{"id":38063,"date":"2009-04-06T09:59:09","date_gmt":"2009-04-06T09:59:09","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/04\/06\/homilia-do-domingo-de-ramos-do-cardeal-patriarca-de-lisboa\/"},"modified":"2009-04-06T09:59:09","modified_gmt":"2009-04-06T09:59:09","slug":"homilia-do-domingo-de-ramos-do-cardeal-patriarca-de-lisboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-domingo-de-ramos-do-cardeal-patriarca-de-lisboa\/","title":{"rendered":"Homilia do Domingo de Ramos do Cardeal-Patriarca de Lisboa"},"content":{"rendered":"<p>\u201cA actualidade da realeza de Cristo\u201d <!--more--> 1. A Liturgia deste Domingo, com que iniciamos a celebra\u00e7\u00e3o anual da P\u00e1scoa crist\u00e3, \u00e9 claramente a proclama\u00e7\u00e3o da realeza de Cristo. A sua primeira express\u00e3o \u00e9 a aclama\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica: Jesus de Nazar\u00e9 \u00e9 o Messias esperado. Como sabemos, ao longo da hist\u00f3ria do Povo do Antigo Testamento, foram surgindo v\u00e1rias interpreta\u00e7\u00f5es desse Messias, esperado como libertador do Povo, que fundamentaram perspectivas hist\u00f3rico-pol\u00edticas, correntes de espiritualidade, rela\u00e7\u00e3o entre o presente hist\u00f3rico de Israel e a dimens\u00e3o escatol\u00f3gica do Povo da Alian\u00e7a definitiva. Para o messianismo oficial, o Messias \u00e9 o Rei Justo, descendente de David. Esta perspectiva real foi muito adulterada pelas vis\u00f5es pol\u00edticas de cada circunst\u00e2ncia. Ele seria o libertador pol\u00edtico do Povo oprimido pelas pot\u00eancias estrangeiras e, vencidos os inimigos do Povo, inauguraria o reinado definitivo de Israel. Para Isa\u00edas, \u00e9 o Servo sofredor, que carrega sobre Si os pecados de todo o Povo. A liberta\u00e7\u00e3o que trar\u00e1 \u00e9 espiritual, ser\u00e1 o triunfo da justi\u00e7a. Depois do ex\u00edlio da Babil\u00f3nia, talvez fruto da experi\u00eancia do cativeiro que afastou o Povo do Templo, relativizando muitas pr\u00e1ticas religiosas, surge uma vis\u00e3o escatol\u00f3gica do Messias. Ele vir\u00e1 no fim dos tempos, aparecer\u00e1 sobre as nuvens do C\u00e9u como uma figura celeste, um \u201cFilho do Homem\u201d, reunir\u00e1 os justos, o \u201cresto fiel\u201d de Israel e inaugurar\u00e1 o Reino escatol\u00f3gico. Jesus n\u00e3o rejeitou nenhuma destas compreens\u00f5es do Messias, sabe que cada uma delas exprime uma dimens\u00e3o do verdadeiro Messias, e aplica-as todas a Si, \u00e0 sua miss\u00e3o messi\u00e2nica. Se todas elas encerravam um aspecto de verdade, se Ele era verdadeiramente o Messias, s\u00f3 podia assumi-las a todas, mostrando com a sua Pessoa e com a sua miss\u00e3o que todas elas se completavam e se corrigiam mutuamente. Muitas vezes, durante a sua vida p\u00fablica, pareceu rejeitar a aplica\u00e7\u00e3o a Si mesmo da tradi\u00e7\u00e3o do messianismo real, na descend\u00eancia de David. Na entrada triunfal em Jerusal\u00e9m assume-o claramente. O jumento como montada, \u00e9 a den\u00fancia do triunfalismo do messianismo pol\u00edtico, que se afirmava aparatosamente na for\u00e7a dos cavalos e dos carros de guerra, preparados para a batalha. Perante Pilatos, Jesus assume que \u00e9 o Rei dos Judeus, mas corrige, mais uma vez, o messianismo real na sua vis\u00e3o pol\u00edtica: \u201cO Meu Reino n\u00e3o \u00e9 deste mundo\u201d. S\u00e3o Paulo, na Carta aos Filipenses, assume claramente a vis\u00e3o messi\u00e2nica do Servo sofredor, oferecendo a sua humilha\u00e7\u00e3o e a sua morte como resgate dos pecados da multid\u00e3o. Ao assumir esta vis\u00e3o messi\u00e2nica, Paulo, fariseu de forma\u00e7\u00e3o, mostra-nos mais uma vez a profundidade da sua convers\u00e3o. O texto da Carta aos Filipenses tem de ser lido \u00e0 luz da profecia de Isa\u00edas. Esta vis\u00e3o messi\u00e2nica Jesus assume-a, durante o seu processo, n\u00e3o por palavras, mas na radicalidade do seu dom. Mas tinha-o feito, por palavras, na sua vida p\u00fablica: o Filho do Homem veio para servir e dar a vida como resgate da multid\u00e3o. A tradi\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica do Filho do Homem parece ser a vis\u00e3o messi\u00e2nica preferida por Jesus. Perante a pergunta do Sumo Sacerdote: \u201c\u00c9s tu o Messias, o Filho de Deus bendito? Jesus respondeu: Sou, e v\u00f3s vereis o Filho do Homem sentado \u00e0 direita do Todo Poderoso e vindo entre as nuvens do C\u00e9u\u201d. Para Paulo esta dimens\u00e3o gloriosa e triunfal do Messias, \u00e9 a exalta\u00e7\u00e3o do Servo, como pr\u00e9mio da sua fidelidade e obedi\u00eancia. \u201cPor isso Deus O exaltou e lhe deu o nome que est\u00e1 acima de todos os nomes. Para que todos, ao nome de Jesus, se ajoelhem nos C\u00e9us, na terra, e nos infernos. E toda a l\u00edngua proclame que Jesus Cristo \u00e9 o Senhor, para gl\u00f3ria de Deus Pai\u201d (Fil. 2,10-11). Esta Senhoria de Cristo \u00e9 a verdadeira afirma\u00e7\u00e3o da Sua realeza; a gl\u00f3ria do Messias, Filho do Homem, \u00e9 o triunfo da ressurrei\u00e7\u00e3o, recompensa do Pai \u00e0 fidelidade do Servo. Na Sua \u00faltima vinda inaugurar\u00e1 o Reino definitivo, aparecendo sobre as nuvens do C\u00e9u, como um Filho do Homem glorioso.  2. A actualidade da realeza de Cristo consiste na plenitude da sua ressurrei\u00e7\u00e3o gloriosa. Verdadeiramente a sua realeza n\u00e3o se manifesta segundo os crit\u00e9rios do mundo. S\u00f3 \u00e9 afirmada na intimidade dos cora\u00e7\u00f5es que O adoram e vivem d\u2019Ele, pelo dom do Esp\u00edrito. A santidade \u00e9 a mais aut\u00eantica afirma\u00e7\u00e3o da realeza de Cristo. Este \u00e9, para a Igreja, o maior desafio para a sua maneira de estar no mundo. Esta realeza de Cristo exprime-se e afirma-se na Igreja, na sua Palavra, no testemunho do amor, no an\u00fancio do Reinado definitivo de Cristo. Se ela cair na tenta\u00e7\u00e3o de transformar a sua influ\u00eancia num poder deste mundo, imita mais os fariseus do que a obedi\u00eancia humilde do Servo. Mas se continua a ser verdade que o Reino de Cristo n\u00e3o \u00e9 deste mundo, isto \u00e9, n\u00e3o se identifica com os crit\u00e9rios do mundo, pol\u00edticos, econ\u00f3micos, sociais, ele exprime-se j\u00e1 neste mundo, no concreto de cada sociedade, em cada tempo. Abre aos que procuram construir um mundo mais justo, mais pac\u00edfico, mais digno do homem, crit\u00e9rios profundos de verdade e de exig\u00eancia. Os crit\u00e9rios do Reino de Cristo denunciam todas as mentiras, todos os ego\u00edsmos, todas as formas de viol\u00eancia; convidam-nos a n\u00e3o pormos o cora\u00e7\u00e3o s\u00f3 nas coisas materiais e na sua frui\u00e7\u00e3o, mas a abri-lo \u00e0s realidades do alto, a alargar o horizonte da esperan\u00e7a. A Igreja n\u00e3o se identifica com a sociedade, mas pertence \u00e0 sociedade, introduzindo nela o desafio da verdade, da generosidade, da comunh\u00e3o fraterna, da refer\u00eancia de todas as coisas a Deus, nosso Criador e Senhor. A Igreja, em nome de Cristo, \u00e9 sempre proposta e den\u00fancia. Ela \u00e9 aten\u00e7\u00e3o criteriosa para discernir as sementes do Reino, isto \u00e9, dinamismos de verdade e de justi\u00e7a que existem na sociedade e que precisam de ser cultivados e protegidos para se tornarem em valores din\u00e2micos, sinais de esperan\u00e7a no mundo em que vivemos.  3. Todas as lutas justas do homem por um mundo melhor, s\u00e3o um direito do homem, protagonista da sua hist\u00f3ria, constituem a sua dignidade, mas precisam de contar com a ajuda do alto, com esse outro Senhor e Rei em quem acreditamos e que deseja, ainda mais do que n\u00f3s, o desenvolvimento qualitativo da humanidade. A nossa cidade \u00e9, h\u00e1 cinquenta anos, abra\u00e7ada pela imagem de Cristo-Rei que elevado sobre ela, a aben\u00e7oa. H\u00e1 50 anos, elevou-se esse monumento em ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as por uma gra\u00e7a pedida: o poupar Portugal aos horrores da guerra. Cinquenta anos depois Ele continua l\u00e1, bem vis\u00edvel, a abra\u00e7ar a cidade, sinal de esperan\u00e7a para todos os que sabem que construir uma cidade digna do homem \u00e9 fruto do esfor\u00e7o humano e da protec\u00e7\u00e3o divina. Cinquenta anos depois, na celebra\u00e7\u00e3o deste Jubileu, todos somos convidados a responder a uma pergunta: que significa hoje para a cidade de Lisboa e para toda a sociedade saber que Cristo a aben\u00e7oa, que todos, crentes e descrentes, s\u00e3o benefici\u00e1rios desse amor sol\u00edcito de Cristo, nosso Senhor e Rei. N\u00e3o separemos a f\u00e9 da vida, ainda que esta n\u00e3o siga, necessariamente, os crit\u00e9rios da f\u00e9. Esta efem\u00e9ride por\u00e1 a todos n\u00f3s a quest\u00e3o da actualidade da realeza de Cristo.  <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA actualidade da realeza de Cristo\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[199,246,275],"class_list":["post-38063","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-espiritualidade","tag-liturgia","tag-pascoa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38063","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38063"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38063\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38063"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38063"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38063"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}