{"id":38064,"date":"2009-04-06T10:30:44","date_gmt":"2009-04-06T10:30:44","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/04\/06\/homilia-do-bispo-do-porto-no-domingo-de-ramos-2\/"},"modified":"2009-04-06T10:30:44","modified_gmt":"2009-04-06T10:30:44","slug":"homilia-do-bispo-do-porto-no-domingo-de-ramos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-porto-no-domingo-de-ramos-2\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo do Porto no Domingo de Ramos"},"content":{"rendered":"<p>\u00abA espantosa humildade de Deus\u2026\u00bb <!--more--> Come\u00e7amos esta Semana Maior acompanhando o Senhor na entrada em Jerusal\u00e9m e ouvindo a sua Paix\u00e3o, em proclama\u00e7\u00e3o primeira. E bom \u00e9 que o fa\u00e7amos, seguindo com aten\u00e7\u00e3o devota e consequente os passos de Cristo, que outra coisa n\u00e3o \u00e9 o ser crist\u00e3o. Deu o Senhor mais passos nesse dia do que n\u00f3s os demos hoje, mas n\u00e3o nos dispensa de os darmos todos, se queremos ser deveras seus disc\u00edpulos. \u00c9 um caminho de gl\u00f3ria, mas a gl\u00f3ria \u00e9 unicamente a da Cruz.  Dito doutro modo, \u00e9 um caminho bem diferente daqueles em que normalmente nos desencaminhamos, mesmo com \u201ca melhor das inten\u00e7\u00f5es\u201d, ou a mais vulgar das distrac\u00e7\u00f5es. \u00c9 tamb\u00e9m pedagogia: pedagogia divina, explicitada no mist\u00e9rio pascal de Cristo, Filho de Deus feito homem, como o contemplaremos ao longo desta Semana, por isso mesmo Santa. Disse que o caminho de Cristo \u00e9 diferente e contr\u00e1rio ao que espontaneamente apetec\u00edamos. Conven\u00e7amo-nos de que assim \u00e9, de facto. E tanto que, mesmo para os disc\u00edpulos, foi e continua a ser desafio permanente de \u00e1rdua convers\u00e3o. O que espontaneamente querer\u00edamos, para n\u00f3s e para os nossos, seria crescimento e afirma\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. \u201cSubir na vida\u201d, sabe-se l\u00e1 \u00e0 custa de qu\u00ea e at\u00e9 de quem\u2026 Mas, mesmo sem conota\u00e7\u00e3o negativa, \u00e9 sempre do \u201ceu\u201d que se trata, quando assim ficamos. N\u00e3o h\u00e1 publicidade que n\u00e3o toque nesta nota, para induzir consumos, o mesmo acontecendo frequentemente nos \u201cconselhos\u201d que se d\u00e3o aos novos.   Creio at\u00e9 que uma das causas de tanta desist\u00eancia religiosa se encontra precisamente aqui, descrendo-se de um \u201cdeus\u201d que n\u00e3o garante como quer\u00edamos o \u00eaxito individual apetecido. \u00c9 tamb\u00e9m uma das causas do alastramento das chamadas \u201creligi\u00f5es do sucesso\u201d, em que tudo se promete rapidamente, da fortuna aos relacionamentos, da fama aos neg\u00f3cios. Alastramento ef\u00e9mero para cada uma delas, como o seria para n\u00f3s, porque acaba sempre por aparecer outra que ainda prometa mais, com mais rapidez e muita anima\u00e7\u00e3o\u2026 Concorrem em ofertas imposs\u00edveis e arriscam-se a \u201cinvocar o santo nome de Deus em v\u00e3o\u201d.  Com Deus tudo \u00e9 diferente, na espantosa humildade com que se \u201cretrai\u201d para que n\u00f3s sejamos. Com Deus tudo \u00e9 diverso, na activa paci\u00eancia com que nos atrai e espera. E, quando finalmente realiza o encontro prometido, \u00e9 da maneira que ouvimos num hino dos primeiros crist\u00e3os, que Paulo tomou e refor\u00e7ou na Ep\u00edstola aos Filipenses: \u201cAparecendo como homem, [Cristo Jesus] humilhou-se ainda mais, obedecendo at\u00e9 \u00e0 morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e lhe deu um nome que est\u00e1 acima de todos os nomes\u201d. Humilhou-se a si mesmo: com um total despojamento de si, para que nele coubesse toda a prostra\u00e7\u00e3o do mundo, assim levantada pelo amor com que a assumia e salvava. Humilhou-se a si mesmo, porque a aut\u00eantica condi\u00e7\u00e3o divina que compartilha com o Pai no amor do Esp\u00edrito n\u00e3o transporta outro poder que n\u00e3o seja o do amor, ou seja, da auto-doa\u00e7\u00e3o, da vida no outro e para o outro. Assim \u00e9 Cristo com o Pai, assim quis ser Cristo connosco para o Pai. Antes mesmo de ser acolhimento nosso, a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 d\u00e1diva divina, que em Cristo faz da nossa humanidade, por si assumida, assentimento e regresso ao amor de Deus Pai.  Irm\u00e3os e irm\u00e3s, come\u00e7ar a Semana Santa em 2009 significa necessariamente ades\u00e3o e compromisso pessoal em rela\u00e7\u00e3o \u00e1 miseric\u00f3rdia divina, revelada passo a passo nas atitudes definitivas de Cristo, t\u00e3o manifestadas na Liturgia e na Palavra destes dias. Destes dias, precisamente, agravados que s\u00e3o por dificuldades grandes na sociedade e nas fam\u00edlias. Nada disto poder\u00e1 ficar longe da Cruz do Senhor, onde nos entrega a sua vida para refazer o mundo na caridade, na justi\u00e7a e na paz. N\u00e3o faltam, \u00e9 certo, boas-vontades e iniciativas de m\u00faltipla proveni\u00eancia, para ultrapassarmos a conjuntura. Tudo bom em geral e por mais que seja. Mas n\u00e3o devemos esquecer a conota\u00e7\u00e3o moral da presente crise, no que tamb\u00e9m resulte de ambi\u00e7\u00f5es desmedidas ou pouca lisura de processos. A oferta de Cristo recebe-se na convers\u00e3o das nossas vidas, e s\u00f3 assim \u00e9 aut\u00eantica e frutuosa. E devemos \u2013 muito especialmente os que queremos \u201csanta\u201d esta semana \u2013 recolher de Cristo a li\u00e7\u00e3o da sua vida e o fruto inteiro da sua entrega.  Voltemos ao hino da Ep\u00edstola aos Filipenses, que nos d\u00e1 a maior raz\u00e3o do que ouvimos e sabemos, a partir das Leituras de hoje: \u201cCristo Jesus, que era de condi\u00e7\u00e3o divina, n\u00e3o se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si pr\u00f3prio. Assumindo a condi\u00e7\u00e3o de servo, tornou-se semelhante aos homens [\u2026]. Por isso Deus O exaltou e lhe deu um nome que est\u00e1 acima de todos os nomes\u2026\u201d.  Sim, irm\u00e3os e irm\u00e3s, aprendamos de vez que n\u00e3o h\u00e1 \u201csucesso\u201d que perdure sen\u00e3o na humildade aut\u00eantica; que n\u00e3o h\u00e1 \u201cvit\u00f3ria\u201d de ningu\u00e9m sen\u00e3o quando se entrega a Deus e aos outros. Aprendamos com Cristo \u2013 especialmente os jovens a quem este dia \u00e9 dedicado &#8211; que ser\u00e3o bem recordados, daqui a dois mil anos e sempre, apenas aqueles que fizeram da sua vida a partilha generosa do que t\u00eam e do que s\u00e3o, e s\u00e3o exactamente porque oferecem.  Saudamos vivamente todos quantos, nos diversos sectores, com especial relevo para as fam\u00edlias, as escolas e as empresas, n\u00e3o desistem de garantir o futuro geral pela maior disponibilidade pr\u00f3pria, alimentando a esperan\u00e7a duma sociedade que neles encontra o melhor de si mesma. Ser\u00e3o geralmente arredios \u00e0 fama, mas inclui-os Deus na sua gl\u00f3ria, porque vivem do Esp\u00edrito de Cristo e prolongam o seu servi\u00e7o ao mundo.  A Igreja, enquanto Igreja, n\u00e3o pode nem deve realizar directamente as variadas fun\u00e7\u00f5es de constru\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o do mundo, que Deus confiou aos \u201cfilhos dos homens\u201d no seu todo. Mas a Igreja, enquanto Igreja, pode e deve preencher e animar todas as actividades humanas com aquele Esp\u00edrito que o Filho de Deus difundiu na terra para que a aventura humana se retome e conclua na paz.  A Igreja &#8211; que \u00e9 Povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Esp\u00edrito &#8211; na complementaridade dos seus minist\u00e9rios e carismas, come\u00e7a hoje, no Portugal que somos em 2009, uma Semana que a far\u00e1 mais santa, na medida em que a Palavra for mais ouvida, a Ora\u00e7\u00e3o mais continuada, os Sacramentos mais recebidos e a Caridade mais actuada. Tudo nos converter\u00e1 tamb\u00e9m mais aos sentimentos de Cristo e de quem \u201cest\u00e1 verdadeiramente em Cristo\u201d, para reproduzirmos entre familiares e sem-fam\u00edlia, empregados e sem-emprego, saud\u00e1veis e enfermos, acompanhados e s\u00f3s de m\u00faltiplas solid\u00f5es, o servi\u00e7o humilde e consequente d\u2019Aquele a quem chamamos Mestre e Senhor. Ped\u00edamo-lo na ora\u00e7\u00e3o colecta, que seria bom decorarmos \u2013 guardando-a no cora\u00e7\u00e3o \u2013 qual lema e programa para estes especial\u00edssimos dias. Lembrando que Deus nos deu um exemplo de humildade na incarna\u00e7\u00e3o e na cruz do seu Filho, rog\u00e1vamos assim: \u201cFazei que sigamos os ensinamentos da sua paix\u00e3o, para merecermos tomar parte na gl\u00f3ria da sua ressurrei\u00e7\u00e3o\u201d.  Retomando a reflex\u00e3o inicial, de que espontaneamente desejamos auto-afirma\u00e7\u00e3o e sucesso, n\u00e3o se trata propriamente de anular, mas de converter o desejo, na luz pascal que recebemos. Sim, irm\u00e3os e irm\u00e3s, isso mesmo que almejamos, como realiza\u00e7\u00e3o pessoal e reconhecimento geral, pode realmente acontecer e na mais l\u00edmpida e duradoura das verdades. Acontecer\u00e1 decerto. Mas acontecer\u00e1 apenas se a realiza\u00e7\u00e3o significar entrega e o reconhecimento for m\u00fatuo e generoso. Acontecer\u00e1 na Cruz, na maneira divina de ser, na maneira mais humana de acontecer.    Com tudo isto, amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, pe\u00e7amos insistentemente que a Paix\u00e3o de Cristo motive e sustente a esperan\u00e7a universal. E que a P\u00e1scoa que preparamos nos aproxime, em Cristo, de Deus e de todos. A\u00ed nos reencontraremos, na verdade de Deus e no melhor de n\u00f3s mesmos.                  S\u00e9 do Porto, 5 de Abril de 2009 <i>+ Manuel Clemente <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abA espantosa humildade de Deus\u2026\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[168,187,206,246,275,294,308],"class_list":["post-38064","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-do-porto","tag-familia","tag-liturgia","tag-pascoa","tag-sacramentos","tag-semana-santa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38064","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38064"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38064\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38064"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38064"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38064"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}