{"id":38163,"date":"2009-04-10T22:59:42","date_gmt":"2009-04-10T22:59:42","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/04\/10\/homilia-do-bispo-do-porto-na-celebracao-da-paixao-do-senhor-2\/"},"modified":"2009-04-10T22:59:42","modified_gmt":"2009-04-10T22:59:42","slug":"homilia-do-bispo-do-porto-na-celebracao-da-paixao-do-senhor-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-porto-na-celebracao-da-paixao-do-senhor-2\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo do Porto na celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p>Assim recome\u00e7a o mundo, assim se refazem as vidas\u2026       <!--more--> \u201cVede como vai prosperar o meu servo: subir\u00e1, elevar-se-\u00e1, ser\u00e1 exaltado. Assim como, \u00e0 sua vista, muitos se encheram de espanto \u2013 t\u00e3o desfigurado estava o seu rosto que tinha perdido toda a apar\u00eancia de um ser humano &#8211; assim se h\u00e3o-de encher de assombro muitas na\u00e7\u00f5es e, diante dele, os reis ficar\u00e3o calados, porque h\u00e3o-de ver o que nunca lhes tinham contado e observar o que nunca tinham ouvido\u201d. Permiti que nesta celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor, em que todas as palavras humanas parecem algo descabidas, eu retome o espanto profetizado por Isa\u00edas. E que vos convide a assombrar-vos comigo, precisamente por estarmos aqui \u2013 como est\u00e3o tantos milh\u00f5es de crist\u00e3os pelo mundo inteiro \u2013 neste mesmo dia e em id\u00eantica circunst\u00e2ncia. \u00c9 na verdade um momento forte e de especial contraste. Pe\u00e7amos a Deus que o vivamos assim, precisamente na sua for\u00e7a e desafio. Sintamos antes de mais este \u00faltimo. Nenhum chamariz nos trouxe, dos que habitualmente atraem as pessoas. N\u00e3o fizemos an\u00fancios especiais, nem nos media, nem colados nas paredes. Ter\u00edamos mesmo alguma dificuldade em faz\u00ea-lo, porque o que aqui ouvimos n\u00e3o \u00e9 imediatamente simp\u00e1tico nem agrad\u00e1vel de escutar.  Veremos de seguida o madeiro da cruz, donde pende um corpo maltratado. E tudo isto envolto em ora\u00e7\u00f5es e cantos que n\u00e3o s\u00e3o os do gosto comum. \u2013 Grande contraste, de facto, e revelador sobretudo! Revelador de que um acontecimento de h\u00e1 dois mil\u00e9nios, t\u00e3o contr\u00e1rio ao expect\u00e1vel apesar duma antiga profecia, conseguiu impor-se a multid\u00f5es crescentes e tomar uma centralidade religiosa e cultural que ningu\u00e9m adivinharia. Estamos aqui, irm\u00e3os e irm\u00e3s, porque sabemos e afirmamos com a nossa pr\u00f3pria presen\u00e7a de corpo e esp\u00edrito que o mundo e a hist\u00f3ria t\u00eam realmente um centro. Um centro t\u00e3o inaudito e in\u00e9dito que ningu\u00e9m o inventaria decerto. Um centro que s\u00f3 Deus criou, como criara o mundo; um centro em forma de cruz, uma cruz para sempre transformada em aut\u00eantica \u00e1rvore da vida.  Retomemos a profecia, at\u00e9 com a obriga\u00e7\u00e3o de quem n\u00e3o pode fugir \u00e0 evid\u00eancia; sobretudo com a devo\u00e7\u00e3o de quem agradece a miseric\u00f3rdia. Por mais que a exegese esclare\u00e7a o significado das palavras de Isa\u00edas, na sua precisa gram\u00e1tica e no respectivo contexto, o certo \u00e9 que elas soam hoje, como soaram ent\u00e3o, com alguma estranheza e mist\u00e9rio. Falam-nos de um \u201cservo\u201d que h\u00e1-de ser exaltado pelas na\u00e7\u00f5es. Tratando-se de um servidor de Deus, tal seria certo e admiss\u00edvel. Mas n\u00e3o soavam assim as palavras seguintes, dizendo que esse servo ficaria desfigurado e pouco agrad\u00e1vel de ver\u2026 S\u00e9culos depois, um profeta de Nazar\u00e9 foi flagelado, coroado de espinhos e cravado numa cruz erguida no G\u00f3lgota, fora dos muros de Jerusal\u00e9m. T\u00e3o horr\u00edvel era aquele supl\u00edcio, que dele se afastavam as pessoas e os olhares; e os romanos reservavam-no para os que consideravam mais vis. Depois duma agonia s\u00f3 apressada pelo excesso dos tormentos, Jesus morreu, desaparecendo do seu corpo exangue qualquer sinal de vida. Algumas refer\u00eancias evang\u00e9licas sugerem-nos que o pr\u00f3prio mundo participou daquela morte, com repetidos sinais de derrocada e de fim. As trevas quase apagaram o que restava da sua figura p\u00f3stuma. Rapidamente o sepultaram ali perto e uma grande pedra devia selar para sempre qualquer mem\u00f3ria que sobrasse, ali\u00e1s restrita a uma vida breve e em pequeno espa\u00e7o, entre Nazar\u00e9 e Jerusal\u00e9m. Tudo marginal e fugaz, aparentemente. E no entanto \u2013 no \u201centanto\u201d que nos traz aqui \u2013 esta cruz tornou-se para multid\u00f5es inteiras no lugar mais fixo e fixado das exist\u00eancias pessoais e colectivas. Tr\u00eas s\u00e9culos depois, um novo imperador romano \u2013 sucessor daquele sob cuja autoridade Jesus fora condenado \u2013 veria nela o sinal da pr\u00f3pria vit\u00f3ria: \u201cCom este sinal vencer\u00e1s!\u201d. Abriu-se na altura um per\u00edodo de paz para a Igreja. Para falar de n\u00f3s, o grande Nun\u2019\u00c1lvares, que em breve ser\u00e1 feliz e justamente canonizado, quis na bandeira com que nos defendeu uma grande cruz. Logo depois, a descoberta portuguesa do mundo levou nas suas velas o mesmo sinal e an\u00fancio\u2026 N\u00e3o \u00e9 isto o mais importante, nem foi isento de ambiguidades, em especial quando a cruz se reduziu a motivo her\u00e1ldico ou meramente honor\u00edfico. Mas o que real\u00e7o, em n\u00f3s e em tantos outros, \u00e9 a enorme mudan\u00e7a que se deu, como profetizado fora, no modo de olhar a cruz, a partir do Crucificado &#8211; Ressuscitado.         &#8211; E como se explicar\u00e1 tal facto? Apesar daquela profecia, por t\u00e3o poucos retida, nada encaminhava os esp\u00edritos para a\u00ed. Os pr\u00f3prios disc\u00edpulos, mesmo quando souberam da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, levaram algum tempo a tomar a cruz como respectivo sinal comum. Para romanos e judeus, a cruz continuaria a ser um sinal de reprova\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de gl\u00f3ria. E foi a pouco e pouco que se imp\u00f4s em geral o que j\u00e1 fora a grande convic\u00e7\u00e3o de S. Paulo, assim proclamada: \u201cToda a nossa gl\u00f3ria est\u00e1 na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo!\u201d.  Gl\u00f3ria \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o de Deus e da sua presen\u00e7a. Tamb\u00e9m nos custaria a admiti-la deste modo, em torno dum instrumento de supl\u00edcio. Mas finalmente se soube e para sempre se disse que, exactamente ali, se manifestaram a justi\u00e7a e a miseric\u00f3rdia divinas, naquela vida oferecida por Cristo, que o Pai aceitou para a repartir connosco, na for\u00e7a do Esp\u00edrito.  Assim recome\u00e7a o mundo e se refazem as vidas, quando o Filho eterno, assumindo a nossa humanidade a oferece ao Pai, vencendo a dist\u00e2ncia que os nossos m\u00faltiplos afastamentos alargaram entre n\u00f3s e Deus. Vit\u00f3ria que lhe custou a morte, pois a\u00ed nos teve de ir buscar; morte que nos preencheu de vida, no seu Esp\u00edrito recriador. Nesse momento o G\u00f3lgota transformou-se em para\u00edso e a cruz em \u00e1rvore da vida. \u00c9 porque o entrevemos e j\u00e1 sabemos que estamos aqui, cumprindo a profecia de Isa\u00edas e fixando na cruz o cora\u00e7\u00e3o e a esperan\u00e7a. N\u00e3o deixando de acentuar que esta aut\u00eantica revela\u00e7\u00e3o da cruz de Cristo se universalizou ao ponto de a tornar sinal e apelo para todos os povos e culturas, aqui ou muito al\u00e9m.  Mas a mesma realiza\u00e7\u00e3o da profecia de Isa\u00edas inclui-nos a n\u00f3s, como primeiramente incluiu a M\u00e3e de Jesus, tornada Senhora das Dores e da esperan\u00e7a, primeira e pessoal\u00edssima concretiza\u00e7\u00e3o do que toda a Igreja h\u00e1-de ser com Ela. Cada um de n\u00f3s junta aqui, na cruz do Senhor, a vida que leva, entre dificuldades e expectativas, suas, dos seus e do mundo inteiro. E tamb\u00e9m isso \u00e9 revela\u00e7\u00e3o, por demonstrar que a cruz \u00e9 suficientemente grande e dispon\u00edvel para abarcar um universo imenso de inten\u00e7\u00f5es e procuras. N\u00e3o encontramos outro \u201clugar\u201d assim, que alargue o G\u00f3lgota a todas as latitudes da alma.  \u00c9 neste sentido que, falando propriamente, ningu\u00e9m \u201cperde a f\u00e9\u201d, antes na f\u00e9 \u201cse perde\u201d, se n\u00e3o desistir de ser. S\u00f3 se pode perder o que se tem e a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 coisa que tenhamos, sendo ela que nos tem a n\u00f3s; como nos tem unicamente Deus, maior que o mundo e em tudo presente, mesmo na \u00ednfima quantidade ou qualidade da exist\u00eancia. Por isso, na maior desola\u00e7\u00e3o e secura, poderemos dizer com Jesus que \u201ctemos sede\u201d, n\u00e3o devemos dizer que n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua\u2026 A cruz, sempre a cruz, est\u00e1 repleta de toda a dor do mundo, que Deus assume em Cristo, para a preencher de miseric\u00f3rdia e reden\u00e7\u00e3o. E \u00e9 por isso, exactamente por isso, que nos atrai tanto, a todos os peregrinos da esperan\u00e7a. Daqui a pouco desfilaremos, um a um, diante da cruz do Senhor. Levar-lhe-emos, em confiante devo\u00e7\u00e3o, a nossa vida e a vida do mundo: sa\u00fade e doen\u00e7a, trabalho e falta dele, sucesso e insucesso, fam\u00edlia e solid\u00e3o\u2026 Tudo deporemos aos seus p\u00e9s, ou, ainda melhor, no cora\u00e7\u00e3o aberto de Cristo. Fazemo-lo at\u00e9 por redund\u00e2ncia, pois tudo isso assumiu Ele j\u00e1 e por todos.  Sairemos depois, mais identificados com Cristo, para sermos no mundo outros tantos \u201csinais da cruz\u201d, como nos persignamos. Sinais pela presen\u00e7a amiga, sinais pela palavra de consola\u00e7\u00e3o, sinais pela caridade actuada. E cada vez seremos mais deste dia, t\u00e3o irrecus\u00e1vel como certo, para que a P\u00e1scoa chegue depois ao mundo inteiro.      S\u00e9 do Porto, 10 de Abril de 2009 <i>+ Manuel Clemente <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assim recome\u00e7a o mundo, assim se refazem as vidas\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[187,206,275],"class_list":["post-38163","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-porto","tag-familia","tag-pascoa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38163","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38163"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38163\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38163"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38163"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38163"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}