{"id":38154,"date":"2009-04-09T23:23:04","date_gmt":"2009-04-09T23:23:04","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/04\/09\/homilia-do-bispo-do-porto-na-missa-da-ceia-do-senhor-2\/"},"modified":"2009-04-09T23:23:04","modified_gmt":"2009-04-09T23:23:04","slug":"homilia-do-bispo-do-porto-na-missa-da-ceia-do-senhor-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-porto-na-missa-da-ceia-do-senhor-2\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo do Porto na Missa da Ceia do Senhor"},"content":{"rendered":"<p>Assim \u00e9 Deus, que reina servindo; assim s\u00e3o os outros, que servidos nos salvam\u2026      <!--more--> A Ceia do Senhor, celebra\u00e7\u00e3o do seu sacrif\u00edcio como \u201centrega\u201d por n\u00f3s ao Pai, constitui o cerne da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, significando esta a recep\u00e7\u00e3o e a transmiss\u00e3o do testemunho primordial. Ouvimo-lo a S. Paulo: \u201cEu recebi do Senhor o que tamb\u00e9m vos transmiti: o Senhor Jesus [\u2026] tomou o p\u00e3o e, dando gra\u00e7as, partiu-o e disse: \u2018Isto \u00e9 o meu Corpo, entregue por v\u00f3s. Fazei isto em mem\u00f3ria de Mim\u2019. Do mesmo modo [\u2026] tomou o c\u00e1lice e disse: \u2018Este c\u00e1lice \u00e9 a nova alian\u00e7a no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em mem\u00f3ria de Mim\u2019\u201d.  Tomando esta \u00faltima frase, podemos resumir a vida da Igreja na recorda\u00e7\u00e3o activa do que Jesus disse e fez, tudo resumido como \u201centrega\u201d. Por isso Paulo acrescentava. \u201cTodas as vezes que comerdes deste p\u00e3o e beberdes deste c\u00e1lice, anunciareis a morte do Senhor, at\u00e9 que Ele venha\u201d. Como se diss\u00e9ssemos: de h\u00e1 dois mil anos para c\u00e1, n\u00e3o fazemos outra coisa, enquanto crist\u00e3os, sen\u00e3o acolher Jesus na sua entrega e, comungando-a em convers\u00e3o crescente, entregarmo-nos tamb\u00e9m com Ele ao Pai e ao mundo, para que nada fique fora deste sacrif\u00edcio e ceia; para que toda a aventura humana e c\u00f3smica se possa finalmente interpretar e consumar no mesmo movimento e caridade. Ent\u00e3o, a sua \u201cvinda\u201d se concluir\u00e1, como presen\u00e7a reconhecida e significado total das coisas. Nestes dias santificados, tudo \u00e9 lembrando por palavras e gestos sacramentais. Palavras e gestos \u201csacramentais\u201d, porque nos comunicam, de facto, o que lembram e representam. Cada momento final de Cristo quer finalizar-nos tamb\u00e9m a n\u00f3s, em sentido cabal. Cada palavra de Cristo, cada reac\u00e7\u00e3o dos seus circunstantes \u201cdaquele tempo\u201d, continuada nos que o somos agora, tudo condensado naquela Ceia, a que podemos chamar realmente \u00faltima. Ultima-nos tamb\u00e9m a n\u00f3s, que enquanto n\u00e3o nos aliment\u00e1ssemos de Cristo ter\u00edamos inevitavelmente fome. Estamos aqui porque o sabemos j\u00e1: a totalidade de Cristo \u00e9-nos sacramentalmente oferecida. Estamos aqui, para que a nossa comunh\u00e3o com Ele, t\u00e3o agradecida e piedosa como convertida e respons\u00e1vel, cres\u00e7a e se projecte no mundo e para a salva\u00e7\u00e3o do mundo, em aut\u00eantica mesa comum.  Sabemo-lo bem, ou bem o vamos sabendo&#8230; Mas soube-o Deus primeiro, que nos criou para si e nos faz seus filhos, fazendo-nos participar pelo Esp\u00edrito na vida do seu Filho \u00fanico, Jesus Cristo. O realismo eucar\u00edstico revela-se exactamente aqui, na admir\u00e1vel coincid\u00eancia que v\u00e3o tendo com os sentimentos e as pr\u00e1ticas de Cristo todos aqueles e aquelas que, recebendo-O piedosamente, de algum modo O \u201creproduzem\u201d em todos os aspectos das suas vidas e empenhamentos.  \u00c9 um caminho certo e sabido, porque verificado nos Santos, qual cat\u00e1logo vivo da caridade de Cristo, como se realizou em gente t\u00e3o diversa no tempo e na mentalidade e que atingiu a mesma essencialidade que celebramos: receberam a \u201centrega\u201d de Cristo, sacrif\u00edcio e ceia, e participaram dela para o bem de todos.  Sem sairmos da nossa P\u00e1tria e lembrando algumas beatifica\u00e7\u00f5es mais recentes e uma canoniza\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima, todas eucaristicamente referenciadas, que admir\u00e1veis foram os Pastorinhos de F\u00e1tima, que da Eucaristia receberam uma constante \u201centrega\u201d pela convers\u00e3o dos pecadores; ou Alexandrina de Balasar, que se resumiu em alimento eucar\u00edstico e no incans\u00e1vel atendimento de quantos lhe pediam ora\u00e7\u00e3o e conselho; ou Nun\u2019\u00c1lvares, cuja constante devo\u00e7\u00e3o \u00e0 Santa Missa lhe revelou que os primeiros s\u00e3o os \u00faltimos e fez passar de grande senhor do reino ao mais humilde e esmoler dos frades. O Cristianismo n\u00e3o \u00e9 um \u201cmoralismo\u201d seco, qual conjunto de regras de vida esfor\u00e7ada, que quase valessem por si mesmas. Incluindo certamente tudo o que a humanidade foi apurando de razo\u00e1vel e oportuno para o comportamento pessoal e a boa conviv\u00eancia social, preenche-o com a vida de Cristo, que vai muito al\u00e9m da \u201cconta, peso e medida\u201d em que ficar\u00edamos sem ela. \u201cAmar como Cristo nos amou\u201d \u00e9 a verdadeira moral crist\u00e3, recebendo do Sacramento da \u201centrega\u201d de Cristo a \u00fanica for\u00e7a que a faz poss\u00edvel: a divina caridade. Sim, amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, a Eucaristia n\u00e3o \u201ccomp\u00f5e\u201d as nossas vidas, qual mera colora\u00e7\u00e3o religiosa do que v\u00e1 sucedendo. Nem marca apenas, aos Domingos e Dias Santos, uma agenda praticante, ali\u00e1s indispens\u00e1vel. Ela \u00e9 o ponto central e determinante da nossa vida inteira. Mais ainda: ela \u00e9 a vida do crist\u00e3o e, pelo crist\u00e3o, do mundo. \u00c9 a vida de Cristo, no Qual tudo ganha sentido como entrega ao Pai, levando consigo a cria\u00e7\u00e3o inteira, na for\u00e7a do Esp\u00edrito.  De Cristo para o Pai no amor do Esp\u00edrito, \u00e9 o \u00fanico caminho \u2013 como sacrif\u00edcio e ceia \u2013 em que nos encontra(re)mos todos. Creio passar por aqui o pr\u00f3prio facto de mesmo escritores, artistas e compositores n\u00e3o praticantes e at\u00e9 n\u00e3o cat\u00f3licos encontrarem nos motivos eucar\u00edsticos inspira\u00e7\u00e3o, palavras e formas para as suas obras. De modo mais ou menos ortodoxo, vislumbram um encontro total\u2026  O que n\u00e3o tivesse sentido eucar\u00edstico nem seria de Cristo, nem seria de crist\u00e3os aut\u00eanticos. Com toda a for\u00e7a da palavra, seria \u201cinsignificante\u201d e mesmo absoluta perda de tempo.   Mas, sendo t\u00e3o axial e definitiva a Eucaristia, conv\u00e9m perguntar, amados irm\u00e3os e irm\u00e3s:   \u2013 Que centralidade tem a Santa Missa, mesmo nos Domingos dos chamados \u201cpraticantes\u201d? \u2013 Como a preparamos pessoalmente, nas fam\u00edlias e nas comunidades? \u2013 Como a prolongamos em ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as e recorda\u00e7\u00e3o viva? \u2013 Como guardamos e adoramos a Reserva Eucar\u00edstica nos nossos templos? \u2013 E ainda, na pr\u00f3pria celebra\u00e7\u00e3o, com que aten\u00e7\u00e3o participamos, em que condi\u00e7\u00f5es nos abeiramos da Comunh\u00e3o, como nos mantemos depois, em louvor agradecido? A estas perguntas que devemos fazer-nos diante da divina entrega que hoje t\u00e3o especialmente celebramos, e que todas se resumem afinal na seriedade e verdade da nossa rela\u00e7\u00e3o com Cristo, juntam-se as necess\u00e1rias consequ\u00eancias, para que a Ceia do Senhor se alargue ao mundo. As atitudes dos santos j\u00e1 lembrados, como da generalidade deles, do passado e do presente, evidenciaram bem o que a Eucaristia faz num cora\u00e7\u00e3o crente, com a intensidade e a urg\u00eancia com que serviram o pr\u00f3ximo, ou melhor, com que se aproximaram de todos.  Ficou-nos do Evangelho ouvido, quer o espanto de Pedro perante um Senhor que se dispunha a lavar-lhe os p\u00e9s, quer a pergunta de Jesus, feita num plural que certamente nos inclui: \u201c &#8211; Compreendeis o que vos fiz?\u201d. Responderemos imediatamente que sim\u2026 Mas talvez levemos uma vida inteira, por longa que seja, a passarmos da compreens\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica cabal, comungando de Jesus a verdade da humildade e do servi\u00e7o. Assim \u00e9 Deus, que reina servindo; assim s\u00e3o os outros, que servidos nos salvam.   Por isso, amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, a Ceia do Senhor h\u00e1-de abeirar-nos directamente das acrescidas necessidades dos nossos semelhantes, especialmente dos que mais atingidos forem por velhas e novas pobrezas e precariedades, de vida e de esperan\u00e7a. Que, pessoalmente e nas institui\u00e7\u00f5es caritativas, estejamos diante dos outros \u201ccomo quem serve\u201d. E demos gra\u00e7as a Deus Pai por assim nos associar \u00e0 Ceia de Cristo no v\u00ednculo do Esp\u00edrito, para chegarmos a todos. Agrade\u00e7amos, irm\u00e3os e irm\u00e3s, porque participar na caridade de Cristo \u00e9 festejar a vida. Por isso mesmo a Eucaristia, recebida e partilhada como comunh\u00e3o de vida e servi\u00e7o, \u00e9 sempre sacramento de alegria e de paz.    S\u00e9 do Porto, 9 de Abril de 2009 <i>+ Manuel Clemente, Bispo do Porto <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assim \u00e9 Deus, que reina servindo; assim s\u00e3o os outros, que servidos nos salvam\u2026<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[103,168,187,206,207,284],"class_list":["post-38154","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-alexandrina-de-balasar","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-do-porto","tag-familia","tag-fatima","tag-pastorinhos-de-fatima"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38154","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38154"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38154\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38154"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38154"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38154"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}