de um ser humano\u201d (Is. 52,13). Mas nesse rosto desfigurado, a infinita confian\u00e7a filial e o amor por todos os homens, brilham sempre no seu olhar. Ao olhar-nos, Ele v\u00ea toda a nossa realidade humana renovada, a beleza de um Povo que, resgatado pelo seu sofrimento, se lhe une numa atitude sincera de louvor a Deus, Trindade Sant\u00edssima. A alegria de um Povo fiel \u00e0 nova Alian\u00e7a, que Ele est\u00e1 a selar com o seu sangue, d\u00e1 sentido \u00e0 dureza do sofrimento. Pilatos, quando depois de ter mandado a\u00e7oitar Jesus o apresenta \u00e0 multid\u00e3o, dizendo \u201ceis o Homem\u201d, interpreta, sem o saber, a realidade do que se est\u00e1 a passar. Eis o homem, na tristeza do pecado, no drama do sofrimento injusto, v\u00edtima de injusti\u00e7a e viol\u00eancia; eis o homem para quem renasce a esperan\u00e7a de recuperar a sua grandeza e a sua dignidade.  Ao contemplar o rosto doloroso de Cristo, tocamos no mais insond\u00e1vel do Mist\u00e9rio, no dizer de Jo\u00e3o Paulo II: \u201cE assim, a nossa contempla\u00e7\u00e3o do rosto de Cristo trouxe-nos at\u00e9 ao aspecto mais paradoxal do seu mist\u00e9rio, que se manifesta na hora extrema, a hora da Cruz. Mist\u00e9rio no mist\u00e9rio, diante do qual o ser humano pode apenas prostrar-se em adora\u00e7\u00e3o\u201d[1].    2. No seu rosto doloroso, Cristo olha o homem real, porque Ele \u00e9 homem e sabe o que \u00e9 ser homem. Ele \u00e9 o homem cuja intimidade confiante com o Pai nunca foi interrompida e sofre o drama do pecado dos seus irm\u00e3os. \u00c9 na sua intimidade com Deus que Ele compreende o que deveria ser o homem. Essa consci\u00eancia do pecado dos seus irm\u00e3os provoca-lhe o mais atroz sofrimento. Ou\u00e7amos ainda Jo\u00e3o Paulo II: \u201cPara transmitir aos homem o rosto do Pai, Jesus teve de assumir, n\u00e3o apenas o rosto do homem, mas tamb\u00e9m o rosto do pecado\u201d[2]. S\u00e3o Paulo compreendeu esse drama de Jesus Cristo: \u201cAquele que n\u00e3o havia conhecido o pecado, Deus O fez pecado por n\u00f3s para que nos torn\u00e1ssemos n\u2019Ele justi\u00e7a de Deus\u201d (2Cor. 5,21). J\u00e1 Isa\u00edas profetizara: \u201cE o Senhor fez cair sobre Ele as faltas de todos n\u00f3s\u201d (Is. 53,12).  Dada a universalidade da reden\u00e7\u00e3o e da consci\u00eancia de Cristo, nesse olhar doloroso sobre a degrada\u00e7\u00e3o da humanidade, v\u00ea a humanidade de todos os tempos, a humanidade dos nossos dias e o pecado de cada um de n\u00f3s. \u00c9 no realismo desse olhar que esse rosto \u00e9, hoje, para cada um de n\u00f3s, palavra amorosa de Deus, suscitando a esperan\u00e7a da convers\u00e3o.    3. Sem a intimidade filial com Deus, este olhar dram\u00e1tico sobre o pecado n\u00e3o seria humanamente suport\u00e1vel. Se, por um lado, essa intimidade e confian\u00e7a, em nenhum momento quebradas, define o verdadeiro drama do pecado, ela abre tamb\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 alegria da reden\u00e7\u00e3o, \u00e0 gl\u00f3ria que o Povo dos redimidos h\u00e1-de prestar \u00e0 Sant\u00edssima Trindade. Mais uma vez, o Papa Jo\u00e3o Paulo II: \u201cO grito de Jesus na cruz, amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, n\u00e3o traduz a ang\u00fastia dum desesperado, mas a ora\u00e7\u00e3o do Filho que, por amor, oferece a sua vida ao Pai pela salva\u00e7\u00e3o de todos. Enquanto se identifica com o nosso pecado, \u00ababandonado\u00bb pelo Pai, Ele \u00ababandona-se\u00bb nas m\u00e3os do Pai. Os seus olhos permanecem fixos no Pai. Precisamente pelo conhecimento e experi\u00eancia que s\u00f3 Ele tem de Deus, mesmo neste momento de obscuridade Jesus v\u00ea claramente a gravidade do pecado e isso mesmo f\u00e1-l\u2019O sofrer. S\u00f3 Ele, que v\u00ea o Pai e por isso rejubila plenamente, avalia at\u00e9 ao fundo o que significa resistir pelo pecado ao seu amor. A paix\u00e3o \u00e9 sofrimento atroz na alma, bem mais intensamente, que no corpo. A tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica n\u00e3o deixou de interrogar-se como p\u00f4de Jesus viver simultaneamente a uni\u00e3o profunda com o Pai, por sua natureza fonte de alegria e beatitude, e a agonia at\u00e9 ao grito do abandono. Na realidade, a presen\u00e7a conjunta destas duas dimens\u00f5es, aparentemente inconcili\u00e1veis, est\u00e1 radicada na profundidade insond\u00e1vel da uni\u00e3o hipost\u00e1tica\u201d[3].    4. O rosto doloroso do Senhor revela-nos o mist\u00e9rio do homem. Al\u00e9m do drama do pecado, aponta-nos o sentido do sofrimento humano. Como n\u00e3o contemplar naquele rosto, todos os rostos humanos marcados pela dor, ultrajados pela injusti\u00e7a, desfigurados pela mis\u00e9ria, vilipendiados pelo ultraje \u00e0 sua dignidade? O que fizestes a estes, foi a Mim que o fizestes. Est\u00e1 ali espelhado o drama humano, o drama da maldade dos homens para com os seus semelhantes. Mas brilha tamb\u00e9m a luz da esperan\u00e7a, o sentido redentor de todo o sofrimento humano.  Ao contemplar o rosto doloroso do Senhor, somos envolvidos por um mist\u00e9rio: como \u00e9 poss\u00edvel viver ao mesmo tempo o horror do sofrimento e a alegria da intimidade amorosa com Deus, que se exprime, n\u00e3o apesar da dor, mas na pr\u00f3pria dor. Esse \u00e9 o raio de luz que aquele olhar lan\u00e7a sobre o sofrimento humano. Em Cristo, o crist\u00e3o pode experimentar essa harmonia da alegria e da dor. Jo\u00e3o Paulo II ilustra esta possibilidade com dois testemunhos de Santos, afirmando \u201cn\u00e3o ser raro terem os santos vivido algo que se assemelha \u00e0 experi\u00eancia de Jesus na Cruz, num misto paradoxal de beatitude e dor\u201d[4]. O primeiro exemplo dado \u00e9 o de Santa Catarina de Sena, citando-a: \u201cA alma sente-se feliz e atormentada: atormentada pelos pecados do pr\u00f3ximo, feliz pela uni\u00e3o e afecto da caridade que a invadiu. Essas almas imitam o Cordeiro Imaculado, o meu Filho Unig\u00e9nito, que na Cruz se sentia feliz e atormentado\u201d[5].  Cita, depois, Teresa de Lisieux: \u201cNosso Senhor, no Horto das Oliveiras, gozava de todas as alegrias da Trindade, e todavia a sua agonia n\u00e3o era menos atroz. \u00c9 um mist\u00e9rio. Mas posso assegurar-lhe (escreve \u00e0 Superiora), que compreendo alguma coisa desse mist\u00e9rio a partir do que sinto em mim mesma\u201d[6].  A Paix\u00e3o de Cristo encerra o segredo do sentido do sofrimento humano. Isso \u00e9 claro para o Ap\u00f3stolo Paulo, para quem os sofrimentos do crist\u00e3o s\u00e3o nele os sofrimentos de Cristo (cf. 2Co. 1,5); com a for\u00e7a da sua ressurrei\u00e7\u00e3o podemos, pelo nosso sofrimento, participar no seu sofrimento (cf. Fil. 3,10) e dar-lhe o mesmo sentido redentor. Unidos a Cristo, um s\u00f3 com Cristo, a Paix\u00e3o do Senhor perpetua-se no sofrimento dos disc\u00edpulos. Aqueles a quem o Esp\u00edrito do ressuscitado deu a for\u00e7a de viver assim o sofrimento, o contemplar o rosto doloroso do Senhor comunica-lhes uma serenidade pacificadora.  S\u00e9 Patriarcal, 10 de Abril de 2009 <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca\t  NOTAS: [1] Jo\u00e3o Paulo II, Novo Millennio Inenute, n\u00ba 25 [2] Ibidem, n\u00ba 25 [3] Ibidem, n\u00ba 26 [4] Ibidem, n\u00ba 27 [5] Ibidem [6] Ibidem<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abO rosto doloroso de Cristo\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[237,246],"class_list":["post-38165","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-joao-paulo-ii","tag-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38165","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38165"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38165\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38165"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38165"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38165"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}