{"id":3804,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-vida-humana-nascente\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-vida-humana-nascente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-vida-humana-nascente\/","title":{"rendered":"A vida humana nascente"},"content":{"rendered":"<p>Alexandre Laureano Santos, M\u00e9dico <!--more--> Todas considera\u00e7\u00f5es sobre o in\u00edcio da vida humana, qualquer que seja a via da abordagem, teol\u00f3gica, antropol\u00f3gica, filos\u00f3fica ou jur\u00eddica, n\u00e3o podem eximir-se a uma reflex\u00e3o biol\u00f3gica. Existem muitas raz\u00f5es para um debate generalizado sobre o in\u00edcio da vida. H\u00e1 actualmente muitas dezenas de milhares de embri\u00f5es humanos que se encontram conservados artificialmente no frio, excedent\u00e1rios das interven\u00e7\u00f5es de procria\u00e7\u00e3o assistida; o seu destino ser\u00e1 necessariamente a destrui\u00e7\u00e3o, visto que para eles n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel encontrar acolhimento no seu natural meio de desenvolvimento &#8211; o \u00fatero preparado para a maternidade. O tema das formas iniciais da vida humana adquiriu um novo relevo ap\u00f3s os debates sobre a utiliza\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas primordiais na investiga\u00e7\u00e3o b\u00e1sica ou perseguindo objectivos terap\u00eauticos. As quest\u00f5es ligadas \u00e0 legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, transversalmente presentes nas sociedades contempor\u00e2neas, estando embora mais relacionadas com est\u00e1dios posteriores do desenvolvimento, referem-se ainda \u00e0s etapas iniciais da vida humana e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es do seu acolhimento. H\u00e1 uma quest\u00e3o pr\u00e9via neste debate: \u00e9 necess\u00e1rio que a interpreta\u00e7\u00e3o dos dados recolhidos das ci\u00eancias experimentais se mantenha fiel a uma l\u00f3gica cient\u00edfica e as conclus\u00f5es n\u00e3o a ultrapassem no sentido de se atribuir um significado de valor aos elementos demonstr\u00e1veis da observa\u00e7\u00e3o; \u00e9 necess\u00e1rio, ainda, que os intervenientes das ci\u00eancias humanas tenham uma clara compreens\u00e3o dos dados da ci\u00eancia e os respeitem no sentido de fundamentar solidamente as suas afirma\u00e7\u00f5es. Perante a exist\u00eancia de dom\u00ednios incertos do conhecimento n\u00e3o podem fazer-se afirma\u00e7\u00f5es que modifiquem a clareza do di\u00e1logo e contribuam para o desqualificar. O primeiro facto biologicamente identific\u00e1vel na forma\u00e7\u00e3o de um ser humano \u00e9 a fus\u00e3o de duas c\u00e9lulas altamente especializadas provenientes de cada um dos progenitores contendo metade dos cromossomas de um indiv\u00edduo adulto. Estas c\u00e9lulas s\u00e3o designadas por g\u00e2metas: o \u00f3vulo e o espermatoz\u00f3ide. Fen\u00f3menos semelhantes est\u00e3o na origem de todos os mam\u00edferos e de outros seres vivos pertencentes a muitas outras esp\u00e9cies. Quando aquelas duas c\u00e9lulas se aproximam, envolvidas por um ambiente biol\u00f3gico caracter\u00edstico de cada esp\u00e9cie, ap\u00f3s uma fase de reconhecimento segue-se a penetra\u00e7\u00e3o do material gen\u00e9tico do espermatoz\u00f3ide no \u00f3vulo e a forma\u00e7\u00e3o imediata de uma barreira na membrana celular que impede a penetra\u00e7\u00e3o de novos espermatoz\u00f3ides. Neste momento inicia-se uma nova cadeia de actividades sucessivas e encadeadas a partir dos materiais provenientes dos dois g\u00e2metas que v\u00e3o actuar como se fossem dois sistemas complementares, com actividades coordenadas e interdependentes. O que teve lugar foi a constitui\u00e7\u00e3o de uma nova entidade que tem designa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica de zigoto ou embri\u00e3o unicelular. O zigoto \u00e9, na realidade, uma c\u00e9lula semelhante a qualquer outra c\u00e9lula de um ser vivo adulto contendo um n\u00famero duplo de cromos-somas relativamente a cada um dos g\u00e2metas. O zigoto designa-se, por isso mesmo, como uma c\u00e9lula dipl\u00f3ide. O que vai seguir-se \u00e9 um per\u00edodo de redup-lica\u00e7\u00e3o sucessiva do n\u00famero de c\u00e9lulas com genoma id\u00eantico ao da c\u00e9lula inicial; estas ir\u00e3o distribuir-se radialmente e diferenciar-se no novo organismo pluricelular.  Nas 15 a 20 horas seguintes \u00e0 fus\u00e3o dos g\u00e2metas o zigoto humano vai comportar-se como uma c\u00e9lula orientada pela informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica de que est\u00e1 dotada no sentido de uma evolu\u00e7\u00e3o bem definida e precisa. Nos genes dos seus cromos-somas est\u00e1 inscrito um plano-programa que distingue cada zigoto de todos as outras c\u00e9lulas (incluindo as c\u00e9lulas dos seus progenitores). Neles est\u00e1 inclu\u00edda a informa\u00e7\u00e3o constitutiva de um ser com uma identidade \u00fanica, existente a partir da fus\u00e3o dos dois g\u00e2metas, que ir\u00e1 desenvolver-se se as condi\u00e7\u00f5es ambientais forem adequadas &#8211; isto \u00e9, se se satisfizerem os pressupostos do metabolismo respirat\u00f3rio, das condi\u00e7\u00f5es de nutri\u00e7\u00e3o e de temperatura de que o ser vivo em absoluto necessita para que se exer\u00e7am as suas fun\u00e7\u00f5es vitais. Se assim acontecer o novo ser prosseguir\u00e1 o seu destino e ir\u00e1 constituir-se num corpo com as caracter\u00edsticas som\u00e1ticas de uma determinada figura humana no qual todas as c\u00e9lulas ter\u00e3o um padr\u00e3o cromoss\u00f3mico igual ao da c\u00e9lula original.  Vai prosseguir o aumento exponencial do n\u00famero de c\u00e9lulas \u2013 designadas por blast\u00f3meros &#8211; atrav\u00e9s de uma sequ\u00eancia de divis\u00f5es com ciclos de 12 a 15 horas, constituindo um processo complexo que se realiza sob o controlo do genoma. O desenvolvimento vai condicionar um contacto rec\u00edproco entre as c\u00e9lulas atrav\u00e9s da exist\u00eancia de pontes citoplasm\u00e1ticas e de microvilosidades. Tal contacto \u00e9 estreit\u00edssimo no est\u00e1dio de 8-32 c\u00e9lulas &#8211; designado por m\u00f3rula &#8211; no qual, devido \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de conex\u00f5es intercelulares complexas, se tornam poss\u00edveis as comunica\u00e7\u00f5es intercelulares cuja interrup\u00e7\u00e3o provoca altera\u00e7\u00f5es graves no desenvolvimento do embri\u00e3o. Rapidamente ir\u00e1 seguir-se a organiza\u00e7\u00e3o e a diferencia\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s das quais as c\u00e9lulas iniciais indiferenciadas se transformar\u00e3o, por divis\u00f5es coordenadas e sucessivas, nas estruturas primordiais dos \u00f3rg\u00e3os e dos sistemas constitutivos de um corpo humano. Por volta da 5\u00aa semana da gesta\u00e7\u00e3o, quando as dimens\u00f5es de um embri\u00e3o humano s\u00e3o ainda inferiores a um cent\u00edmetro, j\u00e1 est\u00e3o presentes as primeiras estruturas cerebrais, os esbo\u00e7os bem definidos do cora\u00e7\u00e3o, do aparelho respirat\u00f3rio, do aparelho digestivo e da \u00e1rea gen\u00edto-urin\u00e1ria onde j\u00e1 se iniciou o processo de forma\u00e7\u00e3o do aparelho reprodu-tor; at\u00e9 \u00e0 6\u00aa semana s\u00e3o identific\u00e1veis as extremidades dos membros e est\u00e1 avan\u00e7ada a forma\u00e7\u00e3o do sistema nervoso central; at\u00e9 \u00e0 7\u00aa semana a forma do corpo est\u00e1 completa e \u00e9 inconfund\u00edvel; at\u00e9 \u00e0 8\u00aa semana o corpo est\u00e1 totalmente definido, com os seus \u00f3rg\u00e3os e sistemas j\u00e1 constitu\u00eddos. Os movimentos espont\u00e2neos (saltos, flex\u00f5es, movimentos do t\u00f3rax, da cabe\u00e7a, das m\u00e3os e dos dedos) podem ser avaliados entre a 7\u00aa e a 15\u00aa semanas. A reflex\u00e3o sobre todos os dados at\u00e9 hoje demonstrados pelas ci\u00eancias experimentais n\u00e3o pode deixar de conduzir \u00e0 conclus\u00e3o de que a fus\u00e3o dos dois g\u00e2metas inicia o ciclo vital de um novo ser humano. O seu corpo ter\u00e1 um desenvolvimento aut\u00f3nomo, cont\u00ednuo e progressivo a partir das fases mais primordiais seguindo um programa que est\u00e1 inscrito nos seus genes. A realiza\u00e7\u00e3o desse programa est\u00e1 sujeita \u00e0s condi\u00e7\u00f5es que s\u00e3o caracter\u00edsticas de cada ser vivo &#8211; depend\u00eancia estrita das condi\u00e7\u00f5es do ambiente em que vive, da adequada nutri\u00e7\u00e3o, da sujei\u00e7\u00e3o aos factores de doen\u00e7a e da exposi\u00e7\u00e3o \u00e0s agress\u00f5es. E est\u00e1 sujeito \u00e0 morte, muito comum nas fases iniciais em todos os seres vivos. O embri\u00e3o humano, logo desde a fus\u00e3o dos g\u00e2metas, n\u00e3o \u00e9 um ser humano potencial. \u00c9 um ser humano real que iniciou a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia.  Alexandre Laureano Santos, M\u00e9dico <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alexandre Laureano Santos, M\u00e9dico<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[93],"class_list":["post-3804","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-aborto"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3804","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3804"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3804\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3804"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3804"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3804"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}