{"id":38067,"date":"2009-04-06T10:52:59","date_gmt":"2009-04-06T10:52:59","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/04\/06\/mensagem-ao-povo-da-guine-dos-lideres-religiosos\/"},"modified":"2009-04-06T10:52:59","modified_gmt":"2009-04-06T10:52:59","slug":"mensagem-ao-povo-da-guine-dos-lideres-religiosos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mensagem-ao-povo-da-guine-dos-lideres-religiosos\/","title":{"rendered":"Mensagem ao povo da Guin\u00e9 dos l\u00edderes religiosos"},"content":{"rendered":"<p>L\u00edderes religiosos das comunidades Cat\u00f3lica, Evang\u00e9lica e Mu\u00e7ulmana da Guin\u00e9-Bissau  \u201cSi n\u00f4 s\u00famia bentu, n\u00f4 na otcha turbada; Si n\u00f4 s\u00famia bardadi, n\u00f4 na otcha paz\u201d!  (\u201cSe semearmos ventos, colheremos tempestades; se semearmos a verdade, colheremos a paz\u201d!)  <b>Introdu\u00e7\u00e3o<\/b> N\u00f3s, os l\u00edderes religiosos das comunidades cat\u00f3lica, evang\u00e9lica e mu\u00e7ulmana da Guin\u00e9-Bissau, fomos despertados, com surpresa e horror, pelas not\u00edcias referentes aos assassinatos do Chefe de Estado Maior das For\u00e7as Armadas (Batista Tagme na Waie) e do Presidente da Rep\u00fablica (Jo\u00e3o Bernardo Vieira), nos passados dias 1 e 2 do m\u00eas de Mar\u00e7o de 2009, com poucas horas de intervalo entre si. Com tais ac\u00e7\u00f5es repugnantes, mais uma vez opt\u00e1mos pelo caminho errado na solu\u00e7\u00e3o dos problemas de car\u00e1cter pol\u00edtico e militar: preferimos a solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida mas enganadora e mortal da viol\u00eancia armada \u00e0 solu\u00e7\u00e3o dialogada e n\u00e3o violenta dos problemas, que pode ser mais vagarosa mas que \u00e9 seguramente mais racional e perdur\u00e1vel. Para n\u00f3s, o modo violento de resolver os problemas (tal como tem sido feito at\u00e9 aqui, em v\u00e1rios momentos ap\u00f3s a Independ\u00eancia) \u00e9 verdadeiramente deplor\u00e1vel, visto que s\u00f3 serve para gerar novos problemas, para espezinhar sem escr\u00fapulos a dignidade e a sacralidade da vida humana, para violar de modo clamoroso as regras do Estado de Direito, e para denegrir cada vez mais a imagem do nosso pa\u00eds. Se continuarmos pelo caminho desta espiral de viol\u00eancia, o nosso pa\u00eds corre o risco s\u00e9rio de n\u00e3o poder participar de cabe\u00e7a erguida no concerto das na\u00e7\u00f5es e de nunca mais chegar ao t\u00e3o almejado desenvolvimento porque anseiam as nossas popula\u00e7\u00f5es.  Perante tudo isto, n\u00e3o podemos deixar de nos interrogar seriamente: &#8211; Mas quando \u00e9 que os Guineenses ir\u00e3o parar de enlutar a nossa querida p\u00e1tria? Ser\u00e1 que estamos condenados a fazer da viol\u00eancia e do homic\u00eddio a nossa segunda natureza? Ser\u00e1 que ainda n\u00e3o chegou o tempo para aprendermos a voltar atr\u00e1s neste caminho errado e sem futuro promissor?  \u00c9 certo que os problemas fazem parte de todas as sociedades humanas, resultantes quase sempre de choques de interesses materiais, de m\u00e1 gest\u00e3o da liberdade e do bem comum, de orgulhos e de incoer\u00eancias individuais, etc. Mas os problemas, quando surgem, devem ser resolvidos quanto antes e de maneira conveniente porque, n\u00e3o sendo resolvidos ou sendo mal resolvidos, acabam sempre por constituir uma amea\u00e7a s\u00e9ria para a vida das sociedades. E qual ser\u00e1 essa maneira certa e conveniente? Para n\u00f3s l\u00edderes religiosos de tr\u00eas comunidades de crentes da Guin\u00e9 Bissau que vos enviamos esta Mensagem, a maneira certa e conveniente de resolver os nossos problemas pol\u00edtico-sociais e militares \u00e9 a do caminho n\u00e3o violento, do caminho do di\u00e1logo confiante e persistente, do caminho do respeito pelas institui\u00e7\u00f5es e pela legalidade, caminho que os nossos anci\u00e3os na f\u00e9 nos apontaram e que at\u00e9 agora ainda n\u00e3o soubemos escutar nem imitar: o Bispo D. Sett\u00edmio Ferrazzetta, o Aladje Malam Serco Indjai e o Pastor Ernesto Lima. Esse \u00e9 mesmo o \u00fanico caminho que nos poder\u00e1 levar a uma sociedade realmente desenvolvida e democr\u00e1tica na Guin\u00e9-Bissau. E agora, ap\u00f3s mais esta trag\u00e9dia nacional, o que ser\u00e1 poss\u00edvel e desej\u00e1vel que fa\u00e7amos para redefinir de algum modo o nosso pa\u00eds, orientando-o definitivamente para o caminho da solu\u00e7\u00e3o racional e dialogada dos conflitos com que nos debatemos e continuaremos a debater no futuro?  RENOVAR URGENTEMENTE A MENTE E O CORA\u00c7\u00c3O DOS GUINEENSES Para n\u00f3s, torna-se absolutamente necess\u00e1rio e urgente que todos os guineenses fa\u00e7am uma viragem decisiva na sua maneira de viver em sociedade. Torna-se imprescind\u00edvel que todos os guineenses ousem olhar para dentro de si mesmos e para a situa\u00e7\u00e3o geral do pa\u00eds e fa\u00e7am um profundo e sincero acto de convers\u00e3o interior, de mudan\u00e7a de mentalidade e de comportamento, ajudados pela sua f\u00e9 em Deus, com lucidez intelectual, com esp\u00edrito de sacrif\u00edcio e de amor patri\u00f3tico, com confian\u00e7a em si mesmos individualmente e como Na\u00e7\u00e3o. N\u00e3o mais poderemos continuar a querer persistir numa mentalidade m\u00e1gica e de viol\u00eancia desumanizante, que leva aos resultados desastrosos que j\u00e1 conhecemos; temos de apontar para horizontes mais positivos e humanizantes.  Para que isso possa acontecer, teremos de concentrar nossa aten\u00e7\u00e3o e esfor\u00e7os em ultrapassar algumas barreiras ou obst\u00e1culos que nos t\u00eam impedido de aceder a uma maneira de vida mais desenvolvida, mais democr\u00e1tica e com maiores perspectivas de futuro. \u00c9 para a ultrapassagem dessas barreiras ou obst\u00e1culos que agora queremos chamar a vossa aten\u00e7\u00e3o.  <b>1.Passar da hostilidade ao acolhimento fraterno:<\/b> Em nossas rela\u00e7\u00f5es sociais, temos de abandonar o sentimento da hostilidade (rejei\u00e7\u00e3o) uns para com os outros: nos outros n\u00e3o podemos ver sobretudo o que \u00e9 diferente, negativo ou perigoso para n\u00f3s ou para a nossa fam\u00edlia; pelo contr\u00e1rio, haveremos de olhar para os limites e falhas dos outros como um convite silencioso para que os ajudemos em esp\u00edrito de colabora\u00e7\u00e3o e corresponsabilidade; haveremos de olhar para os outros sobretudo no aspecto positivo, procurando descobrir as afinidades que a eles nos ligam (a mesma condi\u00e7\u00e3o humana o mesmo continente, o mesmo pa\u00eds etc.) e tomando consci\u00eancia de que as diferen\u00e7as podem ser afinal uma fonte de enriquecimento para todos, j\u00e1 que ningu\u00e9m \u00e9 t\u00e3o pobre que n\u00e3o tenha nada para dar ao seu semelhante.  <b>2.N\u00e3o querer resolver a viol\u00eancia com outra viol\u00eancia semelhante ou ainda pior<\/b> Temos de deixar de acreditar na viol\u00eancia f\u00edsica (for\u00e7a amea\u00e7adora e desumanizante) como solu\u00e7\u00e3o para os nossos problemas, j\u00e1 que uma viol\u00eancia chama sempre outra viol\u00eancia (se poss\u00edvel ainda maior) e a cadeia de viol\u00eancia nunca mais acabar\u00e1. H\u00e1 que cortar o mal pela raiz, desejando uma conviv\u00eancia humana que seja diferente da conviv\u00eancia dos animais, onde n\u00e3o seja a lei \u201cdo mais forte\u201d a imperar, mas sim as leis respeitadoras da dignidade e corresponsabilidade de cada ser humano.  <b>3.Passar da vingan\u00e7a individual ao recurso \u00e0 justi\u00e7a:<\/b>  A passagem da vingan\u00e7a (solu\u00e7\u00e3o vindicativa e frequentemente desproporcional) ao recurso \u00e0 justi\u00e7a (solu\u00e7\u00e3o racional e institucional) significa: ter em conta que quem se vinga imita a l\u00f3gica do ofensor e abre uma espiral de vingan\u00e7a quase intermin\u00e1vel; reconhecer que a vingan\u00e7a constitui um insulto \u00e0s institui\u00e7\u00f5es vocacionadas para a resolu\u00e7\u00e3o humana e legalizada dos conflitos sociais, e que acabar com ela constitui um \u201csalto qualitativo\u201d no desenvolvimento humano: aprender a responsabilizar sempre quem nos ofendeu, embora sabendo guardar respeito pela sua pessoa individual.    <b>4.Substituir o comportamento irrespons\u00e1vel pela sujei\u00e7\u00e3o \u00e0s exig\u00eancias da \u00c9tica:<\/b> Temos de levar a \u00e9tica (moral) a s\u00e9rio: cada ser humano n\u00e3o pode fazer apenas e sempre aquilo que lhe apraz; tem de se sujeitar \u00e0s regras e exig\u00eancias da moral social (que h\u00e1-de ser apoiada n\u00e3o em conveni\u00eancias de pessoas ou de pequenos grupos privilegiados, mas sim nos valores fundamentais resultantes da dignidade de cada pessoa humana, criada e amada por Deus). A seriedade no respeito pela \u00e9tica (moral) \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para garantir a coes\u00e3o social e o respeito rec\u00edproco dos cidad\u00e3os. Em todos os lugares, em todas as circunst\u00e2ncias e em todas as culturas somos chamados a cumprir o primeiro princ\u00edpio da \u00e9tica: \u201c o bem deve ser feito e o mal deve ser evitado\u201d!      N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel continuar com a pretens\u00e3o injusta e soberba do \u201cbu sibi ami i quim\u201d, ou ent\u00e3o a pretens\u00e3o interesseira e incitante \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o \u201c ab\u00f3 son qui na cumpu Guin\u00e9\u201d? \u00c9 justo que queiramos ser cidad\u00e3os de direitos, mas n\u00e3o nos esque\u00e7amos \u2013 de modo algum \u2013 que tamb\u00e9m temos de ser cidad\u00e3os de deveres.  <b>5.Levar a s\u00e9rio a nossa f\u00e9 em Deus<\/b> Somos crentes em Deus, nas nossas diferentes comunidades religiosas (religi\u00e3o tradicional africana, mu\u00e7ulmana, crist\u00e3 e outras). Para n\u00f3s, a criatura humana n\u00e3o \u00e9 \u201csenhora\u201d total de sua vida e comportamento moral; depende de Deus que a criou, que a ama e que a julgar\u00e1. A depend\u00eancia de Deus n\u00e3o diminui a dignidade da pessoa humana, antes a defende melhor e lhe d\u00e1 uma dimens\u00e3o n\u00e3o apenas para este mundo mas tamb\u00e9m para a vida eterna. Nossa f\u00e9 de crentes em Deus contribuir\u00e1 seguramente para melhorar as nossas rela\u00e7\u00f5es sociais: ajudar-nos-\u00e1 a ver os outros como Deus gostaria que fossem vistos, com amor e sem preconceitos; encorajar-nos-\u00e1 a utilizar nossa vida para defender e promover a vida dos outros e o respeito pela natureza que nos rodeia, e que \u00e9 a nossa \u201ccasa comum\u201d. Se acreditamos em Deus, tiremos da\u00ed todas as consequ\u00eancias l\u00f3gicas e todas as energias interiores para podermos participar corajosamente no desenvolvimento integral de nossas popula\u00e7\u00f5es e de nossa terra comum. Se acreditamos a s\u00e9rio em Deus, tenhamos a coragem de reconhecer que, individual ou colectivamente, err\u00e1mos variadas vezes na maneira de resolver os nossos problemas mais graves, desviando-nos da vontade de Deus e ofendendo o nosso pr\u00f3ximo. Agora, a nossa f\u00e9 comum nos pede que saibamos arrepender-nos de verdade e que fa\u00e7amos alguma ac\u00e7\u00e3o concreta que demonstre o desejo sincero de procedermos de maneira diferente no futuro.  <b>Conclus\u00e3o<\/b> Caros concidad\u00e3os, O grav\u00edssimo momento social que estamos a atravessar n\u00e3o \u00e9 de muitas palavras, ou de oportun\u00edsticas e enganadoras promessas. \u00c9 de exame de consci\u00eancia profundo e de necessidade urgente de mudan\u00e7a de comportamentos na nossa vida social e comunit\u00e1ria. N\u00e3o podemos continuar com uma mentalidade e uma actua\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica baseadas na magia ou na viol\u00eancia, recorrendo \u00e0 vingan\u00e7a individual, aos golpes militares forjados ou verdadeiros, \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o no uso dos bens p\u00fablicos ou na participa\u00e7\u00e3o em neg\u00f3cios escondidos, imorais e ilegais. Temos de passar para um modo de vida mais positivo e desenvolvido: uma vida social em que em que o acolhimento fraterno e rec\u00edproco, o n\u00e3o \u2013 recurso \u00e0 viol\u00eancia f\u00edsica mas sim \u00e0 justi\u00e7a legalmente exercida, o respeito pelas exig\u00eancias comuns da \u00e9tica e a ajuda inestim\u00e1vel da nossa f\u00e9 em Deus, nos ajudem a crescer cada vez mais na felicidade de sermos cidad\u00e3os da mesma p\u00e1tria, continuadores daqueles que nos ofereceram gratuitamente o benef\u00edcio da liberdade e da independ\u00eancia, para que as defend\u00eassemos e concretiz\u00e1ssemos. \u00c9 indiscut\u00edvel que \u201c se continuarmos a semear \u00f3dios, recolheremos apenas mais tempestades; mas se,  pelo contr\u00e1rio, passarmos a semear a verdade, ela nos libertar\u00e1 e haveremos finalmente de colher a Paz\u201d! N\u00e3o \u00e9 vergonha nem fraqueza voltar atr\u00e1s num caminho que descobrimos ser errado ou perigoso. Vergonha \u00e9 n\u00e3o termos coragem de o fazer. A este respeito, e como fruto concreto desta Mensagem, queremos hoje propor-vos o seguinte:  Que fa\u00e7amos da pr\u00f3xima semana( 5-12 deste m\u00eas de Abril)  uma semana de ora\u00e7\u00e3o, e que tamb\u00e9m durante ela, cada comunidade escolha um Dia particular de ora\u00e7\u00e3o e de Penit\u00eancia em favor da Paz e da verdadeira reconcilia\u00e7\u00e3o entre todos os Guineenses. Procuremos rezar mais intensamente, jejuar conscientemente, e reflectir a s\u00e9rio sobre aquilo em que temos urgentemente de mudar.  Que, nessas v\u00e1rias celebra\u00e7\u00f5es que ir\u00e3o ser feitas em cada uma de nossas comunidades religiosas, os crentes descubram alguns gestos concretos que sejam o sinal vis\u00edvel de arrependimento, de pedido de perd\u00e3o e de reconcilia\u00e7\u00e3o.  Que a partir desse momento, n\u00f3s os crentes nos empenhemos juntos no trabalho \u00e1rduo e longo, em favor duma reconcilia\u00e7\u00e3o nacional, em que estejam envolvidas todas as camadas sociais. Os \u00faltimos acontecimentos dram\u00e1ticos provam \u00e0 evid\u00eancia que a sociedade guineense ainda n\u00e3o est\u00e1 reconciliada consigo mesma.  Que Deus todo-poderoso e cheio de Miseric\u00f3rdia ajude a transformar as nossas mentes e os nossos cora\u00e7\u00f5es, volte para n\u00f3s o seu rosto e aben\u00e7oe a Guin\u00e9-Bissau!  Pela Igreja Cat\u00f3lica: D. Jos\u00e9 C\u00e2mnate na Bissign, Bispo de Bissau D. Pedro Carlos Zilli \u2013 Bispo de Bafat\u00e1  Pela Igreja Evang\u00e9lica: Pastor Jos\u00e9 Paulo Domingos Semedo Pastor Paulo Mendes  Pela comunidade Mu\u00e7ulmana: Aladje Tcherno Embalo, Conselho Superior dos Assuntos Isl\u00e2micos Aladje Abdulai Baio,Conselho Nacional Isl\u00e2mico                                                        Bissau, 02 de Abril de 2009 <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00edderes religiosos das comunidades Cat\u00f3lica, Evang\u00e9lica e Mu\u00e7ulmana da Guin\u00e9-Bissau \u201cSi n\u00f4 s\u00famia bentu, n\u00f4 na otcha turbada; Si n\u00f4 s\u00famia bardadi, n\u00f4 na otcha paz\u201d! (\u201cSe semearmos ventos, colheremos tempestades; se semearmos a verdade, colheremos a paz\u201d!) 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